Algo Para Pensar
2 Capitulo 2- A Mentira
Notas iniciais
Samuel:
—Eu sei, mãe... Eu sei... Não, já estou saindo da faculdade, chego aí daqui a pouco. Ta, eu também... Tchau.- Desliguei o celular e entrei no carro.
Sarah:
—O quê?...- A enfermeira entrou no quarto novamente.- Ele se mexeu!
—Perdão?
—Ele se mexeu! Ele tocou em mim!
—Tem certeza? Você deve ter batido na mesa, não?
—Bem... Eu não tenho certeza, mas eu não bati na mesa.
—Bem... Creio que você se confundiu, os sinais vitais dele continuam iguais.
— Ah... Sim. Deve ter sido.- Assim que eu terminei de falar a porta do quarto abriu e entrou uma mulher de meia idade desesperada.
—Meu Deus!- Ela disse e correu em direção ao paciente que eu quase matei, provavelmente era a mãe dele.- Meu anjinho...- Depois de dizer isso começou a chorar.
Nesse momento eu senti um mal estar no estômago, me senti totalmente culpada, aquela senhora poderia estar em casa com seu filho agora, mas isso não aconteceu, por minha causa.
—Senhora, fique calma. Ele vai ficar bem, o Er beg ajudou. O problema é que ele estava sem o sinto de segurança.- A enfermeira disse e mostrou a mulher um acento para ela sentar.
—Graças a Deus. Eu falei para ele, eu sempre falo! "Ponha o cinto de segurança", ele nunca me ouve.- Disse ela chorando mais ainda e então a porta abriu novamente.
—Roberta!- Um senhor de meia idade também entrou pela porta com dois copos de Café Americano e foi em direção a senhora.
—Você é o marido dela?- A enfermeira perguntou.
—Sim.- Ele disse entregando um copo a Roberta- Tome. Americano, como você gosta.
—Hãm...- Eu sou precisei "dizer" isso para todos perceberem que eu existia naquele quarto.
—E você é?...- Perguntou o senhor.
—Bem...- "Sou a pessoa que quase matou seu filho, fez sua esposa chorar e está na sua frente com cara de estúpida esperando que você me trate da melhor maneira possível" Pensei.- Bem...
—Você conhece nosso filho?- Continuou perguntando.
—Não, não conheço mas...- Dessa vez Roberta tomou a frente e falou.
—Se você não conhece por que está aqui? É médica por acaso?
—Sim eu sou. Só que...
—E cadê o seu jaleco?- Ela interrompeu.
—Eu... Eu- Nesse momento eu me ajoelhei, estava pronta pra falar tudo e pedir desculpas, porém...
—Ta tudo bem, mãe...- Virei pro lado e todos fizeram o mesmo. Quando vi o paciente tinha acordado.
—Filho!- A mulher se levantou e correu novamente até o filho.- Ah, filho...- Ela alizou o rosto dele e estava quase chorando- Você está sentindo dor? Está com fome? Sede? Quer alguma...
—Tudo bem mãe. Só um pouco de dor na cabeça...
—Não fale muito...- Eu pedi, então todos olharam pra mim de novo. Eu ainda estava ajoelhada.
—Vou parar de falar quando você se levantar.
—... Claro.- Levantei.
—Descanse rapaz, é o que você pode fazer agora.- O pai dele disse.
—Claro... Vou fazer isso... Qual o seu nome?- Ele disse olhando para mim.
—Ah... E-eu?... Hãm... Sarah.- O rapaz parecia pensar um pouco.
—Ah... Já tinha esquecido de você- A mulher disse em desprezo.- O que ia dizer quando se ajoelhou, jovem?
—Eu ia dizer que... Que, bem...- Eu sei que estava enrolando demais, mas naqueles 10 minutos que passei na sala com aqueles pais foram suficientes para saber que eles fariam de tudo para fazer justiça ao filho. Dizer a eles que foi minha pessoa que quase matou o rapaz seria como preparar minha carta de suicídio. Mas eu tinha que fazer isso.- Fui eu quem...
—Ela é minha conhecida, mãe.- O paciente disse me interrompendo.
—Sua conhecida? Eu nunca ouvi falar em uma Sarah. Muito menos em uma amiga médica.
—Desculpa, a gente namorou por um tempo, eu não podia contar para a senhora.
—O quê?!- Eu quase gritei, ele estava louco. Nunca tinha visto ele antes. Todos pareciam espantados.
—Na-namorou?- A mãe disse meio surpresa- Samuel... Por que você não me contou isso?! — Ela perguntou irritada.
—Porque você só ia criar mais um motivo para se exibir a suas amigas.
—Eu?- Ela disse apontando para si mesma.
—Sim. "Olha como a namorada do meu filho é linda" "A namorada do meu filho é médica", etc.- Ele disse tentando imitar a voz da mãe. Eu ainda estava em choque. Então comecei a rir sem parar, provavelmente tentando disfarçar o clima que estava no ambiente.
—Por que está rindo?- A mãe perguntou virando pra mim. A enfermeira estava com alguns copos com água em uma bandeja, peguei uma pra mim e comecei a beber.
—Vocês ainda estão namorando?- O pai resolveu perguntar alguma coisa.
—Sim.- O filho deles respondeu. Então eu me enguasguei com a água e comecei a tossir.
—Perdão?- Eu disse ainda tossindo.
—Estamos namorando, não é?- Ele disse olhando pra mim.
—Não! Não estamos. Eu... Eu posso falar com ele por um instante?- Eu disse me virando para os pais.
—... O que tiver a dizer diga na nossa frente.- Roberta disse com raiva.
—Mãe...- Samuel falou frustado- Deixe a gente conversar.- Ela pareceu persistente, até que resolveu falar.
—Tudo bem, mas só 5 minutos. Vamos Marcos.-Ela disse segurando a mão dele e indo embora. Ao olhar para o lado vi que a enfermeira ainda estava lá.
—Hãm... A sós.- A enfermeira percebeu que estava atrapalhando.
—Ah... Perdão.- E saiu pela porta. Assim que eu verifiquei o lugar para ver se realmente estava vazio, comecei a gritar.
—Você esta louco?! Está em sua sã consciência?! Bateu a cabeça muito forte, foi?!
—Perdão, acho que estou sim. Foi a única ideia que veio em minha mente na hora.
—Mas... Mas...- Eu ainda estava tentando raciocinar- Por quê?!!
—Minha mãe... Se ela soubesse que foi você que bateu o carro no meu ela com certeza ia acabar com a sua futura vida.
—... Ótimo...- Falei em desprezo colocando minhas mãos na cabeça para pensar melhor.- Olha... De qualquer forma vamos dizer que "terminamos", ok? Não gosto de mentiras, mas... Vamos tentar diminuir essa mentira.
—Sim mas...- Quando ele ia começar a falar algo a porta do quarto voltou a abrir. Eram os pais dele.
—Os cinco minutos acabaram- Disse Roberta.
—Tudo bem- Falei- Só queria deixar claro que eu e ele não temos mais nada, terminamos a algum tempo. Não precisam se preocupar.
—Mas então, por que veio aqui?- Marcos retrucou.
—Ah... Isso...- Ok. Eu não pensei nesse pequeno detalhe.- Ham... Eu só... Queria saber se ele estava bem- "O quê? Isso não faz nenhum sentido" pensei.
—Isso não faz nenhum sentido- Roberta disse. E eu sabia disso.- Não é comum ver a ex-namorada se preocupando com o ex-namorado
—É... Eu sei...- Eu disse rindo pra disfarçar.-Então... Eu preciso ir...- Falei isso e sai pela porta, não esperei dizerem mais nada. Aquilo já estava ficando patético.
Samuel:
Eles ainda estavam olhando para mim, queriam fazer mil perguntas, principalmente minha mãe.
—... Não vão fazer nenhuma pergunta?...
—Claro que não.- Ela disse calma, ou tentando fingir estar calma.- Por que eu preciso perguntar algo? Será que tem necessidade?- A voz dela já estava ficando mais alta-Será que eu preciso saber algo do meu filho?- Depois disso ela já começou a gritar- Por que eu precisaria saber que meu filho estava namorando?! Eu não preciso! Afinal, eu não sou ninguém para ele!
—Mãe!
—Não! Não fale mais nada!- Ela disse quase chorando. Minha mãe merece o Oscar de "Mãe mais dramática do mundo"— Eu sei que não sou importante o suficiente para você!
—Mãe! Por favor, chega!- Então ela olhou para mim de novo- Eu preciso descansar.
—... Tudo bem, descanse, voltarei mais tarde para falar com você. E assim ela saiu do quarto.
Com certeza aquilo não tinha acabado, era minha mãe. Falar que ela era minha namorada foi a pior escolha que eu já fiz. Essa mentira só vai piorar.
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