Algo Para Pensar

1 Capítulo 1- A Mão Misteriosa


"São dez horas da noite, finalmente vou almoçar" Penso enquanto retiro a embalagem da lasanha para microondas e pego um garfo. Quando a primeira garfada está chegando perto de minha boca, ouço um aviso dos auto-falantes que ficam nas paredes.

—Atenção, chamando o doutor Miguel na UTI, repito, chamando o doutor Miguel na UTI! Atenção, chamando o doutor Miguel na [...]

—Ótimo... Lá se vai meu almoço.- Digo colocando meu jaleco.

...

Ao entrar pelo corredor que dá acesso a UTI vejo vários médicos e duas macas sendo levadas as pressas. Me aproximo.

—Diagnóstico, por favor.

—Ah, Doutor Miguel...

—Vamos, diga logo! — Eu sei, meio bruto da minha parte, mas ela era uma das minhas alunas e faltava apenas um ano para terminar a faculdade. De fato ela precisava ser mais rápida com os diagnósticos, porém era uma excelente aluna.

—Acidente de carro, duas pessoas gravemente feridas e a outra... Bem... A outra...

—Lúcia! Rápido!

—A outra é a Sarah, Dr. Miguel.

—... O quê? — Não fiquei surpreso por ela ter sofrido um acidente de carro, surpresa seria se ela não sofresse um acidente de carro, pelo menos, uma vez na vida. Mas a maneira que Lúcia falava dava a impressão de algo sério ter acontecido.- E... E onde ela está?

—Sentada na sala de espera, bebendo um calmante...

—Pelo amor de Deus! — Gritei.

—O quê?

—Você fala como se ela estivesse morta! Leve esses dois pra dentro, vou ver como ela está.

—Mas...

—Não se preocupe. Doutor Carlos está aí, ele não perde a oportunidade de tentar pegar os pacientes que são chamados por mim.

—... Ok, vamos!- Disse Lúcia.

Assim a multidão que estava no corredor entrou dentro da UTI.

Sarah:

São oito e meia da noite, minha carga horária finalmente terminou, depois de ficar dois dias de plantão. O que eu mais quero agora é pegar minha mãe no ponto onde ela sempre me espera, ir pra casa, e dormir. Pego as chaves do carro e guardo meu jaleco no quarto para os médicos de plantão. Enquanto ando a caminho para a saída, vejo Dr. Miguel, que eu sempre chamo por "chefe" como um sinal de respeito, vindo em minha direção. No mesmo instante dei meia volta e tentei ir pela porta lateral.

—Ah-ah-ah! — Disse ele colocando a mão em minha cabeça e me virando pra frente.

—Ah... Oi, chefe, eu...

—Deixa eu ver, vai falar que não me viu?- Ele falou me interrompendo.

—Na verdade eu ia dizer que te vi mas não estou a fim de falar com você.

—Sempre sincera. — Disse batendo com uma papelada em minha cabeça.

—O que é isso?

—Quero que você análise esses pacientes, um por um.

—E era por isso que eu não queria falar com você.

—Engraçado, muito engraçado. Tome.- Disse ele estendo a mão com todos aqueles papeis.

—Mas... Chefe! -Falei resmungando que nem uma criança de 5 anos- Eu acabei meu horário agora, me deixe ir pra casa.

—Mas isso é pra fazer em casa, querida.- Disse ele dando uma piscadela nada sedutora pra mim.- Argh!- Peguei os papeis. Ótimo, Saí do plantão do hospital pra fazer análise nos meus dias de folga em casa.

Antes de sair olhei para o chefe e revirei os olhos. Ele apenas riu. Adora ver meu sofrimento, disso eu tenho certeza.

...

Chegando perto do ponto já dava pra ver uma senhora toda de preto. Minha mãe se veste como alguém que está de luto, mas se esse é o estilo dela, não vou reclamar. Paro o carro.

—Omma!- Sim, eu chamo minha mãe de "Omma". Comecei a chamar ela assim quando entrei na minha adolescência e fiquei viciada em k-dramas (Novelas coreanas) e nunca mais parei.- Vamos, entre! Está frio!

A primeira coisa que minha mãe fez ao entrar no carro foi colocar o cinto de segurança. Isso não parece significar nada, mas até a pessoa mais radical não arriscaria a entrar em um carro onde eu estivesse digirindo sem um cinto de segurança. É como uma forma de dizer "Você é estúpida e atrapalhada, não confio em você, e, provavelmente, você pode me matar".

—Cadê seus óculos? — Ela disse enquanto eu virava a esquina.

—Estão na bolsa, Omma. Por quê?

—Porque você está dirigindo, na verdade você deveria usar esses óculos o tempo todo!

—Sim, eu sei. Mas, mesmo sem os óculos, consigo enxergar bem.

—Se você enxergasse bem não usaria óculos! -Minha mãe gritou, isso é sinal de que ela estava realmente brava. Abri a boca pra criar argumentos, mas não achei nenhum.

—Vou colocá-los daqui a pouco.- Falei pra ela com toda a calma que encontrei na voz.

—Sinceramente, falar com uma pedra tem mais benefícios.

Minha mãe ficou calada por um tempo, sabia que ela ia abrir a boca e mandar eu fazer mais alguma coisa. Na consciência de minha mãe eu ainda era uma adolescente de 15 anos.

—Por que você usa roupas tão amassadas? Parece que nem passa elas.- Ela voltou a falar.

—Mas eu não passo mesmo. Não tenho tempo pra isso. — Olhei para cima e o semáforo ficou vermelho. Parei o carro.

—Ah, claro... Não tem tempo...- Ela ficou calada. O semáforo voltou a ficar verde e eu virei o carro a direita.

Ficamos uns 15 minutos sem falar nada. Sei muito bem o que minha mãe pensava em sua mente, ela queria que eu me casa-se. Ela ia entrar nesse assunto em 3,2,1...

—Mas sabe filha...

—... Sabia.

—Xiu! Deixa eu falar. Eu sei que você já é uma jovem adulta, tem uma emprego.

—Não é bem um emprego, Omma.

—Sim, sim. Eu sei. Deixa eu falar.- Revirei os olhos e acelerei mais um pouco. Queria chegar logo em casa- Você é bonita. Sei que tem muitos amigos, com certeza deve gostar de alguém...

—Não mesmo.

—... Bem, vai arranjar alguém que preencha o seu coração, mas...

—Mas?...

—Você precisa arranjar alguém que fique ao seu lado, sempre. Te ajude nas necessidades de casa. A lavar uma louça, forrar as camas, passar sua roupa...

—Você quer dizer: Um marido. Certo?

—Certo!

—Nem pensar.

—Filha! Pense bem! Essa é uma oportunidade de você morar com alguém que não seja eu!

—Você não gosta de morar comigo tanto assim?

—Não! Não é isso! Olha... — Ela parou por alguns segundos procurando algo a dizer- Eu sou sua mãe!

—Nossa, é sério?! Eu não sabia. — Falei com deboche.

—... Não faz sentido você morar comigo, você precisa de um homem!

—Eu não preciso de um homem! Eu preciso de dinheiro, uma empregada, e uma máquina de fazer café!

—Sarah!

—Omma!- Minha mãe apontou pra frente em espanto e então eu vi um carro vindo em minha direção, tentei desviar mas não deu tempo.

...

Algumas enfermeiras estavam colocando curativos em minha testa e em minha mão. Estava sentada na sala de espera bebendo alguma coisa que me deram, suponho que era um calmante. Minhas mãos estavam trêmulas, mas eu não sofri ferimentos graves, o Er berg me ajudou. Mas não minha mãe.

—Por favor... Eu posso ir pra UTI ver minha mãe? — Falei pra enfermeira. Já tinha visto ela no hospital, mas eu nunca me importei em decorar seu nome.

—Você também está ferida. Espere a gente terminar seus curativos.

—É... É muito grave?

—Não se preocupe, você só sofreu alguns arranhões.

—Estou falando da minha mãe! — Gritei batento a mão na cadeira. A enfermeira me olhou espantada, mas creio que ela entendia meu lado.- Desculpa...

—Tudo bem, você só...

—Você só precisa se acalmar. — Olhei para o lado pra ver quem tinha falado aquilo e vi Dr. Miguel em pé me olhando.

—Ah... Chefe... — Falei em desprezo.

—Muito bom te ver também.- Ele veio até mim e se sentou ao meu lado- Olha, eu sabia que você com aquele carro só acabaria nisso. Na próxima vez lhe dou uma bicicleta em vez de um carro. — Sim. Foi ele quem me comprou o carro.

—Eu não... Eu não estou num momento para rir, chefe.

—Tudo bem. Só queria ver se você estava viva.

—... Estava preocupado comigo?...

—Não. Queria ver se você ainda ia fazer aquelas análises dos pacientes.- Dei uma pequena risada. Às vezes o Dr. Miguel me alegrava nos momentos mais difíceis. Isso era o que eu mais admirava nele. Às vezes conseguia considerar ele um pai que eu nunca tive.

—Eu queria tanto ver...

—Sua mãe?- Ele disse me interrompendo.

—Sim...

—Primeiro vá ao quarto 19. É onde o paciente que você quase matou está.

—O quê?! –Levantei da cadeira assustada.- Ele quase morreu?! Ele está com algum problema?!

—Calma, calma. – Percebi que ele estava rindo.

—Não faz isso! – Dei um tapa em suas costas- Quase desmaio agora.

—Pare de ser dramática.

—Ela... Ela está bem?

—Sim, está bem. E não é “Ela”.

—O quê?...- Perguntei confusa.

—É um homem.

—Ah sim... Está bem, eu não sabia. Menos mal.

—Por quê?

—Porque homens são mais fortes, resistem mais a um acidente... Eu acho.– Fiquei parada por alguns minutos e olhei para o Chefe.

—... O que está esperando?...

—Hein?...

—Vai logo!!

—Ah claro. – Peguei meu casaco que estava na cadeira e corri em direção ao quarto 19.

...

Quando cheguei na sala a enfermeira me permitiu entrar, ela sabia que eu era uma das alunas de Dr. Miguel.

—Fique a vontate.- Assim ela saiu da sala para pegar alguns itens que faltavam. E eu fiquei ali, vendo o paciente que eu quase matei.

—Ah... – Resmunguei- Eu sou um ser humano terrível! Eu quase matei ele, eu nem mereço ser chamada de médica.

Fui chegando mais perto dele para ver melhor, estava com uma bandana na cabeça e tomava soro continuamente.

—Não parece tão ruim... – Estava olhando ele melhor, parecia ter minha idade, pele clara, meio forte. Não merecia ter sofrido esse acidente, tudo culpa de uma infeliz como eu. — Mianhamnida...- Não existe forma melhor de perdir desculpas do quê em coreano. E assim eu fiz.

Ao me virar para sair de perto dele senti algo gelado tocando minha mão.

—Ahh!!! — Gritei o mais alto que pude e me afastei para longe. Pensei que era algum bicho, mas ao virar para trás vi que não tinha sido um bicho, mas sim a mão do paciente do quarto 19.

Notas finais
Obrigado por ler, se realmente gostou comente para que eu possa postar mais! ^^