Além do que se vê

10 Capítulo 9 - After-party desagradável


Notas iniciais
Gente, desculpe pela demora... A inspiração estava meio fraca, mas aqui está um capítulo para vocês se apaixonarem um pouco mais pela fic! Beijos e boa leitura, loves

PDV – Giulia

Gabriel era um cara alto e magro, cabelos e olhos negros e levemente bronzeado. Ele não era lá muito bonito, mas compensava em bom humor, simpatia e charme.

Mas a química que nos uniu não estava mais lá.

–É, a vida não é perfeita... Fiquei chateada por saber que minhas preces não foram ouvidas.

–Preces? — ele perguntou, com sua expressão se transfigurando para algo que parecia confusão. – Como assim?

–Aquelas de não te ver nem pintado de ouro... É, Deus não abençoa com as duas mãos. – Completei, pensando em Gabriel e em Victor.

Gabriel ficou visivelmente incomodado. Se havia uma coisa que ele não sabia fazer, era esconder os sentimentos dele, diferentemente de mim. Além disso, eu não estava fazendo o mínimo esforço para deixá-lo confortável ao meu lado. Ele não pertencia lá, não mais. Quis deixá-lo incomodado com minha presença. Queria que ele se incomodasse com minha felicidade, com minha naturalidade ao lidar com todos a minha volta. Queria que ele olhasse para mim e sentisse minha falta. Que sentisse dor. Que ele sofresse o que eu sofri.

Fui muito apaixonada por ele, oh céus. Dá uma dor só de lembrar. Ele conseguiu entrar no meu coração e na minha mente, e se fixou em mim como uma tatuagem... E, como uma daquelas músicas antigas de Jazz & Blues, não consegui impedi-lo, acabei me entregando. Dessa vez, exatamente como uma música da Etta James³, me fodi lindamente. Chorei tal qual viúva. Aprendi.

Porém... Antes de terminarmos, meti um par de chifres na testa dele. Sim, Capitu, a ressaca dos mares, a traição atraente, e todo aquele blá-blá-blá do Luiz Tatit¹. E não, ele nunca soube. Optei por não contar, deixei isso como uma satisfação íntima. E não, eu não sofri menos porque o traí. Sem tabus, foi uma aventura a qual me dei ao luxo de viver.

–Giulia, não faz assim... Você sabe o quanto eu ainda gosto de você! Eu não sou qualquer um, sou seu ex-namorado... Não vou aceitar um “não”.

Dei uma gargalhada.

–Tá de brincadeira, né? Na boa, eu tô dizendo que acabou, desiste... Vai atrás de uma patricinha do Direito, vai. Não precisa mudar o curso, não precisa mudar nem a porra da cor do cabelo, nada. Só de mulher. Eu esperei minha liberdade por um ano, e hoje, que a tenho, você vem com essa? Não é assim que funciona. – falei como quem cospe as palavras, bem rude. – Eu te amei, e você preferiu as farras de universitário a ter paciência para dar certo entre nós. Cada um lida com as consequências das próprias escolhas. Eu aceitei. Passei meses, feito otária, chorando, achando que, um dia, fossemos voltar. Não mais. Sou outra mulher. Se me dá licença... – me retirei sem esperar uma resposta e fui para perto de minhas amigas. Larissa me deu uma dose de vodka com gelo.

Senti o olhar com um misto de irritação com admiração involuntária vindo de Roberto. Admito, apenas para mim mesma, que ele era um cara bonitão, embora não no sentido convencional. Ele era barbudo, alto, cabelos negros, umas tatuagens. Mas ele era hipócrita e bipolar. Além de outros defeitos que descobri ao longo de um ano sendo sua aluna.

Fomos todas dançar, e, quando me dei conta, ouvi a seguinte frase da música: “I know your wife, and she wouldn’t mind we made it out to the other side. Come on, baby.”

Não sou muito de acreditar em sinais… Mas esse seria um?

*

PDV – Victor

Sober — Pink

Depois que Cristina voltou do banheiro, e me encontrou falando com Giulia e Gabriel, fomos para casa. Era o melhor que podíamos fazer.

Comecei a pensar no que tinha falado para ela mais cedo. É, fui muito grosseiro, mas aquilo já estava entalado em mim há meses... Eu não sei o que é ter uma esposa, não mais.

Não que eu não esteja feliz por ela estar realizando o seu sonho de ser médica, e estar construindo uma boa reputação na área. Quando a conheci, Cristina era minha aluna, eu era casado, mas costumava trair minha ex-esposa com as respectivas alunas...

Cristina entrou nesse “hárem”, mas de maneira diferente: de todas, havia algo diferente nela.

Nunca soube explicar o que era, e, até hoje, não sei. Acabei me apaixonando por ela, inexplicavelmente. Casamos, ela não quis ter filhos de imediato, e nem eu. Eu prometi honrá-la, amá-la, respeitá-la, ser fiel... Tudo isso e muito mais, não me lembro dos meus votos de casamento com exatidão. Mas, na nossa rotina, não estávamos vivendo uma vida de casal.

Para melhorar minha noite já não agradável, Roberto conseguiu me irritar. Não que Giulia fosse inocente, ela estava usando-o para me provocar. No entanto, cada vez mais, ele me irrita. A cada brincadeira maliciosa, a cada piada fora de hora, a cada mensagem desejando Giulia para ele.

Já o trajeto entre minha casa e a festa, esse foi tomado por um silêncio sepulcral, embora não pacífico. Entre nós, pairava um clima desconfortável. Ela não voltou o olhar para mim uma vez sequer. Cristina encarava as ruas e as avenidas com os olhos distantes e vazios, o semblante cansado e saturado.

Estacionei o carro na garagem do nosso apartamento, subimos pelo elevador no mesmo silêncio terrível, entramos no apartamento. Afrouxei a gravata, tirei o paletó. Ela largou os saltos num canto da sala, e eu fui procurar um copo, gelo e whisky, apenas esperando pela bomba prestes a estourar. Quando achei tudo, sentei numa poltrona, com a dose que faria um alcoólatra parecer um amador.

Cristina parada, na minha frente, como quem quer fazer mil e uma perguntas. Mas não fez.

Ergui o olhar para seus olhos castanhos. Eles estavam pesados, tristes.

–Victor, eu... – Cristina começou.

–Não. – interrompi-a. – Não quero a mesma conversa, não quero as mesmas desculpas. Eu entendo a situação. Já chega né? Cansei. – virei o restante da dose, e coloquei o copo vazio na mesa, levantei e peguei a chave do carro. – Não me espere acordada.

Saí de casa, batendo a porta da cozinha com força.

Quando cheguei ao carro, liguei para Giulia.

Uma. Duas. Três vezes.

Onde essa menina se meteu?

Quatro. Cinco. Seis vezes.

Puta que pariu, atende, Giulia!

Sete. Oito. Nove vezes.

Era tudo o que eu não queria: ficar esperando a boa vontade de ela atender merda daquele celular. Só falta ela estar ficando com outro.

Irritei-me com a ideia de ser substituído.

Na porra da décima vez, ela atendeu:

–Diga o que desejas, meu querido professor. – com uma voz arrastada... Estava meio difícil ouvi-la, tinha muito barulho.

–Por que demorou tanto para atender?

Ela demorou um minuto para responder.

–Eu estava longe do celular.

–Você ainda está na festa?

–Não na mesma. Estou no apartamento de um amigo. Muito vinho barato e muita MPB.

Às vezes eu esquecia que Giulia só tinha 18 anos.

Ela não merecia o vinho barato, embora o apreciasse escutando MBP.

–Manda o endereço, vou te buscar.

–Como assim? Achei que você fosse conferir minha disponibilidade. – reclamou.

Suspirei fundo.

–Não vou deixar nenhum babaca se aproveitar do seu ligeiro estado de embriaguez. – parecia que eu estava falando com minha filha. – É o seguinte, podemos fazer isso do jeito fácil, que seria você mandar o endereço, ou do jeito difícil, que seria rastrear seu celular.

Ela deu risada.

–Ok, sem comportamentos obsessivo-compulsivo... Mas por que eu mandaria o endereço de onde estou mesmo?

Suspirei fundo de novo.

–Porque ficamos de conversar. Giulia, eu estou perdendo o que me resta de paciência e começando a considerar a segunda opção. Não estou com humor para joguinhos.

–Tudo bem, Sr. Grey. Vou mandar, tenha nervos.

Depois que ela me mandou, liguei o carro e segui o caminho que o GPS me mostrou.

*

PDV – Giulia

–Achei que eu fosse o Sr. Grey². – comentou Alex, me passando a garrafa de vinho barato.

Alex é um velho amigo meu, barbudo, tatuado, universitário, alternativo, vinte e dois anos. Sempre me apoiou para que eu desistisse do curso de Direito e fosse para o meu verdadeiro amor, a Economia.

Estávamos sentados na cama dele, descalços e bêbados, dividindo uma garrafa de vinho barato, ouvindo Chico Buarque.

Dei risada.

–Do primeiro “Sr. Grey” a gente nunca esquece, Alex... E posso te garantir que não é pelo mesmo motivo que chamei Victor disso. Ele só quis bancar o obsessivo-compulsivo.

–Quer dizer que não é pelo jeito que ele te fode? – Alex perguntou. Ele me conhecia bem demais para saber que eu ficaria rubra como uma pimenta e, obviamente, envergonhada. – Olhe para mim enquanto responde, Giulia. – ele ergueu meu rosto com sua mão, e com uma delicadeza que não pertencia ao homem que, um dia, esteve numa cama comigo, me dando uma surra de cinto.

Olhei para ele, vermelha, envergonhada.

–Não, não é pelo jeito que ele me fode.

–Eis a diferença.

–Babaca. – falei, revirando os olhos. Chico Buarque ainda ressoava tranquilamente no quarto, em contraste com o rock alternativo que tocava na sala da casa de Alex. Aquela música lenta, cantada daquela forma tão suave, estava mexendo com o que restava de sanidade mental em mim. Não sabia se era a música, o vinho, ou ambos... O que eu sabia era que a situação toda era quase que surreal.

Meu celular toca de novo. Era Victor. De novo.

–É, tenho que ir.

–Acompanhar-te-ei até a porta, mademoiselle.

Demos risada, calcei os saltos, meio tonta, apoiando-me em Alex. Ele colocou um par de chinelos e foi comigo até o Hyundai prata de Victor, abriu a porta para mim, me deu um beijo no rosto e saiu com o olhar distante – eu conhecia esse olhar... Era o seu familiar – para mim, obviamente – olhar de vira-lata velho.

–Quem era aquele, Giulia?

–Não te interessa, Victor. Diga a que veio e para onde vamos.

Victor não me respondeu, ligou o carro e dirigiu pela cidade. Fomos para um hotel requintado.

Sim, hotel, não motel.

*

PDV – Cristina

Eu andava de um lado para o outro, nervosa. O que será que ele foi fazer? Onde ele está?

Liguei para ele uma, duas, três, dez vezes. Ele não atendeu.

Ah, filho da puta!

Meu coração estava batendo num ritmo frenético, minha respiração não ficou para trás.

Resolvi ligar para uma amiga. Ela era psicóloga, trabalhava no hospital comigo, levemente morena e com os cabelos longos e negros como o breu. Seu nome era Sandra.

–Olá, Cristina. Como vai?

–Oi, Sandra... Nada bem, para ser sincera.

–É, foi o que imaginei. – ela respondeu. – Estranhei a ligação, já que é mais de uma da manhã. O que eu posso fazer para te ajudar?

Não acredito que estava pedindo isso a ela.

–Conheço um lugar para a gente conversar melhor... Você está ocupada?

Ela suspirou fundo e aceitou me encontrar. Ela estava preocupada, caso o contrário, ela não teria concordado. Mandei o endereço para ela por mensagem, mas ela disse que me buscaria antes em casa. Fomos para o maldito hotel, cujo restaurante ficava até às três da manhã aberto, junto com o bar do local. Eu precisaria de álcool e coragem para falar com ela.

Mesmo sabendo que ela iria conseguir arrancar tudo de mim só com meras frases e meros olhares. Sandra me conhecia bem o suficiente para saber como que eu me confessaria.

Chegamos ao lobby do hotel, após um pequeno sacrifício de estacionar o mini cooper preto de Sandra. Passamos pelos portões de vidro, e vi uma cena de rachar o coração.

Victor estava na recepção com uma mulher. Outra mulher. O oposto de mim: loira, esguia, arrumada... O corpo dela era curvilíneo, seus saltos, bem altos. Seu vestido, preto e curto. Seu cabelo, além de loiro, enorme.

Mas não consegui ver seu rosto.

Ele a guiava pelo caminho com a mão na base da coluna dela, como ele fazia comigo, quando ainda éramos um casal. Desabei em um choro quase que instantaneamente. Nenhum dos dois me viu. Sandra me abraçou, mesmo sem entender nada, me consolando.

Eu soluçava. Lágrimas desciam de meus olhos quase que freneticamente, enquanto Victor se encaminhava para foder uma vadia qualquer.

E, nesse momento, tive a certeza de que Victor não seria mais meu como havia sido um dia.

Mesmo sabendo que ele iria ficar com ela essa noite, eu não iria ceder fácil assim.

Mas não vai ser fácil como aquela loira vagabunda pensa que será.

Notas finais
Observações: ¹: Luiz Tatit - Capitu: http://www.youtube.com/watch?v=AZu-cMGb_RM (Vocês vão entender após a música hahahah) ²: Sr. Grey: Um dos personagens do "Cinquenta tons de Cinza". Dominador de Anastasia, um dos personagens principais da história. Tem gostos peculiares pelo sexo, praticante da modalidade de BDSM (Bondage e Disciplina, Dominação e Submissão, Sadismo e Masoquismo) ³: Etta James: cantora de Jazz, famosa no mundo todo. (http://www.vagalume.com.br/etta-james/) E aí, o que acharam? :)