Alguma Coisa No Meu Jardim
2 A grande detetive mirim
- É de verdade, mesmo! – exclamou Vitória Notória, encolhida entre as hortênsias, cúmplice do inocente crime da amiga, sentada ao seu lado, amassando alguns jasmins e tingindo a saia escolar de marrom e verde.
- Nós não devíamos estar fazendo isso, é crime!
- Crime de quê, Tóti?
- Eu vi na televisão que não podemos esconder restos humanos das autoridades, e se for o osso de alguém assassinado?
- Não, não pode ser – respondeu Lélis, resoluta. Ela saberia se tivesse havido um crime! O quepe azul brincava em sua mente, a figura de seu pai, seu pai de quepe, seu pai contando-lhe dos pormenores ocorridos na delegacia, seu pai informando-lhe diariamente na mesa de jantar.
Tóti passeou os dedos por sobre a superfície lisa do osso, fitou-o com os olhos apertados, como que desejando que ele explicasse sua origem, que ele mesmo se justificasse e dissesse “não, eu não sou o osso de um pobre assassinado”. Depositou-o cuidadosamente na terra fofa, ainda ressabiada, pois mesmo que não tivesse havido o assassinato, ainda havia o crime.
- Oh, Lélis, você não vê que estamos agindo contra a lei, logo você, filha de policial...
- Tóti, nós não matamos ninguém, é só um osso que eu lhe mostrei – sua voz demasiado irritada para uma pessoa completamente inocente.
- E agora, o que nós fazemos, Lélis? – sua amiga quebrava o prolongado silêncio.
Lélis não respondeu, a mente fervilhava de possibilidades abertas por aquela descoberta singular, ela poderia transitar livremente por aquele pomar de opções e escolher a que melhor lhe adequasse.
- Nós vamos entregar o osso, não vamos? — a voz apreensiva de Tóti trouxe-lhe de volta à realidade, Lélis ainda não a ouvia.
— Nós vamos entregá-lo, sim, Tóti, mas ao dono, puxa! Não acredito que estou fazendo isso – pensou a menina ao descrever seu plano à amiga.
- Loucura, loucura, onde já se viu, isso aqui não é história de detetive!
- É sim, Tóti, e nós a estamos escrevendo! – era maravilhosa a perspectiva de solucionar um mistério, mas principalmente, de tornar-se famosa. Em sua utopia Lélis via-se desvendando um intrincado enigma e sendo condecorada pelo prefeito de Zinha com a mais alta ordem “detetívica” e com um milhão de reais. A quantia lhe abriria as portas para o mundo que tanto almejava, mas permanecia inalcançável, por trás de sólida barreira de dívidas e orçamentos apertados. Com aquele dinheiro seria a dona do mundo, a grande detetive mirim!
Dez anos ainda são terreno fértil para sonhos e delírios, e ao que Tóti protestava, Lélis aproximou-se do portão gradeado. Zinha projetava-se como uma sombra em sua vida, a pequena estrada de terra sacolejante dando para o centro da vila, a igreja, a escola e as casas de comércio em perfeita harmonia com a monótona paisagem. Um carro cruzou a estrada, levantando poeira. “Ele vai para a estrada das montanhas, ah, um dia descobrirei o que existe atrás delas” – pensou, sonhadora. Em sua cômoda descansavam livros que teriam facilmente respondido às suas indagações, mas aquilo era simbólico. As montanhas, barreira entre o mundo externo e o interno, deveriam ser transpostas se ela desejasse ver a realidade. Acompanhava o carro, ele desaparecia entre as curvas sinuosas do início da rodovia montanhosa, apressado, como se também estivesse fugindo da paisagem tediosa. Lélis suspirou. “Eu sei como você se sente.”
* * *
O papel disposto sobre a mesa apresentava uma série de diminutos quadrados abraçados por um círculo e interligados em um maior, no centro. A um leigo seria apenas mais um desenho de arte moderna, dentre os tantos que figuram como obras de arte (duvidosa) em museus. A Lélis e Tóti, porém, era um mapa tático, as casas minimizadas em pequenos quadriláteros ligando-se ao centro da vila por linha-estrada, a vila em formato de circunferência.
A superfície da unha tamborilando pela celulose, Lélis indicou à amiga as casas de ambas, as lojas de comércio, os outros edifícios e, o “mais importantíssimo”, os suspeitos. Tóti protestou:
- Nossos colegas de aula, nossos amigos, são suspeitos? Você está maluca!
- Até que o contrário seja dito, todos são suspeitos – argumentou Lélis, mecanicamente citando um de seus bordões de detetive favoritos.
- Não, não, não, suas frases baratas agora não, nossos colegas ficam fora disso! – Lélis enervou-se, sua amiga não conseguia ver a importância daquelas medidas, o bem maior que pretendia atingir?
- Será que não vê, sua... – minutos de discussão forçaram vários quadrados a serem rabiscados com a vigésima quarta letra do alfabeto da Língua Portuguesa e obviamente reduziram bastante o número de suspeitos. Três quadriláteros ainda encontravam-se ilesos e, o indicador dançando por sobre o papel, seus respectivos donos foram explicados.
- A primeira casa – informou Lélis – é da dona Célia Amélia, aquela velha solteirona que vive sozinha com uns cem gatos.
- A dona Célia? Oh não, aquela mulher me dá arrepios, dizem que ela matou o próprio marido e guarda o esqueleto no armário!
- Bobagem, Tóti, são apenas histórias, não se impressione.
Nos diálogos alternando entre Lélis e Tóti foram apresentados Mário Armário, o velhinho cuja única companhia era feroz dobermann e do qual as más línguas afirmavam possuir uma coleção de ossos de procedência escusa e a Casa Mal-Assombrada. Não uma pessoa, propriamente dita, mas o local onde ocorrera o mais sangrento assassinato de Zinha! Doze pessoas-
- Tóti, Tóti, pare com isso, já lhe disse que são apenas histórias!
Lélis continha o medo da amiga novamente, ela própria já um pouco ressabiada dos entes que entrevistariam. Mais do que nunca, desejou ser capaz de ir embora pois a vila Zinha, além de tediosa, parecia abrigar um criminoso em cada esquina. Chegou a iniciar uma reflexão sobre seus colegas e amigos – “Será que eles também escondem segredos?” – mas expulsou o pensamento e concentrou-se em inocentar a Casa perante Tóti.
- Não é assombrada, inclusive já há alguém morando lá!
- Quem é? Quem é? – perguntou a amiga apreensiva. Lélis transpareceu um pouco de incerteza. Não, ela não sabia quem era, mas durante as férias vira um caminhão de mudanças estacionado lá, outros sacolejando na específica estrada de mesmo destino. À noite luzes e ruídos de móveis sendo arrastados e pregos martelados em tábuas eram perceptíveis.
- Portanto, vamos sim visitar aquela casa.
Isso foi o que Lélis dissera. O que ela não dissera foi que até seus pais a haviam avisado, dias atrás, sobre a natureza misteriosa da Casa. Não a moradia em si, inofensiva como o ser inanimado que era, mas o misterioso novo residente intrigante até mesmo aos adultos. Não havia se apresentado a ninguém, não havia saído, duvidava-se até mesmo que já havia se estabelecido efetivamente, e os donos anteriores tinham realmente feito certas... coisas... com transeuntes “convidados” a entrar. “Por isso, queremos que você fique longe daquela casa, entendido?” — determinaram Solange e Horácio Pancrácio, o pai policial, a Lélis certa vez.
Agia de modo errado, ela sabia, e além de sua vida também arriscava a integridade física de Tóti, mas agia por uma causa maior, e a seu ver isso justificava os meios.
- Mas visitaremos a Casa Assombrada amanhã, Tóti, hoje nós vamos...
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