Alderann

2 Capítulo 2 – Aldina


Notas iniciais
Aldina desafiou tudo e todos desde a mais tenra idade. Enquanto seus irmãos mais velhos tentavam ganhar a vida na oficina do pai, a jovem tentava aprender a usar as armas que eles faziam sem que eles soubessem. Quando finalmente foi descoberta, Aldina desafiou seus irmãos um a um, e eles caíram diante da menina com um florete na mão – enquanto eles usavam espadas, manguais, martelos e até mesmo a bigorna da forja. O pai, observando o talento nato da filha, resolveu coloca-la para treinar junto ao corpo de cavaleiros de sua cidade. Todos os membros do referido corpo (com o perdão do trocadilho) riram achando que era uma espécie de piada do velho ferreiro, bastante conhecido entre eles. A piada, no entanto, passou a ser os próprios cavaleiros sendo derrotados sucessivamente por essa garotinha após terem aceito – a contragosto e depois de serem provocados o suficiente – o desafio da mesma. Para evitar maiores constrangimentos, Aldina foi aceita entre os Cavaleiros mas se recusou a andar a cavalo, e por meio de suas habilidades como espadachim alcançou uma posição única entre eles – Caçadora de Bandidos. Até hoje, de todos os embates travados por ela, nenhum deles resultou em sua derrota.

O silêncio na sala de reuniões era sepulcral. Os cinco capitães da Guarda de Misk, vestidos em suas reluzentes armaduras de batalha (mas nunca usadas em uma) feitas de aço recobrindo todos os seus corpos dos pés à cabeça e sentados à mesa redonda de madeira com seis assentos ao seu redor, se entreolhavam constrangidos enquanto esperavam a sexta pessoa chegar para iniciar a reunião, marcada pela mesma logo depois que tomou conhecimento sobre o incidente da taverna incendiada. Somente quando o ranger da velha porta de madeira, a única presente neste local, desfez o ar pesado da expectativa dos senhores ali presentes – embora fosse somente para dar lugar à sensação de que algo de ruim iria acontecer a cada um deles.

Dois soldados entram logo em seguida e se posicionam um de cada lado da porta. Logo em seguida, entra um homem alto, ligeiramente calvo e com uma barba curta impecavelmente bem aparada. Seu porte altivo e a pequena gota de suor frio descendo da testa de alguns dos oficiais à mesa sugere claramente que se trata de alguém bastante importante – e certamente o era. Trata-se de Harold Themel, Duque e Governador da Cidade-Estado de Misk, conhecido entre seus governados pelo senso prático com que tratava dos assuntos da cidade. Seu feito mais emblemático foi durante o surto de vampirismo há cerca de oito anos. Muitos moradores da cidade “morreram” devido a uma epidemia de uma doença sobrenatural que transformava a vítima em vampiro após dois dias de dores agonizantes e mais três de morte aparente. Muitos voltavam de seus túmulos para assolar a cidade, e famílias inteiras tornaram-se vampiros dessa maneira. A maioria dos sábios ouvidos por ele falava em tentar curá-los da maldição de alguma forma ainda não conhecida, ou fazer com que as famílias viajassem longas distâncias para enterrarem seus parentes. O Duque, no entanto, decretou que todos os caixões feitos na cidade devem ter uma estaca pontiaguda de madeira à altura do coração no lado interno da tampa. O surto foi neutralizado em questão de semanas.

Todos os presentes levantam-se, sem conseguir disfarçar a apreensão ao fazê-lo.

– Sejam bem-vindos à minha humilde morada, senhores capitães – diz o homem polidamente antes de sentar-se ao seu lugar – Por favor, sentem-se. Podemos começar a reunião.

Todos sentam-se novamente, mais calmos. Uma pequena e constrangedora pausa se faz antes que o senhor retome a palavra. Seus dedos entrelaçados sobre a mesa permanecem imóveis enquanto ele toma fôlego para prosseguir.

– Pelo que soube, a ação para capturar as criminosas foi um fracasso. Imagino que alguém aqui pode me dizer por quais motivos.

Silêncio. Novamente, os capitães se entreolham, ainda mais constrangidos.

– Senhor, elas usaram explosivos... – disse um deles, tirando seu elmo. Seu rosto enrugado e sem barba, encimado por seus cabelos ligeiramente longos e lisos caindo sobre a testa, numa expressão de súplica.

– Capitão Hans, não precisa me contar o óbvio – diz o Duque secamente – sei que pode dizer mais do que eu já ouvi a respeito.

O homem engole em seco e prossegue:

– Bem, senhor, elas estavam cercadas mas num ato de desespero aquela loira, a comparsa da famigerada bandida, lançou uma bomba dentro do estabelecimento. Não poderia colocar meus soldados em risco...

– E como pode me explicar como as saídas da cidade não foram fechadas? – insiste o Duque.

– Bem, isso é...

– Estava havendo troca de turnos, senhor – diz um segundo capitão, também tirando o elmo. Este é totalmente careca e com um bigode imponente e negro – e talvez os soldados não tenham chegado na hora em que deveriam.

– Além disso, era aniversário do sargento Leroy e muitos dos seus estavam no quartel... – diz um terceiro, mas sem tirar o elmo.

– Soube também que dois dos guardas dos portões estavam de licença por terem sofrido ferimentos no joelho ao escorregarem das escadas para a muralha... – arrisca um quarto capitão, também mantendo a peça na cabeça.

– Muito bem, então – diz o Duque – diante de tamanha falta de disciplina, não vejo outra escolha, senão...

Todos prendem a respiração ao mesmo tempo, cada um imaginando algo diferente para terminar a frase, de “destitui-los dos cargos” a “enforca-los em praça pública”. Nenhum deles, porém, havia esquecido dos caixões com estacas de madeira.

– ...deixá-los sob o comando de alguém mais capaz.

Houve um suspiro coletivo e uma pausa tensa em seguida. Hans, o primeiro dos capitães a falar, arrisca:

– E... quem seria essa pessoa?

– Sou eu – diz uma voz feminina do lado de fora da sala. A sua dona revela-se logo em seguida, entrando a passos firmes na sala. Os capitães arregalam os olhos ao verem o rosto da jovem de cabelos longos amarrados numa longa trança. A armadura prateada recobre um torso esguio, braços e pernas franzinos, e o restante do corpo é coberto com couro e tecido de algodão. Portando seu sabre embainhado à cintura, a mulher posiciona-se ao lado do Duque.

– Apresento-lhes Aldina Trictari, a Dama dos Cavaleiros de Misk – diz o Duque, com uma das mãos aberta com a palma para cima, apontando para a moça.

– A Caçadora! – exclama Hans, deixando seu queixo cair e ganhando uma expressão ligeiramente ridícula.

– A filha do Ferreiro! – exclama outro capitão, embora menos espantado.

– A frígida! – exclama o terceiro, e todos o olham com ar reprovador – Bem, é o que meus soldados dizem... Desculpe – e se encolhe em seu lugar.

– Precisamente – diz o Duque. Aldina é a primeira e única mulher a entrar para a Ordem dos Cavaleiros, a derrotar um Cavaleiro em combate, a atingir o posto de Dama (por motivos óbvios. Aliás, após longas discussões e certo constrangimento da alta cúpula, decidiu-se criar este posto especial “como forma de homenagear sua bravura”. A verdade é que essa foi uma decisão improvisada, ideia do cavalariço de um membro bastante importante da cúpula) e a pertencer à Ordem mesmo não possuindo um cavalo. Além disso, trata-se da filha de um importante e talentoso ferreiro, fornecedor das melhores armas e armaduras à disposição, cujo nome não é tão importante quanto os contratos exclusivos que possui com os Cavaleiros, nem para a presente história. Na maior parte do tempo, Aldina reage mal quando alguém insinua que ela só conseguiu chegar aonde chegou graças às ameaças de corte de fornecimento de seu pai, ou a qualquer outro insulto. Dessa vez, porém, ela apenas respira fundo e diz pausadamente:

– Será uma honra liderar os senhores. Já estou a par dos acontecimentos e planejo criar um grupo de busca independente para capturar a famigerada bandida.

– Não temos contingente suficiente para isso – interrompe Hans –, pois muitos dos nossos soldados foram feridos no incidente da taverna.

– Não pretendo enfraquecer as forças da cidade, nem pôr em xeque a sua suposta competência – retruca Aldina, secamente. Antes que qualquer dos capitães pudesse reagir à arrogância da Dama dos Cavaleiros, ela continua – Portanto, fique tranquilo quanto a isso.

– Mas isso não faz sentido! – exclama Hans – Por que entregar o comando da Guarda à senhorita se não pretende comandá-la?!

– Capitão Hans, está esquecendo-se do que eu acabei de dizer? – interrompe o Duque – A Dama Aldina irá comandar vocês, não a Guarda.

– E sobre o grupo de busca – completa Aldina – estou convencida de que os senhores darão conta da tarefa.

Os outros capitães entreolham-se, entre desorientados, surpresos e indignados. Hans levanta-se, exasperado:

– Mas o que significa isso?! Com todo o respeito, Duque Themel, como pode deixar a Guarda sem seus capitães?!

– Não se preocupe, Hans – fala calmamente o Duque – já providenciei substitutos à altura. Você já deve conhecer a alta cúpula dos Cavaleiros, não é?

O Capitão sentiu as palavras do Duque como um soco no estômago. Hans sempre odiou a Ordem dos Cavaleiros, não pelo que eram – arrogantes, acima da hierarquia e aproveitadores de privilégios concedidos pelo próprio Duque – mas porque sua admissão foi rejeitada, anos atrás. Perder o posto de Capitão para os malditos, e ser comandado por um deles – pela única mulher dentre eles – era a gota d’água. A razão deu lugar à fúria, e Hans não pensou duas vezes – nem sequer pensou – ao brandir sua espada e avançar na direção do Duque. Nem os outros oficiais, nem os guardas presentes no salão tiveram tempo de reagir, e quando se deram conta, a lâmina do Capitão descia rumo à junção do pescoço com o ombro do nobre, num assobio metálico interrompido apenas por outro barulho metálico – o da lâmina de Aldina interceptando a sua, a poucos centímetros do alvo. Ao levantar os olhos, Hans percebeu que ela o fitava nos olhos, numa expressão calma porém séria.

O que se seguiu foi uma verdadeira dança. Tanto o Duque quanto os outros oficiais afastaram-se o máximo que puderam, tanto para se proteger quanto para apreciar o duelo. Mesmo tendo escapado por pouco da morte, o nobre assistia impassível cada movimento de ambos. Hans golpeava com sua espada, implacável e imprudente. Aldina não fazia outra coisa além de se defender, aparando os ataques do Capitão ou esquivando-se dos mesmos, saltando de uma cadeira à outra e desta à mesa. O próprio Duque percebera que quanto mais Hans errava seus ataques, mais enfurecido ficava – e era justamente isso que Aldina queria. Ele sorriu de satisfação ao finalmente vê-la esquivar-se de um golpe frontal e com um giro de corpo fazer parar sua lâmina sobre o pomo-de-Adão de Hans:

– Touché.

O Capitão larga sua espada, derrotado. O Duque ordena, com um sinal para os dois guardas à porta, que o prendam:

– Levem-no às masmorras. Será acusado de traição e insubordinação, além de tentativa de assassinato. Sua carreira como militar acaba aqui, e a sua como pessoa está por um fio.

Sem esboçar reação, Hans é levado pelos homens porta afora. Ao virar-se para cumprimentar Aldina por ter-lhe salvado a vida, depara-se com os quatro capitães ajoelhados à frente dela, falando descoordenadamente:

– Estamos às suas ordens, milady.

Aldina sorri, satisfeita.

– Levantem-se. Temos trabalho a fazer.