Algo para proteger

2 Duas metades de um artefato partido


— SESSHOMARU! – o grito estridente do yokai raposa trincou os ares – ONDE VOCÊ ESTÁ, TRASTE?! EU VIM TERMINAR O SERVIÇO!

Parte dos muros do castelo subitamente se romperam com uma sonora explosão, espalhando o pânico pelos presentes na edificação. Os soldados retornaram agitados, e desta vez em muito maior número, para encontrar todo o pátio frontal do castelo imerso em uma grande quantidade de poeira, fumaça vermelha, escombros e corpos mortos que outroram fora sentinelas dos muros. Servos do castelo também se concentraram nas entradas do pátio, atraídos pelo barulho e movimentação dos soldados.

Assim que a poeira erguida se dissipou, foi possível vislumbrar um punhado de matéria escura crescendo além do buraco aberto nos muros. Eram sombras, de algo que se aproximava com grande velocidade. A Lua abandonou seu esconderijo atrás das nuvens e irrompeu nos céus, emprestando a sua luz, e os soldados se aterrorizaram ante a visão grotesca do que é que transpassava o buraco nos muros e se desdobrava pelo pátio do castelo. Um amálgama de dezenas de yokais gigantes, das mais diversas e monstruosas formas, com fome de carne humana notável em seus urros.

Uma serpente em especial conseguiu avançar além dos demais yokais e se lançou diretamente na direção do comandante, pronta para devorá-lo. Um feixe ágil de luz rósea descendeu do ar diretamente sobre o pescoço da criatura, decepando a sua cabeça pouco antes que ela alcançasse o homem. Congelado em seu lugar e ainda agarrado à lança em posição de defesa, o comandante assistiu a senhora feudal que lhe salvou aterrissar no chão, com a espada reluzente em punho.

— Tranquem os civis dentro da sala de audiência,agora! – Sakuya urrou a ordem.

— HAI! – os soldados acataram e dez deles recuaram em busca dos civis.

— Vá com eles, Jaken. – disse o daiyokai de longos cabelos prateados que detinha o olhar atento sobre o buraco aberto nos muros, como se ainda esperasse algo mais além da horda de yokais surgir ali.

— Sesshoumaru-sama, permita-

— Vá, agora. – ele endureceu a ordem, semeando arrepios ácidos no servo.

— H-hai! – Jaken recuou – Ensine a eles uma boa lição, Sesshomaru-sama!

Sesshomaru assistiu com os cantos dos olhos Jaken desaparecer em meio à multidão em pânico que era conduzida e trancada pelos soldados no interior de um grande cômodo. A despeito da vontade fervorosa que o diabrete tinha de lutar ao seu lado, aquela fumaça vermelha certamente seria demais para ele. Então ele finalmente sentiu a aproximação do inimigo que outrora urrara seu nome. Firmou os pés no chão e virou o rosto para cima, vendo a raposa logo acima de si.

— Te peguei! – Nogitsune riu.

— Sesshomaru!!

Do outro lado do pátio, imersa em sua própria batalha ao lado dos soldados contra os yokais, Sakuya gritou ao vislumbrar a criatura vestida em kimono amarelo e vermelho despencar sobre o daiyokai com todo o peso e força que tinha, chocando-se contra ele e enfiando-se com ele dentro de um buraco cavado com o impacto. Antes que ela pudesse ir em seu suposto auxílio, ouviu seus soldados tossindo. Encontrou-os cercados pela névoa vermelha. Sakuya, também, começou a sentir dificuldades para respirar.

— Esta fumaça vermelha é venenosa! Fiquem perto de mim!

Ela ordenou conforme uma aura rósea poderosa envelopou o seu corpo. A energia emitida pela daimyo começou a purificar os seus arredores, e os soldados viram-se livres da fumaça e seus efeitos sufocantes. Mais criaturas famintas saltaram sobre eles, tragando Sakuya e os soldados de volta para a batalha.

Contudo, a preocupação dela com o daiyokai mostrara-se infundada assim que ela perscrutara Nogitsune ser projetado para cima, carregado no ar por Sesshomaru, que o segurava firmemente pelo pescoço, com a mão direita e suas garras afundadas na carne da raposa. Fizeram um arco no ar para depois cair, em alta velocidade. Nogitsune emitiu um gemido gutural ao sentir suas costas, já previamente feridas no encontro com Kamatari, baterem violentamente contra o mesmo chão onde outrora empurrara Sesshomaru. As garras do daiyokai e sua força descomunal impediram o grito de sair de sua garganta.

— Mal... di... to...!

— Devia ter se mantido no seu esconderijo. Yokais fracos como você nunca aprendem. – Sesshomaru concluiu, enquanto a outra mão emanava névoa verde venenosa por entre os dedos, pronta para ser usada.

— Cale-se!! – a raposa trovejou.

Sesshomaru despejou seu veneno corrosivo sobre a raposa, que em resposta gritou de dor, sentindo a pele de sua face e pescoço queimarem e dissolverem. Antes que eles fossem consumidos por completo, o invasor se transformou em névoa e se materializou novamente sobre Sesshomaru, desferindo um golpe com as grandes garras visando suas costas. O daiyokai girou em seu eixo, bloqueando o golpe com o antebraço nu, que recebeu um talho menos profundo do que Nogitsune esperava. Em resposta, a raposa recebera um soco potente, que quase esmagara seu peito. Trocaram mais alguns golpes, até que Nogitsune conseguiu agarrar o daiyokai pelas roupas e então o arremessou contra uma parte da edificação do castelo. Sesshomaru fez um giro no ar e caiu derrapando de costas, brecando antes que atingisse as paredes do cômodo onde estavam os civis e as partisse no impacto.

— Hahaha... percebo! É aí onde esconderam os malditos humanos... – Nogitsune, ferido e com metade da face e pescoço corroídos, constatou ao perceber o cuidado de Sesshomaru para não danificar aquela parte específica do campo de batalha. Recebeu como resposta do daiyokai apenas um olhar franzido e mais taciturno do que de costume, o que confirmou suas suspeitas. – Pois, que se dane!! Se eu não posso derrotá-lo, irei levar os malditos trastes deste castelo comigo!

Ele esganiçou enquanto já saltava muito alto. Uma saraivada de garras grandes e cortantes fora desferida na direção do cômodo, como uma chuva de lâminas curvas.

— Bakusaiga!

Sabendo que não teria como deter aquela extensa nuvem de lâminas apenas com o chicote de luz como da outra vez, Sesshomaru buscou a empunhadura da espada até então silenciosa em sua cintura, puxando-a e já desferindo um único e vasto golpe. O rastro verde de energia deixado pela lâmina atingiu e consumiu completamente a grande maioria das garras, enquanto as que restavam bateram contra o corpo sólido do próprio daiyokai, produzindo alguns danos os quais ele ignorou. Mas isto não era tudo. Ainda no ar, Nogitsune emitiu um forte brilho vermelho, que intensificou potencialmente a densidade e força da névoa vermelha que tomava os ares do castelo.

Entrementes, Sakuya e os soldados lutavam para exterminar a horda de yokais que invadira o castelo no rastro de Nogitsune. Todavia, após retalharem mais um punhado das criaturas, um estranho torpor atingiu Sakuya, abalando por um segundo a força da sua aura purificadora. Nos breves segundos de pausa que tivera entre um inimigo e outro, a mulher olhou sua mão que segurava firme a empunhadura da espada, percebendo-a levemente desfocada.

— “Eu me sinto... com sono...?” – A daimyo franziu o cenho, sem entender de onde vinha a sensação. Certamente não era da fumaça vermelha, e nem da energia demoníaca de nenhum dos outros yokais invasores. Não, era muito mais simples do que isso. Ela então abriu mais os olhos, lembrando-se de algo. — “Aquele chá...”

O chá que a serva lhe servira no pátio, minutos atrás. Mas antes que pudesse dedicar mais raciocínio sobre isso, vislumbrou o intenso brilho vermelho do yokai raposa no ar, e a névoa que se intensificara. Sakuya apertou a mão na empunhadura da espada, àquele ponto sentindo dificuldades para manter a aura purificadora e lutar ao mesmo tempo. Perscrutou em volta, vendo os seus primeiros soldados caírem para as garras e presas dos yokais invasores. Outros deles caíam de joelho sem motivo aparente, com uma mão na cabeça, e outros bocejavam forte. Eles também sentiam a mesma sonolência que ela. Raiva subitamente eclodiu por suas veias e a daimyo então cravou a espada no chão, segurando firmemente a sua empunhadura com as duas mãos. Ela se concentrou, e a aura rósea envelopando seu corpo queimou com mais ardor, sendo também transferida para o chão através da lâmina. Logo, o chão do pátio fora forrado pela energia espiritual, pulverizando alguns yokais mais fracos, mas principalmente mantendo aquela fumaça vermelha sob controle.

Sesshomaru olhou para baixo, vendo a colcha de energia rósea se aproximar seus pés e então dedicou um olhar de canto para a daimyo do outro lado do pátio, percebendo que ela purificava a névoa de Nogitsune, mas parecia abatida de alguma forma. Ele saltou para cima do telhado do castelo antes que a energia purificadora o tocasse e então desviou o olhar de volta para o seu oponente. Também evitando o chão, Nogitsune aterrissou no mesmo telhado que Sesshomaru. Estava visivelmente exausto e coberto em seu próprio sangue preto, que minava das feridas abertas em seu corpo pelo daiyokai.

— Está olhando o quê, traste?!?! Eu sou seu oponente!! – Enfurecido, a raposa avançou contra o daiyokai de cabelos prateados, com suas garras novamente a mostra e sedentas por sangue.

— Você é apenas um incômodo. Morra de uma vez! – Finalmente impaciente com aquela criatura fraca e insistente, Sesshomaru empunhou Bakusaiga e se lançou na direção dele, encontrando-o no ar.

...

— Pobre Nogitsune. Tão fraco, tão problemático, e além de tudo abandonado por nosso mestre...

Sobre um galho alto de uma das milhares de árvores na selva em volta do castelo, a yokai em forma humana que outrora conversara com Kamatari em seus aposentos assistia a batalha que fervia no interior do castelo. Suas características mais marcantes, e macabras, eram o longo cabelo preto e liso que facilmente alcançava os seus calcanhares, e o único olho gigante que jazia no centro de seu rosto, acompanhado apenas de uma boca. Aquele olho podia enxergar com precisão a longos quilômetros de distância, permitindo que a yokai observasse todo o confronto a uma distância segura, inalcançável até mesmo pelo olfato apurado do daiyokai cão.

— Eu sinto muito, Nogitsune. – Ela abriu a mão, feita de cinco dedos extremamente longos e pontudos. Uma esfera de energia roxa surgiu flutuando acima de sua palma. A yokai então a soprou, e a esfera disparou na direção do castelo com uma velocidade ímpar. – Você ia morrer de qualquer forma. Eu não pude resistir. Huhuhu...

...

Um único golpe fora suficiente para pontuar a raposa. A lâmina larga de Bakusaiga rasgou o seu abdômen no ar, e Nogitsune caiu rolando no telhado, com seu sangue escuro jorrando. Sesshomaru pousou graciosamente na outra extremidade, embainhando a espada e virando-se para ver o seu inimigo derrotado.

— N-não... pode... ser...! – Agonizando, Nogitsune trouxe a mão trêmula para o seu abdômen, sentindo a energia verde da espada de Sesshomaru se espalhando e consumindo a sua carne. Ele cospiu sangue. – F-fui... derrota... do... por um... maldito cão... Kamatari-sama! Me salve!

— Isso foi uma grande perda de tempo. – Desinteressado em assistir o seu oponente gastar seus últimos momentos com patéticos pedidos de misericórdia, Sesshomaru eventualmente deu as costas e pôs-se a andar pelo telhado até onde poderia descer de volta para o pátio. Contudo, uma súbita energia demoníaca nova e poderosa o fez expandir o olhar e virar-se novamente para a raposa, em alerta.

— Mas o que?! Ka... Kamatari-sama!!!

Nogitsune implorou pela última vez antes que uma esfera púrpura de energia se chocasse rapidamente contra ele, se alojando em sua carne. Uma dor lascinante o preencheu, e aos berros, a raposa foi erguida lentamente no ar por alguma força invisível. Diversos soldados no pátio, incluindo Sakuya, pausaram a sua luta para ver com surpresa aquele corpo ferido e brilhante flutuando sobre o castelo. Uma energia púrpura, poderosa e macabra começou a envolvê-lo. O corpo de Nogitsune começou a inchar.

— Vai explodir!!! – o comandante humano anunciou.

Sesshomaru saltou amplamente para trás, tomando uma distância segura da raposa em dilatação. Imediatamente depois, veio a explosão. A esfera consumira o que sobrara de energia vital e demoníaca de Nogitsune e usara seu corpo para espalhar uma onda de energia devastadora e uma fumaça roxa sobre o castelo. A estrutura foi abalada. Os yokais invasores e parte dos jardins foram pulverizados ao contato. Enquanto se esforçava para manter a energia espiritual fluindo pelo chão, Sakuya ainda conseguiu erguer uma bolha protetora no último segundo antes dela e os soldados serem atingidos. A barreira fora rapidamente destruída, mas absorvera com sucesso a grande maior parte perigosa da energia demoníaca. Esgotada, e sem mais inimigos em vista no castelo, a daimyo recolheu a sua energia. Apoiou o peso de seu corpo na espada, sentindo o suor verter em seu rosto, fechando os olhos.

— I-isso é... – um soldado não completou a frase, caindo inconsciente no chão.

— M... miasma... – o comandante concluiu, caindo de joelhos atordoado no chão, imitado por dezenas de outros soldados.

Eles haviam inalado o pouco que restou daquela fumaça roxa, embora não fosse o suficiente para matá-los imediatamente. Os soldados caíram exaustos um a um. A fumaça também se dissipou.

Aparentemente, estavam livres de inimigos.

— Os civis... – preocupado, um soldado próximo ao cômodo cambaleou até a sala de audiência e se jogou nas trancas da porta.

O coração da daimyo falhou uma batida ao imaginar que a fumaça vermelha de Nogitsune e o miasma pudessem ter penetrado sala de audiência pelas frestas das portas e paredes. Entretanto, alívio. As portas se abriram, revelando um punhado de cipós, folhas verdes e galhos de árvores. Estavam emaranhados ali dentro de tal forma que nada poderia adentrar o cômodo, nem mesmo fumaça. Uma verdadeira cúpula verde.

— Shinriumaru... – Sakuya murmurou, orgulhosa do misterioso dono daqueles galhos.

Vagarosamente, os galhos e cipós encolheram e a cúpula verde se desfez, revelando os civis apavorados e espremidos entre si, porém intocados e a salvo.

— Sesshomaru-sama! – percebendo que já não haviam mais ameaças próximas, Jaken saltou para fora da aglomeração de humanos e correu até o seu mestre no pátio.

Sesshomaru permanecia no local para onde havia saltado para se proteger da explosão. A energia devastadora havia lhe conferido alguns ferimentos ocultos, nada digno de preocupação, e o miasma aparentemente não fizeram efeito algum nele.

— Como esperado de Sesshoumaru-sama, nenhum arranhão. Eu me preocupei a toa. — Ele então se encolheu ao receber um olhar de canto sério, embora pacífico, do daiyokai. — N-não que eu esteja insinuando que eu tivesse motivos para me preocupar, claro...

Sesshomaru fitou Jaken ainda por alguns segundos, ignorando as tentativas do assustado diabrete de se justificar. Ao constatar que ele não estava ferido, desviou o olhar de volta para um ponto específico no chão à sua frente.

— Sesshomaru-sama, esse é...! – Jaken acompanhou o olhar de seu mestre e teve uma surpresa com o que encontrou.

Estirado no chão a algumas polegadas dos pés de Sesshomaru, estavam os restos de Nogitsune. Apenas a sua cabeça, metade do torso e um braço sobraram de seu corpo depois da explosão, e completamente escoriados. A poça viscosa de sangue preto crescia embaixo dele. Vários outros pedaços de suas entranhas jaziam jogados à sua volta. Uma visão que certamente causaria pesadelos e náuseas em todos aqueles humanos por algum tempo.

— Aquela explosão. Ela fora causada por uma energia demoníaca diferente da sua. – O daiyokai constatou para os restos de Nogitsune à sua frente.

— Yumi... ko... Aquela maldi...ta... – Nogitsune balbuciou enquanto vomitava sangue incessantemente, exigindo mais do que podia das cordas vocais lasceradas.

— Yumiko? – ele questionou.

— Kamatari...sama... Por que... me traiu?

Sesshomaru não insistiu na pergunta, sabendo que era inútil. De qualquer forma, já estava ciente de que existia uma criatura chamada Yumiko capaz de injetar sua energia demoníaca em outros seres e fazê-los explodir para maximizar os seus efeitos destrutivos. Então ouviu passos vacilantes atrás de si. Sakuya veio de encontro ao trio, visivelmente exausta, porém determinada. Ela se abaixou com um joelho no chão ao lado dos restos do yokai raposa.

— Seu mestre o traiu, Nogitsune. – Ela disse, com um misto de raiva e benevolência na voz e no olhar ao falar com o yokai responsável por tantas vidas torturadas e perdidas em sua província. — Onde está Kamatari? O que ele pretende a seguir? Diga-me, e eu prometo fazer justiça à sua traição.

— Tola... Hahaha... — Nogitsune riu, para então regurjitar mais sangue e fumaça vermelha, inofensiva. – Kamatari... Ninguém é páreo para ele... desde que pôs suas mãos em... M-Meidenkai...

— Nani? [1] — Sesshoumaru endureceu o olhar ao ouvir aquela revelação. Desgostou-se ainda mais ao perceber que não poderia interrogar o yokai da maneira que achava mais prática. Ele já estava agonizando para morrer, afinal. — Meidenkai está nas mãos do seu maldito mestre?

— Hahaha... sua família falhou em... proteger Meidenkai... mulher... – Ele esganiçou, fazendo com que o olhar sombrio de Sesshomaru caísse agora sobre Sakuya, abaixada ao lado dos restos do yokai raposa sem esboçar qualquer reação aparente. – Tome cuidado... com... Umano... hiro...

— Umanohiro?

Sakuya não obteria resposta. Nogitsune tossiu pela última vez, e seus olhos vermelhos de violência se reviraram, anunciando o seu fim de suas carnificinas. O que restava de seu corpo se transformou em cinzas, e logo Sesshomaru, Jaken e Sakuya se viram em volta de nada mais do que uma poça fétida de sangue. A daimyo fechou os olhos, tentando apaziguar um misto de sentimentos que a invadiu. Sobre tudo a preocupação pela forma como a notícia sobre Meidenkai chegara aos ouvidos de Sesshomaru, antes que ela tivesse a oportunidade de explicar pessoalmente ou mesmo tentar manter o segredo.

— Sesshomaru, — Ela chamou, enquanto se levantava devagar. – O que você ouviu-

Uma súbita pressão em sua garganta interrompeu as palavras da daimyo. Ela arregalou os olhos ao se encontrar erguida no ar pelo braço direito do daiyokai de lua pintada na fronte, cuja mão segurava e apertava seu pescoço com o mesmo rancor evidente no olhar dourado reluzente e mortal. Sesshomaru ouviu um soldado tentar se aproximar aos tropeços para intervir, e o repeliu violentamente para longe com um simples movimento com o outro braço. Os demais soldados não tentaram: estavam no chão, lutando para manter a consciência após os efeitos do miasma.

— Você tentou me distrair. — Ele acusou com gélida calma, afiando ainda mais o olhar mortal com o qual fulminava a mulher de perto. – Seja assertiva, enquanto ainda estou sendo benevolente. O que sabe sobre Meidenkai? E por que ele está nas mãos do invasor?

— Apenas... uma... par... te...

— Faça sentido, mulher. – Ele comandou com severidade, fechando ainda mais os dedos em torno do pescoço humano, que ele por um momento esquecera que ser mais vulnerável do que aqueles de yokais.

— Não consigo... respirar...

— Mãe!!!

Uma voz e um cheiro diferente chamaram a atenção de Sesshomaru, que voltou um olhar de canto sombrio para a pequena figura que se aproximava correndo. Um menino de aproximadamente oito anos de idade, vestido em trajes civis finos da alta sociedade. Tinha características marcantes: seu cabelo era longo e verde, com alguns finos cipós brotando de sua cabeça que pareciam tranças em meio às madeixas; seus olhos eram de um lilás intenso e brilhante; seus dedos eram feitos de carne e madeira, mas de alguma forma flexíveis o suficiente para se moverem como dedos humanos; algumas folhas verdes protuberavam de sua pele para fora das mangas da camisa que ele usava. Mas o principal atributo que Sesshomaru logo identificou pelo cheiro de seu sangue: era um hanyo. Um meio yokai que trazia características de plantas.

— Sesshomaru-sama, — Jaken, que até então observava silente, informou – Este é o garoto que criou a cúpula protetora para os humanos na sala de audiência onde eu também estava. A princípio achei que fosse forte, mas... é apenas um hanyo.

— Ponha minha mãe no chão, seu covarde! – O menino ralhou, com evidente misto de medo e raiva, parado próximo a Sesshomaru com os punhos fechados e ameaçadores.

— Oh? E o que fará se eu não colocar? – Sesshomaru questionou com frieza.

Irritado com a resposta que recebera, o garoto parecera despir-se da parcela de medo que sentia e apontou as mãos para o homem de longos cabelos prateados. Cipós emergiram das mangas de sua camisa e chicotearam o braço de Sesshomaru com toda a força que tinha... que não seria suficiente para arranhar sequer humanos, concluiu o daiyokai. O garoto o chicoteou freneticamente até esgotar suas energias e então caiu de joelhos, exausto. Sesshomaru suavizou o olhar, voltando-o para a mulher que ainda segurava no ar, percebendo finalmente os tons azulados em sua face. Ele abriu a mão e recolheu o braço, deixando que ela caísse sentada no chão, tossindo.

— Responda as minhas perguntas. – Ele ordenou enquanto a olhava de cima, ainda taciturno e com ar superior, mas aparentemente mais calmo. Fez um salto pequeno para trás, se esquivando de um feixe de energia rósea espiritual que acabou acertando Jaken em seu lugar. O diabrete caiu, inconsciente e eletrocutado. – Oh. Vejo que após todo o confronto, ainda tem disposição para lutar.

— Eu pretendia manter segredo de ti, confesso. — Admitiu a mulher, com seu olhar apontado para Sesshomaru como uma lâmina, enquanto ainda recuperava o fôlego. Ela estendeu o braço para o lado e puxou o garoto para si em um abraço de lado, confortando-o. – Não o conheço, senão pela fama que o seu nome carrega. Não sabia se era digno de por suas mãos em Meidenkai. Mas Nogitsune... complicou os meus planos.

— Esta mulher, é inacreditável! Chamando Sesshoumaru-sama de indigno! – Jaken reclamou, se levantando após se recuperar do choque.

— Silêncio, Jaken.

— Meidenkai... – Ela começou, levantando devagar e apoiada no pequeno hanyo. – A poderosa relíquia que seu grandioso pai confiou a meu ancestral, Soujiro. Desde então, ela tem sido passada de geração em geração pela família Sakagama, sendo guardada pessoalmente pelos lordes de Kitami. E temos de fato desempenhado a tarefa com afinco... até, infelizmente, Meidenkai acabar partido ao meio durante uma luta entre Kamatari e meu pai, há muitos anos atrás. – Ela fez uma pausa para checar a reação de Sesshomaru. Ele apenas a fitava diretamente, taciturno quanto às revelações, mas sem esboçar qualquer movimento ou palavra. Era um ser misterioso, reconhecia. Ela continuou. — Naquela época, Kamatari era um simples humano, com tropas humanas em suas fileiras lutando contra nós. Meu pai o derrotou e expulsou, mas ele conseguiu levar a metade de Meidenkai. Apenas recentemente ele retornara, trazendo consigo uma horda de yokais como Nogitsune sob seu comando. Tenho certeza que Meidenkai está relacionado a isso de alguma forma.

— E onde está a outra metade? – Sesshomaru inquiriu. – Eu a levarei comigo, e depois irei até Kamatari recuperar a metade que ele raptou.

Mediante a pergunta, Sakuya suavizou suas feições. Seu olhar se perdeu em algum ponto na face do daiyokai. Em um intervalo de poucos segundos, a daimyo pareceu imergir em um abismo profundo de pensamentos e então retornar para lhe dar uma resposta em tom solene.

— Está a salvo. E eu a entregarei para ti... se me ajudar a derrotar Kamatari e sua horda infernal.

Silêncio recaiu como um manto de escuridão sobre o quarteto. Sesshomaru estreitou o olhar sobre a imagem da mulher abraçada à criança em sua perna, notoriamente esgotada de suas forças, mas ainda disposta o suficiente para tecer propostas a um daiyokai que não conhecia. A atitude não pareceu surpreendê-lo. Meidenkai estava em sua família há mais de dois séculos, afinal. O poder do artefato provavelmente rendera benefícios imensuráveis àqueles humanos. Seria ingenuidade assumir que ela o entregaria sem alguma resistência, mesmo diante de uma ameaça plausível. Ela já mostrara que não era covarde, como a maioria dos outros humanos, influentes ou não, que cruzaram o seu caminho.

— Naniii?! — Jaken foi o primeiro a se manifestar, rompendo o silêncio após angustiantes segundos. Deu um passo a frente e apontou o dedo para a daimyo. – Como se atreve a tentar comprar Sesshoumaru-sama com uma posse do grandioso pai dele? Ele é o herdeiro de Meidenkai por direito!

— E é por isso que eu concordo em entregá-lo de bom grado, se o teu mestre concordar com os meus termos.

— Ele não irá concordar! – O diabrete garantiu, para então exibir um sorriso maligno e calculista. — Você é apenas uma humana. Um daiyokai como Sesshomaru-sama... possui vários recursos à sua disposição para fazê-la falar onde está a outra parte de Meidenkai.

Jaken percebeu a efetividade de suas palavras quando a expressão facial de Sakuya enegreceu após ouvi-lo. A mulher instintivamente comprimiu mais o braço em torno do hanyo de maneira protetora, e voltou a olhar para o daiyokai, que permanecia inexpressivo e silente. Ela observou seu rosto de maneira assertiva e direta por algum tempo, em busca de reações que não apareceram, fosse para contradizer ou corroborar a ameaça velada de Jaken. A aparente indiferença de Sesshomaru não exatamente lhe confortava. Mas também lhe dava uma ponta de otimismo.

— Kitami e eu... somos as únicas barreiras que impedem que Kamatari avance pelas terras e espalhe a sua carnificina por todo o império. As terras do Oeste que seu grandioso Pai dedicou a vida a proteger, elas certamente têm algum valor para ti. — Sesshomaru reconheceu aquele sentimento encrustado no tom de voz da daimyo, em seu olhar expandido e atento voltado para ele, na pequena veia pulsante em sua garganta. Medo. Mas também havia determinação e esperança. Bastante dela. Sakuya era, de fato, uma figura bastante humana. — Por favor, ajude-me a derrotar esse inimigo ardiloso. A impedir que mais vilas como Gokaida e vidas inocentes sejam dizimadas como gado porque alguém deseja mais poder. O inverno não vai tardar a chegar. Meus suprimentos estão escassos e comprometidos. Meu arsenal, como sabe, estará estagnado até que eu desloque outros trabalhadores para a mina de ferro, se Kamatari já não tiver se apoderado dela. Grande parte dos meus soldados estará incapacitada de lutar por suas terras, suas vidas e suas famílias enquanto isso. Eu não sei até quando meu exército irá resistir às investidas. Minhas perspectivas não são otimistas. Mas se me ajudar... Se me emprestar a sua força, apenas neste momento, tenho certeza de que a vitória estará do nosso lado. E quando Kamatari finalmente desaparecer deste mundo, eu unirei as duas metades de Meidenkai e o entregarei para ti sem colocar qualquer outro obstáculo. Eu prometo.

Sesshomaru a ouviu e observou com atenção aquele rosto feminino transbordando determinação. A despeito de sua iniciativa tola, aquela expressão e a súplica que fazia lhe lembrava alguém. Novamente, nenhum som se fez ouvir, além do farfalhar das árvores quando uma brisa noturna soprou, movimentando os excessos de roupas e cabelos em ambas figuras altas que trocavam olhares severos. No aguardo de alguma resposta, Sakuya engoliu seco. A espera era angustiante.

— Sesshomaru-sama...? – Jaken perguntou, vendo seu mestre dar as costas para o trio.

— Humanos e suas existências irrisórias, — ele afirmou, com toda a serenidade que lhe era costumeira, enquanto se dirigia a passos pacientes na direção dos muros do castelo. — não significam nada para mim.

A esperança se desmontou no semblnte da daimyo, que sentiu algo dentro de si se partir perante aquela resposta. Com grande pesar e olhos marejados, assistiu o diabrete verde se apressar no encalço do homem de longos cabelos prateados e a silhueta de ambos desaparecerem na escuridão além dos muros, conforme adquiriam distância. Pensamentos melancólicos e em parte trágicos preencheram sua mente. Para então serem afastados quando ela sentiu uma mão pequena e áspera apertando o tecido de seu hakama [2], chamando-a.

— Mãe... – Era Shinriumaru, que também detinha seu olhar no espaço escuro onde Sesshomaru e Jaken desapareceram. — Você acha que ele vai nos ajudar?

— Eu não sei... — Sakuya espremeu um sorriso e uma resposta mais otimista do que realmente acreditava. Não queria preocupar o pequeno garoto. Ela pousou a mão em sua cabeça. — A única coisa que podemos fazer agora, é ter esperança. E dar o melhor de nós, enquanto estivermos em guerra.

— Hai...

— Eu vi como protegeu aquelas pessoas. — Na procura por alguma palavra que confortasse o garoto, ela então relembrou a cena. Após lidarem com a última cartada de Nogitsune e conter a sua fumaça e miasma, abriram as portas da sala de audiência e encontraram os civis ali protegidos por uma grossa redoma de cipós e galhos. Sakuya se ajoelhou frente a frente com o hanyo, puxando-o para um abraço. Apertou-o contra o seu peito e depositou o queixo dele sobre o seu ombro. Fechou os olhos, com um sorriso orgulhoso. — Meu pequeno herói.

Shinriumaru emitiu uma risada baixa e envergonhada. Por um momento, a daimyo se esquecera da invasão que acabara de enfrentar, dos confrontos do passado e de outros que estariam por vir. Esquecera-se até mesmo da resposta repleta de escárnio que Sesshomaru dera para o seu pedido de ajuda, ou da situação frágil que agora tinha com o daiyokai devido à Meidenkai. Por um momento, nada daquilo tinha valor. Apenas aquele abraço cálido.

Esperava ter ainda muitos anos de vida pela frente para sentir aquele abraço.

Notas finais
[1] “Nani?”: “O que?” [2] Hakama: calça larga japonesa.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.