Além do horizonte escuro- Os Lâfrer

16 ​CAPÍTULO 14: Sentinela do Arrependimento




​Hadassa havia se refugiado na pequena casa de sua tia, em uma vila de pescadores a três horas da cidade. Ela achou que o som das ondas ajudaria a abafar a voz de Richard em sua mente, mas o silêncio era seu maior inimigo.

​Na segunda manhã, ao abrir a janela de madeira, ela quase deixou a caneca de café cair.

​Estacionado na rua de terra, bem em frente ao seu portão, estava o jipe militar de Richard. E lá estava ele, sentado no capô, ainda usando a calça da farda, mas com uma camiseta preta simples. Ele não parecia um herói condecorado; parecia um homem que não dormia há dias.

​Hadassa fechou a janela com força.

​— Vá embora, Lâfrer! — ela gritou de dentro da casa. — A sua reabilitação acabou! Procure a sua tenente para cuidar do seu ego!

​— Eu não vou a lugar nenhum, Hadassa! — a voz dele ecoou, firme e teimosa. — Você me ensinou a não me render, lembra? Agora aguente as consequências!

​As horas passaram. O sol do meio-dia castigou a estrada, e Richard continuou lá. À tarde, uma chuva fina começou a cair, mas ele não se moveu. Ele não buscou abrigo, não entrou no carro. Ficou parado, como uma sentinela protegendo a única coisa que importava.

​Ao cair da noite, Hadassa não aguentou mais. A enfermeira nela falava mais alto que a mulher ferida. Ela abriu a porta e caminhou até o portão, jogando uma toalha seca nele.

​— Você é um idiota. Vai pegar uma pneumonia e eu vou ter que processar o exército por negligência.

​Richard se levantou, a água escorrendo pelo rosto, os olhos azuis focados nela com uma intensidade que a fez recuar um passo.

​— Eu não me importo com a pneumonia — ele disse, a voz rouca. — Eu passei meses na escuridão, Hadassa. E a única luz que eu via era a sua voz me chamando de arrogante. Você acha mesmo que eu ia deixar uma tenente oportunista estragar a única coisa real que eu tenho?

​— Eu vi o beijo, Richard — ela disse, a voz falhando, a ironia finalmente dando lugar à dor. — Você estava sorrindo. Estava feliz.

​— Eu estava feliz porque ia te apresentar para o meu comando como a mulher que me salvou! — ele deu um passo à frente, segurando as grades do portão. — Ela me pegou de surpresa. Eu a afastei logo depois que você saiu. Minha mãe quase me matou, Hadassa. Ela me disse o que eu já sabia: que eu recuperei a visão, mas quase perdi a percepção do que é valioso.

​Hadassa desviou o olhar, mas Richard continuou, a voz agora suave, quase um sussurro.

​— No bilhete, você disse que eu era "o Capitão Lâfrer" agora. Mas aquele homem nas fotos, com medalhas e farda perfeita... ele é um estranho para mim. O homem que eu sou agora, o que enxerga o mundo de novo, foi construído pelas suas mãos. Eu não quero ser o herói de ninguém, Hadassa. Eu só quero ser o homem que você não desiste de consertar.

​Ele estendeu a mão por entre as grades.

​— Eu não vou sair daqui. Posso ficar dias, semanas. Vou acampar nesta calçada até você entender que o horizonte só é bonito se você estiver nele para eu ver.

​Hadassa olhou para a mão dele e depois para o rosto molhado pela chuva. A ironia tentou voltar, mas o que saiu foi apenas um suspiro rendido.

​— Se você ficar doente, Richard, eu juro que vou te dar as injeções mais dolorosas da história da medicina.

​Richard soltou um riso aliviado, aquele brilho brincalhão voltando aos olhos.

— É um risco que eu estou disposto a correr, enfermeira.