Além do horizonte escuro- Os Lâfrer
4 Capítulo 3 Explosão
A sessão de fisioterapia terminou com o ar carregado de eletricidade estática. Richard estava ofegante, não pelo esforço físico, mas pela audácia daquela mulher em despir suas defesas tão rapidamente.
O silêncio tenso foi quebrado pelo som de saltos batendo contra o mármore do corredor. Claire Lâfrer entrou no escritório, o rosto pálido e um envelope timbrado com o selo do Departamento de Defesa nas mãos.
— Richard... — a voz dela falhou. — Chegou isso aqui. É sobre o incidente em Kandahar.
Richard congelou. O sarcasmo evaporou instantaneamente, dando lugar a uma máscara de pedra.
— Deixe na mesa, mãe. E saia.
— Richard, eles querem um depoimento oficial sobre o General Vance. Estão reabrindo o caso da emboscada.
Hadassa, que estava guardando seus equipamentos, parou no lugar. Ela conhecia aquele nome. Vance era uma lenda na base militar, mas não pelas razões certas. Ela olhou para Richard e viu que ele apertava o braço da poltrona com tanta força que as veias saltavam.
— Eu disse para sair! — o rugido dele ecoou pela sala, fazendo Claire recuar um passo, assustada.
Hadassa interveio, sua voz como um chicote de gelo que cortou a histeria no ambiente:
— Senhora Lâfrer, por favor. Eu cuido disso. O capitão só está tendo um acesso de drama porque descobriu que não é o único centro das atenções do exército.
Claire assentiu, grata pela intervenção, e deixou o envelope antes de se retirar apressada.
Richard se virou na direção de Hadassa, o olho bom injetado de sangue.
— Você não ouviu? Fora daqui, Nymerelle! Isso não é da sua conta. É assunto militar, não é para civis brincarem de enfermeira.
Hadassa não se moveu. Ela pegou o envelope da mesa, sentindo o peso do papel oficial.
— "Civil"? — ela ironizou, dando um passo em direção a ele, sem um pingo de medo. — Eu estava costurando soldados sob fogo de artilharia enquanto você provavelmente ainda estava decidindo qual terno usar para o jantar da vitória. Eu conheço o nome Vance. E sei que se reabriram o caso, é porque o "herói" que você serviu deixou rastro de sangue onde não deveria.
Richard soltou uma risada amarga, levantando-se com certa dificuldade, mas mantendo a imponência.
— Você é muito corajosa com a sua prancheta na mão, Hadassa. Mas esse envelope... ele tem o poder de destruir o que sobrou de mim. E eu não vou deixar uma enfermeira irônica ser a plateia do meu desmoronamento.
— Então para de desmoronar e começa a lutar, Lâfrer — ela rebateu, jogando o envelope no colo dele. — Ou o quê? Vai ficar sentado no escuro esperando que a sua visão volte milagrosamente para você encarar a verdade?
Ele se aproximou tanto que ela podia sentir o calor da fúria dele.
— Você quer a verdade? — ele sussurrou, a voz rouca e perigosa. — A verdade é que Vance não foi um erro. Foi uma escolha. E eu fui o braço direito dele. Agora, me diga, enfermeira... você ainda quer ser a minha cura, ou já está preparando o soro para me paralisar de vez?
Hadassa sustentou o olhar, o rosto impassível, embora seu coração batesse forte contra as costelas.
— Eu trato ferimentos, Richard. Não trato caráter. Se você é um vilão ou uma vítima, isso eu decido depois que você conseguir levantar esse braço sem choramingar. Agora, sente-se. Temos mais dez minutos de alongamento.
Richard encarou-a por um longo tempo, o ódio e uma admiração relutante lutando em seu rosto.
— Você é um demônio — ele resmungou, sentando-se pesadamente.
— E você é um péssimo paciente — ela retrucou, já pegando o braço dele novamente. — Estamos quites.
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