Alderann

3 Capítulo 3 - Ellons'mir


Notas iniciais
Amigo há mais de uma década de Julio, o bardo gnomo, o elfo de Anadyr é um exímio caçador e como tal, um ótimo rastreador. Veio para Misk há vários anos, quando a cidade élfica ainda mantinha relações amistosas com os humanos da cidade, e decidiu ficar para conhecer mais sobre os costumes e as peculiaridades das outras raças. A profissão de aventureiro e caçador de recompensas veio naturalmente, e sua associação com o bardo trouxe resultados, dado que este parecia ser uma enciclopédia de problemas ambulante. Paciente e calmo, nada lhe tira do sério – exceto contos de romance. Todo elfo adora contos de romance.

– Eu não acredito! – exclama um pequeno, atarracado e surpreso homem. Na verdade, trata-se do que os humanos chamam de “gnomo”: uma raça humanoide e, portanto, idêntica em quase tudo aos humanos exceto por alguns pequenos detalhes; entre eles, o tamanho. A média de altura de um gnomo é pouco mais do que metade da de um homem. Além disso, eles possuem orelhas pontudas como os elfos, mas bem menos pronunciada, e são excelentes usuários de magia natural. O grande problema desses indivíduos é sua total falta de noção de qualquer coisa. Sem a limitação do bom-senso, tendem a ser os mais criativos e inovadores dentre os humanoides, embora para propósitos nada práticos. No caso deste gnomo em particular, a carreira de trovador pareceu-lhe a mais promissora, e raramente se tem uma noite de paz quando ele está por perto, “entretendo” sua audiência nos estabelecimentos noturnos. Eis, portanto, o motivo de sua surpresa e indignação – Explodiram a taverna! Ellon, EXPLODIRAM A TAVERNA!!

Impassível, seu interlocutor observa a cena. Com a lua cheia no céu, ambos veem claramente os destroços e escombros do local onde costumavam repousar de suas longas viagens sempre que o tempo permitia. As casas ao redor, todas abandonadas. Não havia ninguém àquela hora da noite no local, nem mesmo os costumeiros guardas para evitar a aproximação de curiosos. O elfo de cabelos prateados e lisos caindo a seus ombros protegidos por uma capa de peles, portando seu fiel arco de madeira e aljava cheia de flechas continua a ponderar, ignorando os gritos do gnomo a seu lado. Pensa não em quem poderia ter feito isso, nem como – havia pó-de-dragão e criminosos o suficiente para contrabandeá-los, e não era raro que frequentassem as tavernas locais – mas quanto seria a recompensa pela captura do responsável.

– A Guarda já esteve aqui – diz ele, caminhando na direção do que sobrou da taverna e recolhendo um pedaço de alabarda, agora uma lâmina retorcida e sem cabo – e na hora exata do ocorrido. E pelo visto, não conseguiram capturar o culpado por isto.

– Droga de bandidos! Era minha taverna favorita! Ei, vamos ver se pelo menos o velho Ralf está vivo... tudo bem que aquele taverneiro não vai com a minha cara, mas...

– Aí vem ele.

Caminhando a passos mancos mas decididos, o (ex?) taverneiro pigarreia enquanto se aproxima do local. Com um grande curativo sobre a cabeça, anda com o auxílio de uma bengala. Parece satisfeito em revê-los, embora não tanto em rever o gnomo.

– Vieram para caçar as bandidas que arruinaram meu negócio, meus filhos? – diz o taverneiro, passando a mão sobre o grande bigode, caminhando na direção dos dois – Ouvi dizer que o Duque está trocando o comando da Guarda inteiro por causa disso.

– É bom saber que está vivo, Ralf – diz o elfo, calmamente – Diga-me, que bandidas eram essas?

– Uma ruiva de cabelos grandes e uma loira de cabelos pequenos. A ruiva usava aquele mini-canhão que só bandidos e piratas usam... como é o nome desse troço mesmo...

– Pistola – completa o gnomo.

– Isso, pistola! Mas a dela era diferente... tinha um cano enorme e seis buracos. Nunca tinha visto aquilo.

– É uma pimenteira – diz o gnomo novamente.

– Ora, mas o jovem aqui anda muito entendido dessas coisas... – diz Ralf, erguendo uma sobrancelha.

– Procuro me manter informado sobre novidades, apenas isso.

– Hum... – o taverneiro se cala ao perceber que sua indireta foi ignorada.

– Ralf, o senhor sabe se alguém da Guarda ou dos Cavaleiros foi mandado para segui-las? – pergunta o elfo.

– Até onde eu sei, não. Ora, sou apenas um taverneiro que acabou de perder a taverna, como haveria de saber?

– É verdade, sinto muito. Bem, como pretende sobreviver agora?

– Não tenho escolha... tive de voltar para a casa de minha mãe.

Elfo e gnomo erguem uma sobrancelha.

– Sim, ela ainda está viva e está bem, antes que me perguntem. A propósito, uma pessoa da Guarda esteve procurando por vocês.

– O quê?! – se surpreende o gnomo – Por que?!

– Julio – chama o elfo, à meia voz – acredito que querem os nossos serviços.

– Ah... achei que fosse outra coisa.

Elfo e taverneiro erguem uma sobrencelha.

– Bem, isso não vem ao caso. Vamos, vamos à sede da Guarda ver o que eles querem.

– Ralf – diz o elfo – caso haja algum tipo de recompensa envolvido, darei minha parte para que reconstrua sua taverna.

Os olhos do velho enchem-se de lágrimas.

– Oh, como és bondoso, nobre elfo! Poderá beber todo o vinho que puder de graça assim que estiver pronta!

– Posso me apresentar todas as noites em sua taverna se eu doar minha parte também? – Julio, o gnomo, se anima.

– Não.

– Droga...

– Vamos, Julio – diz o elfo – precisamos ir.

– Está bem, mas não espere nada de mim para esse velho ingrato!

O velho taverneiro dá um grunhido de desaprovação, mas se despede deles com um aceno e caminha mancando de volta pela rua deserta. Minutos depois, ao longe, ouve-se a porta de uma casa abrir e em seguida um grito feminino e idoso: “Júnioooor, para dentro agora! A essa hora da noite na rua, onde já se viu!”.

A sede da Guarda de Misk é um prédio fortificado, cercado de muralhas altas e guardas em cada entrada. Além de centro de treinamento para soldados, escritório e biblioteca criminal, o prédio abriga em seu subsolo masmorras bastante confortáveis para os padrões da época – se é que há algum. Montes de feno forrados com trapos, celas individuais limpas a cada vez que um “inquilino” morre ou é libertado, a presença inicialmente desagradável de roedores, mas que com o tempo aprende-se a conhece-los melhor e ver que não são tão ruins assim – alguns detentos até conversam abertamente com eles -, tudo isso faz com que ser preso em Misk não seja tão ruim se comparado a outros lugares do mundo.

Ao ver os heróis chegarem à frente do prédio, os dois soldados de vigia no portão principal dizem, quase ao mesmo tempo:
– Alto! Identifiquem-se e digam o que querem.

– Assaltar a Guarda – dispara o gnomo, tendo o seu pé pisado pelo elfo logo em seguida – AI! Foi brincadeira, cara!

– Este é Juliorloffakhenbergstenovich – diz o elfo – e eu me chamo Ellons’mir. Soubemos que alguém da Guarda queria nos ver...

– Exatamente – diz uma voz feminina atrás deles. Uma mulher vestindo um peitoral de ferro acompanhada de quatro homens vestidos em armaduras completas aproxima-se do portão e deles – Pelo visto, o taverneiro foi bem eficiente em entrar em contato com vossas pessoas.

– Ei, essa não é a Dama Frígida? – diz Julio – O que os Cavaleiros estão faz... AI! O que foi agora?!

Um pequeno nervo salta da testa da mulher, e ela respira fundo. Um dos quatro homens que a acompanham abafa um pequeno riso sem que ela note.

– O que deseja de nós, humildes aventureiros, senhorita Aldina? – indaga Ellons’mir, recolhendo seu pé para junto do outro.

– Segundo o próprio taverneiro, você é o melhor seguidor de rastros destas bandas, elfo. Eu gostaria que me ajudasse a capturar as bandidas que explodiram a taverna do pobre-coitado.

– Certamente. Desde que, é claro, haja alguma contrapartida em caso de sucesso...

– Obviamente. Há certos trabalhos que estão fora do alcance de meros guardas de cidade – ela olha de lado para os quatro capitães ali presentes. Como nenhum se manifesta, ela continua – e não gosto de obrigar cidadãos a fazer algo pela força da autoridade. A Guarda de Misk dará a devida recompensa pelos seus serviços. Encontre-nos amanhã pela manhã no local do incidente para acertarmos alguns detalhes, sim?

– Estaremos lá, milady.

– Agora, com sua licença, temos trabalho a fazer. – ela adentra pelo portão, aberto pelos dois guardas. Os capitães a seguem, calados e obedientes.

Assim que ela e os homens saem de vista, eles retomam o caminho das ruas, passeando a esmo pelas vielas de Misk.

– Cara, ela está tão na sua! – fala o gnomo, animado.

O elfo revira os olhos.

– Sim, como todas as outras...

– Mas aquela meio-orc queria mesmo que você ficasse na tribo! Pelo que eu entendi, ela queria ter filhos com cabelos prateados iguais aos seus.

– Você não sabe falar o idioma orc, como pode saber?

– Já ouviu falar de linguagem corporal?

– Ela estava tentando me esmagar. E eu estava evitando que ela me mordesse. Você viu o tamanho das presas dela, não viu?

– Eu ainda acho que ela queria um beijo seu...

– Aqui. Chegamos.

Os dois chegam à porta de uma casa larga. Entram no local, fazendo a porta ranger ao abri-la. Em cima dela, há uma placa de madeira, pendendo de um suporte por correntes unindo as duas peças. Há a figura de um urso, mas com um bico e penas no lugar de pelos. Abaixo deste, lê-se “Taverna Urso-Coruja. Descontos Especiais Para Não-Humanos. Pagamento Antecipado”.

A noite estava terminando, mas ambos aproveitaram o tempo que tinham para descansar ao máximo. Eles sabiam que os próximos dias seriam corridos.