Além do que se vê

9 Capítulo 8 - A Vingança é um Prato Apimentado


Notas iniciais
Leitoras (es) lindos, mil perdões pela ausência, minha vida de pré-universitária andou um inferno, e eu não tive tempo para nada... Agora, vou ver se consigo postar com mais frequência :) Saudades dos comentários de vocês! Beijos e boa leitura :)

PDV – Roberto

–E o que isso quer dizer, minha querida? – perguntei.

Eu a levaria para minha cama nem que fosse a última coisa que eu fizesse.

–Que pode não ter alguém do meu lado, mas eu não estou tão disponível como você pensa. – ela sorriu, virou o restante do copo, e pediu mais uma. Ela interrompeu o contato visual comigo.

Isso não vai ser assim.

–Giulia. – chamei, chegando mais perto dela. – Tenho uma proposta a fazer.

Ela se virou para me encarar e se surpreendeu com minha proximidade. Revirou os olhos e respondeu:

–Não quero ouvir nenhuma proposta indecorosa sua.

–Não é indecorosa... Não essa. – sorri.

–Babaca. – ela me xingou. – Já notei que não vai me deixar em paz enquanto eu não escutá-la... Pois bem, fale logo, não tenho a noite inteira.

–Que tal uma dança? O repertório da banda é muito bom.

Ela riu, acho que consegui desarmá-la. Giulia provavelmente achava que eu a chamaria para um jantar ou algo assim. Muito clichê.

Ainda rindo, pegou sua bolsa e estendeu a mão para mim, aceitando o convite. Beijei sua mão, e andamos até uma mesa próxima, onde ela deixou a bolsa com as amigas. Uma delas estava incrédula. Uma morena gordinha, acho que o nome dela é Larissa.

Continuamos o caminho até a pista de dança, e a música não poderia ter sido mais perfeita.

Crystalised — The XX

Entrelacei a mão esquerda na dela, pousei a outra na base de sua coluna e a puxei para mais perto. Sua mão ficou no meu ombro, e fui guiando-a pela pista de dança. Nunca fui o melhor dançarino, admito... Mas não tenho dois pés esquerdos. Giulia, diferentemente de mim, já havia feito dança de salão. Ela dançava melhor do que eu, e tinha uma postura elegante.

Não falamos nada no primeiro minuto da música. Ela ficara com o olhar passeando pelo salão, mas, de repente, abriu um sorriso filho da puta. Mas não era qualquer sorriso filho da puta... Esse era diferente. O deboche era explícito, mas não era para mim. Era para outra pessoa. Girei-a e vi para onde ela estava olhando.

Era para Victor. Aquele sorrisinho sacana era para ele. Ela queria provocá-lo.

Ah, então ela também tinha um lado sombrio como eu – um lado patife.

Mesmo assim, quero ver até onde ela aguenta.

*

PVD – Victor

Trinquei o maxilar, puto de raiva. Caralho, caralho, caralho!

Quem essa menina pensa que é?

Ela acha que vai ficar brincando comigo desse jeito? Ah, ela não me conhece.

Por mais que tenhamos uma química escrota na cama, não passa disso. É, eu sei, é superficial trair minha mulher só por pura falta de sexo.

Mas e daí?

A vida é minha e faço o que quiser.

E o pior de tudo é que eu sei o porquê dela estar fazendo isso.

Na semana que Cristina tirou de folga, não nos falamos.

Fodemos até os nossos cérebros entrarem em colapso, e não falei mais com ela. Sumi. E não é do meu feitio fazer isso. E ela sabe.

Mas não sabe da folga de Cristina. Lógico que ela não esperava que eu vivesse para ela, eu tinha uma vida paralela ao nosso caso puramente sexual secreto.

De repente, Cristina me tirou dos meus devaneios:

–Amor, sua cerveja. – sorriu.

Dei um sorriso, agradecendo.

–Esse teu colega de trabalho é patético. – comentou, acenando com a cabeça para Roberto. Ela estava bonita, devo admitir. Um vestido preto também, unhas vermelhas, sapatos pretos, o cabelo alinhado. Mas ela não tinha a sensualidade natural de Giulia. – Ele paquerando com essa menina... Ela não tem mais do que dezoito anos. Ele provavelmente vai cantar umas mentiras no ouvido dela e transar com ela. Meninas assim são fáceis demais. – ela bebericou sua caipirinha.

Tive vontade de revirar os olhos, mas me controlei.

–Cristina, você já esteve no lugar dela, lembra? A diferença de idade entre vocês não é tão gritante. Você caiu no meu papo, lembra? Acontece. E, pelo o que já ouvi dela, ela não é de se iludir, e sim de aproveitar o momento. – devolvi, meio grosseiro.

Ela se incomodou, e rebateu:

–É, mas estamos casados. – e mostrou o dedo com a aliança. – Deu certo para mim. E para ela e seu colega galinha?

–Eu também era um Don Juan. Foi isso que chamou sua atenção, lembra? E que casamento esse nosso... Nem sei quanto tempo tem que não transamos. Parece mais algo por pura conveniência. – continuei a ser bruto. – Você se descuidou, além de deixar nosso casamento em segundo plano, Cristina. Mas não vamos continuar essa conversa agora. – voltei o olhar para a pista de dança e o sorriso sacana de Giulia para mim.

Cristina fez uma cara de choro de partir o coração. Mas não o meu.

Ela saiu sem olhar para trás, nem vi para onde foi.

Ninguém notou nossa discussão, o que foi bom. Discrição é tudo, não é?

Giulia ainda estava graciosa nos braços de Roberto, rindo com ele.

Então, vi-me como uma criança egoísta na pré-escola, sem querer dividir os brinquedos com os coleguinhas de classe.

Ela era meu brinquedinho.

Continuei a encará-los.

*

PDV – Cristina

Fui para o banheiro. Não ia dar essa satisfação para Victor. Ele não me veria sofrer.

As lágrimas escorriam pelo meu rosto, minha maquiagem borrou um pouco.

Limpei-a e retoquei-a.

Tentei me recompor psicologicamente, minha cabeça estava confusa, um turbilhão de coisas ao mesmo tempo. Minha vontade era de fugir para o trabalho, mas não era uma opção: além de eu ter sido dispensada, ia corroborar a questão levantada por Victor.

Que situação fodida.

A porta do banheiro se abriu, e a menina, que dançava com o colega de Victor, entrou.

Ela era muito bonita.

Ela não pareceu me notar, de primeira. Olhou-se no espelho, ajeitou o decote do vestido, colocou a barra no lugar... O vestido dela estava muito curto, também era preto como o meu, e suas unhas estava pintadas num vermelho-sangue.

O olhar dela encontrou o meu. Ela abriu um sorriso simpático. Tentei devolvê-lo, mas não tinha ânimo dentro de mim.

Ela pareceu notar.

–Algum problema?

Minha expressão se contorceu, unindo dor, tristeza e controle.

–Uma situação muito complexa para uma menina tão nova. Não se preocupe comigo.

–Você não parece ser muito mais velha que eu, mas respeito seu momento. – ela respondeu. – Não se preocupe, tudo vai voltar para o seu devido lugar, seja lá o que você esteja passando. – então, ela sorriu de novo.

E saiu do banheiro, me deixando sozinha.

Decidi fazer o mesmo.

*

PDV – Giulia

David Guetta & Showtek — Bad ft. Vassy

Eu estou com um lugar reservado no inferno para mim, puta que pariu.

Acho que ainda tá para nascer alguém mais cara de pau que eu.

Sei que não sou a única que encara a esposa chifruda do respectivo amante, mas mesmo assim. Meu estômago havia sido sacodido, e com uma concentração de álcool mais alta do que deveria... Eu podia ter colocado tudo em risco.

Mas não coloquei.

Ela estava chorando. E eu disse que tudo ia se resolver, mesmo sabendo que o marido dela ainda tinha um desejo sexual enorme por mim. Ou seja, provavelmente, não iria se resolver... Não era da minha conta, entretanto. Prometi que não iria me meter na vida conjugal de Victor, já que a parte que me dizia respeito era a extraconjugal.

Eu poderia ter me vingado dele naquele momento em que dividi o mesmo espaço com sua esposa, Cristina. Porém, eu também teria colocado algo que me interessava – a minha satisfação sexual – em risco. Decidi, então, me vingar de uma forma mais cruel. Decidi, portanto, jogar com a possessividade dele, com o ciúme...

Eu, no entanto, não tinha prometido exclusividade nem fidelidade, pois tinha um conhecimento prévio de sua fama e de seu jeito Don Juan.

Ele deveria ter previsto que não sou apenas um rostinho bonito.

Então, após sair do banheiro, enquanto pensava seriamente em ir tomar uma boa dose de algo bem forte, me deparei com uma cena cômica, tal qual seria uma tragédia grega: Victor e Roberto conversando. Mudei minha rota imediatamente: segui em direção a eles. Essa troca de farpas eu ia querer assistir de camarote.

–Victor, esqueça. Você perdeu. – ouvi Roberto dizer.

–Essa brincadeira só começou. – Victor respondeu.

–Posso saber do que se trata, cavalheiros? – perguntei.

Victor sorriu para mim, como quem quer me acolher nos braços e me levar pra cama, me prometendo todo o prazer que um corpo de carne e osso pode receber.

–Claro que pode. – começou Victor. – Meu colega Roberto acredita que, se cantar umas mentiras no seu ouvido, vai conseguir te levar pra cama. Isso é procedente?

Roberto encarou Victor, incrédulo. Dei uma risada irônica, meus olhos queimavam de raiva.

Se é como um brinquedo descartável que ele vai me tratar, é assim que vou tratá-lo.

–Claro que não. Não sou qualquer uma... Roberto, meu caro, chega de presunção, não é? Já chega dessa brincadeira ridícula. – dei risada. – Se você acha que eu ia cair nesse seu truque barato, que, por sinal, já ouvi várias vezes, está enganado. Já fiz o que queria com você, e não tenho nenhum interesse em prolongar isso. Agora, se os cavalheiros me dão licença...

E saí de perto deles.

Alguém, de repente, me segura pelo braço.

Era Victor.

–Giulia, precisamos conversar. Hoje de noite, depois dessa festa, posso passar na sua casa?

–Sua mulher vai sentir sua falta. – rebati.

–Vamos brigar quando chegarmos em casa. Eu disse coisas que não deveria, e ela está magoada. Vou acabar saindo para o primeiro bar que achar aberto... Se você quiser ir comigo, passo na sua casa, e conversamos.

–Victor, acho que isso já foi longe demais.

–Me dê uma chance para que eu possa justificar minha ausência... Juro que não foi por mal. Não sou homem de arrumar desculpas, e você sabe disso.

–Vict... – meu celular vibrou. – Só um minuto. – Quando olhei quem era, vi que era meu ex, dizendo que estava na mesma festa que eu. – Puta merda. – xinguei.

– Que te aflige? – Brincou, tentando aliviar o clima.

–O filho da puta do meu ex está na festa e – reparei que ele me achara, merda! – ele está vindo para cá... Me dá uma ligada antes para ver se ainda estarei acordada. Se eu estiver, vou ver se vou ter saco para ouvir essa sua explicação.

Victor tinha uma expressão de alívio.

Gabriel, meu ex, se aproxima de mim e de Victor.

–Olá, Professor Victor... Tudo bem? Há quanto tempo. – cumprimentou Gabriel.

Um aperto de mãos.

Algo me dizia que eu iria matar alguém... Só não sabia quem.

Cristina, a esposa de Victor, se aproximou de nós, com um cortês e simplista “boa noite”, e lançou um olhar gélido para o marido. Victor e ela se retiraram.

–Então, Giulia... Nos encontramos novamente.

A minha noite parecia ser regida pela Lei de Murphy.

Bom, isso seria divertido.

Notas finais
Hahahaha, e aí, o que acharam? Quero ouvir as opiniões!