Alderann

1 Capítulo 1 - Ishtah


Notas iniciais
Ninguém confia em quem usa armas de fogo nem outros usuários de armas de fogo. Andar com armamentos que funcionam com uma mistura alquímica altamente explosiva conhecida como pó-de-dragão é no mínimo algo considerado criminoso. Não pelo ato de andar armado, mas pelo fato do criminoso em questão ser uma explosão em potencial ambulante. Foi o que aconteceu à bela e bandida Ishtah, mas mesmo depois de quase ter morrido num acidente de trabalho ao tentar assaltar uma rica caravana mercante e ser trazida pelos próprios mercadores à curandeira Celéstiah, ela ainda confia em suas velhas pimenteiras de seis tiros cada. Tudo o que ela precisava era de algo para recuperar-se desses pequenos imprevistos... e uma curandeira era justamente o que ela tinha por perto. Sem pestanejar, ela levou a pessoa que salvou-lhe a vida junto com algumas algibeiras das pessoas da vila onde a jovem morava, e assim ambas partiram para o mundo embora contra a vontade de Celéstiah.

–Ora, ora, ora, ora... – a mulher de longos cabelos ruivos arranca um dos cartazes colados em frente a um estabelecimento comercial especializado em bebidas alcoólicas e atividades ilícitas menores, um local conhecido popularmente como “taverna” – Celi, veja só isso! Você está famosa...

–O quê? Não pode ser! – exclama a outra mulher, ligeiramente mais jovem que a ruiva e com cabelos bem mais curtos que ela, loiros e brilhantes, perplexa ao ver um retrato desenhado de seu rosto no cartaz – Como posso estar sendo procurada se eu sou a vítima aqui?!

–Parabéns, você agora está sendo procurada – a garota ruiva dobra o cartaz e o coloca num bolso interno de seu casaco, sorrindo de banda – Por essa recompensa eu mesma a entregaria... se a lei não tivesse problemas comigo também, é claro.

–Não, não, não, não! O que eu fiz de errado?

–Está comigo.

–Você me sequestrou!

–Você me segue.

–Eu... eu não tenho mais como voltar para casa!

–Mas ainda pode tentar fugir, se quiser.

–Você atiraria em mim!

–Eu sei.

A ruiva arranca mais um cartaz. Desta vez é um retrato dela mesma que está estampado nele.

–Mas ainda poderia tentar escapar enquanto eu estou dormindo – ela continua.

–Você quase me matou da última vez que tentei.

–Eu sei.

Longa pausa. Depois de dobrar e guardar o cartaz, a ruiva finalmente decide entrar no estabelecimento. O ar pesado e silencioso é perturbado pelo barulho de uma sineta assim que ela abre a porta. Àquela hora, havia pouca gente no local – apenas o taverneiro, um homem magro de cabelos grisalhos e um bigode respeitável limpando uma caneca atrás do balcão, e alguns homens jogando cartas numa mesa afastada. Todos se viraram para observar as duas entrando no recinto. A ruiva, no entanto, observa o ambiente. Cinco mesas redondas de madeira, uma única janela de vidro permitindo a parca iluminação do local e uma porta ao fundo do salão, pouco atrás e ao lado da mesa ocupada pelos jogadores.

–Por que você está fazendo isso comigo? – A loira pergunta, inconformada.

–Percebi que preciso de uma curandeira.

–Eu te curei e é assim que você me agradece?! Sequestrando-me e fazendo-me de criminosa?

–Você ainda pode tentar...

–Você é desprezível.

–Eu sei.

As duas param em frente ao balcão. O velho e magro taverneiro aproxima-se ainda limpando a caneca.

–As senhoritas desejam algo? – pergunta ele, solícito.

–Leite! – brada um dos homens à mesa de cartas. Os outros riem – elas querem leite!

–Vinho. E algumas informações, se possível – diz a ruiva, ignorando as risadas.

–Que tipo de informações, senhorita? – indaga o taverneiro, já servindo o vinho.

–Onde encontro...

–...meu quarto? É na estalagem aqui do lado, meu bem! – o mesmo sujeito de antes. Mais risadas.

–... uma loja de alquimia? – completa a ruiva, mantendo a compostura.

Antes que o taverneiro pudesse responder, dois sujeitos adentram o recinto, fazendo a sineta tocar seu barulhinho irritante mais uma vez ao abrirem a porta. Ambos vestem peitorais de ferro e carregam espadas longas, ainda embainhadas. Um deles desembainha a sua e brada:

–Ishtah Coronata, você está presa por porte de armas ilegais e porte de subst... – BANG! – AI!!

Seu discurso é interrompido por um tiro certeiro em sua mão, fazendo sua espada cair no chão. O segundo homem, ao ver os seis canos da arma da ruiva apontados para ele, tira a mão do cabo de sua espada embainhada e levanta-a junto com sua outra mão. Os homens na mesa de cartas se encolhem como estampido, e direcionam olhares espantados para a cena. O taverneiro, como de praxe, abaixa-se e esconde-se atrás do balcão.

–O que faz você pensar que pode contra mim com esses pedaços de ferro? – Ishtah esnoba, com ar triunfal.

–Você está cercada – retruca o segundo homem – A milícia inteira está do lado de fora.

–Ah... – a mulher expira – isso muda as coisas. Celi, prepare-se para morrer.

–O QUÊ?? – a loira estremece, mais assustada do que quando os dois homens chegaram.

–Eu disse, prepare-se para correr!

–Não, você disse...

–Para ir para a porta dos fundos! Agora!

Sem pensar duas vezes, Celi corre para a porta dos fundos. Os dois homens permanecem ainda sob a mira das pimenteiras da ruiva chamada Ishtah, e aquele que foi atingido pelo tiro ri.

–Como acha que vai escapar, sua bandida? A casa está cercada!

–Ishtah, eles estão forçando a porta! – Celi grita, alarmada.

–Droga... – resmunga Ishtah – É, acho que não tenh...

–Me passa seu pó-de-dragão! – Celi grita.

–O que? Para que vc...

–Me passa, AGORA!!

Um pouco a contragosto, Ishtah joga um pequeno saco para Celi, que pega um pequeno lenço de dentro de seus trajes e rapidamente o amarra ao saquinho à guisa de pavio. – Com licença – ela pega uma das garrafas de bebida à mesa e embebe o tecido com todo o cuidado que se pode ter quando se está prestes a entrar em pânico.

–Celi, é bom você saber muito bem o que vai fazer. Esse é meu último... oh, você só pode estar brincando! – Ishtah a vê subir em uma mesa e pegar uma vela do candelabro acima. Os homens apenas a observam, atônitos e sem esboçar reação.

–Afastem-se ou vamos todos pelos ares! – Celi aproxima ameaçadoramente a vela do pavio improvisado. Todos no recinto arregalam os olhos, extremamente alarmados.

–Você não ousaria... – diz um dos guardas. A porta dos fundos dá sinais de que não vai resistir por muito tempo.

–Antes morta do que presa injustamente! É melhor que... – a porta dos fundos vem abaixo. Mais guardas entram, estes portando bestas e espadas curtas. O susto a faz aproximar a vela do pavio, e este se incendeia rapidamente.

–AHHH!! – num ato reflexo, ela joga a bomba improvisada na direção dos guardas que acabaram de derrubar a porta. Estes desviam do artefato e o observam de relance, um tanto confusos.

–Vai explodiiiir!! – Ishtah grita, correndo na direção de Celi e puxando-a consigo em direção à janela única do recinto.

Tanto os guardas quanto os jogadores de cartas entram momentaneamente em pânico, procurando qualquer abrigo para a provável explosão. Isso dá tempo suficiente para Ishtah quebrar a janela com uma cadeira e pular para fora, e Celi a acompanhar logo em seguida. Apesar de terem visto que realmente havia muitos guardas cercando a taverna, elas pouco se importaram – afinal, na escala de danos, tiros de besta geralmente eram menos letais do que explosões de pó-de-dragão, especialmente em recintos fechados e com poucas opções de fuga. Para a sorte das fugitivas, os guardas do lado de fora mal tiveram tempo de apontar suas armas, pois logo depois de alguns homens saírem desesperadamente pelas portas do estabelecimento, uma explosão lançou parte desta pelos ares, fazendo cair uma chuva de destroços e formando uma nuvem de poeira que encobriu a fuga das duas.

Após alguns momentos de correria, Celi percebe que ninguém está seguindo-as. Ela se aproxima de Ishtah, aliviada.

–Nós conseguim... Deuses, você está ferida! – uma grande mancha vermelha cobre o ombro e o braço esquerdo da criminosa ruiva. Na verdade, um estilhaço de madeira havia perfurado seu ombro, mas ela parece ter ignorado-o tanto quanto a dor que supostamente deveria estar sentindo.

–Eu sei... – Ishtah diminui o passo, indo em direção à saída da cidade através das vielas estreitas. Seu braço ferido pende, movendo-se apenas com o balançar dos seus passos.

–Ai deuses, me desculpe! Eu não devia ter feito aquilo!! Eu... eu posso dar um jeito nisso!

–Não temos tempo para isso agora.

–Mas...

–Lá estão os portões.

Ao se aproximar da entrada da cidade, as duas percebem que aparentemente não há ninguém vigiando-a. Assim que ultrapassam os pesados portões de madeira abertos, ambas olham para trás, para a fumaça se erguendo sobre as casas. Contemplam-na por alguns instantes e finalmente tomam a estrada de terra batida à frente. O sol se põe lentamente nas colinas ao lado direito delas enquanto andam, e a uma distância que julgam segura elas param à beira da estrada e improvisam um acampamento.

–Agora é oficial! Virei uma criminosa de verdade– diz Celi, aflita, andando de um lado para o outro. Ishtah senta-se, recostando-se em uma árvore próxima, exausta.

–Celi...

–Eu explodi uma taverna cheia de gente! Ai meus deuses, o que a velha Mah vai pensar de mim!...

–Celi...

–Agora vão me perseguir e vão me prender e eu vou mofar numa masmorra!...

–Celi...

–E isso tudo é culpa sua!

–...pode dar um jeito nisso aqui agora... – Ishtah fala, quase um sussurro.

–Ai meus deuses, você está pálida!

–Eu sei...

–N-não se preocupe, eu vou te ajudar! – Celi desnuda o ombro ferido de Ishtah, e começa a aplicar os primeiros socorros. Retira o estilhaço de madeira com cuidado, e se surpreende ao ver que Ishtah quase não esboça reação ao fazê-lo.

–Eu sabia que ia precisar de você de novo... – Ishtah sorri, sonolenta. Celi cora de repente.

–Errr... é melhor você repousar, Ishtah... você perdeu muito sangue.

–Não vá fugir enquanto isso... – Ishtah sorri e fecha os olhos.

–Para onde você acha que eu vou? Eu explodi uma taverna e não sei o caminho de casa. Além disso... – Celi termina o curativo. Olha para Ishtah e percebe que ela não está mais consciente. Sente-se estranhamente aliviada ao avaliar que, apesar disso, ela não corre mais nenhum outro risco. Então, olha para a arma dela no coldre por alguns momentos e percebe que tem uma chance de mudar sua vida para sempre.

–...eu preciso cuidar de você.