Costumava andar daqui pra lá, de lá pra cá. E ouvia todos os sons de dentro e de fora. Os de fora eram desagradáveis. Vizinhos, música alta (da pior qualidade), natureza. Era acostumado com a poluição, os carros, a fumaça. O ar poluído da capital lhe fazia bem. Os sons de dentro eram os mais estranhos possíveis. Passos no forro, como passos no andar de cima de um prédio. O problema é que não tinham vizinhos superiores. Também costumava ouvir coisas na sala ao lado, na cozinha, na sala mais adiante. Na varanda até. Esses imaginava serem os gatos. Nunca estavam à vista de qualquer forma. E mantinha sua atenção no computador.

Levantou-se, largando o mundo dentro do monitor sem aviso prévio. Ele continuaria muito bem sem ele. Pensariam que era ignorante, arrogante, antipático por não responder na hora. Não era nada disso. Nunca era isso.

Caminhou preguiçoso ao banheiro e fechou a porta. Ficou de pé em frente à privada e abaixou a cueca, deixando o xixi jorrar de seu pênis. Não sabia como os outros homens se sentiam, mas achava aquela sensação maravilhosa. Nada comparada à de gozo, mas ainda assim. Será que tinha alguma semelhança biológica? Talvez, mas não saberia. Não naquele momento, nem em um próximo, pois odiava estudar. Era parte de sua educação, aquilo de que estudar era uma obrigação. Não se dava bem com obrigações. Nunca foi bom em obedecer e seguir regras. Nunca gostou do sistema.

E ouviu um som. Dessa vez foi mais estranho que qualquer outro. Não foram passos no forro, não foram os vizinhos, não foram os gatos. Não foi o vento. Vinha de trás da cortina do chuveiro. Um som abafado que não reconheceu imediatamente, mas logo identificou como som de guerra. Armas, aviões, helicópteros; o que vier. Era o som da morte eminente, dos conflitos não resolvidos, da violência sem sentido. Curiosamente, ele adorava aquele tipo de coisa. Quem não gostava de um filme de ação? Ele sim.

Estava tão, mas tão curioso que nem deu descarga ou lavou as mãos. Apensar recolheu seu pênis para dentro da cueca e puxou a cortina de plástico para o lado. Não se vestiria tampouco. Ali, na parede bem à sua frente, havia um buraco. Não era grande nem pequeno e estava bem no meio da parede. À medida que se aproximou, os sons de guerra ficaram mais nítidos. Tiros, explosões, aviões. Gritos de homens. Falavam uma língua que não conhecia. Já ouvira, mas desconhecia. Só conhecia o inglês além de sua língua natal. Se mais de uma língua foi gritada, não saberia dizer.

Movido pela curiosidade e o medo, passou sua mão pelo buraco, sentindo sua cabeça pesar ao sentir sua solidez. Era tão real quanto qualquer coisa que já tivesse tocado. Adiante, a escuridão. E os sons de guerra. Não era um breu total, havia luz em algum canto clareando as paredes de tijolos. Avançou para mais perto do buraco e ajeitou-se para passar por ele. Seus pés nus tocaram um piso deteriorado, empoeirado, nojento, asqueroso. Não estava exatamente limpo, pois não tomava banho há algum tempo, mas aquela sensação o deixou arrepiado. Mesmo assim, continuou. Sua curiosidade e seu medo eram maiores que qualquer nojo. Não olhou para trás, apenas botou um pé na frente do outro enquanto os sons iam ficando cada vez mais audíveis. Até que chegou ao final do corredor e os sons estavam bem próximos. À sua frente, uma porta. Estreita, porém grande e pesada. Conseguiu empurrá-la com algum esforço e então a claridade perfurou seus olhos após a escuridão anterior. Saiu para uma rua larga, antiga, destruída. Homens de uniforme corriam daqui pra lá, de lá pra cá, portando armas grandes, cada vez maiores. No céu cinzento, sobre os telhados históricos, o som de aviões – e um até chegou a passar bem próximo dos telhados. Explosões, gritos, tiros. Choros. Reparou em algumas poucas pessoas à paisana, provavelmente fugindo da guerra.

Sentiu-se fisicamente bem. Olhou para suas mãos e reparou que calçava luvas pretas de cano longo, seguidas por mangas grossas até seus ombros, descendo até a cintura, continuando por suas pernas até as botas escuras. Em suas costas sentia alguns pesos. Armas. Provavelmente duas. Mais duas sob suas axilas. E dois facões nas botas. Até usava um chapéu e sentia que seu cabelo estava arrumadinho. E estava limpo apesar do cheiro de morte e de intrigas que poluía o ar.

Não sentia medo, nem curiosidade. De fato, sentia nada. Olhou ao redor mais uma vez, indiferente àquele campo de batalha pútrido do qual fazia parte. Tinha algo a fazer. Um rosto, uma expressão. Um olhar sem piedade. Já podia sentir seu dedo apertando o gatilho da arma para disparar aquela bala específica que faria a honra de tirar uma vida tão miserável.

Deitou a cabeça para trás, mirando o céu cinza mais uma vez. Localizou-se e então suas pernas se moveram calmas na direção de onde a maioria dos soldados vinha. Entendia os gritos, mas ainda assim eram incoerentes. Completamente sem importância para com seu propósito ali. Aqueles homens inferiores eram meros peões no tabuleiro montado por ele próprio. Antes podia se dizer uma dessas peças insignificantes, porém não mais. Vestiu uma superfície neutra. Não era aliado, tampouco inimigo. Jogava sob suas próprias regras e movia-se pelas casas em qualquer turno.

Ao dobrar à esquina, empunhou uma das metralhadoras de suas costas e atirou nos inimigos. Caíram facilmente. Em poucos minutos seu caminho estava limpo de insetos imundos. Não importava quem eram aqueles soldados, não estavam do seu lado. Ninguém estava. Naquele campo de batalha, ele era seu próprio exército.

Precisou caminhar por mais algumas ruas, já que pegar um veículo era completamente inviável naquele apocalipse. Sentia o desespero dos soldados que cruzava, fosse por ele, fosse por seus inimigos, assim como o medo no coração dos civis, chorando, gritando, procurando abrigo, rezando para mil deuses por um amanhã pacífico. Sentia por eles. Aliás, sentia por todos ali. Sentia até por ele mesmo, pois foi usado durante muito tempo. E finalmente despertou.

Antes de atravessar o cruzamento que lhe separava do prédio onde se encontrava seu alvo, uma enorme explosão o parou. Foi bem no meio do cruzamento. Pegou algumas pessoas ali, soldados e civis. Talvez até crianças. Uns voaram longe, muito provavelmente morrendo antes mesmo de levantarem do chão; outros explodiram como um balão d’água. Por um momento, assustou-se. Todavia, aquela era sua realidade. O fim do mundo particular de cada pessoa. O vislumbre do fim inevitável e incoerente. Ele mesmo promoveu tal guerra por tanto tempo que nem podia contar de qualquer forma imaginável quantos morreram por uma ordem sua, ou por suas próprias mãos pequenas, porém letais.

Concentração. Foco. Podia ver de trás daquele carro antigo e destruído no qual se protegia o imponente prédio. Toda aquela beleza cairia. Não era uma certeza, mas uma hipótese óbvia. Com toda aquela destruição, era impressionante que ainda existissem locais intactos como aquele. Uma beleza arquitetônica que ficaria apenas na lembrança para a posterioridade. Talvez o reconstruíssem, mas não seria a mesma coisa. Não seriam os mesmos tijolos, os mesmos ornamentos, as mesmas vidraças.

Levantou-se e continuou sua caminhada até o prédio adiante, ignorando o enorme tanque que se aproximava – o que causara a explosão anterior. Seu cano tentava seguir o garoto, mas ele era rápido. Um disparo estourou em seus tímpanos, mas passou por trás dele, atingindo um prédio no caminho. Após mais alguns disparos ignorados, estava enfim na porta do enorme prédio. Pelas vidraças podia ver vários soldados, guardando aquele que veio visitar. Empunhou as duas metralhadores e abriu as enormes portas, atirando antes mesmo que todo o aposento estivesse em seu campo de visão. A munição de uma das armas acabou logo, pois era a que vinha usando no caminho, então finalizou a munição da segunda e as largou. Mais homens vinham correndo dos corredores e salas mais interiores.

Agachou-se rapidamente para pegar suas facas e começou a atacar no momento exato que os primeiros apareceram. Atiravam em sua direção, mas ele era rápido – realmente rápido. Esquivou-se de muitos tiros e mesmo os que lhe atingiram não eram capazes de detê-lo. Não antes de cumprir sua missão. Em alguns minutos, todos os soldados naquele andar estavam mortos. As facas antes limpas e impecáveis estavam completamente cobertas de sangue. Suas mãos as soltaram imediatamente. Podia ser um guerreiro, mas não suportava ter as mãos sujas de sangue.

Apesar das dores por causa dos tiros anteriores, ainda conseguia se manter de pé e pronto para mais. Só se permitira sentir cansado após encravar uma bala entre os olhos daquele infeliz. As pernas, ainda ágeis, subiram degrau por degrau da bela escadaria e seu corpo aparentemente frágil não se deixou abalar pelos tremores constantes que o edifício enfrentava.

Esperava que no andar superior houvesse mais soldados lhe aguardando, mas estava completamente vazio. A não ser por um par de vozes audível no fim do corredor. Continuou até lá e antes mesmo de alcançar a porta à direita, já sabia que o bastardo estava acompanhado de seu bosta número um. Empunhou uma das pistolas sob as axilas e abriu a porta rapidamente, assustando-os. Livrou-se do bosta primeiro, fazendo um buraco em sua testa. O bastardo encarou-o com aquela sua expressão mortífera que dizia estar pronto para tudo. Mesmo no fim, ele era arrogante.

— Você acha mesmo que um verme como você vai conseguir me pegar? – perguntou, áspero.

O jovem, mais baixo e fisicamente menor, não se deixou abalar. Levantou a arma e apontou diretamente para a cabeça do filho da puta. Ele não tinha como escapar. Estava bem na mira, bastava puxar o gatilho.

— Eu já peguei. – disse.

E disparou. Bem entre os olhos furiosos do infeliz. Antes mesmo que seu corpo caísse, porém, sentiu uma pontada em seu peito. Uma dor colossal tomou conta dele e um leve toque com a mão enluvada confirmou que tinha sido baleado. Caiu de joelhos, largando sua arma. Foi um tiro preciso, atravessando algum órgão vital. E quando seu corpo caiu, ainda estava consciente. Seu assassino aproximou-se e olhou-o de cima.

Era ele. O bastardo. O infeliz filho da puta. Com um sorriso triunfante no rosto nojento. Apontou sua pistola para a cabeça do garoto e disparou.