Algum lugar para correr
2 Caio Cresceu
Notas iniciais
Já passavam das nove da manha quando tocou o terceiro sinal do dia, o que indicava mais uma aula. O professor de Filosofia como de costume esperou na porta da sala do terceiro ano, até que a professora de sociologia deixasse a sala. Apesar de sermos uma turma de terceiro ano do ensino médio, não temos nem a metade a maturidade que esperam de nós.
–Antes de começar, todos já fizeram a inscrição no vestibular? — Pergunta o professor, muitos dos alunos não sabiam que já estavam abertas as inscrições — Espero que todos tenham se preparado durante o ano, por que agora o bicho vai pegar galera.
Me mantive indiferente, não tinha interesse em entrar numa faculdade já no ano que vem. Meus planos eram outros, o que envolvia dedicar um pouco de tempo ao resto da minha adolescência um ano antes de chegar aos 18.
As aulas do dia seguiram normalmente, por fim, a professora de Sociologia veio conversar comigo antes da saída.
–Caio, você já tem alguma ideia de que curso vai tentar na faculdade? Se é que quer tentar a faculdade.
–Ainda estou com dúvidas, não sei se escolho letras — inglês ou português com inglês.
–Letras é "daora" — professores de ciências sócias de vinte anos são as melhores pessoas — mas vai tentar agora?
–Vou mais para treinar do que realmente passar, eu mal estudei esse ano.
–Você está com o que? Dezessete anos?
–Dezesseis
–Então da tempo de cursar letras e ciências sociais — ela sorri — acho que você se daria muito bem no curso — ela tem sua razão, já que sociologia é minha matéria favorita e a com melhores notas depois de inglês e português.
–Sim, eu já tinha vontade de cursar ciências sociais, mas minha paixão pelas palavras escritas ainda fala mais alto — sorrio.
–Sempre poético — ela da um tapinha em meu ombro — mas eu vou indo, até semana que vem.
–Até — aceno.
É bom ter professores que se importam verdadeiramente contigo. A dois anos vim a este colégio cursar o ensino médio, e apesar de ficar a dez minutos do meu antigo, parece um novo mundo. Aqui se vê maior variedade de pessoas e tribos. Quando vim para cá e percebi toda a diferença, decidi começar novamente. Foram dois anos e meio sozinho naquele lugar desde que Felipe se mudou, e ele fez muita falta. Fiquei sozinho, ninguém queria ser amigo do garoto estranho.
Então quando vim para este colégio a dois anos, decidi levantar a cabeça e começar novamente.
Estamos em julho, e o tempo chuvoso característico da estação deixa tudo menos movimentado. Tudo fica cinza.
Não choveu durante a manhã, mas o céu indicava que logo iria chover novamente.
Fiz o que faço todos os dias, peguei o ônibus e fui embora. No ônibus esqueci um pouco o mundo a minha volta, coloquei os fones e abri um livro(indispensável na minha vida).
Quando cheguei em casa, a chuva estava caindo fina e leve, daquele tipo que molha tudo e ninguém percebe até estar tudo realmente molhado.
–Oi mãe — gritei para minha mãe na sala
–Como foi a aula filho? — pergunta ela
–Foi boa -gritei para ela do meu quarto — onde está o pai?
–Já saiu — ela fechou o notebook– Lembra do Felipe?
–Ele ligou?
–A mãe dele na verdade, disse que conseguiu um emprego aqui, e vão voltar.
–Sério? — perguntou Caio, com uma leve ansiedade.
–Sim, pretendem voltar daqui a duas semanas, quando ela possivelmente deve começar a dar aulas.
–Possivelmente?
–A data pode mudar.
–A sim, legal — tentei manter a indiferença.
Senti algo que não pude descrever, algo que não deixei extravasar o meu íntimo, mas era uma mistura de todo medo, felicidade, saudade e mágoa que estava acumulado no meu ser. Era a sensação de algo que parecia não fazer mais parte de mim, voltando. O passado voltava e já havia abalado tudo o que tornei estável nos últimos quatro anos. Havia muito em relação a nós, porém eu sentia ali uma pontinha de felicidade, por que faltava algo nessa minha nova vida, faltava ele.
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