Algo a Ensinar
2 Ensinando...
ACADEMIA
Thomas estava socando o saco. Enquanto se ocupava dessa tarefa, seu treinador gritava com alguém ao telefone. Por sua expressão, era perceptível que estava furioso. Gesticulava muito e saltava uma grande quantidade de saliva enquanto vociferava.
–Mas o que é que essa vaca pensa que está fazendo?- O homem, de feições carrancudas e magras, ficava ainda mais assustador enquanto falava. – Eu não tenho tempo para isso, a senhora sabe. – Grunhiu de raiva quando recebeu uma resposta negativa do outro lado da linha. – Tenho mesmo que ir? – O homem suspirou, vencido. Desligou o telefone e o colocou sobre a mesa. Thomas continuava a bater no saco, mas parou ao ouvir o grito furioso vindo da sala ao lado.
–Sim, senhor, algum problema?
–Hoje, logo após o treino, temos um compromisso.- O homem coçava a barba com insistência, demonstrando impaciência.
–Compromisso?- Thomas arqueou as sobrancelhas.- Algum problema, treinador?
–Um problemão, garoto!
–Algum patrocinador?
–Antes fosse. A va...- O homem parou antes que começasse a xingar de novo. –Uma das suas professoras está criando problemas.
–Como assim?
–Ela, por alguma razão que desconheço, resolveu te reprovar.
–Reprovar!?-Fazia tempo que Thomas não ouvia aquela palavra. Nem mais fazia parte do seu vocabulário. – Mas por que?
–Exatamente! Não faço a mínima ideia. A diretora pediu para que fossemos a uma reunião com ela, hoje à tarde.
–Isso é mesmo necessário?
–Você gosta de lutar, garoto?
–Claro, treinador
–Então é melhor que esteja pronto as 15:00, bem aqui nessa sala.
SALA DA DIRETORIA
Mirian estava apreensiva. Quando tomara a atitude de ir até a sala da diretora, não esperava nem mesmo que ela fosse te escutar, muito menos que fosse convocar uma reunião com o treinador e o garoto. Talvez os colegas tivessem razão, aquele menino era precioso demais para ela. Estava sentada no sofá, na sala de espera que ficava na entrada da sala da diretoria. Com as mãos sobre o colo, tentava repassar tudo que pretendia dizer, todos os argumentos que utilizaria. Sentia-se como um advogado se preparando para defender a causa mais difícil da sua vida. A reunião estava marcada para as 15:30, mas chegou às 15:00. O relógio na parede já marcava 15:20 e nem o treinador nem o garoto havia chegado. Talvez não viessem, pensou consigo. Mas se fosse o caso, desceria até a academia e falaria com o treinador, querendo ele ou não. Quando repassava pela vigésima vez as palavras que diria, avistou duas pessoas entrando na sala. Um homem magro, de altura mediana e bastante carrancudo sentou ao seu lado, sem cumprimenta-la. O garoto que lhe acompanhava, deu um boa tarde quase inaudível, que ela nem teve tempo de responder, pois foram chamados a sala da diretora. A diretora, uma mulher de meia idade, com cabelos negros e longos, que prendia habilmente num rabo de cavalo, era conhecida por sua inabilidade no trato com pessoas. Mirian bem sabia disso. Era vítima recorrente de seus insultos, mas não ligava muito para eles. Ela olhou os três com cara de poucos amigos e lhes apontou as cadeiras em frente à sua mesa. Mirian sentou primeiro, logo depois o garoto fez o mesmo, ficando ao seu lado. Na última cadeira, o treinador sentou-se agitado.
–Bom, parece que estão todos aqui. Como eu adiantei pelo telefone, o senhor já deve saber o motivo dessa reunião.- A mulher apontou seu olhar mórbido para o treinador.
–Sim!
–Ótimo!- Cruzou as mãos sobre a mesa. – A professora Mirian, que o senhor já deve conhecer, se recusa a aprovar o jovem Thomas. Segundo ela, é um absurdo a escola ser complacente com o garoto, já que ele é um óbvio fracasso como aluno.
–Me desculpe, mas não foi isso que eu disse, eu...
–Não me interrompa, terá sua vez de falar!- A mulher a atalhou grosseiramente.- Como eu ia dizendo, a professora não irá aprovar o jovem, apesar de ter concordado anteriormente com isso...
–E por que mudou tão rápido de ideia?- O treinador a olhava com desprezo.
–Não mudei de ideia, porque simplesmente nunca concordei com isso. Mas a escolha, até o momento, não era minha. Mas cansei de compactuar com esse absurdo. No que depender de mim, esse garoto será reprovado.- Mirian estava decidida a não se deixar intimidar pela sua desvantagem.
–Olha aqui, sua...- Alexander se acalmou. Nunca pensou que uma mulher pudesse lhe causar tanto ódio. Aquela mulherzinha insignificante acabara de lhe tirar do sério.- Minha senhora, eu não sei o que lhe deu na cabeça, mas só posso achar que está ficando louca. Sabe quanto lucro esse moleque traz para essa espelunca? – O homem gesticulava feito louco, apontando para Thomas, que o olhava passivo.- É muita grana, minha senhora. Além disso, eu duvido que a diretora vá concordar com essa sua ideia absurda.- A diretora os observava sem movimentar um músculo. Estava parada, recostada em sua cadeira, sem nenhuma vontade de interromper a discussão.
–O senhor é que ficou louco. Não me interessa quanto ele rende para a escola, o fato é que esse “moleque”, como o senhor diz, nunca colocou os pés na minha sala de aula. Como quer que eu o aprove com louvor?
– Ele não precisa da sua porcaria de aula! Ele só precisa ganhar lutas, ponto final! É tão difícil entender isso?
–Na verdade, é sim! O senhor diz se preocupar com o bem estar dos garotos, mas os trata como trastes, como animais de carga que só tem a obrigação de carregar seus fardos e pronto. Eu acredito que eles podem ser mais do que isso.
–Mas é uma...- Sua mão quase levantou para deferir um tapa no rosto trêmulo de Mirian, mas recuou.
– Uma o que? Vamos, seja corajoso e diga...
–Vamos nos acalmar!-Finalmente a diretora saiu do seu estado de petrificação.- O senhor, queira se sentar e abaixar a voz. A senhora, deixe seu discurso feminista para um outro momento. O que está em discussão aqui, é o garoto Thomas.
–Não esquecemos disso, diretora.- Mirian suava de ódio.
– Ótimo! Então foque no assunto.
–Eu considero a reunião encerrada. Não tenho que ficar aqui dando ouvidos a uma desvairada.- Alexander intentou se levantar, mas o olhar fuzilante da diretora o paralisou.
–Sente-se! Eu ainda não o mandei sair. – Suspirando, ela recostou novamente na cadeira.- Eu acho que estamos perdendo tempo, é um fato. Por isso, vamos logo ao x da questão. A professora quer reprovar o aluno, mas nós sabemos que se ela fizer isso, o patrocínio será cortado e, tanto ele como a escola perderão com isso. Acredito que não é o que ela deseja, por isso ela há de concordar comigo, que a melhor opção para esse caso é entrar num acordo. Assim como o senhor também. O que me diz, professora?
–Não quero prejudicar a escola, muito menos o Thomas. Quero apenas ajudar...
–Ajudar? Você que ferrar a vida do garoto e me vem com: Eu só quero ajudar?- Alexander teve vontade de mata-la
–Cale-se, ou mandarei que se retire...
– Minha proposta é que o garoto faça algumas aulas de reforço, que podem ser no horário oposto aos treinos. Depois, ele fará uma avaliação. Se sair-se bem, o aprovo. Caso contrário, eu o reprovarei. – Mirian sentiu o olhar congelante de Alexander em sua direção, mas o ignorou.- Isso não vai atrapalha-lo em nada. Nem vai prejudicar sua rotina de treinos e lutas.
–Isso é ridículo!
–Isso é o que proponho. Como a diretora já deve ter lhe dito, eu não vou apenas reprovar o aluno, vou levar o caso a Secretaria de Educação, que com certeza não ficará feliz em saber da negligência da escola em relação a ele. Se apenas sonharem que as frequências são adulteradas...
–Sem mais, professora. Já compreendemos! O senhor, Alexander, aceita a proposta?
–Me resta alguma opção?
–Não! – A diretora o olhou com declarada fúria. – Estamos acertados, então.
–Quando começará essa palhaçada?
–Amanhã, se não for um problema.
–Claro que é um problema, mas a senhora decidiu transformar isso em um caos, então que seja! Amanhã o garoto vai estar aqui.
Thomas, que assistia a tudo em completo silêncio, direcionou um rápido olhar para Mirian. Já a havia visto algumas vezes pelos corredores, mas nunca tinha prestado muita atenção. Agora que estava cara a cara com ela, notara que ela era mais interessante do que imaginara. Ficou impressionado com a sua coragem em enfrentar Alexander, que estava obviamente furioso. Ninguém o confrontava desse jeito. Mas ela não se intimidou. Não estava muito certo se o que sentia naquele momento era admiração pela sua força ou se raiva por ela se intrometer na sua vida. Quem ela pensava que era? Por que o escolhera para Cristo? Se ela pensava que ele iria facilitar as coisas, estava muito enganada.
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