​O anúncio do Rei James ainda reverberava pelas paredes do palácio quando as pesadas portas de carvalho se abriram novamente. Um homem de meia-idade, vestindo veludo verde-escuro e ostentando um brasão que Francesca reconheceu instantaneamente, entrou com passos arrogantes. Era Lorde Desmond, o homem que havia destruído o futuro de sua família.

​Ao lado dele, escoltados pela guarda real sob ordens diretas de James, estavam o pai e a mãe de Francesca. O Sr. Puerto — agora reconhecido como o Conde de Kildare — mantinha a cabeça erguida, as mãos calejadas pelo trabalho na carpintaria agora repousando sobre as abas de uma casaca nobre. A mãe de Francesca exalava a elegância silenciosa de quem nunca deixou de ser rainha de seu próprio lar.

​— Majestade! — Desmond exclamou, sua voz carregada de uma falsa indignação. — Ouvi rumores de um decreto que desafia a lei da posse! Este homem à minha frente não passa de um artesão de Suffolk, e sua esposa, uma simples costureira. Reivindicar o Condado de Kildare é uma ofensa a Roma e à própria nobreza!

​James permaneceu sentado, sua expressão era de um gelo absoluto que faria até Katherine se orgulhar. Ele apenas sinalizou para Alexander, que estava posicionado estrategicamente ao lado de Francesca.

​— O artesão que você despreza — James começou, sua voz cortante como uma lâmina — é o homem que manteve a honra da família enquanto você construía um castelo de mentiras. Meus informantes na Irlanda já encontraram o que você esqueceu de queimar: os registros originais do clero, assinados pelo bispo antes de sua "morte súbita".

​Desmond empalideceu, mas tentou um último ataque, apontando para Francesca.

— E essa menina? Uma dama de companhia que corre atrás de crianças em lagos? É essa a Condessa que esperam que a Irlanda aceite?

​O pai de Francesca deu um passo à frente. A força de seus anos de trabalho manual transparecia em sua presença física.

— Minha filha aprendeu a servir antes de mandar, Desmond. Ela aprendeu o valor de um dia de trabalho. Algo que você, em sua ganância preguiçosa, nunca entenderá. Você não roubou apenas um título; você tentou roubar nossa alma. Mas veja... aqui estamos.

​Alexander, vendo o tremor nas mãos de Francesca, deu um passo à frente e colocou-se ao lado dela, encarando Desmond com o olhar feroz do Leão.

— Se você dirigir a palavra à Lady Francesca mais uma vez — disse Alex, a voz baixa e perigosa —, eu pessoalmente farei com que sua viagem de volta à Irlanda seja em uma cela de navio sem janelas.

​James levantou-se, encerrando o debate.

— Desmond, você está despojado de todas as terras e bens. Eles serão devolvidos à família Kildare imediatamente. Guardas, levem-no. Ele aguardará julgamento por alta traição e fraude contra a Coroa.

​Enquanto Desmond era arrastado, soltando pragas que ninguém ouvia, o silêncio no salão foi substituído por uma onda de respeito. O Conde e a Condessa de Kildare caminharam até a filha. O abraço familiar, no centro do salão real, foi o verdadeiro selo daquela vitória.

​À noite, nos jardins iluminados pela lua, Alexander encontrou Francesca sozinha, observando as estrelas.

— Uma Condessa com um castelo na Irlanda... — ele disse, encostando-se na murada. — Suponho que Suffolk e os "cavalariços" da Inglaterra fiquem pequenos demais para você agora.

​Francesca virou-se para ele, os olhos brilhando.

— Títulos não mudam quem somos, Alexander. Meus pais continuam sendo as pessoas que me ensinaram a trabalhar. E eu... eu continuo sendo a pessoa que prefere a companhia de quem tem lama nas botas e segredos nos olhos.

​Alexander sorriu, aproximando-se um pouco mais. O destino que ele tanto tentava evitar, o de fincar raízes, parecia cada vez menos uma prisão e mais uma aventura que ele estava ansioso para começar.