Alguma Coisa No Meu Jardim
3 Dona Célia & Seu Mário
A campainha empoeirada e já rouca anunciava a chegada de um visitante a Dona Célia. Um gato preto enroscando-se em suas pernas, o tronco descansando em antiga cadeira de balanço, a senhora perguntou-se a quem devia a honra. “É um ladrão, só pode ser ladrão, o que eu faço?” Um ladrão não tocaria a campainha, mas a mente desgastada e confusa de Dona Célia não se lembrava mais dessa trivialidade. “Ah, se o meu Joaquim estivesse aqui, ele acabaria com os ladrões com gosto!” Acompanhando um gato malhado, a senhora rejubilou-se intimamente de seu falecido marido, da força, da vitalidade! Isso, porém, fora há décadas, e apesar de lembranças perderem-se e levarem consigo também um pouco de sanidade, Dona Célia ainda retinha consciência suficiente para dar-se conta do óbvio: a campainha tocava.
* * *
O dobermann latia furiosamente, procurava libertar-se da forte corrente que o prendia ao chão, com um salto pular o portão e inspecionar a invasora, seria amiga ou inimiga? Tóti encolheu-se. “De quem foi mesmo a ideia de vir... ahn... visitar o Seu Mário?” O cachorro causava-lhe tal ânsia de fuga que apenas a amizade a Lélis a mantinha no portão. “Ela investiga a Dona Célia Gatuna e eu o Seu Dobermann, devia mesmo ter dito que tinha medo de cachorro” – praguejou a menina, recriminando-se pelo seu orgulho. Tóti procurou desviar sua atenção do insistente latido, se pôs a contemplar a imponente casa de arquitetura antiga que se erguia à sua frente, destoante de seu frágil proprietário, apesar da pintura azul desbotada. “Agora entendo por que o doido tem um cachorrão, se não tem alarme, fica fácil de...”
- O que você está fazendo aqui?
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“Um ladrão, pelo menos, me faz companhia, tomara que seja bonzinho” – Dona Célia matutava ao que, os gatos afastando-se, percorria o quarto e a sala para atender ao chamado da porta. “Um ladrão” – pensou ela – “é exatamente o que eu estou precisando. Será que é tão bonito quanto o meu Joaquim?” A senilidade brincava com seus sentimentos, alternava emoções antagônicas entre si sem que ela percebesse. A usual melancolia cedera à animação do desconhecido. Dona Célia fantasiava com seu “ladrão-marido”, enxergava-o ao seu lado, lhe abrindo a porta para sair. “Pois ele é um cavalheiro, assim como meu Joaquim era, ele nunca...” A dura realidade abateu-se como uma onda de choque, a desmistificação de todos os seus sonhos, suas fantasias, ao que, com um giro da maçaneta, a porta se abriu.
- Olá, Dona Célia – disse Lélis.
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“Lembre-me de vomitar assim que sair daqui, deviam estabelecer uma cota de naftalina para os móveis” – pensou Tóti, contorcendo-se novamente, as paredes do estômago imploravam alimento, qualquer coisa menos intangível e mais palatável que a naftalina gasosa; além de agressora dos olhos e nariz, também responsável por sua recente alergia. “Com é que eu nunca havia reparado que era alérgica?” – pensou ela, os olhos forçando-se a levantar as pálpebras e os ouvidos procurando relevar os murmúrios pastosos, definição de “fala” para Mário Armário.
- Nunca ninguém tinha me feito uma visita “carinhosa” antes, me lembre de contribuir para as “esgoteiras mirins”! Tem certeza de que não estou incomodando? – Armário parecia constrangido, ao mesmo tempo implorando a atenção de Tóti, a “esgoteira mirim”. “Por favor, fique comigo, estou tão sozinho” – seu olhar parecia informar-lhe, mas também um pouco defensivo, receoso que aquelas migalhas de zelo se revelassem gotículas de segundas intenções, ou fossem levadas pelo vento, apesar de a naftalina latente em todo o recinto impedir qualquer renovação de ar.
- Não, senhor, não é problema nenhum, pode continuar falando – as cordas vocais de Tóti em conflito com o real pensamento de seu cérebro.
* * *
O chá de morango encharcava com cada vez mais velocidade o carpete avermelhado, pingando da agora escarlate toalha de mesa e percorrendo sinuoso caminho desde o bule de origem, deslizando pela xícara transbordante, dançando por entre os pratos e toalha da mesa tingida e vindo pousar suavemente no assoalho originalmente marrom-claro.
- Ih, acho que acabou o chá, que pena, vou buscar mais!
- Não precisa não, Dona Célia – a inutilidade de suas palavras apenas enervava Lélis ainda mais, a paciência quase esgotada.
“Eu devia sair daqui agora mesmo, a velha é completamente senil e ainda por cima surda!” Não, ainda tinha audição suficiente para atender a porta e conversar um pouco com a inesperada porém bem-vinda visita, mas no momento Dona Célia parecia alheia aos seus arredores, servindo o chá até que o bule se esvaziasse, de um modo tão mecânico que continuava na mesma posição mesmo após a xícara ter transbordado.
* * *
Apenas a ponta dos dedos encostando o chão, os passos pausados, a respiração pesada, Tóti fitou novamente Mário Armário adormecido no sofá antes de concretizar sua fuga “pelos fundos”, o grande dobermann impossibilitando uma tentativa pela porta principal. A boca aberta gotejando saliva, o corpo relaxado, o cérebro descansando de um relato ininterrupto, e para Tóti infrutífero, de sua vida nas últimas três horas. O estômago retorcido e já digerindo os próprios ácidos não era a única frustração de Tóti. “Três horas e ele não me disse nada! Nada de útil! A Lélis que me desculpe, mas ele não-” sua mão por segundos conseguiu abafar o grito.
* * *
- Então, Dona Célia... A senhora realmente gosta do seu marido... É uma pena que ele morreu... Que você não tenha nenhuma recordação dele... – duas xícaras transbordantes, uma toalha de mesa inutilizada e quase três horas alternadas de idolatria felina e conjugal haviam minado todas as precauções de Lélis e permitido que ela agora se arriscasse um pouco com perguntas sutis, ao seu modo de ver, mas que ainda podiam ser decifradas por uma pressuposta assassina. A menina, algumas gotas de suor descendo pelas têmporas, pela primeira vez naquela tediosa “entrevista” temeu por si.
O rosto ossudo subitamente aberto em um alegre sorriso cadavérico, os olhos brilhando com a perspectiva de interesse, Dona Célia levantou-se de um salto e sequer respondeu. Arrastada pelos dedos magros da senhora, desviando-se de gatos que pareciam se postar intencionalmente em seu caminho, Lélis fitava, angustiada, as portas e salas que se delineavam, imaginando aonde Dona Célia desejava levá-la com tanta urgência.
* * *
O corredor diferia enormemente da sala de estar. Espaçosa, as paredes azuis crivadas de estantes com livros, os sofás aconchegantes e a lareira aquecida a teriam tornado o ambiente ideal, não fosse a naftalina, onipresente, enjoativa e absolutamente desnecessária. Aparentava o cômodo a uma câmara de gás, apenas com uma estreita porta como salvação, ao fundo, isolada. O corredor iniciava-se dali, frio, completamente branco e desprovido de odor. A falta de janelas o tornava claustrofóbico, sensação reforçada pelos numerosos troféus que o adornavam e agora assustavam Tóti, incapaz de se mover, o cérebro fixo na lembrança da profissão citada por Mário como sua e da qual a menina não se incomodara em saber mais. Naquele momento já amadurecia um plano de fuga, ao que seu anfitrião permitia-se exibir os primeiros sinais de fadiga. Suor escorrendo, o corpo todo tremendo, Tóti recriminava-se cada vez mais pelo desinteresse, como é que ia saber que um entomologista estuda e – eca! – coleciona insetos?
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Finamente ornamentada, detalhes dourados sobre uma caixa vermelho-sangue, os olhos de Lélis fitavam-na desde o momento em que adentrara o misterioso “Santuário do meu Joaquim”.
- Camisas – salpicadas pelo mofo –, souvenires, potes de perfume, LPs e muitas outras coisas são o que me faz lembrar do meu Joaquim querido, gostaria de ver esse CD?
Permitindo-se a mais uma momentânea distração, Lélis ainda assim continuava a vigiar a misteriosa caixinha com o canto dos olhos. Entre objetos embolorados, quebrados e antigos, ela destacava-se como o único realmente majestoso, digno de estar em um santuário. Dela parecia emanar uma espécie de energia, uma aura protetora, repelente dos gatos, presença tão constante em todo o resto da casa.
Abraçada por um enorme armário de mogno, também ele majestoso, apesar de gasto, as portas abertas tornavam-na ainda mais convidativa. “Venha, entre, abra-me” – ela chamava Lélis, e a menina, aproveitando-se de que sua anfitriã no momento distraía-se com alguma bobagem qualquer, aproximou-se da caixa, seus dedos abraçando o ornamento dourado e dançando por entre as paredes vermelhas. Fitou-a por alguns segundos. “O que tem aqui dentro que é tão carismático, um anel de casamento, uma bailarina?” Nada parecia ser satisfatório para explicar o magnetismo daquele pequeno quadrado. “Já, já, eu vou saber, é só eu...”
- Ah, “Mélis”! Você achou a urna do meu Joaquim!
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Os cadáveres de aranhas, suas patas peludas, as mariposas gigantes, todos aqueles insetos nojentos... “Como se já não bastasse a minha alergia, eu tenho fobia de insetos e nem sabia” – as imagens ainda vívidas na mente de Tóti, talvez pela ainda aparente existência de vida, faziam-na encurtar cada vez mais os passos e aumentar sua velocidade. “Portas, portas, onde está a saída? Onde está a saída?” O corredor parecia não ter fim, a coleção revelava-se cada vez mais repulsiva, súbito, uma luz, a porta dos fundos aberta! Assim que se viu livre daquela casa grotesca, Tóti pulou com agilidade até então desconhecida o muro e disparou pela campina até a estrada. “Lélis, você me paga.”
* * *
As formalidades para a despedida começaram no momento em que seu cérebro acalmou-se e o fato de que as cinzas de seu Joaquim descansavam em um armário tornou-se aceitável. Os lábios contraindo-se em “obrigados” e “até logos”, Lélis amaldiçoou intimamente a ornamentada caixa vermelho-sangue, antigo objeto de fascínio, mas cujo conteúdo agora tornava a investigação infrutífera. “Um osso de gato não é tão grande assim” – concluiu Lélis voltando-se para a estrada de terra. Um torrão de húmus, grama e raízes desprendeu-se e foi deslocado alguns centímetros conforme o pé direito era sacudido no ar e deixava cair o resto de terra e grama, a perna estendida retornando à marcha normal. “A Dona Célia foi uma completa perda de tempo, espero que a Tóti tenha tido mais sucesso” – a silhueta magra e apressada da amiga delineando-se na estrada.
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