Alianças de Sangue e Ferro
4 As Rachaduras na Armadura
O Salão dos Espelhos estava gélido naquela tarde, apesar do sol que tentava atravessar as imensas janelas de cristal. O som metálico dos passos de Katherine ecoava, ritmado e implacável, enquanto Alice tentava, pela décima vez, caminhar com uma pilha de livros sobre a cabeça e um leque aberto na mão direita.
— Os ombros, Alice! Você carrega a linhagem dos Tudor, não um saco de carvão — a voz de Katherine era fria, mas havia um cansaço nela que a rainha tentava esconder.
Alice bufou, e os livros despencaram no chão com um baque surdo. Ela jogou o leque sobre uma mesa lateral e encarou Katherine com os olhos marejados de frustração.
— Isso é ridículo! De que serve sorrir para pessoas que eu odeio ou equilibrar papel na cabeça enquanto o mundo lá fora exige força? Você quer me transformar em uma boneca de cera, mas eu sou de carne e osso!
Katherine aproximou-se lentamente. Seu rosto, geralmente uma máscara de porcelana inabalável, pareceu vacilar por um segundo. Ela se sentou em uma das poltronas de veludo, e Alice notou, pela primeira vez, as olheiras leves sob os olhos da rainha e o peso com que ela soltou os ombros quando achou que ninguém estava olhando. Katherine parecia subitamente... exausta. O silêncio que se seguiu não foi de autoridade, mas de uma tristeza profunda que preencheu o salão.
Alice, sentindo o impacto daquela vulnerabilidade inesperada, caminhou até ela. A raiva que sentia foi substituída por um nó na garganta.
— Majestade... Katherine — começou Alice, a voz falhando. — Peço desculpas. Eu não deveria ter gritado. É que... é difícil. É terrivelmente difícil ter alguém ocupando o lugar que era da minha mãe. Ver você sentada onde ela deveria estar, me dando as ordens que ela deveria me dar... dói como uma ferida que não fecha. Eu sinto que, se eu aprender a ser como você quer, eu estarei esquecendo quem ela era.
Katherine ergueu o olhar. Não havia julgamento ali, apenas uma empatia dolorosa. Ela estendeu a mão e, num gesto raro, tocou suavemente o rosto de Alice.
— Eu entendo mais do que você imagina, pequena loba — sussurrou Katherine. — Eu também não escolhi estar aqui hoje. Eu também tive uma mãe que me ensinou a amar a liberdade antes de a coroa me ensinar a amar o dever. Eu não quero ocupar o lugar dela, Alice. Ninguém poderia. Mas o mundo não terá piedade de uma princesa que não sabe se proteger com as palavras tanto quanto com a espada. Eu não sou sua inimiga, embora eu use a máscara de uma.
Alice sentou-se aos pés de Katherine, deixando as lágrimas caírem finalmente. Pela primeira vez, o abismo entre a França e a Inglaterra pareceu diminuir.
— Eu só sinto falta de ser apenas Alice. Sem contratos, sem tronos — desabafou a jovem.
— E eu sinto falta de ser apenas Katherine — confessou a rainha, com um sorriso triste.
Do lado de fora, escondido pelas pesadas cortinas de veludo da entrada lateral, o Rei Ricardo permanecia imóvel. Ele viera para intervir em mais uma briga, mas as palavras que ouviu o prenderam ao chão. Ele observou Katherine — a mulher que ele via apenas como um contrato político necessário para salvar seu reino — e sentiu um aperto desconhecido no peito ao vê-la confortar sua filha com tamanha humanidade.
Ricardo percebeu que Katherine não era apenas uma estrategista fria; ela era uma mulher que carregava o mundo nas costas e, ainda assim, tinha espaço para a dor alheia. Um calor estranho invadiu o coração do rei guerreiro. Ele não entrou no salão. Em vez disso, recuou silenciosamente, com um novo propósito gravado na mente.
"Ela é mais do que papel e tinta", pensou Ricardo enquanto caminhava pelo corredor. "Ela é a alma deste lugar. E, se eu tiver que lutar uma última batalha, que seja para fazer com que este contrato se transforme em algo que ela — e eu — possamos chamar de amor."
A partir daquele momento, o Rei da Inglaterra decidiu que não apenas observaria sua nova rainha; ele a conquistaria, tijolo por tijolo, derrubando as muralhas que ambos construíram para se proteger d
Fale com o autor