Alguém tem algo a esconder
2 Colisão de Estrelas de Nêutrons
Notas iniciais
Retirando seus sapatos que a incomodara, Evan a olhou por sob seus cabelos caídos aos olhos, em pé encostado numa velha casa às traças e ruínas do tempo. Parecia uma estátua.
O tempo.
Inclinando-se para ele com seus sapatos na mão, questionou:
– Então? — Ela sorriu para ele observando as gotículas de chuva que se suicidavam das pontas do cabelo dele ao encontro do chão.
– Tenho algo para você. Prometa-me abrir em casa.
– Tudo bem. — Ela disse encarando-o.
Saindo de sua posição estática, tocou a ponta do nariz dela, descendo seus dedos por sua bochecha ruborizada, cotornando a orelha, delineando seu perfil até chegar em sua nuca onde se demorou desviando seu olhar hipnótico para boca dela. Observara que a chuva havia formado minúsculas gotinhas nos lábios corados de Ana.
Quis beijá-la.
Ana acomodara suas mãos por volta da cintura dele, fazendo desenhos irregulares com as unhas, hora ou outra pelas costas dele.
O caminho que os olhos de Evan faziam pelo rosto de Ana a deixava desnorteada. A chuva que se alastrava entre os dois começara a impedir que ela o olhasse nos olhos, visto sua altura ser desfavorável a dele.
Percebendo que os olhos da moça se cerravam, pôs sua mão por sobre os olhos dela e a empurrou parede à frente. O impacto do corpo dele contra o dela a fez perceber que seus pés ainda estavam presos ao chão. A força da colisão a fez dar meio passo para trás. Impedida pelo obstáculo em suas costas. Ele a segurara pela cintura. Aproximando-se mais lentamente a colocou contra parede. Daquela distância de seu rosto, ela podia sentir seu hálito quente. Sua respiração acelerada, seus olhos negros fitaram-na como se nada mais importasse.
"O que eu faço agora?"– Pensou Ana.
Ele retirou suas mãos da cintura dela, prendendo-a apenas com a força contrária do seu corpo ao de Ana. Uma mão novamente tapou a visão dela e a outra foi de encontro à sua nuca. Ele sugou as gotículas (que o provocara) dos lábios dela, de forma sutil, pronunciando pela superfície deles:
– Shhh... — Impôs.
Beijaram-se.
O toque dos lábios dele molhados da chuva deslizavam pelos de Ana, fazendo o contato entre eles ficarem escorregadios demais, de um jeito particular que a fazia querê-los mais. O instinto de domínio de Evan, que bloqueava a visão dela, a fazia sentir-se como em queda livre na penumbra de um beijo. Perdia-se.
Evan afastara sua mão dos olhos de Ana, enquanto lutava para manter seus lábios nos dela. Libertando seus lábios, ergueu-se para confrontar a expressão da moça, se deparou com Ana ainda de olhos fechados e a boca entre aberta, com a cabeça levemente direcionada à sua frente, inclinada para cima. Gotas de chuva invadiram por dentro de sua boca, fazendo-a selar seus lábios, elevando sua laringe para engolir.
Abriu seu olhos.
– Dizer que te amo é...- Foi impedida de terminar a frase.
– Não me diga isso. — Ele encarou sério tremendo de frio.
Ana só percebeu que também tremia de frio quando viu os dentes superiores e inferiores dele se chocarem enquanto ele falava.
Evan aproximou-se beijando sua fronte e pondo em sua mão um pequeno pedaço de papel.
– Em casa! — Ameaçou se afastando dela.
– Tudo bem! E... Evan! — Ela o segurou pelo braço, virando-se contra o peito dele e abraçando-o como se nunca mais fosse o ver, beijou o pescoço de Evan e o queixo dele rapidamente.- Não suma.
Ele não retribuiu o abraço dela. E lançou:
– Vá.
Ela solta-o percebendo que suas mãos estavam enrugadas do temporal que caíra e eles não haviam notado.
Evan vira-se e põe seus passos à frente com as mãos nos bolsos de seu casaco cinza totalmente encharcado.
Ana vendo-o ir embora, escuro à dentro das ruínas daquela velha rua esquecida, finaliza mentalmente a frase interrompida:
"... é como chover no molhado."
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