Alianças de Sangue e Ferro

13 Discussões. Confrontos e línguas afiadas


As cortinas de veludo foram abertas com um puxão vigoroso, inundando o quarto com a luz impiedosa da manhã francesa. Katherine entrou com passos firmes, seguida por uma pequena tropa de costureiras carregando rolos de seda branca, rendas de Chantilly e fitas métricas.

​— Acorde, Alice. O tempo de Londres acabou. Hoje começamos a moldar a Rainha que a França espera ver no altar — anunciou Katherine, retirando o lençol com a autoridade de quem não aceitava protestos.

​Alice sentou-se na cama, os cabelos loiros desalinhados e os olhos semicerrados de puro mal-humor.

— Ainda são seis da manhã, Katherine. Na Inglaterra, até os cavalos estão dormindo — resmungou a princesa, levantando-se contra a vontade enquanto as ajudantes da modista já começavam a cercá-la com alfinetes e tecidos frios.

​Katherine observou a cena por alguns minutos, dando instruções sobre o caimento do corpete, e então retirou-se para atender aos seus próprios deveres, deixando Alice sob os cuidados das costureiras. O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som das fitas métricas, até que uma das ajudantes mais jovens, uma moça de lábios pintados e olhar astuto, inclinou-se para a colega e cochichou, alto o suficiente para que Alice ouvisse:

​— Imagine só... a pobre princesa vai se casar com o "Leão das Tavernas". Ele é fogo puro, eu mesma já provei dele em uma noite em Marselha. Ele não vai aguentar uma semana com essa boneca de gelo inglesa.

​Alice parou de respirar por um segundo. Suas mãos fecharam-se em punhos ao lado do corpo, mas ela não se virou. O silêncio no quarto tornou-se pesado. Ela soltou um suspiro longo, olhando para o próprio reflexo no espelho de corpo inteiro.

​— Existe uma diferença fundamental entre uma mulher que busca migalhas e uma mulher que herda o banquete — começou Alice, sua voz baixa e gelada, fazendo as moças paralisarem. — Mulheres sem valor acreditam que ter o corpo de um príncipe por uma noite as torna especiais. Mulheres com honra sabem que o corpo é apenas carne, mas a coroa... a coroa é destino.

​Ela finalmente virou o rosto, fixando os olhos azuis na ajudante que falara. O olhar era tão afiado quanto uma adaga.

​— Você diz que o "provou"? — Alice deu um passo à frente, ignorando os alfinetes que picavam sua pele. — Pois saiba que você e todas as outras foram apenas o ensaio. Lucas gastou os últimos três anos praticando em instrumentos desafinados porque não tinha a solista à disposição. O show real, a verdadeira sinfonia, começa comigo. Você foi apenas uma distração barata para um homem que estava entediado. Agora, termine de medir minha cintura e desapareça da minha vista antes que eu decida que sua língua é longa demais para continuar na sua boca.

​A moça, pálida e com os olhos inundados de lágrimas de humilhação, largou a fita métrica e saiu correndo do quarto, soluçando.

​No batente da porta, Katherine, que havia voltado para buscar um anel esquecido, observava tudo com um brilho de aprovação nos olhos.

​— Devo admitir, Alice... você agiu com uma crueldade e uma elegância tipicamente francesas nesta parte — comentou a Rainha, cruzando os braços com um sorriso de canto.

​Alice ajeitou a postura, recuperando a calma real.

— Eu aprendi com a melhor, Katherine. Na França, não se ganha uma guerra apenas com espadas, mas destruindo o espírito de quem se atravessa no nosso caminho.

​Katherine assentiu, satisfeita.

— Prepare-se. Se você pretende enfrentar o "Leão", precisará de garA noite em Paris era um labirinto de sombras e vícios, e Alice, envolta em uma capa de lã escura que ocultava seu vestido de seda, movia-se como um fantasma pelas ruas de paralelepípedos. Ela observara Lucas sair sorrateiramente pelas portas dos fundos do palácio e, com a agilidade que aprendera nas caçadas inglesas, seguiu o rastro do perfume e da arrogância do noivo até uma taverna enfumaçada nos arredores do cais.

​O lugar cheirava a cerveja barata, suor e pecado. No centro do caos, sentado em uma mesa de carvalho manchada, estava Lucas. Ele ostentava um sorriso relaxado, com uma mulher de decote generoso sentada em seu colo, rindo de algo que ele sussurrava.

​Alice sentiu uma faísca de fúria, mas não deixou que ela subisse ao rosto. Em vez disso, ela caminhou até o centro do estabelecimento com uma calma letal. Com um movimento fluido, ela soltou o broche da capa, deixando o tecido pesado cair no chão sujo, revelando sua figura imponente. Antes que os homens ao redor pudessem reagir, ela arrancou uma caneca de metal das mãos de um marinheiro embriagado, virando um gole longo enquanto fixava os olhos em Lucas.

​O príncipe congelou. A caneca que ele levava à boca parou no meio do caminho, e o sorriso sumiu instantaneamente. A mulher em seu colo tornou-se invisível para ele no momento em que Alice deu um passo à frente, jogando os cabelos loiros para trás e começando a se mover ao ritmo da música estridente de um alaúde desafinado.

​Ela não dançou como uma princesa; dançou com a provocação das meretrizes que Lucas tanto frequentava, circulando a mesa dele com uma graça perigosa e um sorriso de puro escárnio. O silêncio começou a se espalhar pela taverna conforme os frequentadores percebiam que aquela mulher não pertencia àquele lodo, mas o dominava perfeitamente.

​Lucas finalmente recuperou a fala, empurrando a mulher de seu colo com uma rispidez que a fez quase cair. Ele se levantou, os olhos faiscando de uma mistura de choque, desejo e um pânico raramente visto.

​— Alice? O que diabos você pensa que está fazendo aqui? Ficou louca? — a voz dele saiu como um trovão contido, enquanto ele tentava segurá-la pelo braço para interromper a dança.

​Alice esquivou-se dele com uma pirueta elegante, rindo suavemente, o brilho das velas refletido em seus olhos desafiadores.

​— Por que está tão estressado, Lucas? — perguntou ela, inclinando a cabeça de forma inocente, embora suas palavras fossem carregadas de veneno. — Eu apenas pensei que, se vamos passar o resto da vida juntos, eu deveria aprender a me comportar como as suas queridas "amiguinhas". Afinal, você parece tão satisfeito na companhia delas... achei que gostaria de ver um pouco desse talento no palácio também.

​Lucas deu um passo à frente, a mandíbula tão travada que seus músculos saltavam. O ambiente ao redor desapareceu; para ele, existia apenas aquela mulher que o afrontava em seu próprio território de libertinagem.

​— Saia daqui. Agora — rosnou ele, a voz baixa e perigosa. — Este não é lugar para uma futura Rainha da França.

​— Engraçado — Alice retrucou, aproximando-se dele até que seus peitos quase se tocassem, o cheiro de álcool e rebeldia emanando dela. — Eu achei que este era exatamente o lugar onde o futuro Rei da França buscava sua inspiração. Se elas são boas o suficiente para o seu colo, Lucas, por que eu não seria boa o suficiente para este salão?

​O confronto estava armado. Lucas percebeu, naquele momento, que não estava lidando com uma noiva ciumenta, mas com uma força da natureza que estava disposta a queimar todo o prestígio dele apenas para provar que ele não a possuía.ras bem afiadas.