Além do horizonte escuro- Os Lâfrer

15 ​CAPÍTULO 13: Medalhas e Mal-entendidos




​O salão nobre da base militar brilhava sob o lustre de cristal. Richard estava impecável em seu uniforme de gala — a farda azul, as medalhas reluzindo no peito e a postura de um homem que havia vencido a própria escuridão. Ele era o centro das atenções, o herói ressuscitado.

​Hadassa chegou atrasada. Ela havia passado horas decidindo se deveria ir, sentindo-se deslocada naquele mundo de protocolos rígidos. Quando finalmente cruzou as portas, usando um vestido azul-marinho que realçava seu olhar, ela procurou por ele.

​Ela o encontrou perto da varanda, afastado da multidão. Mas ele não estava sozinho.

​Uma das guardas da base, uma tenente que sempre demonstrara interesse em Richard, falava com ele animadamente. Richard sorria, relaxado pela primeira vez em anos, sem perceber que a mulher se aproximava demais. No momento em que Hadassa deu um passo à frente para chamá-lo, a tenente se inclinou e roubou um beijo dele.

​Richard, pego de surpresa e com os reflexos ainda voltando ao normal, demorou um segundo para reagir e afastá-la. Mas para Hadassa, aquele segundo foi uma eternidade. O impacto da imagem foi maior que qualquer explosão que ela já vira. O coração dela, que ela jurara proteger, estilhaçou-se silenciosamente.

​Sem dizer uma palavra, sem deixar que ele a visse, Hadassa deu meia-volta e saiu do salão.

​A mansão Lâfrer estava silenciosa quando ela chegou. Com movimentos mecânicos e os olhos ardendo, ela subiu para o quarto. As malas que ela nunca chegou a desfazer totalmente foram preenchidas em minutos. O estetoscópio, o jaleco, as lembranças dos dias de fisioterapia... tudo foi guardado.

​Antes de sair, ela parou no escritório dele. A luz da lua entrava pela janela, a mesma luz que um dia iluminou os dois no chão entre cacos de uísque. Ela pegou uma folha de papel e escreveu com a mão trêmula:

​"Enquanto você estava mal, eu fui a única que esteve ali. Agora que voltou a ser o Capitão Lâfrer, parece que você tem muitas outras opções para se divertir. Estou indo embora. Espero que você fique bem com a sua nova vida. Não precisa me procurar."

​Ela deixou o bilhete sobre a mesa de carvalho e saiu da casa sem olhar para trás.

​Uma hora depois, Richard chegou em casa, radiante pela condecoração e ansioso para contar a Hadassa como havia afastado a tenente e como só pensava nela. Ele encontrou a mãe, Claire, sentada na sala com o rosto transtornado e o bilhete de Hadassa nas mãos.

​— Onde ela está, mãe? — Richard perguntou, o sorriso morrendo ao ver a expressão de Claire.

​Claire se levantou, os olhos faiscando de uma fúria que Richard nunca vira nela. Ela caminhou até ele e entregou o papel com um gesto brusco.

​— Ela foi embora, Richard! — Claire gritou, a voz ecoando pela sala. — Ela viu você no baile com aquela mulher!

​— Mãe, não foi o que pareceu, eu...

​— Cale a boca! — Claire deu um passo à frente, dando um esporro que fez o herói de guerra recuar. — Enquanto você era um homem quebrado, cego e amargo, ela foi a única que ficou! Ela aguentou seu sarcasmo, suas crises e sua arrogância. Ela limpou suas feridas e te devolveu a vontade de viver quando ninguém mais acreditava em você! E agora, na primeira noite em que você coloca essa farda de herói, você a magoa dessa forma?

​Richard leu o bilhete, sentindo o sangue fugir do rosto. O peso da medalha em seu peito agora parecia chumbo.

​— Você é um tolo, Richard Lâfrer — Claire continuou, a voz agora baixa e decepcionada. — Você recuperou a visão, mas continua sendo o homem mais cego que eu já conheci. Você acabou de perder a única pessoa que amou o homem por trás da cicatriz, e não o capitão por trás das medalhas.

​Richard olhou para a escada vazia, o silêncio da casa agora sendo seu pior inimigo. Ele tinha a visão de volta, mas o horizonte nunca pareceu tão escuro.