Algo para proteger

1 A armadilha do yokai raposa


Notas iniciais
Olá!
Tive esta ideia há algum tempo e decidi tentar escrever algo. É a primeira fanfic deste anime/mangá que escrevo, vamos ver no que dá. Espero a sério que gostem como eu tenho gostado de escrever.

Há mais de duzentos anos atrás...

— Inutaishou-sama! Onde o senhor está?!

Em meio aos escombros, vegetação partida e o crepitar de grandes labaredas de fogo, um samurai de armadura azul cortava o ar, seguido por mais uma dezena de semelhantes, tão velozes quanto ele. A pata de um futuro cadáver yokai estendido no chão agarrou seu pé, sendo devidamente decepada por um corte de uma espada de luz rósea desferido pelo homem, que então continuou seu caminho. Chegaram à beira de um precipício. Uma enorme cratera, aberta com o impacto da queda de um yokai dragão.

Lá embaixo, no seu epicentro, de frente para os restos do yokai gigante, jazia de pé o Grande Cão do Oeste em sua forma humana. Os talhos em suas vestes e armadura, as cinzas recobrindo seu corpo e a sua expressão exausta eram vestígios da árdua batalha que vencera. Um inimigo a menos. Uma ameaça a menos para os habitantes das Terras do Oeste.

— Inutaishou-sama! – O samurai humano imediatamente saltou sobre a cratera e caiu próximo ao seu lorde. – Nós exterminamos todos os yokais lacaios de Senbukotsu no campo de batalha, mas os sacerdotes vermelhos conseguiram fugir.

— Deixem que vá. Com Senbukotsu morto, os poderes deles definharão em breve, junto com seus corpos. Terão um fim de vida doloroso e lento para repensar seus pecados. – O daiyokai respondeu, observando a rachadura aberta em Tessaiga, sua espada presa, antes de embainhá-la definitivamente. – Bom trabalho, Soujiro! Soldados! Com isso, o nosso inimigo foi derrotado. As Terras do Oeste estão seguras novamente.

— Soldados! A vitória é nossa!

O samurai de armadura azul, Soujiro, urrou, erguendo a espada, imitado pela dezena de homens que o acompanhava e também emitia o seu grito de guerra. As chamas queimaram com mais ardor, como se refletissem o espírito dos homens destemidos que, ao lado do Grande Cão do Oeste o qual veneravam, arriscaram suas vidas ali e lograram vitória.

~¤~

— Soujiro. Aproxime-se.

Trazendo o elmo embaixo de um dos braços, o samurai aproximou de seu lorde, que estava postado de frente para a vasta imagem de sua província. A vista era previlegiada da beirada do cume onde estavam. A brisa vespertina soprou, carregando os longos cabelos prateados amarrados do daiyokai e sacodindo o rabo de cavalo curto de seu vassalo, trazendo o cheiro de folhas e terra úmidas.

— Alguma notícia de meu filho? –ele questionou sem tirar os olhos dourados dos campos no horizonte.

— Oyakata-sama[1], meus informantes o viram por último deixando as Terras do Oeste após exterminar o refúgio dos últimos sacerdotes vermelhos.

— Sesshomaru... Ele nunca aprenderá o significado de compaixão?

Soujiro nada disse, sabendo que nenhuma palavra poderia apaziguar a melancolia de seu lorde. Mas arriscou um movimento novo e ousado, e assim sua mão gentil caiu sobre a ombreira pontuda do daiyokai, transmitindo uma mensagem silenciosa de apoio. Inutaishou o fitou por cima do ombro por alguns segundos antes de se virar, enfiando a mão em sua indumentária e tirando algo dali.

— Meu filho deveria ser o guardião deste artefato. Apenas ele tem a força para contê-lo e poderia mantê-lo puro. Mas no coração dele há espaço para somente ambição, destruição e desprezo pela vida. Não posso deixar que este poder seja utilizado para fins vis. Assim sendo... — O Grande Cão estendeu a mão fechada para o homem ao seu lado, causando-lhe espanto. E o fitou, com o seu olhar dourado severo e intenso. — Soujiro, eu o confio a ti.

— M-Meidenkai?! – Soujirou engasgou, vendo a jóia púrpura reluzindo na palma da mão do lorde. – Meu lorde, eu não-

— Sim. Meidenkai. – A voz grave interrompeu o vassalo. – Este artefato tem o poder de absorver e transformar a aura demoníaca de yokais mortos e conferi-la ao seu portador. É uma grande fonte de poder, espiritual ou demoníaco, dependendo da índole de quem o manuseia. Eu não sei por quanto tempo ainda andarei por este mundo, por quanto tempo estarei aqui para proteger as Terras do Oeste. Meus inimigos crescem e se tornam mais fortes a cada instante. Eu o confio Meidenkai a ti, Soujiro, meu aliado humano mais antigo e fiél, para que o guarde com o mesmo afinco com o qual tem lutado ao meu lado. Ele irá ajudá-lo a melhor proteger aqueles que têm sob sua tutela. És o daimyo de Kitami e, lembre-se sempre, que é o seu dever cercar de segurança os humanos e yokais que habitam as tuas terras. Um dia, talvez Sesshomaru também aprenda o valor deste propósito. E quando o fizer... Somente quando o fizer, ele estará apto a herdar Meidenkai. Até lá, confio em tua família para guardá-lo.

Após ouvi-lo em silêncio e com atenção, o homem apanhou o item, observando-o reluzir na palma de sua mão. Meidenkai emitiu um brilho intenso de seu cerne, como se cumprimentasse o seu novo guardião. Imediatamente Soujiro pôde sentir uma onda de energia nova e poderosa desgrenhando pelo seu braço e para o resto do seu corpo. Meidenkai o aceitara.

— Inutaishou-sama... – Com a outra mão, Soujiro desembainhou a espada. Cravou-a valentemente no chão ao seu lado, para então descer os dois joelhos, a mão livre que não tinha a jóia e por fim o queixo contra o solo, curvando-se na mais respeitosa e servil mesura. – Este Sakagama Soujiro, lorde de Kitami, humildemente aceita a tarefa que nele incumbe. Guardarei e protegerei Meidenkai com minha própria vida! E não usarei seus poderes senão em prol dos habitantes de minha província!

— Ótimo. Eu acredito em você.

Inutaishou deu então as costas para o samurai, adiantando-se um passo a mais na direção do precipício, de onde podia ver, ouvir e sentir praticamente tudo o que ocorria na grande província lá embaixo, esparramada em milhares de casas, estradas e lagos pelo horizonte.

— Você sempre foi, acima de tudo, um homem bondoso e zeloso com os seus... – ele voltou a dizer, atraindo a atenção de Soujiro, que erguia-se novamente. Havia uma estranha melancolia mascarada na voz geralmente severa do daiyokai. Sentimento de culpa, talvez. — Certifique-se de transmitir essas boas qualidades aos seus filhos. E que eles as transmitam aos seus próprios filhos, e a todos os outros que vierem depois de você. Proteger a outrém... é a mais poderosa fonte e motivação do verdadeiro poder. Lembre-se disso, Soujiro!

— Sim, Inutaishou-sama. Eu me lembrarei.

Capítulo 1
A armadilha do yokai raposa

— Sesshomaru-sama? – chamou Jaken, curioso com a súbita parada de seu lorde e o olhar atento dele para o horizonte ao leste.

O príncipe jazia ereto, em sua elegância estóica habitual. Os trajes claros e sofisticados que lhe compunham a silhueta majestosa assumiram um tom de azul ao mesclar-se com a escuridão da noite e a luz forte da Lua cheia arregalada atrás de si. O olhar dourado, contudo, peramaneceu apontado e atento naquela específica direção. Uma brisa fria abraçou o daiyokai, soprando-lhe os longos cabelos prateados e trazendo consigo a confirmação de sua suspeita. O aroma forte de ferro. O cheiro inconfundível de sangue humano. Muito dele. E...

— Jaken, fique aqui com A-un. – ordenou com sua calma suave habitual, já se virando e caminhando naquela direção.

— Sim, Sesshomaru-sama. – o diabrete respondeu, guiando A-un pelas rédeas até um arbusto que ele poderia comer. Resmungou assim que seu mestre se afastou. – Sesshomaru-sama anda bastante distante e atento, não é mesmo A-un? Eu espero que ele não demore desta vez...

Entrementes, enquanto caminhava, o olhar dourado do yokai de longos cabelos prateados caiu discretamente sobre uma das duas espadas embainhadas em sua cintura. Há algum tempo Tenseiga vinha emitindo estranhas vibrações, em momentos e situações aleatórias. Como se quisesse alertá-lo, chamar sua atenção para algo que ele ainda não havia descoberto o que era. Em seus raros sonos, a energia da espada adentrava seus sonhos, mostrando-lhe estranhas visões de Meidenkai, um artefato de seu pai, e uma província florida onde sabia que já estivera, há muitos anos atrás. Tenseiga... A Presa Celestial do Renascimento. Por muito tempo ele a mantivera intocada em sua bainha, sem uso. Carregava-a por puro respeito ao seu Pai, mas ela era mais um cravo em seu orgulho do que um memento em si. Quando descobriu o seu verdadeiro poder, fora obrigado a abrir mão dele em prol do hanyo patife com quem compartilhava o pai. Quase a descartara, então. Mas ela ainda tinha algum valor.

Então o que mais ela tinha para lhe mostrar? Por que Meidenkai era tão importante?

Somente após a queda do infame Naraku é que Sesshomaru vira-se finalmente livre para investigar a mensagem que a espada tentava lhe transmitir, e seguindo suas vibrações, o daiyokai vira-se novamente na fronteira das Terras do Oeste, à procura de Meidenkai. Informara-se que o artefato havia sido visto por último na posse de Sakagama Soujiro, um general humano que fora fiél aliado de seu pai. Vira-o algumas vezes. A família de Soujiro detinha o poder sobre as terras de Kitami. Então, seria por ali que ele começaria suas buscas.

Sesshomaru tomou a pequena trilha, sabendo que se aproximava de um vilarejo humano. Os gritos de terror abafados no ar logo se calaram. Ao cruzar as últimas árvores que o separavam do pequeno povoado, fora recebido com a visão de carnificina que comprovara suas suspeitas. Corpos humanos de homens, mulheres, idosos e crianças, jaziam atirados pelo chão, cobertos de ferimentos e sangue, inundando todo o chão de terra do vilarejo com um vermelho escuro e fétido. Entretanto, era outro o alvo de sua atenção. O par de olhos dourados miraram afiados os escombros de um galpão.

— Revele-se de uma vez.

Seu comando grave ecoou até a edificação destruída, que respondeu vibrando forte. O daiyokai espalmou a mão, evidenciando as garras e se preparando para um possível ataque que não veio. O vulto escondido disparou para fora dos destroços, rodopiando no ar e caindo no chão em posição de combate. Um yokai raposa de pêlo branco, vestido em um kimono amarelo e vermelho. Vermelhos também eram os seus olhos, bem como suas mãos e garras naquele momento, banhadas em sangue humano. O algoz daqueles aldeões, certamente.

— Quem poderia esperar? O grande lorde Sesshomaru em pessoa! Veio salvar estes humanos? Ora, que inesperado de ti. – provocou a raposa de olhar sanguinolento e voz estridente.

— Vim averiguar o que um yokai inferior faz maculando as terras vizinhas às de meu Pai. Expulsei-vos todos há anos, mas são como ratos e retornam aos bandos, logo se vê. – a calma e o desprezo eram velhos conhecidos na voz de Sesshomaru.

— Maldito yokai arrogante! Eu, Nogitsune, devia parti-lo ao meio e devorar suas entranhas agora mesmo!

— Está convidado a tentar. – o daiyokai respondeu com um meio sorriso de canto, erguendo a mão direita na altura do monte de pele em seu ombro, mostrando o seu dorso com a névoa verde venenosa evidente entre as garras. – Pode acabar encontrando mais dificuldade do quando massacra reles humanos, contudo.

— Cale-se!

Nogitsune abriu a bocarra e despejou uma rajada de uma fumaça vermelha e fétida sobre o inconveniente invasor, cobrindo-o por inteiro. Sorriu vitorioso prematuramente, apenas para engasgar ao ver a silhueta elegante do inimigo emergir ilesa em meio à fumaça e vir em sua direção. As garras venenosas atingiram o pescoço de Nogitsune, que recuou num salto e derrapou.

— Maldito! – ele esganiçou, com a mão no local ferido esguinchando sangue e veneno verde.

— Antes que eu o mande definitivamente para o outro mundo, responderá a minha pergunta. – Sesshomaru caminhava para perto do yokai, ainda lhe mostrando as garras, agora sujas também com o seu sangue preto. – O castelo de Kitami... Onde está?

— Você está longe de me derrotar, maldito cão! — a raposa avançou mais uma vez, desferindo dessa vez um golpe horizontal com suas garras gigantes visando o meio do corpo de Sesshomaru, que se esquivou com facilidade. Entretanto, as garras da raposa se soltaram de sua mão e vieram em sua direção logo em seguida junto com um punhado mais denso daquela fumaça vermelha, obrigando o daiyokai a recuar com salto maior. Nogitsune riu. — Hahaha! Sesshomaru, eu adoraria brincar com você, mas infelizmente tenho assuntos mais urgentes para resolv-

Ele se calou de repente e voltou o olhar na direção da saída da vila. Sesshomaru também pôde ouvi-los, os sons do trotar de dezenas de cavalos, deslocando-se rapidamente em direção à vila, misturados ao cheiro de mais humanos.

— Mas que maravilha! É o momento perfeito! – uma súbita alegria tomou conta do yokai raposa, que se voltou novamente para Sesshomaru com evidente empolgação, os olhos vermelhos reluzindo. – Sesshomaru... Sakuya... Dois coelhos com uma cajadada só! Não poderia ter aparecido em hora melhor, cão!

— Silêncio, verme. Eu colocarei um fim à sua existência patética. – ele decretou antes de avançar novamente sobre a raposa.

— Tente! – Nogitsune provocou, espalmando as mãos e deixando à mostra suas novas garras, tão longas quanto aquelas das quais ele se desfizera.

Uma saraivada de golpes fora desferida contra a raposa, que com dificuldade bloqueava as garras do daiyokai com suas próprias. Era evidente a disparidade de força, agilidade e destreza a favor de Sesshomaru, não demoraria até que a defesa da raposa cedesse. Todavia, o daiyokai fora surpreendido quando a fumaça vermelha novamente irrompeu da boca de Nogitsune, atrapalhando a sua visão por um segundo, suficiente para que ele puxasse o corpo de um dos humanos mortos da vila para a frente do último golpe. Quando a fumaça dissipou, Sesshomaru viu-se com sua mão e garras enterradas no peito de um cadáver humano.

— Adeus! – Nogitsune riu antes de saltar muito alto, transformando-se em uma nuvem púrpura.

— Hmpf. Então este era o seu plano.

Sesshomaru comprimiu o olhar, aborrecido em deixar a criatura escapar, mas tinha outras prioridades no momento antes de perseguir um yokai inferior. Seus ouvidos captavam o tilintar metálico de soldados armadurados atrás de si, cercando-o. Nogitsune havia sido tenaz. Os soldados haviam chegado à vila massacrada bem a tempo de ver o daiyokai de cabelos prateados, sozinho, removendo a mão das entranhas do cadáver humano, que deslizou e caiu de volta em seu leito frio no chão.

— Você! – o suposto comandante saltou de cima do cavalo e apontou a lança na direção do daiyokai, imitado pelos outros soldados. – Um yokai! Você massacrou as pessoas desta vila!?

— Renda-se! – outro soldado gritou.

— Vai morrer! – e outro.

— É mais um dos lacaios de Kamatari? – o comandante questionou, sem novamente obter resposta, sequer um olhar. – Maldito! Você vai pagar!

Emitindo um urro audível, o samurai disparou na direção do suposto matador, desferindo um golpe de cima para baixo com a espada. Ela se partiu assim que bateu contra as garras envenenadas. Outros soldados avançaram logo em seguida em auxílio de seu comandante, desferindo golpes que Sesshomaru rebateu com um único chicotear do feixe reluzente que brotou de seus dois dedos, arremessando as lâminas e derrubando os soldados no processo. Ele então franziu o cenho ao notar com os cantos dos olhos a corda que subitamente caiu em torno de si. Os humanos pensavam que o tinham contido dentro de um laço?

— Comandante! Pegamos ele! – comemorou soldado na outra ponta da corda, puxando-a com toda a força que tinha para manter o laço o mais apertado possível, sem notar que ele não se movera um centímetro.

Sesshomaru estava pronto para reduzir a corda a fiapos, mas se conteve ao ouvir as próximas palavras promissoras.

— Bom trabalho, soldado! Vamos levá-lo de volta para o castelo para ser interrogado! Ele poderá nos dar informações valiosas sobre Kamatari. — ordenou o comandante enquanto gesticulava para outros soldados, que arremessaram e prenderam mais cordas em volta do invasor, como se ele estivesse agora no centro de uma teia de aranha.

— “Interessante...” – Sesshomaru pensou, relaxando seu corpo dentro de sua frágil “prisão”. – “Estes humanos tolos me guiarão ao local que procuro.”

~¤~

— Como eu previa, Sesshomaru-sama está demorando. Mas o que?

Percebendo que uma comitiva de humanos a cavalo se aproximava pela trilha, Jaken se jogou contra os arbustros, puxando A-un consigo. Escondido, esperou que a multidão de soldados passasse para então colocar a cabeça para fora das folhas, espiando. Engasgou ao identificar a distinta figura sentada dentro de uma grande gaiola escoltada pela comitiva, comprimida por diversas cordas e selos espirituais, embora estivesse aparentemente confortável e absorto em pensamentos.

— S-Seshoumaru-sama?!? – Jaken esforçou para conter o grito e não chamar a atenção dos soldados que carregavam seu louvado mestre para além da trilha. – Sesshomaru-sama foi capturado por meros mortais?! Não é possível! Sesshomaru-sama, eu irei salvá-

Jaken empunhou Nintojo e estava pronto para saltar dos arbustos para a trilha e reduzir os humanos a cinzas, mas o olhar de canto ameaçador que recebera do dayokai confortavelmente enjaulado lhe tolhera os movimentos. Ninguém além de Sesshomaru parecia tê-lo percebido ali. Jaken recuou, vendo seu amo ser carregado para longe.

— Sesshomaru-sama... Ele me impediu de intervir! Será possível que... ele se deixou capturar? Por que? – ansioso, Jaken andava de um lado para outro — Preciso fazer algo... Não posso ficar para trás. O que eu faço? O que eu faço? O que pretende, Sesshomaru-sama? Para onde os humanos o estão levando? Venha, A-un! Temos de vigiar nosso mestre de perto!

Decretou, saltando determinado para as costas do animal e apontando na direção da trilha. A-un tomou os céus, acompanhando a comitiva de longe e das alturas,

~¤~

Cerca de quarenta minutos de caminhada acelerada separavam o contingente da capital de Kitami. Estratégicamente posicionado, o castelo jazia no topo de uma grande colina, acessível por uma longa estrada em espiral em torno da elevação.

— Sakuya-sama! Retornamos da patrulha e trazemos notícias!

O soldado correu até o pátio frontal do grande edifício, onde civis e servos do castelo trafegavam. Seu alvo era a dupla sob uma tenda, em torno de um chabudai[2] que sustentava diversos papéis e pergaminhos militares. Sentada no zabuton[3] mais largo estava a jovem senhora feudal do castelo, uma mulher por volta de seus vinte e cinco anos de idade, distinguível pelo kimono requintado de tons claros comprimido embaixo de uma armadura leve com pregas vermelhas e outros adornos característicos de sua posição elevada. Ao seu lado estava o conselheiro, identificável também pelos seus trajes civis e requintados.

— O que houve? – Sakuya depositou o pergaminho que lia no chabudai e ergueu o rosto para ver o soldado, que parecia um tanto atribulado.

— A vila Gokaida foi massacrada, senhora! Por um yokai!

— Nani[4]?! – ela se levantou num rompante, imitada pelo conselheiro. – Houveram sobreviventes? Vocês liquidaram o assassino?

— O yokai matou todos, senhora! Foi uma grande carnificina!

— Maldição...

— Isto é terrível, senhora. – o conselheiro ao seu lado comentou, com calma e seriedade. Um idoso de meia estatura, vestes escuras, cabelos brancos e barba parca. “Okina Takashi” era o nome escrito na pequena placa pregada em seu traje rente ao peito esquerdo. Seu olhar era frio. — Como sabe, Gokaida era a nossa principal fonte de ferro. Sem a matéria prima colhida pelos aldeões e sem os ferreiros de lá para nos auxiliar, nosso arsenal estará bastante prejudicado.

— Quantas baixas...? – Sakuya perguntou, com a cabeça baixa e as mãos cerradas sobre o chabudai.

— São aproximadamente trezentos e setenta civis mortos, oyakata-sama. – O soldado respondeu, vendo a daimyo[5] apertar ainda mais as mãos sobre a mesa e conter uma fúria velada. – Nós capturamos o yokai! Podemos interrogá-lo e descobrir se está relacionado com Kamatari.

A notícia era entregue ao mesmo tempo em que a comitiva adentrava finalmente o pátio, atraindo a atenção da dupla. Os soldados que vinham à frente afastava os civis, enquanto os que vinham atrás traziam a gaiola. Sakuya expandiu o olhar ao ter um vislumbre do suposto algoz enjaulado. Longos cabelos prateados, lua azul pálida pintada na fronte, duas marcas púrpuras em cada lado da face, garras evidentes, os trajes elegantes por baixo da armadura leve e o punhado de pelo no qual se recostava confortavelmente enquanto sentado na jaula.

— “Tolos...” – Sakuya murmurou em pensamentos, tendo um mal pressentimento. – “Este é...“

— Oyakata-sama, este é o assassino que captura-

— Basta deste teatro esdrúxulo.

A voz grave veio da própria criatura dentro da jaula, interrompendo o comandante. Um feixe luminoso cortou os ares de um lado a outro, desintegrando completamente a gaiola de aço por dentro e as cordas dentro dela, pondo a tropa em polvorosa. Aos gritos, os soldados imediatamente formaram um círculo em torno da nuvem de poeira erguida, da qual lentamente emergiu o daiyokai. Indiferente às lanças e espadas apontadas para si, Sesshomaru deteve seu olhar na dupla distinta que saía de debaixo da tenda. Os soldados cumpriram bem o seu propósito, e ele já não lhes devia mais atenção.

— Você é a daimyo de Kitami? – ele questionou, voltado diretamente para a mulher de longos cabelos castanhos escuros e soltos e trajes característicos de senhores feudais. — Descendente de Sakagama Soujiro, eu suponho.

— Você não parece arrependido de seus crimes. – ela respondeu, tão pouco amigável quanto ele.

— Maldito seja! Soldados, matem-no! – comandante urrou a ordem.

Cinco dos soldados que fechavam o cerco em torno do príncipe avançaram sobre ele. Chocaram-se uns com os outros quando ele simplesmente saltou alto demais para ser alcançado e pousou frente a frente com a jovem senhora feudal, mirando-a com olhos inquisitivos.

— Oyakata-sama! Cuidado! Não deixarei que esse monstro a machuque!

Um soldado partiu para cima do daiyokai com um golpe de cima para baixo, apenas para ter a espada aparada no ar pela própria mão do inimigo, que segurava a lâmina sem nenhuma dificuldade ou avaria. Sesshomaru o puxou com espada e tudo, arremessando-o contra outro soldado que vinha tentando lhe golpear pelo outro lado.

— Seus soldados são fracos e precipitados. – concluiu ele para a mulher.

Imediatamente depois viu-se obrigado a fazer um salto amplo para trás, evitando a larga onda de energia espiritual que subitamente irrompeu à sua frente. Aquele fora o rastro de um golpe desferido à queima-roupa pela própria daimyo, cercada por uma aura faiscante, que após silenciar a ofensa do daiyokai aos seus soldados, embainhou novamente a espada.

— Percebo. Diferente destes soldados, não és uma humana ordinária. – ele constatou, não apenas pela energia espiritual poderosa que ela emanara, mas também ao observar a exoticidade da empunhadura e da bainha da espada que ela trazia na cintura.

— E nem tola. O que aconteceu realmente em Gokaida? – ela inquiriu, impaciente ao se lembrar das mais de duas centenas de vidas perdidas, sem receber resposta.

— Oyakata-sama! Você está bem?! – o comandante veio correndo em direção da mulher, junto com mais um punhado de soldados. Pararam entre Sesshomaru e a dupla de humanos, com as espadas apontadas para o primeiro – Maldito yokai! Vamos queimá-lo vivo pelo que fizera àqueles civis inocentes!

— Parece que apanharam o algoz errado, meu caro. – Takashi disse, com um sorriso tranquilo.

— Nani?!

— Olhe bem. Não há marcas de confronto ou sequer de sangue neste yokai. – o conselheiro observou, convidando o soldado a olhar Sesshomaru de baixo a cima e perceber que, realmente, não havia sequer sujeira naqueles trajes completamente claros. – Além disso, logo se vê que vocês seriam incapazes de contê-lo. Por que ele exterminaria civis inocentes, mas pouparia os soldados?

— Isso.. é...

— Nogitsune. – a voz grave de Sesshomaru ressoou, de onde ele se postava imóvel. – Este é o nome do yokai que procuram. Ele já havia liquidado a vila e os humanos quando cheguei.

— Nogitsune?! – a informação espantara Sakuya, que então abaixou o olhar, pensativa – Entendo... Então, é este persistente quem está atacando nossas vilas abastecedoras.

— Ainda assim, deixara-se capturar intencionalmente, não é mesmo? – Takashi questionou, fitando o príncipe de maneira sagaz – Sesshomaru... correto?

— Conhecem-me? – o daiyokai inquiriu, franzindo o cenho.

— Toda a cúpula de Kitami conhece o seu nome e o de seu grandioso pai. Embora já façam muitos e muitos anos desde que o último yokai cão tenha sido visto por estas terras. – a daimyo respondeu, em seguida gesticulando para os soldados, que hesitantes abriram um caminho entre ela e o forasteiro. – Deixara-se capturar para ser trazido ao castelo? Bem, eu sou Sakagama Sakuya, senhora de Kitami. Soujiro era o meu pentavô. O que deseja, afinal?

— Meidenkai.

Sakuya abriu mais os olhos quando a criatura em forma de homem entonara aquela peculiar palavra. Takashi por sua vez franziu o cenho, olhando a daimyo com os cantos dos olhos e de maneira suspeita. Os soldados permaneciam imóveis, em posição de defesa e com as armas apontadas para o invasor.

— Meidenkai, é o que busco. – ele repetiu, com sua velha e inabalável serenidade — Uma antiga posse de meu pai, vista por último nas mãos de seu pentavô. Onde está?

— Meidenkai? O que será isso...? – ouviu-se os cochichos dos soldados entre si, e apenas isso.

— Oyakata-sama! Prendemos mais um invasor!

O anúncio rompendo o silêncio sombrio era um outro soldado. Dois dos vários guardas que Sesshomaru vira vigiando as muralhas do castelo se aproximaram, com suas roupas chamuscadas, trazendo um familiar diabrete verde amarrado em pelo menos dois quilos de corda, mas abraçado firmemente ao seu cajado de duas cabeças.

— Sesshomaru-sama! Perdão! Mil perdões! – Jaken se debatia.

— Jaken. Está cada vez mais desobediente. – o lorde disse, simplesmente.

— Perdão, Sesshomaru-sama! — Jaken, com olhos gigantes e cheios de lágrimas – Quando vi os humanos o carregando numa gaiola, tão abatido, triste e mais magro, logo soube que precisava ajudá-lo. Mas fui capturado enquanto passava os muros do castelo! Malditos mortais!

— Achou que eu precisava de ajuda para lidar com meros humanos? – Sesshomaru o olhou com os cantos dos olhos, nada amigável.

— Oh... isso... é... eu não... Sesshomaru-sama! Não foi o que eu quiz dizer!

— Onde está A-un?

— Bem, ele está...

O diabrete olhou para cima, imitado por Sesshomaru e todos os demais no pátio. E lá estava o dragão alado de duas cabeças, flutuando em sua nuvem azul a seguros metros de mãos alheias, observando pacificamente a aglomeração lá embaixo.

— YOKAI!! – os soldados se agitaram e começaram a lançar espadas, lanças, pedras, paus e chinelos para cima – Capturem ele!!! Não deixem que ele destrua o castelo!

— “Inacreditável...” – Sakuya, com a mão espalmada na própria face, sem saber qual soldado socar primeiro. Então buscou o conselheiro ao seu lado, apenas para notar que ele havia desaparecido — Takashi...?

— Covardes! Parem de machucar A-un! – Jaken gritou e se debateu, enquanto A-un apenas expirou forte, assistindo o único chinelo que passou perto de atingi-lo ir parar sobre o telhado do castelo.

— Eles são demais para nós! Chamem reforços! – o comandante, desesperado.

~¤~

— Huhuhu... Kamatari-sama, onde está? Trago ótimas notícias!

A voz estridente do yokai raposa retumbou por entre as paredes de madeira, conforme a névoa vermelha seguia percurso por entre os finos corredores. Ao se aproximar de um aposento específico, cujas paredes externas traziam gravuras de dragões em diferentes cenários de guerra, a fusuma [6] deslizou, convidando a sua passagem. Ali dentro, Nogitsune pôde vislumbrar a sombra de seu mestre, sentado de costas para a entrada, envolto na escuridão que tanto lhe aprazia. Vagarosamente o yokai raposa abandonou a sua forma etérea e se materializou.

— Você demorou, Nogitsune. Estava... preocupado. – a voz extremamente gentil preencheu o ambiente. Embora ela fosse um tanto cálida, de alguma forma aquele aposento parecera ter ficado um pouco mais frio.

— Perdão, mestre. Fui atrapalhado por um maldito yokai cão. Mas lidei com ele e realizei a missão que me deu com sucesso!

— Yokai cão? – Kamatari pareceu emitir um riso descontraído. – E quem seria este ser tão poderoso a ponto de roubar o tempo da minha mais eficiente raposa?

— Sesshomaru é o nome dele, meu amado mestre. Um infeliz cheio de pose que acha que manda nestas terras! – Nogitsune, com o ego inflado pelo reconhecimento do amo, respondeu cheio de escárnio.

— Sesshomaru, o yokai cão... – subitamente, o suserano misterioso envelopado pelas sombras pareceu pensativo. – Não seria este o filho de Inutaishou, o famoso daiyokai que governava as terras do Oeste?

— Sim, mestre. É este mesmo, o safado arrogante. – Nogitsune rangeu os dentes e mostrou as garras trêmulas e afiadas. – Minha vontade era de arrancar pedaço por pedaço daquele maldito homenzinho, deixá-lo sangrar até morrer, e então devorá-lo!

— Entendo. – Kamatari respondeu simplesmente. – Ah, ouvi você dizer que lidou com ele? Se me permite a curiosidade... como?

— Numa cartada de mestre, meu amo! — um sorriso cheio de presas se desenhou na boca da criatura, que regozijava sua vitória — Enquanto surrava o infeliz, soldados vieram checar a vila. Armei para que acreditassem que foi o cão que matou aqueles humanos. Enquanto fugia, pude vislumbrar aquele maldito sendo levado feito um carneiro numa gaiola. Neste exato momento ele deve estar frente a frente com aquela víbora. Se a fama dele for merecida, irá matá-la e seus soldadinhos num único golpe!

— E apenas isso?

— Sim. – Nogitsune olhou para cima, pensativo, enquanto roçava as garras umas nas outras – Curioso. Lembrei agora que, antes de eu começar a surrá-lo, ele me perguntou onde estava o castelo de Kitami...

— Então você facilitou a busca dele.

— Ah!? – Nogitsune pulou num sobressalto. – Como assim, m-mestre?

— Ora... – o yokai raposa teve a impressão de que o seu mestre sorria – Se ele estava à procura do castelo, por que não se deixar guiar pelos próprios soldados? Ou... por acaso, eles o levaram para outro local?

— N-não, mestre. Eu... eu ouvi bem quando disseram que o levariam ao castelo p-para ser interrogado...

Um silêncio sepulcral preencheu os ares do aposento, causando um calafrio sombrio pelo corpo da raposa, que agora via o seu erro. Um temor sutil lhe espetou, contudo, quando viu a sombra de seu comandante se erguer do confortável assento. Kamatari permanecera imóvel e de costas.

— Conhece algo sobre a história da família Sakagama, minha cara raposa?

— ......

— Mas que bobagem a minha. É claro que conhece. Meus servos são prudentes e se munem de informações a respeito dos meus inimigos, afinal. — ele disse, com sua suavidade imutável. – Com certeza, sabe que houve um ponto da história em que o senhor feudal de Kitami serviu fielmente Inutaishou, o Grande Cão do Oeste. E como eram ferozes... Venceram todas as batalhas que travaram juntos.

— H-hum...

— Mas isto, felizmente, foi no passado. – novamente, a raposa teve a impressão de ver seu mestre sorrir. – Imagine o quão danoso para nós seria... se esta aliança ainda existisse nos dias de hoje? Se por algum milagre do destino... ou pelo empurrão de alguém, é claro – um outro arrepio gélido irrompeu pela carne de Nogitsune ao ler as entrelinhas do que era dito – nossos inimigos,. os resistentes Sakagama, que impedem a nossa entrada nesta terra... conseguissem como aliado um daiyokai tão ou mais poderoso do que Inutaishou.

— M-mestre... eu-

— Seria uma grande inconveniência. Não acha?

Nogitsune abriu a boca para tentar espremer uma resposta. Antes que conseguisse, contudo, fora surpreendido por uma sombra e um par de olhos vermelhos que subitamente avançaram em sua direção com a velocidade de um raio. Sentiu suas costas se chocarem violentamente contra a parede de madeira atrás de si, e as farpas que se romperam penetraram em sua carne. Entretanto, a dor lascinante que sentia vinha do que parecia ser uma comprida lâmina que agora estava completamente atravessada em seu abdômen, empalando-o por completo e o mantendo preso à parede. Uma energia demoníaca faíscava desta lâmina, paralisando os seus movimentos a ponto de sequer conseguir gritar. Sangue e fumaça vermelha escorriam do ferimento.

— Minha perspicaz raposa... – a sombra de Kamatari agora fitava o servo de muito perto, com apenas os dois olhos vermelhos visíveis, regados de fúria, fulminando-o de perto. A voz suave agora transbordava o mais genuíno desprezo. — Você sabe o que tem de fazer. Não sabe?

— K-Ka... ma... tari-sama! P... perdão! E.. eu sei...

— Sabe? Estou inseguro...

— D-des... truir... o... o inimi... go...

— Ótimo. – a lâmina deslizou lentamente para fora da carne do yokai, que caiu de joelhos no chão, aliviado com o cessar da eneria demoníaca eletrocutando o seu corpo. – Vá, então. Espero sempre as melhores notícias de ti, meu caro Nogitsune.

— Kamatari-sama!! Espere por mim!

Nogitsune choramingou, com as mãos pressionando firmemente o ferimento no abdômen, se levantando e correndo aos tropeços para fora do aposento. Com a sua sonora partida, uma outra sombra emergiu no aposento.

— Acha que ele será capaz de reparar o erro? – uma voz feminina e grave retumbou desta vez, em tom duvidoso.

— Ah... Sesshomaru o retalhará antes mesmo que ele diga duas palavras.

— Sesshomaru... Acredita mesmo que ele possa se aliar a Kitami, ou nos atrapalhar de qualquer forma? O sujeito é um nômade, persegue seus próprios interesses e despreza humanos.

— É sempre bom se precaver. Não sei o que ele pretende no castelo. – a sombra de Kamatari voltara a se sentar, e o seu tom de voz permanecia inabalavelmente tranquilo – Ouvi dizer que lutou ao lado de humanos, e de seu irmão hanyo e bastardo inclusive, contra um inimigo recente...

— Ora, que inesperado. — ela riu — E o que pretende fazer?

— Nogitsune, minha pobre raposa, morrerá como gado... Mas levará alguns humanos consigo. – ele fez uma pausa, para depois sussurrar com algum deleite — Umanohiro, contudo, pode se mostrar mais... efetivo.

— Oh... Estou ansiosa para ver.

~¤~

— Peço desculpas pelo equívoco e pela forma hostil em demasia com a qual os soldados o trataram em Gokaida. São tempos difíceis. Como já deve ter percebido... estamos em guerra.

Sakuya explicou com suavidez, enquanto se sentava novamente ao chabudai. Ao seu comando, a harmonia retornara ao pátio. Os soldados, mesmo relutantes, haviam retornado às suas posições, deixando a daimyo, o daiyokai e o seu servo com relativa privacidade no grande pátio, acompanhados pelas brisas gélidas do inverno iminente.

— Contra Nogitsune, o yokai raposa? – perguntou o diabrete do cajado de duas cabeças.

— Nogitsune é apenas um lacaio da mente maligna por trás de tudo: Kamatari. – ela disse enquanto apanhava e agradecia o copo de chá que uma jovem lhe entregava. Assistiu-a direcionar inocentemente o mesmo ato a Sesshomaru, sendo solenemente ignorada. Suspirou e deu continuidade. — Este inimigo misterioso. Kamatari surgiu há alguns anos, invadindo as nossas praias. Não sabemos exatamente de onde vem. Ao que parece, ele deseja invadir o país a partir de Kitami e consolidar um império. Temos repelido seus lacaios com sucesso, mas com o inverno às nossas portas, nossos recursos estão comprometidos. E agora ele tem optado por outras abordagens. Gokaida, a vila destruída... Ela foi construída em torno da nossa principal mina de ferro. Os aldeões que lá viviam eram responsáveis por minerar e forjar a maior parte das armas que utilizamos. Com eles fora do cenário, nosso arsenal estará estagnado por algum tempo.

— E pensar que aquele monstro débil tentou culpar Sesshomaru-sama pelo massacre da vila!

— Nogitsune é tenaz. Ele provavelmente conhece a fama que o seu amo tem com relação a humanos e tentou semear hostilidade entre nós. – ela explicou com um meio sorriso compreensivo, apesar da constatação arriscada — Se devidamente perturbado, quanto tempo um daiyokai como Sesshomaru levaria para liquidar o exército junto com o castelo de Kitami? Isso simplificaria bastante a vida de Kamatari.

— Percebo! Que mente calculista e maligna. Mas não foi o suficiente para manipular o grande Sesshomaru-sama! – Jaken abaixou o tom de voz de repente, como se murmurasse um segredo – É verdade que Sesshomaru-sama não sente apreço por humanos, mas ultimamente ele tem se envolvido com eles mais do que- AGH! — e tomou um tapa.

— Infelizmente para ele, eu não tenho interesse em Kitami e nem em suas guerras. – pontuou Sesshomaru após punir o servo, repousando seu olhar dourado assertivo sobre a daimyo sentada – Meidenkai é o único assunto que me trouxe aqui.

— Ter estado por último na posse de meu pentavô é a única pista que tem sobre ele? — ela questionou.

— Silêncio. – ele ordenou, voltando o rosto numa direção específica, fitando com severidade os muros do pátio.

— Nani?! – Sakuya, irritada com grosseria.

— Seu inimigo yokai raposa está aqui.

O fedor da criatura, ainda encrustado ao de sangue humano, era inconfundível. Sakuya arregalou os olhos ante a revelação e, antes que pudesse esboçar outra reação, viu-se coberta pelo vulto branco, vermelho e preto do daiyokai, que colocara-se à sua frente para rebater um punhado de garras afiadas envoltas em energia demoníaca que foram lançadas em sua direção. Uma explosão sonora rompeu os muros do castelo, erguendo poeira e escombros, causando alvoroço e pânico nos soldados e civis.

— SESSHOMARU! – o grito estridente do yokai raposa trincou os ares – ONDE VOCÊ ESTÁ, TRASTE?! EU VIM TERMINAR O SERVIÇO!

continua...

Notas finais
[1] Oyakata: mestre, pessoa no comando, figura paterna, etc.

[2] Chabudai: mesas de pernas curtas utilizadas para sentar no chão, muito usadas para fazer refeições e reuniões.

[3] Zabuton: travesseiros usados para sentar, fazendo a vez de cadeira para chabudai.

[4] “Nani?”: “O que?”

[5] Daimyo: senhor feudal.

[6] Fusuma: painéis deslizantes que atuam como portas e paredes em construções japonesas antigas.