O vácuo povoou sua mente, sendo aos poucos preenchido por seus sentidos fracos. Aos poucos pôde sentir e pensar. Até que finalmente conseguiu abrir seus olhos e se levantar. Esteve deitado num chão suave, confortável, porém vazio. Era nada mais que uma placa escura, sem forma aparente, sem constituição física. Ao seu redor, luz. Apenas luz para todos os lados, enchendo sua mente com luz. E aquele espaço escuro sobre o qual estava. Era curto suficiente para ocupar mais três dele, todos de pé.

Estava mais limpo do que nunca. Podia sentir a maciez sem limites de sua pele incrivelmente alva no meio de toda aquela luz. Trajava um casaco preto cujo capuz caía em seus ombros. Sob o casaco, uma blusa leve de listras vermelhas e brancas, seguida por uma calça jeans rasgada e finalmente, tênis preto.

Permaneceu parado por um momento, olhando para o infinito. Pensando em nada. Esvaziou sua mente e a purificou com o que é há de mais limpo. Era perfeito. E em toda sua perfeição, olhou ao redor, avistando a um canto da plataforma escura uma forma vertical. Aproximou-se e pôde ver que era uma flor. Escura como onde sua raiz se afixava, mas ainda assim, uma flor. Tinha pétalas, tinha um caule. Tinha até aroma. Era agradável. Era perfeito. Assim como ele.

Abaixou-se e puxou a delicada e pequena flor da plataforma, examinando-a de perto. O tato era incomum. Suave, delicado, limpo. Perfeito. Aquele era o primeiro ser vivo que encontrava e era tão perfeito quanto ele, então só podia significar uma coisa. Seus dedos finos soltaram a planta, mas ela não caiu. Ao invés disso, levitou sobre sua palma. Ele a controlava. Ele lhe dera a vida. Assistiu-a se transformar em várias outras coisas lentamente, até virar uma mera massa amorfa.

— Eu te dei a vida. – disse. – Eu a tirei também. Agora te darei mais.

Afastou sua mão e a deixou cair lentamente para a plataforma, a qual atravessou. No mesmo instante, ela tremeu e uma enorme árvore se ergueu metros acima de seu criador. O diâmetro do chão – que agora era terra – aumentou consideravelmente e as raízes da árvore colossal ocuparam o vazio abaixo. Aquela árvore era perfeita, assim como a terra, assim como suas raízes. No meio de suas flores negras nasceram frutos vermelhos. Um vermelho vivo e perfeito que emanava a mais pura essência já imaginada. O ar ficou doce com as enormes flores que nasceram. Flores de cinco pétalas, duas pontas cada. Rosas. Perfeitas, lindas, inacreditáveis. Olhando para cima, o Criador abriu seus lábios e deixou sair um leve sopro que logo se transformou no vento mais delicadamente forte já sentido e fez as flores voarem, enchendo o nada ao redor de um aroma mais doce ainda. E agora não era tudo apenas luz. Eram flores.

E quando as pétalas ficaram cansadas de voar, transformaram-se em massas negras que rapidamente se alongaram para os lados e para cima, dando origem a mais terra e mais árvores. Vários blocos de terra aqui e ali, ocupando o vazio até onde a vista alcançava. E em seguida, mais frutos e mais flores.

Ele sorriu impressionado com a perfeição que criou. Era lindo, incomum, único. Era seu, principalmente. Era tudo seu. Sentiu um calor forte dentro do peito e sentou-se para contemplar seu mundo. E ficou assim durante algum tempo. Quem sabe quanto?

Até que, de repente, não mais sorria. Não via mais tanta beleza em toda aquela vida. Sentia-se morto, velho, comum. Precisava de mais. Precisava de mais vida, precisava de mais espaço. Precisava de outras formas. Fechou os olhos lentamente, até que, quando não enxergava mais, a terra tremeu. E ouviu barulhos de coisas se partindo, quebrando, deixando de existir para dar lugar a mais. Depois, o som do crescimento, de formas tomando vida para o alto, para os lados, até mesmo para o chão.

Quando abriu os olhos novamente, eis que no vazio não havia mais blocos de terra e árvores. De fato, não havia mais vazio. A única árvore que restara era aquela próximo da qual estava, enquanto que o resto era sólido, reto, alto, com pontas, sem pontas, redondo. Enormes prédios de massa negra se estendiam por quilômetros. Sorriu mais uma vez, agora mais largo. Deixou seus pés o levarem por essas ruas, admirando sua nova criação. As formas eram perfeitas, sem iguais. Ainda mais únicas e vivas do que as árvores e suas flores e frutos.

Após caminhar por todas aquelas ruas e contemplar cada detalhe de seu paraíso, sentiu-se triste de novo. Velho, sozinho, morto. Porém, dessa vez sentia falta de algo mais. As estruturas eram perfeitas e ainda se sentia bem quando olhava para elas, todavia, após um tempo, pareceram mortas. Frias, imponentes em toda sua indiferença. Assim sendo, o Criador voltou à única árvore restante e a admirou por um momento. De todas aquelas que deu vida antes, essa era a mais bela, a mais perfeita. Seus frutos e flores eram de uma simetria singular, apaixonante.

Estendeu seu braço e alcançou um dos frutos vermelhos, redondos, maciços, macios, aromáticos. O tato era perfeito. E então soltou-o, mas antes de bater no chão ele se alongou em uma forma escura, bípede, humanoide. Dois grandes olhos brancos encaravam o Criador com uma paixão incomum.

O garoto sorriu ainda mais feliz que nas últimas duas vezes. E apesar de aqueles olhos de luz de sua criação não serem fisicamente expressivos, ela também sorriu. Era apenas mais uma massa completamente negra, com braços, pernas, cabeça. Pensava e sentia. Virou-se, apanhando um fruto da árvore e deixando-o cair. O mesmo aconteceu: a bola vermelha maciça e aromática alongou-se em uma massa escura antes de alcançar o chão e aquele novo ser também sorriu. E os dois fizeram a mesma coisa com os frutos, e aqueles que nasceram deles também, e os outros, e os próximos, até que restaram apenas as flores da árvore.

O Criador, encostado na árvore, olhou para suas criações e sorriu. Todas sorriram, e então riram. Um riso que ecoou por quilômetros, pelas ruas e entre os prédios, até o céu de luz. E a felicidade perdurou por tempos e mais tempos. O garoto conheceu todos e todos o conheceram e eram felizes. E conversavam, aprendiam, cresciam, se multiplicavam. Apenas ele permanecia o mesmo. A perfeição, o exemplo de tudo que havia de mais lindo naquele mundo.

Cansado de se sentir tão único, ele voltou à árvore. Já não ia lá há tempos e o ato parou os seres ao redor, que passaram a assistir cada movimento. Seu punho pequeno e delicado atravessou o tronco perfeito e voltou lentamente. O tronco sangrou uma luz gasosa que se espalhou pelo perímetro. As flores encolheram até não mais existirem e os poucos frutos que surgiram após todo aquele tempo, também. E a árvore em si foi encolhendo cada vez mais, sua massa escura se misturando com o sangue de luz, se transformando cada vez mais. Até que, enfim, estava de pé outro dele. Idêntico. Até mesmo as roupas. Era perfeito como ele, cada mínimo detalhe. Sorriram um para o outro enquanto os outros seres, meras massas negras, os assistiam. Estavam furiosos, confusos. Por que eles não eram tão perfeitos assim? Queriam ser muito mais. E por que aquele novo ser era tão perfeitamente igual à própria Perfeição? Por que eles não podiam partilhar de toda aquela existência única que agora era duas?

O Criador e sua Criação aproximaram-se. E abraçaram-se. E surpreenderam-se com o toque suave um da pele do outro. Riram mais, um riso que ecoou pelos corações negros e idênticos dos outros seres. Eles eram perfeitos, mas não tanto. E então, os dois jovens olharam um nos olhos do outro, bem fundo. Podiam até mesmo ver as essências que os compunham. Eram perfeitos. Envoltos por toda essa calma de terem se encontrado, deixaram que seus lábios se tocassem. As outras criaturas ficaram chocadas enquanto as línguas do Criador e da Criação iam de um a outro em uma felicidade tão pura e incomum. Não era justo. Era ele. Apenas ele. Mais ninguém. Ele, ele, ele. ELE. E somente ELE.

Aproximaram-se e os separaram brutalmente. Ficaram confusos. Lutaram contra as mãos fortes até seus lábios se encontrarem novamente – ah, o toque macio e delicado dos lábios. Mais uma vez foram separados. E continuaram lutando, aumentando o número de mãos e braços sobre eles, assim como a agonia, o medo, a raiva. Precisavam um do outro. Precisavam ser um.

O Criador parou e seu olhar calmo fez a Criação parar também. As mãos escuras sobre eles não descansaram, porém. Muito pelo contrário. Ele era perfeito. Era poderoso. Era o responsável por tudo aquilo. Deu a vida e podia tirá-la. Não que fosse justo, mas era preciso. O Criador e a Criação precisavam um do outro.

Assim, as massas escuras começaram a explodir em pequenas partículas de luz. A começar por aquelas cujas mãos estavam sobre eles, indo até as mais distantes. Tentaram fugir, correram, se esconderam. Não adiantou. Em poucos minutos, havia apenas o Criador e a Criação. Aproximaram-se mais uma vez e deram-se as mãos. Suas roupas não mais existiam. Não precisavam delas. O chão tremeu enquanto eles se beijavam mais uma vez. E se amavam. E tudo foi se juntando, encolhendo, se consumindo. E se aproximando deles. Até consumi-los.