COLÉGIO SIR IZAQUE NEWTON, SALA DE AULA.

Mirian encerara suas aulas as 12:30. Assim como combinado, esperava por Thomas em uma das salas vazias do pavilhão superior. O colégio possuía dois enormes pavilhões. No turno da manhã, ambos eram ocupados por alunos do fundamental dois e ensino médio. Na parte da tarde, somente o pavilhão inferior era ocupado e atendia apenas os alunos do ensino médio. Por isso, o pavilhão superior ou o “ Carandirú”, como os alunos carinhosamente chamavam, ficava vazio. Já passava das duas e o garoto não apareceu. Impaciente, ela olhava o relógio enquanto comia um sanduiche. Se ele não aparecesse, estava disposta a ir busca-lo na academia. Quando estava prestes a desistir de esperar, Thomas entrou pela porta. Com um ar de grande desanimo, não aparentava nenhum arrependimento pelo atraso.

–Pensei que o combinado era começar as aulas após o treino.

–Bom, eu estou aqui, não é?

–Atrasado!

–Se quiser, posso ir embora...

–Não! Não vou te dar o prazer de me irritar, meu jovem. Sente-se, tenho o resto da tarde livre para te ensinar. – Mirian o observou. Thomas era alto demais para a idade. Apesar da musculatura bem trabalhada, era, obviamente, um garoto. Ainda que quisesse aparentar mais, tinha apenas 19 anos. Seus olhos eram amendoados e os cabelos, cortados muito baixos, tinham leves tons de castanho. A pele bronzeada, parecia estar em constante contato com o sol. Muito bonito, mas bastante indisciplinado. Percebeu, logo de cara, que aquele seria um trabalho árduo. O garoto de despojou na cadeira e fitou a professora. Não trouxera nada, além da mochila com seu material para o treino.

–Trouxe, pelo menos, um caderno?

–Não me disse nada sobre trazer um caderno...

–Não parecia obvio ?- Mirian estava começando a se irritar, mas sabia que o caminho não era esse. Se partisse para o confronto, ele fugiria pela tangente e nunca mais voltaria. – Bom, vou lhe dar algumas folhas. Anote tudo que eu disser, pois vou cobrar na prova.- Estendendo as folhas, lhe entregou uma caneta e foi em direção ao quadro. – Lembra-se qual foi a última vez que esteve numa sala?

–Devo responder a essa pergunta?

–Só quero saber qual foi o último assunto de Língua Portuguesa que você aprendeu.

–Sei lá...

–Essa não é uma boa resposta.

–Eu nem deveria estar aqui. Me ensina qualquer coisa, assim você se livra de mim e eu me livro de você.

–Eu sei que não queria estar aqui, mas pense que essa pode ser a sua oportunidade de mudar a sua vida.

–Qualé, professora. Acha mesmo que pode mudar a minha vida com meia dúzia de palavras? Para começar, eu detesto português, acho um saco! Segundo, se vai ficar aqui tentando me convencer que lutar não me levará a lugar nenhum, vou mandar que enfie essa droga de aula bem...

–Já entendi!- Interrompendo-o com uma das mãos estendidas, ela voltou para o quadro novamente. Ele queria guerra, ela daria isso a ele. Precisava tocar na ferida. Tentou ser compreensiva, delicada, mas ele queria demonstrar sua superioridade. Ele tinha força, mas ela tinha uma arma ainda mais poderosa, o conhecimento.- Já que você quer assim, vamos começar pelo assunto que considero o mais difícil: Transitividade Verbal!

–Transi...o que?

–Ué, nunca ouviu falar?

–Deveria?

–Pensei que fosse um especialista!

–Não enche!

–Tudo bem! Vamos lá, me diga o que sabe sobre verbo.

–...- Thomas a olhou. Notara logo que ela o estava atacando. Ele pensava que iria intimidá-la com facilidade, mas ficou acuado diante da estratégia dela.

–Ficou mudo?- Mirian ria por dentro. Não costumava ser tão má com seus alunos, mas Thomas a atingiu com força, ela apenas feriu de leve seu calcanhar de Aquiles.

–Já entendi o que você está fazendo.

–Entendeu? Então me diga...

–Quer provar que é superior a mim...

–Acha isso?- Aproximando-se dele, sentou numa cadeira a sua frente.- Acha que estou querendo humilha-lo porque sei mais do que você?

–É claro que está!

–Não era minha estratégia inicial. Você me atacou, colocou suas armas sobre a mesa. Eu apenas demonstrei que sei fazer o mesmo, utilizando as minhas armas. Só quero que entenda uma coisa, Thomas. Não quero humilha-lo, ataca-lo, ou te prejudicar. Quero te ajudar. Você, obviamente, é um menino inteligente, porque não utilizar essa inteligência para algo além da força bruta?

–Eu não sei o que é verbo.- Ele respondeu sem olha-la. – Mirian sorriu. Reconheceu que admitir aquilo fora um esforço enorme para ele. Retornou ao quadro e resolveu voltar a estratégia inicial.

–Tudo bem, vamos aprender juntos!