Alguém tem algo a esconder
1 Mais Perto do Limite
[5 anos antes]
O cântico predominantemente em tom agudo do coral ecoava da plataforma superior do mosteiro, uma acústica rica que entoava melodias, dissipando-as à pronta entrega de ouvidos prontos pela palavra. Ou pela culpa que seus olhos cansados denunciavam. Corações arrependidos, inseguros, a busca incessante pela proteção divina. Os vincos de uma vida demarcados, sulcados e alinhados ao leve branco neve dos cabelos dos fiéis, que retorciam seus terços como se o último sopro de vida fosse àquele vivido, movidos pela fé, temerosos pelos seus pecados de uma vida boêmia que circundara o centro de suas juventudes nas águas passadas de suas memórias. O remorso.
O frio daquela noite invadiu violentamente seus suéteres, aninhando-se na superfície de suas peles, demorando-se em seus membros periféricos. Dedos. Mãos. Pés.
O cântico de romaria lançava-se fervorosamente da boca dos fiéis dando-lhe um aspecto de névoa que saia de suas bocas profanas outrora. Uma guerra, o resultado depois do sinal de igualdade, o resultado de uma soma: frio e quente.
Quando os fogos lançaram-se acima, o silêncio tomara conta da cidade que parou para ver. Ana caminhou silenciosamente em direção à porta dos fundos, queria ver os fogos e fugir do interminável terço, tentando se dissolver no meio da multidão. Perder-se.
Seus olhos acompanhavam os fogos, levando seus passos sem direção pré destinada. No percurso, uma senhora reclamara de Ana, chamando-a de "desastrada", tirando sua concentração dos fogos, parecia que seus pés continuavam quando seus olhos toparam-se com os de um garoto que fazia o mesmo percurso olhando-a de volta.
Os olhos dele tinham movimentos lentos, eram como duas órbitas negras e se demoram nos olhares alheios. Nos de Ana agora. Pareciam descansar de um pesar obscuro de si. Os ângulos da boca dele apresentavam-se levemente projetados para parte inferior, às vezes ficavam entre abertos, com uma sutil fenda, que indicava que a qualquer momento um sorriso poderia iluminar seu rosto.
Iluminou-se ao encontro dos castanhos café de Ana.
Os pés dela pesaram ao chão não sentindo-os. O torpor veio dos membros inferiores até sua fronte exposta ao vento frio que pairava às suas cabeças.
Era Evan. Iluminado.
Olhando ao seu redor, sua face parecia a de um predador que avistara seu desejo pessoal. Seguindo elegantemente a linearidade de seus passos, sem mais pensar, entre aquela competição de pernas e corpos tumultuados à frente, seguiu em direção dela.
Ainda estática Ana não se prontificou a coragem de pôr seus pés a caminho. Mas Evan já havia a encurralado, propositalmente aproximou o máximo seu rosto do dela e então aproveitou-se do ruído ambiente, dizendo com seus lábios frios à orelha dela:
– Me acompanhe. — Sussurrou de forma provocante.
Ana era suspeita para as ações inusitadas de Evan. Nunca se sabia o que se passava em sua mente, muitos não entendiam seu jeito particular de levar a vida. Suas ações não agradavam. Mas ela via um ponto positivo.
Não pronunciou palavra alguma quando ele segurou sua mão e a conduziu livremente festa à fora.
O toque da mão dele parecia nunca aquecer suficientemente sua mão.
Ela não tinha pretensão de soltá-lo.
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