Notas iniciais
Minha primeira postagem no Nyah! Para começar bem, uma história original em um site para fanfics... É isso aí...

Valéria Rogéria, vulgo Lélis, encostou-se na cabeceira da cama e puxou o edredom salpicado de rosas para si. A cabeça latejava, doíam-lhe os olhos, eles pareciam ter vontade própria e insistiam em permanecer abertos. Não importavam as horas que o relógio digital no criado-mudo marcava, eles simplesmente não queriam ser cobertos pelas pálpebras e sinalizar para o cérebro que Lélis desejava dormir. “Não é justo, por que as férias têm que acabar tão rápido? Eu não consigo dormir, simplesmente não consigo” – pensou a garota, maldizendo intimamente todos os filmes de terror que havia assistido àquela tarde. Como saberia que depois não conseguiria dormir? “Se” – decidiu ela – “eu não adormecer dentro de cinco minutos, não importa a aula de amanhã, não importa que seja o reinício e eu tenha que estar bem descansada para a minha primeira classe matutina, vou dar uma escapulida, espairecer um pouco. Já sei até onde posso ir.” – concluiu a menina, com animação renovada.

O espaçoso sobrado era uma herança de família, ou pelo menos essa era a justificativa para o cheiro enjoativo de naftalina misturada com mofo, a pintura amarela ressecada e descascada e as tábuas podres e insistentes em ranger. Aliando esse último fator à disposição dos cômodos, que alocara o quarto dos pais de Lélis em frente ao da menina, era quase impossível escapar furtivamente sem que alguma tábua rangesse ou que Solange Anges, sua mãe, acordasse de seu sono quase sempre leve e infrutífero.

Na ponta dos pés e atravessando o estreito corredor de pintura azul e retratos de família, Lélis pensava consigo mesma que sim, era para ela não estar na cama e não estar dormindo, pois miraculosamente nenhuma tábua rangera e Solange não acordara sobressaltada. As únicas testemunhas eram os retratos nas paredes, todos de entes falecidos, que pareciam repreendê-la com o olhar vazio, avisar-lhe que se ela continuasse assim, um dia estaria também entre eles, um retrato monocromático, sem vida, sem memória.

Ao abrir a porta, que também não havia rangido como de costume, e aspirar o orvalho da noite, porém, Lélis esqueceu-se de tudo, das repreensões, dos retratos. Aquele era o seu lugar, seu habitat natural. O jardim, com sua mata espessa e suas flores de vários tipos, era o único local da casa de que Lélis realmente gostava; pois se até o seu quarto exalava mofo, ali o único cheiro era o das flores, e se havia rostos, olhos vigiando-a em qualquer lugar que fosse, no jardim as únicas testemunhas de sua escapulida eram a Lua e as estrelas.

Caminhando descalça, os pés acariciados pela grama fofa, Lélis percorreu o entorno do jardim, observando com carinho cada flor, cada árvore, amigos seus de tanto tempo. Eles sempre estariam lá para confortá-la, dar-lhe novas forças, fosse para uma prova complicada, fosse para esquecer uma desavença qualquer.

Naquela noite, percorrendo o caminho até o grande portão de ferro, ela receberia novo ânimo para enfrentar o primeiro dia de aula, e ao acariciar as espaçadas barras de metal e mirar Zinha, a minúscula vila onde vivia, Lélis já se sentiu melhor. O jardim sempre estaria lá para acolhê-la, não importava o quão tediosa fosse a vila Zinha, o quão insuportável fosse a sensação de que todos os moradores sabiam da vida de todos e que nada de novo aconteceria, ele nunca a deixaria. Com esse pensamento reconfortante e um cansaço recém-adquirido Lélis virou-se para retornar ao sobrado, tedioso, velho, mas sua casa.

Súbito, deteve-se. Ao caminhar rente a um pé de hortênsias, sentiu que seu pé direito chutara algo duro, liso e frio. Movida pela curiosidade, abaixou-se a fim de permitir que seus dedos vasculhassem a textura macia e molhada das hortênsias e encontrassem o objeto duro que destoava do ambiente. A Lua, talvez por infortúnio, talvez por coincidência, naquele momento encontrava-se encoberta por fofa nuvem, que além de impedir Lélis de visualizar com clareza o objeto seguro por sua mão entre as flores, também trazia as primeiras gotículas de chuva, prelúdio para uma usual tempestade de verão, breve, porém intensa.

Correndo, procurando escapar da água que vinha com cada vez mais intensidade e frequência, a menina sentia os pés afundarem-se na grama molhada, sujarem-se com folhas secas, mas também sentia o abraço de seus dedos em torno do objeto desconhecido. “Não sei por que não deixei para amanhã” – pensava ela, um pouco irritada. “Agora ficarei molhada, suja e sem sono, cadê o sono depois dessa surpresa? Mas tudo bem , sou curiosa, sempre fui, não é à toa que o meu outro apelido é ‘Sherloca’.”

Nua, debaixo do edredom salpicado, após ter depositado cuidadosamente o pijama molhado na cadeira, acompanhante de sua escrivaninha, e limpado os pés sujos, Lélis balançava com força a cabeça para frente, a fim de reorganizar os vários pensamentos que pareciam explodir seu cérebro. O retorno havia sido eficaz, todas as tábuas continuaram suas cúmplices e não rangeram aos seus dedos molhados e os pais continuavam adormecidos. “Será que haviam morrido? Não, Lélis, foco, você agora tem que descobrir o que é esse tal objeto misterioso que você ainda está agarrando, é só acender a luz!” – raciocinou ela.

A menina ainda se perguntará como conseguira tatear o seu quarto, na mais negra escuridão, despir-se das roupas encharcadas e encontrar os contornos da sua cama. “Fora algo quase instintivo” – ela diria. Só agora, abrigada entre as rosas, Lélis deu-se conta de que estava no escuro. “Talvez eu tenha poderes” – refletiu. “Quem sabe não sou um daqueles X-Mangas ou algo do gênero? Talvez eu tenha uma espécie de visão extrassensorial, eu... Eu tenho que acender a luz!” O retorno à sua realidade fê-la procurar ansiosamente o interruptor e calcá-lo com o dedo.

Os olhos habituam-se com o ambiente, eles não reagem bem a mudanças súbitas. As pupilas de Lélis estavam acostumadas ao escuro, à cor preta, e aquela súbita adição de novas cores e imagens, em menos de um segundo, era uma agressão. Não havia defesa contra a luz, exceto adaptar-se, e por alguns segundos Lélis permaneceu atordoada. Tentava focar o objeto abraçado nas mãos mas só via pontos multicoloridos e sentia dor, seus olhos doíam, imploravam para serem novamente cobertos pelas pálpebras. A garota piscou com força, sentiu que a dor amainara e os pontos sumiram e focalizou finalmente o tão intrigante objeto.

O gesto involuntário quase a delatou, mas para sua sorte o objeto pousou sobre o edredom suave e silencioso e lá permaneceu, afundado em algodão e rosas. Lélis havia instintivamente se jogado para trás, como que para se proteger de um ataque. Naquela posição defensiva se conservou por alguns instantes, tentando organizar novo turbilhão de pensamentos, convencendo-se de que era uma ilusão, um engano. Abafou um grito. “Não, não é um engano, não é!” – gemeu mentalmente. Jazendo na cama, limpo, branco, brilhante, estava um fêmur humano.

Notas finais
E aí? O que acharam do capítulo? Não deixem de comentar, por favor, críticas construtivas são muito bem vindas!