Caiu no chão duro com um baque surdo. Estava molhado e sentia muito frio. Também teve que respirar fundo algumas vezes, recuperando o fôlego que aparentemente nunca teve. Seu corpo inteiro doía como se tivesse dormido por milênios. Não conseguia ouvir, ver ou sentir direito, muito menos respirar. Era tudo um borrão e o som mais nítido que seus tímpanos captavam era o de sua própria respiração desesperada. Apesar disso, sabia que estava rodeado por pessoas. Eram apenas claros borrões no meio de um mar azulado.

Ergueram-no pelos braços e sua cabeça girou. Sentiu uma pontada insuportável no peito que se repetiu mais duas vezes, até que aquilo saiu por sua garganta de uma forma tão dolorosa que é impossível descrever. Como estava molhado, acabou escorregando das mãos de quem quer que o segurava e caiu sobre seu vômito. O cheiro era meio indistinguível, pois seus sentidos ainda estavam muito falhos.

Voltaram a erguê-lo e o arrastaram por aí. Durante o percurso, seus sentidos foram levemente recobrados. Já conseguia distinguir algumas formas, como as paredes lisas e frias dos corredores, as luzes azuladas que emanavam do chão, as pernas daqueles que o carregavam. Usavam roupas impecavelmente brancas. Tudo ali, pelo seu olfato falho naquele momento, cheirava a nada. Outras pessoas os seguiam de perto e ele sabia que o observavam.

Pareceu uma longa caminhada, até que em fim viraram a um corredor curto e no final, abriram uma porta que dava para uma grande sala circular com uma única cadeira de metal frio em frente a uma mesa de metal frio bem no meio do aposento. As paredes eram tão brancas que doeram-lhe nos olhos e o piso ali parecia ainda mais frio. Só quando jogaram-no na cadeira, percebeu que estava completamente nu. O frio percorreu seu corpo, fazendo-o cair sobre a mesa, cansado. Ainda estava molhado, aliás. Uma das pessoas que o seguia se aproximou e jogou um pano grosso sobre ele, provavelmente uma toalha. Levou mais algum tempo até que conseguisse se mexer.

Enrolou-se na toalha, tentando se esquentar. Mais algum tempo e já não sentia tanto frio, todavia ainda estava molhado e fraco. Havia muitas pessoas ao redor, observando-o. Cada uma segurava diversos objetos que não pôde identificar imediatamente, mas a maioria tinha em suas mãos e colos grandes placas luminosas nas quais mexiam, parecendo analisar algo.

Após algum tempo olhando para cada detalhe dele sentado naquela cadeira fria – em todos os sentidos –, algumas pessoas se aproximaram com seus apetrechos. Agacharam-se e começaram tiraram a toalha dele, passando algo aqui, outra coisa ali, como se o moldassem. À medida que o processo tinha curso, começou a se sentir melhor, menos fraco. Provavelmente passaram-se horas até que tivessem terminado. Em seguida, mais pessoas de branco entraram pela porta com mais coisas nas mãos. Pareciam roupas ou qualquer coisa do tipo. Vestiram-no, então. E por último, posicionaram um estranho aparelho em sua cabeça. Pôde sentir vários pêlos crescendo em partes estratégicas de seu corpo. Em pouco tempo parecia pronto, pois retiraram aquilo de sua cabeça e ficaram assistindo qualquer reação. Apenas olhava ao redor para aquelas estranhas pessoas de branco. E ficaram assim por um tempo, olhando-o e fazendo análises em suas placas. As roupas que ele usava eram normais. Blusa de malha, calça jeans, tênis. Também tinha um relógio em seu pulso esquerdo e alguns anéis nos dedos. A linha prateada em seu polegar direito não mais era um anel, pois era tão parte dele quanto seu fígado.

E então uma figura diferente adentrou pela porta. Era alta, talvez uns dois metros. Usava um manto longo que arrastava pelo chão e cobria seu rosto completamente, assim como suas mãos. Seus passos nem ressoavam de tão delicados e suaves que eram. A figura parou ao lado do garoto, deixando sua mão incrivelmente pálida escorregar pela manga comprida e folgada e tocar seu ombro. De repente sentia-se bem.

Uma das pessoas que o assistia, um homem, aproximou-se. Ficou de pé em frente à mesa e fez mais algumas análises em sua placa. Em seguida, entregou-a para um dos homens que arrastaram o garoto até ali enquanto outro pousava uma grande bandeja que pegava quase todo o comprimento da mesa. Sobre ela, três tipos diferentes de torta. Muito bem enfeitadas. Uma era rosa com branco, a outra era laranja e a última tinha dois tons de verde. Pareciam deliciosas.

— Essa é a mais saborosa. – disse o homem, apontando a torta rosa.

E parecia. Essa é a mais saborosa, pensou o garoto. Parecia suave, nem muito doce, nem muito amarga. A consistência era perfeita e as cores casavam perfeitamente com o nome, fosse qual fosse.

— Essa é a mais saborosa. – repetiu.

A presença encapuzada soltou seu ombro e passou por trás dele, aproximando-se da mesa. Apontou a torta mais próxima, a com dois tons de verde. Parecia igualmente perfeita. Singular, assim como a primeira.

Ele ergueu sua mão e a apontou também. O homem não pareceu gostar.

— Não. – disse enquanto pegava sua mão pequena e a deslocava para sobre a torta rosa. – Essa.

Todos aguardaram. E após algum tempo ponderando, deslocou sua mão de volta para a torta verde. Assustou-se em seguida com as vozes confusas e irritadas que ecoaram pela sala. E assim foi por algum momento, durante o qual seu olhar acabou se fixando na torta do meio, a laranja. Até que o silêncio reinou mais uma vez e quando deu por si, o homem não estava mais na sua frente. O mesmo rapaz de antes retirou a bandeja e então uma mulher se aproximou. Encarou-o com desdém e tirou do bolso três pequenos objetos, os quais depositou sobre a mesa. O primeiro era uma pirâmide, o segundo era uma bola e o terceiro era um cubo, os três prateados, metálicos.

— Esse. – ela disse, áspera, apontando para o cubo.

Era belo. Provavelmente cabia na palma de sua mão. Conseguiria escondê-lo facilmente. Sim, era esse.

— Esse. – repetiu, apontando o cubo.

A mulher pareceu menos incomodada. Até que o encapuzado se mexeu mais uma vez, agora para trás do menino. Seu braço passou por sobre seu ombro direito e aponto a bola. Só de o garoto olhar para ela, a mulher voltou a se irritar.

— Não! – berrou, segurando o queixo fino do jovem e fazendo-o olhar para o cubo. – Esse!

— Esse. – repetiu ele, dessa vez apontando para a bola.

Mais uma vez as vozes irritadas irromperam pela sala, assustando-o. A figura encapuzada caminhou em todo seu silêncio para o outro lado da mesa, chegando no mesmo instante em que a mulher saia com seus objetos. Novamente, o silêncio enquanto todos encaravam o garoto sentado na cadeira. A figura então colocou a mão esquerda dentro da comprida manga direita e de lá retirou três pontos de luz. Um era vermelho, o outro, azul e o último, preto. A mão do encapuzado se estendeu e os três pontos levitaram sobre a mesa. Ninguém apontou nada, ninguém disse nada. Apenas olhavam. Ele sabia que precisava escolher. E passou algum tempo pensando em qual. Pensou em um, depois em outro, e por fim no último, mas não conseguiu se decidir. E mais um momento se passou.

Até que ele cansou de pensar. Voltou a se encostar na cadeira e olhou para o capuz da figura, como se olhasse para seu rosto misterioso. Mais uma vez as pessoas ao redor ficaram furiosas e começaram a esbravejar para ele.

— Olha pra você!

— Não tem vergonha?

— Inútil!

— Por que você não faz nada direito?

— Isso é errado!

— Você deveria nos seguir!

— Isso é o certo!

— Você está errado!

— O que pensa que vai fazer?

— Você vive conosco!

— Deve se adequar!

— Tem que se vestir direito!

— Falar direito!

— Se sentar direito!

— Andar direito!

— Olhar direito!

— Criticar direito!

— Pensar direito!

— Por que você gosta disso?

— É estranho!

— Não é normal!

— Precisa de ajuda!

— Precisa se misturar!

— Precisa ser igual!

— Tem que fazer assim!

— Todos dizem que é assim!

— Todos dizem que é o certo!

— É como todos fazem!

— Por que você não faz igual?

— Não vai a lugar algum assim!

— Errado!

— Aberração!

— Esquisito!

E no meio de todas aquelas palavras que para ele não faziam o menor sentido, ele se sentiu mal. Seus punhos se fecharam com força e quis muito bater na cara de todas aquelas pessoas até sangrarem. Só queria sair dali.

Então a figura encapuzada se virou e caminhou até a porta, abrindo-a. Além, o nada. O vazio. Apenas trevas e estrelas. Sentiu-se menos irritado e se levantou. Gritaram mais alto, cada vez mais alto. Cada vez mais irritados. Seguindo-o. Até que atravessou a porta com o encapuzado e, quando olhou para trás, as várias pessoas de branco apenas o olhavam, indiferentes. A porta se fechou e imediatamente várias formas surgiram ao seu redor. Eram diversos objetos. Vários, inúmeros. Incontáveis. Tantas coisas que mal conseguia discerni-las umas das outras, mas ainda conseguia ver as estrelas e as trevas. E a figura misteriosa não mais estava ao seu lado. E não mais usava as roupas antes impostas. Estava completamente nu. Mal lembrava o que tinha acontecido naquela sala. Que sala?

Quem era ele, afinal? O que ele era?

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