Além da psicologia
15 Como não acordar um garoto
Notas iniciais
Nem havia percebido que tinha caído no sono. Acordei no sofá da sala abraçada ao Filipe. Ele ainda dormia.
Devíamos ter pego no sono enquanto assistíamos ao filme. Me levantei e fui para a cozinha. Prepararia um belo café da manhã para Filipe como agradecimento por ser tão bom comigo.
Fiz o que estava ao meu alcance. Queria demonstrar que estava bem apesar da imagem de Gabriel ainda me assombrar enquanto eu mexia os ovos. Fiz um suco e fui acordar Filipe.
Ele ainda dormia serenamente no sofá. Como se acorda uma pessoa? Sério, tinha medo de cutucá-lo e ele se assustar.
Aproximei minha mão lentamente de seu rosto e toquei sua bochecha. Parecia que meu coração ia sair do peito. Pode parecer besteira, mas eu fico extremamente nervosa quando vou acordar alguém.
Passei o dedo pelo nariz e boca de Filipe, mas ele nem se mexeu. Então eu fiz o que eu mais via nos filmes românticos: lhe dei um beijo.
Filipe permaneceu imóvel.
Me afastei logo. Minhas mãos estavam tremendo. Esse garoto não acordaria nunca?
Lhe beijei uma segunda, terceira, quarta vez e nada! Ele só poderia estar de brincadeira! Se bem que beijar o Filipe dormindo estava sendo uma atividade muito divertida.
Dei minha quinta e última tentativa. Com o coração batendo forte, o beijei da forma mais apaixonante possível.
Finalmente ele se acordou. Mas, quando ia recuar, Filipe me segurou e correapondeu ao meu beijo. Por Zeus, porque eu fui começar isso?
Caso você não saiba, beijar um garoto lhe proporciona uma sensação indescritível, mas beijar seu namorado no sofá da sala da sua casa quando sua mãe não está é como traficar drogas perto da viatura da polícia. Ao mesmo tempo que eu queria beijá-lo, tinha medo de não nos controlarmos e... Você sabe. Eu tinha apenas catorze anos!
– Filipe — sussurrei em seu ouvido quando ele afastou os lábios dos meus e começou a beijar meu pescoço. — Preparei seu café da manhã.
– Não quero comer isso agora — ele respondeu me deitando no sofá.
E no mesmo momento fui assombrada por aquelas malditas lembranças daquela maldita tentativa dees trupo. Senti meu corpo se contrair e senti aversão a Filipe.
– Não! — eu gritei o empurrando de cima de mim.
Filipe se levantou, assustado.
– M-me desculpe, Karine!
Eu quase não o escutava, as batidas do meu coração ecoavam de forma mais barulhenta. Minha vontade era me jogar no chão e gritar, mas ter duas crises de ansiedade por dois dias consecutivos resultaria em um longo período de depressão para mim.
– Filipe, vá tomar seu café! — ordenei. — Me deixa só.
– Tudo bem.
E ele me deixou só.
Quando caí no chão percebi a falta de resistência de Filipe quando o pedi para me deixar só. Claro que se ele ficasse quando eu tivesse uma crise ou se tivesse insistido, seria muito pior. Mas ele pareceu ficar atônito quando falei com ele.
Outro ponto peculiar que encontrei em meu namorado foi sua falta de controle. Ontem a noite e hoje pela manhã ele tentou me fazer sucumbir a ele. Acho que eu não era a única pessoa com limitações nessa terra.
Sentei devagar no chão da sala e parece que minha crise de ansiedade não iria acontecer dessa vez. Estava preocupada demais para ter um momento de Garota Problemática.
+++
Filipe já estava super atrasado para ir a escola, mas ele foi assim mesmo me dando apenas um sorriso fraco na saída.
Eu não estava em condições de me misturar com as pessoas então fui ter uma hora com minha psicóloga.
– Karine! — Liliane pareceu assustada quando entrei em seu consultório sem bater.
– Não se faça de surpresa — disse — Sei que minha mãe já lhe ligou para dizer que quase fui abusada por um garoto idiota.
Liliane abriu a boca.
– Sim, ela me informou sobre isso, mas não é por isso que você pode manifestar seu lado TDAH aqui na minha sala.
Me senti ofendida e humilhada. Era a vez de meu lado sociofóbico agir.
– Desculpe — Liliane apressou em dizer. — Sente-se e vamos conversar.
Sentei.
– Sim, vamos conversar — concordei. — Mas não sobre mim.
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