Algum lugar para correr
1 Caio e Felipe
Caio cresceu numa boa rua, num bairro afastado do centro de sua cidade. Era especial aquela rua, cheia de árvores, próxima a floresta de mata atlântica.
Ao lado da casa do garoto Caio mora o menino Felipe, melhor amigo do garoto desde de que se lembram.
Quando crianças faziam tudo juntos, desde freqüentarem a mesma escola a brincarem durante a tarde e "acamparem" no quarto um do outro nos finais de semana.
A amizade dos dois influenciou também suas famílias, quando a mãe de um ia chamar o outro na casa vizinha, acabava sendo convidada a uma xícara de café ou um pedaço de bolo.
Os dois não eram crianças comportadas, quando estavam sozinhos (cada qual na sua casa) os pais os chamavam de levados. Quando estavam juntos os pais não achavam uma denominação cabível.
Quando iam juntos ao mercado, era um Deus nos acuda, corriam pelo mercado todo, vestiam roupas, derrubavam copos ou entravam em algumas salhinha "proibida" ao público geral. O acontecimento mais memorável foi quando encheram os microondas que estavam em mostruário com calcinhas antes que os pais de Caio compracem o dito cujo. Está até hoje ne cozinha da família, e rende tão boas risadas a quem deseja saber da história que até esqueceram o castigo que veio após a traquinagens.
Quando Felipe completou seus onze anos, seu pai veio a falecer. Foi assim, de repente, mudando a vida do menino, virando-a de cabeça pra baixo. Foi uma fatalidade o ocorrido ao menino, tudo em sua vida virou. Sua mãe praticamente se desligou do mundo por um tempo, a mulher tentava manter a pose de forte, mas era visivelmente fraca e debilitada pela perda. Felipe se manteve firme, e acabou tendo que assumir uma maturidade que não lhe cabia, ele era uma criança em seus meros onze anos, não cabia a este menino a responsabilidade de cuidar de sua mãe, o que estava acontecendo no momento.
O pai de Felipe deixou ao menino uma pensão para o garoto, que dava a família uma chance de se manter precariamente até a mãe do menino achar um emprego. A família de Caio ajudava como podia, apesar de não terem tanto dinheiro sobrando, ajudavam com comida e não deixavam os dois sozinhos.
Após algumas semanas, a irmã mais velha de Adriana (Adriana, a mãe de Felipe) veio para ver a irmã, a mulher que vivia numa cidade vizinha a Curitiba, onde a Família de Felipe mora. Vendo que mal e porcamente Adriana estava conseguindo manter seu filho e sua casa, a irmã chamou ambos para morarem em sua casa, onde poderiam alugar esta até tudo se estabilizar. A família de Felipe não consumia tanto, porém, antes do pai do garoto entrar em óbito, o casal assumira duas grandes dividas mensais: O carro novo e a pintura da casa, coisas que a pensão sozinha não poderia cobrir com folga para sobrar dinheiro depois.
Adriana aceitou, após um breve momento de negação, era uma nova cidade, uma outra realidade, e isso a assustava. Por mais que a mulher estivesse ao lado de seus parentes, como sua irmã, seus sobrinhos, Adriana estava sozinha, seu coração estava sozinho, ela se sentia tão sozinha, e doía mais ainda dentro de si, por estar cercada de tantas pessoas e nenhuma delas ser seu marido.
Felipe havia dormido na casa de Caio antes de realmente ir embora, a mãe de Caio passará a noite na casa de Adriana, ajudando-a com tudo e se despedindo com pequenas lagrimas que escorriam timidamente, eram amigas, e nenhuma delas queria deixar tudo aquilo pior do que já era. Ambas as famílias foram amigas desde sempre, perder João para um acidente e ver Adriana ir embora era algo que doía.
Caio acalentou Felipe durante todo o tempo, até que o menino dormisse, Caio enxugou as lagrimas de Felipe, e prometerá sempre ser seu amigo, acalentando o menino num abraço, pois sabia que poderia ser o ultimo.
–Preciso trocar de roupa — Disse Felipe, levantando.
–Vai voltar aqui ainda? — pergunta Caio
–Você acha que eu vou embora sem nem dizer tchau?
–Não sei, "vai que ne"
–Idiota — Felipe vira as costas e vai embora.
Caio tenta melhorar o humor. O garoto estava bem pessimista sobre a partida de Felipe, talvez fosse um exagero, por que eles ainda poderiam se ver sempre e se encontrar para brincar. Talvez fosse um exagero.
Caio foi até sua mochila e pegou um dos broches (popularmente conhecidos como Bottons). Era um pequenino broche com o desenho de um pikachu, bem simples. Caio tinha medo de que Felipe esquecesse dele, então daria todos os jeitos para que isso não acontecesse.
*
Estavam todos se despedindo no potão da casa de Felipe. Parecia muito uma despedida de viagem, como se domingo a tarde Adriana e Felipe estivessem aqui novamente; isso diminuiu a falta que Caio sentia deles já.
–Quero que fique com isso — Caio estendeu a mão com a o broche.
–Seu "botton" favorito — Felipe pareceu meio espantado — Não tenho nenhum presente pra você — Ele fez cara de choro.
–Quero ele de volta, mas só aceito quando você ficar junto.
Felipe sorri — espertinho dramático — foi isso que o menino disse com o seu olhar.
Todos foram se despedindo, um por um. Por estarem na metade do ano, o tempo estava chuvoso, pronto para chover a qualquer momento, tipico de Curitiba, ter o clima "bipolar".
Felipe entrou no carro, o broche de Caio estava preso na alça de sua mochila.
Adriana deu a partida e logo o carro já não era mais visível, tinha desaparecido rua abaixo, e mesmo assim, Caio esperou um pouco mais, naquela boa rua.
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