Além das Palavras
3 Annabel Lee
Beth adentra o escritório do professor e se surpreende com a organização do lugar. Tudo estava tão limpo que o cômodo parecia brilhar. A decoração era tão refinada que fazia o rosto da garota se iluminar ao imaginar como deveria ser prazeroso escrever em um ambiente tão confortável e belo.
Daryl observa Beth pelo canto do olho, divertindo-se com seu comportamento. Ele se dirige para a copa improvisada que ele fez no escritório para preparar uma bebida quente a garota, no entanto, ao ver que sua aluna continuava a se vislumbrar com o lugar, ele percebe que precisava trazê-la de volta a realidade.
— Com licença, Casa das Tâmaras. Não fique parada na porta. Entre e imprima seu trabalho. O computador está ligado e conectado na impressora — informa Daryl, colocando a água para esquentar na chaleira.
— Ah, sim!
Seguido as orientações do professor, Beth se aproxima da mesa do computador e sente pressionada para não cometer nenhuma besteira e acabar estragando alguma coisa. Ela sempre foi desastrada e estar em um ambiente tão refinado a deixava ainda mais tensa.
Enquanto preparava o chá, Daryl passa a observar sua aluna. Beth parecia tão desajeitada em seu ambiente de trabalho que era divertido de observar.
— Será que estou fazendo certo? — sussurra Beth, curvando mais o corpo para encarar a tela do computador.
“Ela podia só se sentar direito na cadeira e imprimir seu trabalho” — pensa Daryl, dando um sorriso discreto.
Ao ver que a água do chá já estava suficientemente quente, ele desliga o fogo e serve o líquido em uma de suas elegantes xícaras. Beth observa surpresa a destreza do homem ao preparar o chá e sua elegância ao servi-lo.
— É... professor, está tudo bem. Não precisa se incomodar comigo — diz Beth, aproximando-se do professor.
— Você não toma chá preto? — questiona Daryl, parando de colocar o chá na xícara para encarar Beth.
— Não é isso. Eu apenas acho que deveria estar o servindo ao invés de fazê-lo ter esse trabalho — responde a garota de maneira inquieta. Temia estar incomodando o professor que tanto admira.
— Tudo bem. Eu faço isso. Você pode se sentar.
— Ah...
Beth hesita, mas ao ver a seriedade do professor e sua determinação em lhe servir, ela decide o escutar. Também tinha medo de acabar fazendo alguma besteira se tentasse servir o chá. Era atrapalhada demais para lidar com atividades que exigissem delicadeza.
— Não se preocupe. Eu sempre sirvo chá aos meus convidados — informa Daryl, atraindo a atenção de Beth. — E um aluno no meu escritório também é um convidado.
As palavras de Daryl soam como um consolo para Beth, que assente e sorri mais animada. Ela vai até a impressora pegar sua apresentação impressa e se senta no confortável sofá que havia no escritório, enquanto seu professor leva uma bandeja de prata com duas xícaras de chá elegantes e um pequeno pote de açúcar para a mesa de centro do escritório.
— Aqui está — anuncia Daryl, colocando a xícara de chá de frente para Beth.
— Obrigada.
O delicioso aroma de morango do chá se espalha pelo escritório. Ela observa o professor se sentar e entrega sua apresentação para o homem, que pega os papéis e passa a ler, enquanto saboreia seu chá.
Beth assiste a tudo com ansiedade. A expressão neutra do professor não lhe dava nenhuma dica se ela e o seu grupo tinham feito o trabalho da maneira correta. Ela se sentia tensa, mas também estava animada para ouvir uma crítica do professor que tanto admira.
— Srta. Greene — chama Daryl, encarando-a por cima das folhas em suas mãos.
— Sim? — responde Beth, engolindo em seco. Estava nervosa.
Daryl coloca as folhas da apresentação de Beth sobre a mesa de centro e encara a aluna com curiosidade. Nenhum de seus alunos demonstrou tanta ansiedade e animação em seus olhos para ouvir uma avaliação sua como Beth demonstrava naquele momento.
— Qual o problema? Beba seu chá — orienta Daryl, suavizando sua expressão.
— Senhor? — balbucia Beth, aérea.
A expressão calma e agradável de Daryl a pegou desprevenida. Naquele momento, ela entendia a beleza única do professor que suas colegas haviam comentado. Ele aponta para a xícara de frente para Beth e ela nota que ainda não havia tocado no chá.
— Ah, sim — sussurra, envergonhada. Ela encara o líquido amarronzado e hesita.
“Ah! O que eu estou fazendo? Estou agindo como se o chá fosse um remédio. Provavelmente é porque eu não consigo evitar ficar nervosa” — pensa Beth, bebendo o chá, que a surpreende pelo sabor. — “Esse é o gosto do chá preto? Apesar de um pouco amargo, ele é muito bom.”
— Você não coloca açúcar no seu chá?
— Tem que se colocar açúcar em chá preto? Eu soube que a maneira certa é beber sem açúcar — comenta Beth, lembrando das palavras de sua professora de etiqueta.
— Bem, a escolha é de quem bebe. De fato, costuma-se beber sem açúcar, mas não é algo obrigatório. Se um gosto mais doce agrada seu paladar, talvez prefira o chá com açúcar — responde Daryl, observando as ações educadas de Beth.
— Ah, então apenas um pouco — fala Beth, colocando uma colher de açúcar em sua xícara. — Eu não sei muito de chá. Geralmente eu só bebo café.
Daryl suaviza sua expressão novamente, vendo que Beth parecia mais à vontade. Ele também estava curioso pela postura da garota, que mesmo não sendo acostumada a beber chá, sabia de um detalhe não muito comentado entre os jovens que era o uso de açúcar na bebida.
— Ficou ainda mais saboroso — sussurra Beth, surpresa ao experimentar o chá com o açúcar.
O professor a observa beber o chá com vontade dessa vez. Ela parecia realmente ter gostado do sabor e ele se sentia bem por isso. Preparar chá era um de seus passatempos e ver que acertou na escolha do sabor que imaginou que agradaria o paladar de sua aluna o deixava feliz.
— Vai ficar tudo bem se você fizer a apresentação como você e seus colegas planejaram — informa Daryl, servindo mais chá para si e para sua aluna, que imediatamente coloca açúcar e volta a beber.
— Então... nosso trabalho passou na inspeção? — pergunta Beth com cautela.
— “Passar na inspeção”? — indaga Daryl, confuso.
Beth o encara com seriedade. Estava pronta para ouvir qualquer tipo de crítica que o professor tivesse para fazer de seu trabalho. Daryl conseguia ver que ela estava mesmo dedicada a atividade que valia apenas alguns décimos de ponto.
Ver a jovem garota o encarar com tanta força o faz rir sem que ele tivesse controle. Era adorável a forma como ela se assemelhava a um funcionário esperando a aprovação de seu superior.
Beth se encanta ainda mais com a aparência do homem. Ele ficava ainda mais bonito quando sorria. Seu olhar se tornava mais gentil e caloroso. Era uma visão e tanto para a garota, que somente o via em sua postura rígida e expressão amedrontadora.
Ao se dar conta que estava rindo e tinha os olhares curiosos e surpresos de Beth, diante da expressão que ele evitava mostrar, Daryl corrige sua postura. Sua aluna esperava uma avaliação séria, então ele precisava corresponder as suas expectativas.
— Vocês têm tudo o que precisam para apresentação. Também não há nada desnecessário nos textos que precise ser retirado. O que você tem por enquanto está bem estruturado. Agora, precisamos ver como você e seu grupo irá se apresentar.
“Ainda bem” — pensa Beth, suspirando aliviada. Estava feliz por ter se saído bem na avaliação prévia de seu trabalho.
— Mas, “Annabel Lee” é seu poema favorito?
— Quê? — balbucia Beth, surpresa com a pergunta.
— Pelo que me lembro, quando fizemos o sorteio para escolher o poema e escritor que iríamos trabalhar, você trocou o seu tema com outro grupo. Eu pude ver que você estava determinada a escolher “Annabel Lee” — revela Daryl, surpreendendo a aluna mais uma vez. — Também foi sua escolha no texto do exame final de Literatura Americana quando fez o vestibular para entrar na universidade.
“Quem memória monstruosa! Faz anos desde que fiz o meu exame de admissão na universidade e ele ainda se lembra de minha redação?” — pensa Beth, embasbacada.
— Não fique tão surpresa. Eu lembrei porque valia a pena — conta o professor, sorrindo levemente. — Você foi a única que respondeu pergunta da prova sobre a fonte criativa usando um poema e ainda escreveu uma história com o Poe como protagonista. Se eu não estiver enganado, o título que você deu foi “Mesmo assim, eu te amo”.
Beth se sentia tão feliz pelo elogio do professor que seu coração se agita em seu peito sem qualquer controle. Ela admirava os textos de Daryl e saber que ele havia gostado tanto de sua redação ao ponto de se lembrar até mesmo do título anos depois a deixava emocionada.
— Sim... — sussurra, ainda tentando se recompor. — Eu gosto desse poema.
— Algum motivo especial? — questiona Daryl com curiosidade.
— Por causa da Virginia.
A resposta de Beth pega Daryl de surpresa. A garota possuía uma expressão séria, mas ainda havia um brilho de admiração em seus lindos olhos verdes que atraia a atenção do professor.
— Virginia, esposa de Edgar Allan Poe?
— Sim. Eu consigo entender o porquê Poe amava a jovem e bela Virginia, mas eu não consigo entender muito bem o motivo de Virginia ter amado o Poe, quando ele era rabugento e não tinha dinheiro algum. Ela devia saber que seria um casamento terrivelmente difícil com muitos dias horríveis e ainda assim, ela o amou. Eu fiquei curiosa quando descobri a conexão entre o poema “Annabel Lee” e a história de amor deles. Então eu continuei pensando sobre isso e acabei gostando da Virginia.
— O que gostou sobre ela? — indaga Daryl, interessado na linha de pensamento de Beth. Era tão única e brilhante que o prendia.
— Porque a Virginia amava Edgar Allan Poe “apesar de tudo”. É fácil amar alguém “por causa de algo”, mas amar alguém “apesar de algo” deve ser realmente difícil. O fato de que a Virginia conseguiu o amar assim me fez gostar dela. Eu também gosto de “Annabel Lee” por sua escrita tão bonita, boa parte, graças à Virginia — conta Beth, dando um sorriso sonhador. — Ser capaz de amar alguém assim é realmente incrível.
Os olhos de Beth brilham e o coração de Daryl se agita. A garota parecia tão bela aos seus olhos, que ele foi incapaz de sustentar o olhar, atordoado com todo o cenário. As belas palavras de sua aluna o entorpeceram e trouxeram uma visão única ao poema que ele jamais tivera ao analisar o texto de Poe.
Beth havia ido fundo ao pesquisar sobre o significado do poema que foi publicado dois anos após a morte de Virginia.
Ainda havia muitas incertezas sobre o relacionamento de Poe e sua esposa, afinal, havia uma grande diferença de idade entre eles e os dois eram primos. Viveram anos como irmãos, antes de se casarem.
Mesmo assim, muitos historiadores afirmavam que Poe a amava, ainda que fosse como uma filha. Também havia boatos sobre as traições de Poe, mas nada comprovado.
A jovem e bela Virginia morreu de tuberculose aos vinte e quatro anos de idade, amando e admirando seu marido até o fim.
A morte de sua esposa teve um substancial efeito sobre Edgar Allan Poe, que mergulhou no alcoolismo. Além disso, o impacto da morte de Virginia afetou também a poesia de Poe, onde jovens mulheres moribundas se tornaram um tema constante. Por isso, acreditava-se que ele a amou incondicionalmente até os últimos dias de sua vida.
— Poe também a amava fervorosamente — comenta Daryl, atraindo a atenção de Beth. — Em uma de suas cartas, ele escreveu a um amigo: "cada vez eu sinto todas as agonias da morte dela – e a cada acesso da doença eu a amava mais e me agarrava à vida dela com mais desespero. Mas eu tenho a constituição sensível – nervoso a um grau incomum. Eu fiquei insano, com longos intervalos de sanidade horrível". Ele não aceitava a ideia de perdê-la. Ela era a sua fonte de inspiração.
— Apesar de todos os escândalos, eles se amavam de verdade. Foi assim até a morte de Poe — comenta Beth, encantada com a declamação de Daryl, quanto a carta escrita por Poe a seu amigo. — Como o próprio poema “Annabel Lee” diz: “E nem os anjos do céu lá em cima, nem demônios debaixo do mar poderão separar a minha alma da alma da linda que eu soube amar”. Poe acreditava que mesmo após a morte, eles voltariam a se encontrar.
Eles se encaram por alguns instantes, envolvidos por uma espécie de bolha, que os separava do restante do mundo. O celular de Beth vibra, quebrando o encanto entre eles. A garota encara o celular e surpreende pelo horário.
“Eu fiquei aqui tanto tempo. Que falta de educação da minha parte” — pensa Beth, sentindo seu rosto esquentar.
Beth passa a recolher suas coisas e a arrumar a mesa de centro, mas para quando o professor puxa a xícara que ela recolhia de volta.
— Por que você está fazendo isso?
— O senhor me fez um ótimo chá. O mínimo que eu posso fazer é limpar tudo — responde Beth, vendo a expressão confusa do professor.
— Não. Tudo bem. Pode deixar que eu limpo. Não posso pedir para um convidado fazer isso — afirma Daryl, pegando a xícara de volta da mão de Beth.
— Ainda assim... — Beth hesita.
— Eu disse que está tudo bem. Não se preocupe. Pode ir — garante o professor, suavemente.
“Eu pensava que ele era bem mais autoritário e dominador por causa de sua seriedade, mas ele é inesperadamente gentil” — constata Beth, dando um pequeno sorriso.
— Obrigada pelo chá, professor. Estava muito bom mesmo. Tenha um bom dia — despede-se Beth, encarando Daryl com um bonito sorriso.
— Até mais — despede-se Daryl, observando a aluna deixar o escritório.
Assim que se encontram sozinhos, nenhum dos dois é capaz de controlar o sorriso em seus lábios. Apesar de não ter sido planejado e terem fugido um pouco do objetivo do encontro, Daryl e Beth concordavam que aquele tempo em que passaram juntos foi inesperadamente prazeroso.
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