Além da psicologia

14 Por que ele tem que ser perfeito?


Notas iniciais
Não demorei tanto quanto antes. Está ai.

Mal consegui abrir os olhos com a luz em cima de mim. Estava no meu quarto.

Tinha a sensação de ter despertado de um terrível pesadelo. Minha cabeça estava a ponto de explodir de tanta dor.

— Graças aos deuses... — alguém suspirou aliviado ao meu lado.

Senti um aperto em minha mão direita.

Quando meus olhos se acostumaram com a claridade, enxerguei Filipe ao meu lado. Seus olhos estavam vermelhos. Estaria chorando?

— Filipe — chamei.

— Nunca mais saia de casa sem avisar, Karine! — ele me repreendeu.

Então foi verdade. Eu fui atacada pelo Gabriel.

Senti vergonha e raiva na mesma hora. Se Filipe não tivesse aparecido... Sabe Deus o que teria acontecido comigo.

— Obrigada — sussurrei.

— Pelo quê?

— Você me salvou — Fiz um esforço e consegui me sentar. — Como sabia onde eu estava?

Filipe se sentou ao meu lada na cama e me abraçou.

— Eu te liguei cinco vezes e você não atendeu. Como estava de horário livre, resolvi vir te ver. Quando cheguei perguntei a sua mãe onde você estava e ela disse que não sabia.

Filipe fez uma pausa e depois continuou:

— Vim para seu quarto e te liguei mais uma vez. Seu celular vibrou na cômoda e eu me espantei. Você nunca sai sem o celular. Depois...

Ele se interrompeu.

— O que foi? — instiguei.

— Desculpe, mas eu peguei seu celular na hora. — Sério mesmo que ele estava me pedindo desculpas por isso? — E vi a mensagem que marcava com você atrás do supermercado. Perante a ameaça eu fui até você.

— Filipe, você é o melhor manorado do mundo.

Ele. Ficou vermelho e sorriu.

— Ainda bem que consegui chegar a tempo. Se aquele idiota tivesse feito alguma coisa com você... — Filipe cerrou os punhos. — Eu caçaria ele até o fim do mundo.

— Gabriel sempre foi um idiota.

Suspirei, ainda atordoada com o que tinha acontecido. Pensei um pouco e percebi que estava até bem. Quase tive uma crise quando fui atacada, mas, se desprezarmos as palpitações, o tremelique e minha confusão mental, estava bem.

Estaria realmente fazendo avanço? Comunicaria isso a Liliane no dia seguinte.

— E minha mãe? — perguntei.

— Ela estava desesperada. Queria ficar aqui com você, mas foi chamada de última hora. Alguma coisa haver com trabalho. Prometi que ficaria com você.

Fechei os olhos e tentei lembrar se, em algum momento da minha vida, tinha feito algo bom para ter Filipe ao meu lado.

Ele era o tipo de garoto perfeito e eu era só uma garota rodeada de problemas e défcits.

— No que você está pensando? — ele quis saber, beijando meu rosto.

— Nada não.

— Você parece bem melhor. Quer dizer, bem... Você sabe o que quero dizer, não é.

Ri. Ele era muito fofo.

— Não fique acanhado, Filipe — o acalmei. — Eu compreendi.

Passei a mão por seus cabelos e o beijei. Seu beijo me trazia tanta paz que desejava nunca me afastar. Ele era realmente muito perfeito para mim.

Tão perfeito que não o merecia.

Me afastei bruscamente.

— O que foi, Karine? — Filipe pareceu preocupado.

— N-nada. P-por f-favor, saia.

Meu coração começou a falhar. Senti um reboliço no estômago. Meu momentos sem crise estavam se dissipando. Estava sendo muito bom para ser verdade.

— Tudo bem, Karine.

Filipe saiu do meu quarto, devagar.

Quando a porta bateu não pude mais segurar o choro. Não pude mais me manter em pé. Parecia que alguém havia jogado água fervendo no meu cérebro e depois o mergulhado em um mar de gelo. Sentia minha cabeça virar mingal e meu corpo arder como se estivesse em chamas.

Pontos pretos e vermelhos dançavam na minha visão. Fiquei de joelhos e apertei com força meu travesseiro.

Foi um dos métodos de aliviar a tensão que aprendi: feche bem os olhos e aperte algo com toda a força com a respiração presa. Depois se deite e tente regular sua respiração.

Isso acalma no momento. Mas, quando se tem TDAH, ficar quieto por muito tempo é o mesmo que pedir para se afogar de propósito. Sentei na cama e me balancei de frente para trás. Fiquei mais calma.

Pensei em chamar Filipe, mas não queria assustá-lo com o estado em que me encontrava. Tirei a roupa e fui tomar banho.

+++

A água fez eu me sentir melhor. Vesti meu pijama mais novo e desci para ver Filipe. Meu coração ainda estava com aquela instabilidade entre uma batida e outra. Mas segui em frente.

Meu namorado estava serenamente assistindo televisão. Senti-me culpada em ter que pertubá-lo.

— Me desculpe — murmurei.

Filipe se levantou e tirou os óculos. Naquele momento não pude decifrar o que ele estava sentindo.

— Por que você não entende de uma vez por todas que eu te amo? — ele perguntou.

Gelei. Novamente aquela declaração.

— Eu sei que...

Fui interrompida com os lábios de Filipe. Não entrava na minha cabeça o fato de ele realmente me amar.

— Você pode contar comigo sempre — ele garantiu ainda abraçado á minha cintura. — O que realmente importa pra mim é que você está bem. Não precisa se esconder quando precisar de ajuda.

— Não queria que você me visse tendo uma crise.

— Quero ver você de todas as maneiras.

Então ele beijou meu pescoço. Fiquei pensando se aquelas palavras tinham um duplo sentido.

Minha respiração saiu descompaçada quando me lembrei que estávamos sozinhos. Nós precisávamos nos controlar.

— Não, Filipe — sussurrei em seu ouvido.

Ele arquejou e se afastou.

— Me desculpe. Não deveria nem pensar em fazer isso sabendo o que você passou hoje.

Sério, como ele conseguia ser tão perfeito? Lhe abracei e sentei ao seu lado no sofá. Concordamos em assistir um filme. Só nos restava escolher um

Notas finais
Quero um Filipe pra mim...