Alguma Coisa No Meu Jardim
4 A Casa Assombrada
Notas iniciais
E, para quem quer passar longe só de ler a sinopse... Por que não dão uma chance e experimentam ler algo diferente, mais leve e engraçado? Só porque esta história não tem romances, mortes ou amores proibidos não quer dizer que não seja boa. E comentem se forem ler, por favor.
O sino esfacelado na grama fora arrancado da porta por uma ventania anormal, e sem donos que velassem pelo estado de conservação, os cacos permaneceram lá, entre as finas e altas folhas, como um túmulo natural. Estações passaram, ao que a pintura das paredes descascava e cupins devoravam o telhado de madeira. A porta logo se juntou ao ex-companheiro, fustigada por outra noite de vendaval. A abertura, uma escuridão, ao mesmo tempo convidativa e repelente, da qual rangiam as tábuas do assoalho; e para a qual espiavam todos os que se atreviam a quebrar mais uma tábua do já desgastado cercado e transitar por entre a grama espessa e mal-cuidada da Casa Assombrada.
Há várias décadas, porém, os ventos tinham arrancado a porta, e tão familiar a abertura se tornara, que sua ausência foi o que Tóti percebeu inicialmente. Adornando a nova firme porta de carvalho também tilintava pelas mãos ansiosas de Lélis brilhante sino de ferro. O osso em uma mão, a outra tentando estabelecer contato com o novo dono, e aparentemente já residente da casa, a completa alienação às perceptíveis mudanças. “Nova porta, novo sino, pintura, janelas... O novo dono é bem caprichoso.” Obedecendo ao som da fechadura se abrindo, Tóti fez menção de menear a cabeça e firmar a vista no morador misterioso que estava a segundos de revelar-se.
A mão firme de Lélis puxando-a para o lado oposto ao da entrada, porém, borrou seu campo de visão por alguns segundos. Assim que o firmou novamente viu gradientes de verde e sentiu seu rosto enterrado na grama ainda não aparada. A garganta apertada pelo colarinho amarrotado de sua camiseta escolar, a cabeça girando, instintivamente voltou-se para Lélis.
- Sua maluca, o que é que você fez? – planejava os desaforos que seus lábios profeririam assim que os olhos encontrassem a amiga. A porta de serviços – “Tinha isso?” – aberta abrigava Lélis resoluta, observando-a com impaciência.
- E aí? Você entra ou não?
* * *
- Um, nove, um... Não, um, nove, nove... Que hora para esquecer o telefone da polícia!
* * *
A ponta dos pés empurrando os tênis para o reformado e não mais rangente assoalho, a respiração pesada e o olhar perpassando pela primeira vez o interior da ex-Casa Assombrada, Lélis abafou uma exclamação de espanto. Aquilo certamente compensava o arriscado plano de tocar o sino, atrair o provável morador para a entrada, esgueirar-se pela porta dos fundos e adentrar o mítico recinto. Compensava a tediosa área de serviço, banhada pela luz solar irradiante da porta aberta – “Para ventilar a casa” – Tóti dissera-lhe – e decididamente compensava os esforços feitos para passarem despercebidas pelo dono da casa, por sinal em outra sala.
Piscou os olhos incrédulos, inundados com o brilho da realização, rejubilou-se intimamente, um sorriso delineou-se em seu rosto. Ali estava seu sucesso, sua consagração como grande detetive mirim!
- Eu estava certa, sempre estive! Agora, Tóti, você só tem que fazer mais uma coisa...
* * *
- Alô? Sr. Horácio Pancrácio? Sim, sou eu... Escute, eu preciso que o senhor venha com mandado de prisão para cá... Onde?
* * *
A sala empoeirada destoava profundamente da figura solitária, porém realizada, de Lélis no centro. Caixotes e panos abraçavam os mais misteriosos objetos, menos aquele que, encarando Lélis, exposto no centro, fora a sua satisfação. Os dedos da menina, ágeis, não se detiveram ante os inanimados guardiões, revirando o papelão, afastando os tecidos, aos poucos se ia revelando a natureza do morador misterioso...
Cérebros, corações, rins embalsamados quase a fizeram largar os potes, enojada. Uma jiboia empalhada jazia para fora de um saco, ao que Lélis quase tropeçara de susto. Refeita, continuou a desmascarar, convencia-se cada vez mais de sua inteligência, de que realmente haviam encontrado o dono do osso, de que aquilo só poderia significar uma coisa...
- Hein? Uma ladra na minha casa?
* * *
- Muito obrigada, Senhor Pancrácio, prometo que depois explicamos tudo, mas agora seria melhor se o senhor corresse, nossas vidas podem estar em perigo! Não, desculpe, foi força de expressão... Desculpe...
* * *
A risada de Solaya Maya ecoou por todo o corpo de Lélis, fê-la hesitar. O osso ainda em riste, a dúvida lentamente esmigalhando suas certezas, Lélis bufou. Por que ela ria? Fora flagrada, perdão, seus objetos haviam sido flagrados pela maior detetive mirim do mundo! Fora acusada de cientista louca, necrófila, assassina e por fim estava sendo ameaçada por seu próprio osso! Por que ria?
A figura alta de Maya dobrou-se e sufocou o riso, adquirindo uma postura austera, porém ainda divertida. Fitou piedosamente Lélis, o salto alto deslizou para um canto da sala. Agachada, a saia curta levantada o suficiente para revelar mais de Maya do que Lélis se interessava em saber, tamborilou as mãos entre um saco escondido sob camadas de potes e animais empalhados, protegidos dos olhos e mãos da “grande detetive mirim”.
Olhos arregalados, dedos moles, cérebro confuso, Lélis fitava o conteúdo do saco, seu êxito pouco a pouco desmoronando, uma sensação de fracasso tomando conta de seu corpo. Em letras garrafais, a foto sorridente de Solaya Maya adornando a notícia:
FECHA O MUSEU DE BIOLOGIA EM ZONA
Solaya Maya despede-se da cidade de Zona em busca de novos horizontes
A matéria discorria sobre a carreira de sucesso da curadora Srta. Maya, como o Museu tornara-se famoso por sua acurada coleção de órgãos e animais empalhados, os planos de transferi-lo para alguma vilazinha com carência de conhecimento, nas palavras da própria Maya. A Lélis, não importava mais. Costas comprimidas contra a parede empoeirada, corpo entre uma cobra coral e uma coleção de fetos, orgulho tão morto quanto a “coisa” à sua frente, a que a instigara a ordenar que Tóti fizesse certa ligação enquanto ela “vigiava a retaguarda” e a qual Maya agora completava com o osso gentilmente retirado da mão desgostosa da menina. Maya lhe fez uma mesura.
- Obrigada por tê-lo achado! Agora está completo! Autêntico e completo! É...
As sirenes interromperam o monólogo. Lélis de súbito levantou-se, alarmada, a figura apressada de Tóti irrompeu na sala.
- Eles vieram, Lélis!
Um estrondo sacudiu as frágeis paredes de madeira; quepe azul na cabeça, revólver engatilhado, Horácio Pancrácio surgiu, distintivo reluzente sob o colete à prova de balas, os outros policiais e até o delegado logo atrás.
- Senhorita, você está presa sob acusação de assassinato, necrofilia e ocultação de provas!
* * *
- Um dos últimos no mundo – rejubilou-se Maya, unhas pintadas acariciando a superfície branca calcificada –, o consegui de um amigo curador, como presente...
Inúteis aos ouvidos de Lélis, os fonemas voavam dos lábios vermelhos, acompanhados de certificados de garantia, vistos, cartas e gorgolejos de café com farelo de biscoitos. “Por que será que todos os policiais gostam tanto de biscoitos?” A menina esforçava-se em fingir atenção, ao que Maya tagarelava despreocupadamente sobre caminhões.
Os pneus de petróleo rasgavam – ou eram rasgados? – a descuidada estrada de terra, em solavancos parecidos com uma única convulsão fragmentada. A madrugada, única testemunha do motorista semi-adormecido e sua loira acompanhante, esforçou-se em mover os lábios que não possuía e avisá-los que um pedregulho maldoso havia aberto o compartimento de carga. Alheios aos apelos silenciosos, a loira sonhava com o dinheiro que economizara ao comprar uma casa velha para residência e museu; o motorista delineava seu trajeto pela vila Zinha, incapaz, em sua quase inconsciência, de evitar segunda pedra maldosa, e assim a queda de certa caixa anormalmente grande.
Ao que o solavanco, pequena convulsão, expulsava a dormência de seu cérebro, delicado objeto encostou-se entre hortênsias, após ter se deslocado da peça em si, rolado para fora do caminhão e feito seu caminho por entre as espaçadas grades de uma casa com jardim.
- Ela deve ter rolado para o seu jardim – Maya encaixou todas as peças do quebra-cabeça e concluiu, alegre – e agora já posso inaugurar meu museu, meu esqueleto humano autêntico está pronto!
Lélis só se fazia ouvir o próprio fracasso, a completa humilhação e vergonha perante si mesma. A saia curta e as pernas bem torneadas de Maya dialogavam alegremente com os biscoitos e cafés que constituíam a atividade dos quepes azuis. Tóti fascinava-se com o esqueleto e demais acervo, ninguém na sala importava-se com a garota ruiva imersa entre caixas, na própria ruína.
Os olhos fixando-se no indivíduo que ostentava o quepe mais familiar, Lélis fitou Horácio conversando com um senhor gordo, pela descrição era o delegado, ou “Aquele carrasco!” Gestos nervosos, voz elevada, rosto cada vez mais imerso em rugas, dedo em riste para a menina. “O que é que o delegado quer comigo? E por que ele ficou tão brabo?” – Lélis se indagava, conforme passos apressados e uniformes se aproximaram, o olhar confuso encontrando as íris castanhas da filha, dedos inquietos, postura encolhida. “Ele tem medo do delegado, papai com medo desse velho! Por quê?”
- Florzinha – tom excessivamente comedido, contido e controlado – diga para o papai... Por que você não me mostrou esse osso assim que o achou? Hein?
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