Além da fronteira
12 11. Dilema moral
Jacob
As horas avançavam e a fumaça espessa de charuto no camarote parecia cada vez mais densa. A aliança com os Cullen estava selada, mas o vazio no meu peito só fazia aumentar. O uísque queimava a minha garganta sem surtir o efeito desejado; minha mente continuava presa à imagem de Renesmee, ao toque macio da sua pele e ao perfume de baunilha que parecia impregnado nos meus poros.
Fiz um aceno de cabeça para o gerente da casa. Em menos de dois minutos, duas das mulheres mais cobiçadas da Obsidian aproximaram-se da minha mesa.
A loira vestia um vestido vermelho de fenda profunda, e a morena trajava uma lingerie preta de renda transparente. Elas se acomodaram ao meu lado no sofá de couro com uma desenvoltura ensaiada. A morena ajoelhou-se entre as minhas pernas, deslizando as mãos macias pelas minhas coxas até alcançar o fecho da minha calça. Ela desabotoou o jeans e puxou o zíper devagar, enquanto seus lábios desciam pelo meu ventre, deixando beijos quentes e provocantes na minha pele exposta.
Ao mesmo tempo, a loira sentou-se no meu colo de frente para mim, abrindo os botões da minha camisa. As mãos dela, de unhas pintadas de escarlate, arranhavam meu peito com sutileza, subindo pelas minhas cicatrizes até alcançar os meus ombros. Ela inclinou o corpo, roçando os seios fartos contra o meu peito, e aproximou a boca do meu pescoço, mordiscando a linha do meu maxilar enquanto soltava suspiros quentes e sussurros indecentes ao meu ouvido.
A morena começou a me acariciar por cima da cueca, os dedos habilidosos buscando dar ritmo e firmeza ao movimento, enquanto a loira rebolava devagar no meu colo, tentando atiçar qualquer faísca de reação. Elas usavam cada recurso, cada toque e cada truque de sedução que conheciam para me fazer perder o controle.
Fechei os olhos e recostei a cabeça no estofado, tentando me entregar às sensações, querendo desesperadamente que aquele toque físico apagasse a imagem da ruiva da minha cabeça.
Mas meu corpo simplesmente não correspondeu.
O toque das duas parecia superficial, mecânico, desprovido daquela eletricidade pura que quase me fizera perder a razão na escadaria da mansão. Não havia tesão, não havia peso, não havia o cheiro de baunilha. Quando a loira segurou meu rosto com as duas mãos e tentou selar seus lábios nos meus, desviei a boca em um movimento involuntário de repulsa, sentindo o estômago embrulhar. A minha mente e o meu corpo recusavam-se a aceitar qualquer outra mulher que não fosse Renesmee.
Segurei os pulsos da loira com firmeza e a afastei do meu colo. Baixei o olhar para a morena, que parou o movimento das mãos ao perceber que o meu membro continuava completamente frio e inerte sob o toque dela.
À mesa, entre risadas altas e fumaça, os homens da minha escolta e alguns dos acompanhantes de Emmett aproveitavam a noite com suas respectivas companheiras num clima de orgia contida. Paul, que observava a minha postura travada do outro lado da sala enquanto observava e aguardava, soltou uma risada debochada que se destacou na música abafada.
— Esquece isso, Jacob — soltou Paul, a voz carregada pelo álcool e pela camaradagem perigosa que tínhamos. — Todo mundo aqui já percebeu. Você tá aí com duas gostosas no colo e parecendo uma estátua de gelo. Vai pra casa de uma vez e vai foder a ruiva, homem! Para de perder tempo fingindo que...
O som do metal destravando cortou a frase de Paul como um raio.
Em uma fração de segundo, a minha apatia sumiu. Empurrei a loira para fora do meu colo e afastei a morena com o pé, pondo-me de pé numa explosão de fúria contida enquanto ajustava a calça. Saquei a G26 da cintura e apontei o cano de ferro preto diretamente para a testa de Paul, a menos de meio metro do seu rosto.
O silêncio no camarote foi imediato e absoluto.
As duas dançarinas soltaram ganidos sufocados e se encolheram no chão. Emmett congelou com o copo a meio caminho da boca, e os homens de guarda puseram as mãos sobre os coldres por reflexo, o ar subitamente carregado de uma tensão mortal.
— Repete — ordenei, a voz caindo para um tom sepulcral, tão frio e perigoso que o suor frio escorreu pela nuca de Paul na mesma hora. — Repete o que você acha que eu devo fazer, Paul. Vai em frente.
Paul engoliu em seco, os olhos fixos na boca da arma. Ele percebeu no mesmo instante que havia cruzado uma linha invisível e que, sob o efeito daquela obsessão não confessada, o seu Don não hesitaria em puxar o gatilho.
— Vou ficar calado, Don — murmurou Paul, erguendo as mãos lentamente num gesto de rendição. — Passei do ponto. Me desculpe.
Sustentei a mira na testa dele por mais três segundos agoniantes, deixando o peso da minha autoridade sufocar o ambiente. Cravei o olhar em cada um dos homens ao redor da mesa.
— Se algum de vocês voltar a colocar o nome da Renesmee na boca para fazer piada ou insinuação de merda — declarei, a voz ressoando com o peso de uma sentença —, eu mesmo coloco uma bala no meio dos seus olhos antes de fechar a conta da noite. Fui claro.?
Ninguém ousou piscar. Baixei a arma devagar, guardando-a no coldre sob o paletó. Peguei o meu sobretudo no encosto da poltrona sem olhar para mais ninguém.
— A festa acabou para mim — disse eu para Embry, que assentiu prontamente. — Mantenham a segurança do Cullen até o hotel.
Girei sobre os calcanhares e saí do camarote em passos largos, deixando para trás o luxo, as mulheres e o álcool.
O trajeto de volta para a mansão foi feito sob uma chuva torrencial que açoitava o para-brisa do SUV. No banco de trás, em silêncio, a fúria que quase me fizera atirar em Paul na boate deu lugar a um vazio incômodo. A adrenalina do álcool e a tentativa miserável de me entregar a outras mulheres haviam evaporado, deixando apenas a certeza de que a minha mente e o meu corpo pertenciam a quem dormia sob o meu teto.
Atravessei o hall da mansão sem fazer barulho. Subi a escadaria em caracol com passos leves e lentos, as solas dos meus sapatos mal fazendo som no piso de madeira nobre.
Quando percebi, meus pés já haviam me levado até a porta da suíte de Renesmee.
Parei no corredor escuro por alguns segundos, encarando a madeira trabalhada. A razão me mandava girar sobre os calcanhares e ir para o meu próprio quarto, mas os meus pés simplesmente ignoraram a ordem. Girei a maçaneta devagar. A porta cedeu sem um único estalido.
Entrei na penumbra da suíte.
A luz da lua, filtrada pelas cortinas entreabertas e pela chuva lá fora, iluminava o quarto com um tom prateado e suave. O silêncio era quebrado apenas pelo ritmo calmo da respiração dela e pelo som abafado dos pingos d’água contra a vidraça.
Caminhei em direção à cama king-size. Renesmee estava deitada de lado, encolhida sob o edredom pesado, o rosto sereno repousando sobre o travesseiro. Os cabelos espalhavam-se em ondas sobre o lençol claro, e a luz fraca desenhava o contorno delicado dos seus ombros e a curva da sua cintura.
Aproximei-me até a beirada da cama. A intensidade da minha presença fez o meu peito pesar.
Um impulso sombrio e violento cruzou a minha mente: o desejo visceral de me ajoelhar ali mesmo, puxar aquele edredom, acordá-la com o peso do meu corpo e afundar na pele dela até que toda essa fome fosse saciada. Tomá-la para mim na penumbra daquela noite, exatamente como o meu corpo exigia desde que a toquei na escada .
Mas, ao encarar o rosto tranquilo dela, o pensamento me atingiu como um golpe físico.
Héctor Mendoza. A memória do ex-marido (atual) dela , o homem que a atraíra no início com a falsa promessa de abrigo e proteção, para depois transformá-la em uma refém, usando a força, o medo e o controle para mantê-la acorrentada, veio à minha cabeça com a força de uma lâmina. Mendoza a reduzira a um troféu, tirando-lhe qualquer voz, qualquer vontade e qualquer direito sobre o próprio destino.
Se eu a acordasse agora, se usasse o meu poder, a minha casa e o fato de ser o seu único escudo contra o cartel para pressioná-la a se entregar a mim... qual seria a diferença entre mim e o desgraçado de Monterrey?
Eu me tornaria exatamente o monstro do qual ela passara meses fugindo.
Apertei o maxilar com tanta força que senti as articulações da mandíbula estalarem. Engoli em seco, travando os pulsos ao lado do corpo, recusando-me a estender a mão para tocar um único fio do seu cabelo.
Eu era o Don de Chicago, um homem que tirava vidas sem piscar, mas não seria o algoz da mulher que me salvara.
Ela não seria meu troféu, nem a minha prisioneira. Se um dia Renesmee entrasse no meu quarto e se entregasse a mim, seria por vontade própria. Seria uma escolha livre de medo, livre de dívida e livre de desespero. Eu daria a ela o que o cartel e o passado lhe roubaram: o direito de escolher.
Ajoelhei-me devagar ao lado da cama, apenas para ficar ao nível do seu rosto por um segundo. Aproximei o rosto com extrema cautela, sentindo o calor suave da sua respiração contra a minha pele, e depositei um beijo imperceptível na ponta dos seus cabelos.
— Você está segura aqui — murmurei num fio de voz que se perdeu no som da chuva.
Levantei-me em silêncio, dei dois passos para trás sem tirar os olhos dela e passei pela porta, fechando-a suavemente enquanto a deixava repousar em paz.
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