Alianças de Sangue e Ferro

3 O Despertar da Discórdia



​A primeira manhã após o banquete de núpcias amanheceu sob um manto de névoa densa que envolvia os jardins de Versalhes, como se a própria natureza conspirasse para ocultar as intrigas que começavam a borbulhar dentro das paredes de pedra. No interior do palácio, o silêncio era uma ilusão. Katherine Petrovic já estava de pé antes mesmo do sol, observando da sua varanda o movimento dos guardas ingleses que agora se misturavam aos franceses no pátio inferior. O contraste era gritante: o brilho das armaduras francesas contra o couro e o metal escovado dos homens de Ricardo.

​O café da manhã foi servido em uma sala privada, longe dos olhos curiosos da corte. Katherine e Ricardo sentaram-se às extremidades da mesa, um estudo em poder e contenção. Katherine pousou sua xícara de porcelana com uma precisão cirúrgica, fazendo o som ecoar na sala silenciosa enquanto seus olhos se fixavam em Alice, que acabara de entrar com os cabelos levemente desalinhados.

​— A pontualidade é a cortesia dos reis, Alice — começou Katherine, sua voz suave, mas carregada de uma autoridade que não admitia réplicas. — Na França, o sol não espera por ninguém, e eu tampouco. Sente-se.

​Alice puxou a cadeira com um ruído estridente, sentando-se de forma relaxada, o que fez os lábios de Katherine se contraírem levemente.

​— Meu pai me ensinou que o que importa é estar pronta para a batalha, não se o relógio bateu a hora certa — rebateu Alice, lançando um olhar desafiador para o Rei Ricardo.

​Ricardo limpou a boca com o guardanapo de linho e encarou a filha com severidade.

​— A batalha agora, Alice, é no salão, não no campo. Katherine é sua rainha e sua mentora. O que ela disser é lei. Você vai aprender a se portar como uma Tudor, ou eu mesmo garantirei que não saia desses aposentos até que saiba a diferença entre um garfo de peixe e uma adaga.

​Lucas, que observava a cena com um sorriso de canto, soltou um riso anasalado enquanto cortava sua fruta.

​— Se dependermos do talento dela para a delicadeza, acho que ficaremos trancados aqui por décadas — provocou Lucas, sem olhar para a princesa inglesa. — Ontem ela quase derrubou um duque apenas ao caminhar.

​Alice virou-se para ele, os olhos inflamados.

​— Pelo menos eu não passo mais tempo na frente do espelho do que treinando com uma espada, Lucas. Sua "perfeição" francesa parece mais uma máscara para esconder a fraqueza.

​— Silêncio! — a voz de Katherine cortou o ar como um chicote. — Lucas, não alimente as chamas. Alice, você começará suas lições de etiqueta imediatamente após esta refeição. Não permitirei que a futura aliança de nossos reinos seja motivo de piada nos corredores de Versalhes.

​Enquanto a tensão entre os mais novos explodia, Marcone e Sofie iniciaram uma conversa em voz baixa, ignorando o caos ao redor. Havia uma maturidade neles que faltava aos irmãos.

​— Minha irmã tem o espírito de um cavalo selvagem — comentou Marcone para Sofie, em tom confidente. — Ela não entende que a política exige que baixemos a cabeça hoje para cortarmos a do inimigo amanhã.

​Sofie assentiu, servindo-lhe um pouco de chá com elegância.

​— Ela aprenderá, Marcone. Minha mãe tem métodos... persuasivos. Mas o que me preocupa não é a etiqueta, e sim as fronteiras do norte. Ouvi dizer que houve movimentações estranhas perto do canal.

​Marcone inclinou-se para frente, impressionado com a percepção da jovem.

​— Você está bem informada, princesa. Meus batedores confirmaram. Talvez devêssemos analisar os mapas na biblioteca hoje à tarde. Se nossos pais estão ocupados domando nossos irmãos, nós podemos focar no que realmente mantém esses tronos de pé.

​— É um plano excelente — concordou Sofie, com um brilho de admiração nos olhos. — Uniremos a força inglesa com a estratégia francesa antes que o primeiro conselho de guerra seja convocado.

​O desjejum terminou sob um clima de gelo. Katherine levantou-se e fez um sinal para Alice segui-la.

​— Venha, menina. Vamos ver se sobrou algum vestígio de realeza sob essa camada de teimosia inglesa.

​Alice levantou-se, mas antes de sair, inclinou-se perto de Lucas e sussurrou:

​— Tente não tropeçar no seu próprio ego enquanto eu estiver fora, francês.

​Lucas travou o maxilar, vendo-as sair. Ele sabia que aquele era apenas o primeiro dia de uma guerra que não seria decidida por tratados, mas por quem resistiria mais tempo ao peso daquelas coroas.