Alexis Lindington e as Pirâmides de Gizé
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Enquanto os outros estavam lá embaixo, Alexis se encontrava em seu quarto, lendo. Não sentia as suas pernas direito. Os sensores da estrutura de metal que a permitia andar estavam falhando e isto a irritava. Uma leitura sempre a acalmava nestes momentos. Leu até conseguir ficar com os olhos abertos, que foi, mais ou menos, às onze horas da noite. Depois disto, colocou-o ao seu lado e foi dormir.
Ao fechá-los, demorou a adormecer, mas quando o fez, começou a ter pesadelos sobre sua infância. Seu tio tinha se esquecido de tomar o remédio (de novo) e a chamava freneticamente pela casa. Estavam apenas os dois no local. Alexis morria de medo escondida dentro do armário. Lágrimas caiam de seus olhos azuis. Tentava não fazer barulho enquanto chorava. Até que os pesados passos, a gritaria, tudo cessou. Ela ficou com mais medo ainda. De repente, alguém abriu a dupla porta de madeira. Esse alguém era o irmão de sua mãe, Henry, o tio que a chamava sem parar.
– Não, por favor! – gritava Alexis aos prantos, enquanto ele a puxava pelo braço, guiando-a para o quarto.
A menininha de quatro anos se contorcia para se soltar, no entanto Henry a prendia forte demais. Ele a jogou em sua cama, após despi-la.
– Por favor, não! – continuava gritando e tentando se afastar do homem. Um beijo forçado foi o que a calou.
Neste momento, Alexis acordou assustada, com o coração batendo forte e lágrimas contínuas escorregando sobre suas lisas bochechas, até pingarem do queixo e serem absorvidas pela camisa. Sentou-se e colocou as mãos no rosto. Chorou, chorou e chorou até não poder mais. Uma batida na porta a fez parar.
– Lexi, sou eu. – disse uma voz feminina do outro lado – Eu vim saber se você estava bem. Não a vimos no café da manhã e ficamos preocupados.
– Entre, Brenda. – falou enxugando as lágrimas remanescentes.
– O que houve? – acelerou os passos até a cama ao ver o semblante da amiga. Sentou-se na ponta da cama em que Alexis se encontrava, acariciando os fios que caiam levemente sobre seus ombros.
– Nada não. – negou se controlando.
Brenda sabia que era mentira e o quão difícil era para a amiga se abrir com alguém, por isso nem a pressionou, senão a deixaria pior do que já estava.
– E... Como as suas pernas estão? – tentou mudar de assunto.
– Os sensores estão falhando. Mal posso senti-las e, muito menos, movê-las.
– Vou pedir para um dos filhos de Rá virem aqui para ver essa estrutura de metal. – falou olhando para o chão compenetrada por alguns instantes.
De repente, deu um pulo, dando risadas.
– Como eu pude me esquecer disso?! – repreendeu-se com um sorriso no rosto. Alexis a fitou confusa – Eu me esqueci de que você ainda não tomou seu café da manhã! – explicou-se – Vou pegar algo para você comer. – disse levantando-se e indo para a porta. Parou na frente da mesma e virou-se para Alexis – Já volto. – e assim, saiu, deixando a filha de Thot só.
Alexis pegou o seu livro, para se esquecer do seu pesadelo e voltou a ler. Ele se chamava “Sherlock Holmes: Um Estudo em Vermelho”, do autor britânico Sir Arthur Conan Doyle. A garota adorava o jeito com que Doyle abordava a investigação criminal, os métodos, tudo. Se um dia tivesse uma vida normal, sem deuses nem monstros a atrapalhando, gostaria de ser uma detetive consultora, como Sherlock. Claro, que não seria igual aos livros. Aquilo era ficção, mas os métodos usados por Holmes eram reais e possíveis.
Uma batida fraca na porta a fez sair de seu torpor. Nem precisou dizer nada. Brenda foi logo irrompendo no quarto, acompanhada de James, um dos filhos de Rá. Ele tinha cabelo loiro escuro, curto e um pouco arrepiado. Seus olhos eram cor de musgo. Sua pele era naturalmente bronzeada, com uma cicatriz fina e branca sobressaindo em sua boca, atravessando os dois lábios. Sua altura era mediana. E seus braços eram musculosos na medida ideal. Alexis sempre o considerou como um irmão mais velho, não por ter dois anos a mais que ela, mas por tê-la ajudado e apoiado enquanto os outros não quiseram. O que o fez se afastar um pouco da filha de Thot foi a chegada dos seus amigos mais próximos, Brenda, Mary e Dimitri. No entanto, a amizade dos dois não mudara quase nada.
– Quanto tempo, Lexi... – comentou. Ela deu um sorrisinho tímido. O filho de Rá levava consigo uma maleta com instrumentos. – Bem... Vamos ao que me trouxe aqui! – exclamou mudando de assunto e se aproximando de sua “paciente”. Tirou alguns objetos da maleta e começou a trabalhar.
Brenda segurava um pratinho com um pedaço de bolo e um sanduíche. Sentou-se do outro lado da cama King Size e entregou o prato para a amiga, que o pegou a começou a comer. O tempo se passou e horas depois a estrutura de metal estava parecendo novinha em folha, com tudo funcionando perfeitamente, sem um defeito sequer.
Quando ficou sozinha novamente, levantou-se e foi tomar um banho. Queria tirar o suor que deixava seu corpo colando. Após sair do mesmo, quinze minutos depois, vestiu-se. Colocou uma calça de dormir larga e uma camisa leve sem manga. Sua tatuagem de íbis na parte de trás do seu pescoço estava saliente. Sobre ele tinha cinco estrelas, a mesma quantidade de estrelas da lapela da camisa de botão e o mesmo símbolo de suas roupas no Egypt Village. Algumas delas tinham íbis, outras babuínos. O número de estrelas aumentava automática e magicamente a cada ano que permanecia no condomínio.
***
Uma da madrugada terminou de ler o livro do Sherlock e foi dormir. Duas horas após adormecer, o alarme soou. Levantou-se e arrumou-se o mais rápido que pôde. Colocou sua armadura e seu elmo. E pegou seu escudo e sua espada. Tudo era de ouro faraônico.
Correu para fora do quarto. Esperou os outros andares acima do dela descerem a escada em formação. Quando o último semideus do décimo quinto andar passou, ela avançou. Pouco tempo depois, todos estavam no refeitório, com o vice síndico, Mr. Land, uma esfinge, dando ordens. Ele era o oposto de Mr. McCoy, que era muito infantil.
– O raio de 2 Km fora da nosso território habitável fora invadido e devemos proteger nosso lar! Semideuses dos andares do 1 ao 15, cerquem toda a área do condomínio! Eles podem escalar os muros! – ordenou – E o resto fique atento a qualquer um que conseguir passar pelo cerco!
E assim foi feito. Alexis, Dimitri, Brenda, Mary e os outros ficaram na linha de frente do cerco, bem na entrada do condomínio. A grande porta de ouro de três metros rangeu. Todos os egípcios estavam com suas lanças e espadas apontadas para o possível ponto de entrada do inimigo ou dos inimigos. De repente, a porta foi escancarada e apareceu um menino de mais ou menos 16 anos, com cabelo cor de mel e olhos castanhos. Caucasiano, com hematomas por todo o corpo. Altura de 1,78 m. Magro. E mãos finas. Ele vestia maltrapilhas roupas e estava descalço. Apoiava-se em um taco de beisebol para não cair de cara no chão. Mal tinha forças para ficar de pé. Ele não parecia estar nada bem, mas os guerreiros continuavam apontando suas armas brancas para o “invasor”.
– Quem é você? – perguntou Alexis se aproximando do garoto com sua espada abaixada, mas continuava alerta a qualquer movimento brutal.
– Meu nome é Amom e preciso de ajuda. – falou arfando e pausadamente. Seus olhos começaram a fechar devagar. O garoto tentava deixá-los abertos, no entanto estava cansado demais. Não aguentou mais e desabou no chão.
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