Alcohol
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Só sabia que era de tarde e que estava quente. Há muito tinha perdido a noção do tempo. Seus horários viviam trocados. Quando acordava, ora era dia, ora era noite. Às vezes se perguntava em que ano estavam. Não sabia o dia do mês, nem o mês. Nem o dia da semana. Não sabia de nada do mundo lá fora. Seu mundo agora era seu quarto. O vazio preenchido pelos gatos quietos. A casa vazia, bem decorada, cheia de calor humano, porém sem vida. Na cozinha a geladeira ressonava baixinho, mantendo fria sua água e a comida, as únicas coisas que realmente lhe interessavam ali dentro – a água e o almoço, o resto era resto. É o tipo de coisa que acontece quando se passa tanto tempo sozinho.
Falava muito consigo. Também falava com os gatos, mas eles não entendiam. Só não falava com as paredes por ter ouvidos para si. Muitas pessoas não conseguiam se ouvir, ele sabia. Estavam muito preocupadas com todas as outras coisas. Estavam muito preocupadas com os outros. Não conheciam o som da própria voz interior, dizendo palavras reconfortantes tão bem conhecidas pelo consciente e expressadas ainda melhor pelo subconsciente. Não seriam capazes de se distinguir se olhassem para o espelho. Ah, esse sou eu. Mas, quem sou eu?
Ele não sabia de tudo. Mas, sabia de tudo que lhe convinha. O mundo dizia que estava errado, mas não se importava. Não pretendia viver para o mundo. Quando precisava ser sociável, era sempre discreto, fechado, recluso. Vagando por seu próprio mundo de sonhos e pesadelos – mais pesadelos que sonhos. Era um marginal que espreitava os limites sociais, assistindo a tudo da linha tênue que separava sua realidade da deles. Todos (todos) apontavam para ele e diziam que precisava mudar, mas era assim que gostava. Era esse o estilo de vida que lhe fazia feliz. Não diziam para viver como se sentisse bem? Então, qual o problema?
Cansou de tentar entender. Decidiu se trancar mais ainda em seu mundo. Passou a sonhar mais, atormentado por inúmeros pesadelos. Frágeis castelos de areia erguidos no teto sujo daquele quarto imaculadamente branco. Logo desabavam, deixando-o desolado na claridade do aposento de seis lados. Não, às vezes no escuro. Mais eventualmente na claridade, afinal, era durante o dia que mais sonhava, apesar dos horários trocados.
Precisava se ajeitar. Entrar na faculdade, arranjar um emprego. Ter sua casa, seu carro. Casar. Ser feliz. Ficar velho, se aposentar. Ter filhos, talvez. Provável que não. Ter bichos, com certeza. E morrer. Ser mais um no meio de tantos. Apesar de não fazer nada, essa ideia o incomodava. Não gostava de ser igual aos outros. Não gostava de viver em sociedade. Não gostava de ser parte desse todo. Gostava de ser seu próprio todo. Queria ser um herói que acabaria com a ignorância do mundo. Queria salvar jovens perdidos. Queria mostrar caminhos, explicar onde cada um ia dar. Queria morrer e ainda ouvir seu nome ecoando por aí. Ainda em seu mundo, mas viajante no mundo dos outros. Assim, conseguiria viajar quilômetros. Iria ao Japão, iria à Rússia, iria à Inglaterra. Iria a Marte e de volta. Talvez fosse por outros universos e planetas jamais imaginados pelo homem.
Não. Era ninguém. Era apenas um garoto baixo, magro, pálido, com olheiras e espinhas. Era sozinho. Não se incomodava com isso, apesar de vez ou outra tentar fazer parte de algo através daquela caixa preta com um monte de botões. Hipócrita. Como todos. Humanos. Era de sua natureza se sentir sozinho, bem como querer se sentir querido. Era normal. Ainda assim, um hipócrita. Não se incomodava. Não se importava com nada daquilo – de ser sozinho, hipócrita, solitário. Era como muitos dos heróis que venerava, um lobo solitário. A diferença é que ele não era um herói.
Quantos anos tinha, afinal? 19? 20? 25, 30, 45, 90? Quem sabe? Seu corpo era diferente de sua mente. Às vezes não se sentia ele mesmo. Como se tivesse nascido no lugar errado. Era tudo errado. Não tinha um momento em que não parasse para pensar em quão errada era sua vida. As perguntas erradas com as respostas erradas. Os olhos errados no prêmio errado. Mijando a energia errada.
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