Alguma Coisa No Meu Jardim
5 Epílogo
Notas iniciais
O jardim sempre estaria lá, as hortênsias, os jasmins, as flores dos mais variados tipos. “Não estará mais para mim” – pensou Lélis, os pés acariciando pela última vez a grama fofa, as narinas contraindo-se ao aspirar o aroma outonal dos botões caindo. A demissão de Horácio, o caminhão de mudança buzinando ao longe, a despedida, tudo se tornou apenas vaga lembrança conforme ela rodopiava inebriada, perdendo a vontade de se manter em pé, se unindo cada vez mais ao jardim, sua verdadeira casa. Vencida, entregou-se completamente às flores, deixando-se cair no gramado como um soldado mortalmente ferido, forças para um último pensamento desesperado: “Não foi minha culpa! Não foi minha culpa se eu não devia ter guardado aquele osso, se era contra a lei, se papai foi demitido, eu sei! Eu sei! Será que eles não entendem que eu só queria sair daqui?”
Sair daqui... O último fluxo de protesto esvaiu-se tão rápido quanto a invadira, por um momento Lélis era apenas uma estátua largada no jardim, um corpo vazio, sozinho, drenado de forças. Sairia dali em breve, os olhos fecharam-se, o cérebro procurou captar a sensação daquele pensamento. Alegria, conseguira finalmente o que queria, se livraria de Zinha! Ou Zinha se livraria dela? Tristeza, a escolha não fora espontânea, revelara-se abrupta e imediata como todos os exílios. “Na ditadura os exilados não eram pessoas que se ficassem teriam sido presas? Mas papai não seria preso... Por algo que eu fiz... Não, Lélis, não, Lélis, pare com isso, não é sua culpa, não é!”
O rosto massageado pela grama, os dedos enterrados na terra, procuravam algo anulador àquela agonia, algo para esmigalhar, estraçalhar, desmembrar... “Que é isso?” A ponta do mínimo esquerdo adentrara um dos canteiros de hortênsias, agora sua mão inteira acariciava um objeto liso, frio e fino. Déjà vu. A respiração ofegante, o corpo tremendo, Lélis mergulhou os dois braços nas folhagens e mergulhou o objeto na luz do Sol. Déjà vu. O grito ainda ecoava, procurou se recompor do susto, voltou os olhos para onde havia jogado o fêmur humano. Déjà vu, ele havia se deitado sobre um canteiro salpicado de rosas.
“Não, não, não, de novo, não, como é que ele veio parar aqui, de onde ele veio?” Perpassou os olhos pelo familiar sobrado amarelo, o jardim, sua casa verdadeira, o caminhão de mudança, ao fundo Solange, Horácio, Tóti... Súbita determinação apossou-se de sua mente, expulsou indagações e pensamentos aturdidos, até então senhores de seu consciente, a menina não se permitiu mais distrações. A vida em Zinha acabara-se, um último ato de adeus fazia-se necessário, algo que enterrasse tudo a sete palmos do chão, um simbólico presente para a família que futuramente habitaria sua casa.
Fitando o gramado aos seus pés, Lélis momentaneamente indagou-se sobre a procedência do osso que jazia ao seu lado, mas sacudiu a cabeça e enxotou aquele pensamento. “É aqui que deve terminar” – refletiu ela – “aqui, onde toda essa confusão começou.” Os dedos abraçando uma velha pá de madeira, o fêmur aguardando na grama, Lélis cravou o metal na terra e começou a cavar.
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