Alianças de sangue e ferro 2 O Preço da Liberdade
2 O Despertar da Realidade
O Grande Salão do Trono era o coração pulsante da autoridade britânica, um lugar onde o silêncio costumava ser sagrado. James estava sentado à mesa de carvalho maciço, com Eloise ao seu lado. Entre eles, o pequeno Carlo, de dez anos, observava com olhos atentos o pai explicar a complexidade de um selo real.
— Um tratado, Carlo, não é apenas papel — dizia James, com sua voz de comando. — É a sua honra em forma de tinta. Uma vez assinado, o destino de milhares de pessoas muda.
Ao lado da Rainha, em uma cesta de vime forrada com as sedas mais finas da França, a bebê de meses dormia tranquilamente, alheia às lições de estado. Alexander estava encostado em uma pilastra próxima, observando a cena enquanto girava lentamente uma taça de vinho tinto, sentindo-se um peixe fora d'água naquele ambiente de regras.
O momento de solenidade foi estraçalhado.
— Não! Banho não! — o grito de Melinda ecoou antes mesmo de sua figura pequena aparecer.
A menina de quatro anos atravessou as portas duplas como um raio, os cachos desordenados e os pés descalços batendo no mármore. Logo atrás, ofegante e com os cabelos escapando completamente do penteado formal, vinha Francesca.
— Princesa Melinda, por favor, volte aqui! — gritou Francesca.
No auge da perseguição, o sapato de Francesca prendeu-se em uma irregularidade do tapete real. Ela sentiu o corpo pender para frente, o chão subindo rápido demais para uma reação. Mas, antes do impacto, mãos fortes e seguras a envolveram pela cintura, estabilizando-a com uma facilidade impressionante.
— Cuidado, Lady — a voz rouca e divertida soou bem perto do seu ouvido. — O mármore deste palácio não é conhecido pela misericórdia.
Francesca se ajeitou, o coração disparado pela corrida e pelo susto. Quando olhou para cima para agradecer ao "cavalariço" dos jardins, suas palavras morreram na garganta. Ele não estava mais com as botas sujas de lama, mas usava uma túnica de seda negra e dourada que gritava nobreza. E o pior: ele tinha exatamente o mesmo rosto do Rei James, que agora a encarava com uma sobrancelha arqueada do topo do trono.
— Vo-você... — gaguejou ela, olhando de um para o outro, o choque empalidecendo seu rosto. — Gêmeos?
— Alexander, por favor, solte a dama antes que ela desmaie — pediu Eloise com um sorriso contido, enquanto Melinda se escondia atrás das pernas de James, rindo da situação.
Francesca deu um passo atrás, fazendo a reverência mais desajeitada da história da corte, o rosto queimando em um tom escarlate de vergonha.
— Majestades... mil perdões! Eu... a Princesa Melinda... ela se recusa terminantemente a entrar na banheira. Ela correu pelo corredor e eu não pude... eu juro que tentei ser discreta!
James suspirou, mas o brilho de severidade em seus olhos suavizou-se ao ver o estado desgrenhado da nova dama. Alexander, por sua vez, deu um gole generoso em seu vinho, o sorriso travesso voltando aos lábios enquanto não tirava os olhos de Francesca.
— Pelo que vejo — disse Alexander, inclinando a cabeça —, o "cavalariço" não é o único aqui que gosta de uma boa fuga, não é, Lady Francesca?
Eloise soltou uma risada suave, estendendo a mão para a jovem assustada.
— Não se preocupe, Francesca. Eu conheço bem o gênio da minha filha. Melinda tem o sangue do pai e do tio; ela não aceita ordens sem uma batalha. Sente-se, respire. Alexander, pare de atormentar a moça.
Francesca sentiu um nó na garganta. O homem com quem ela confessara querer fugir era ninguém menos que o Príncipe Alexander, o aventureiro desaparecido. E, pelo brilho nos olhos dele, o jogo estava apenas começando.
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