Jacob


A noite já ia alta quando o SUV atravessou novamente os portões de ferro da mansão. O relógio no painel marcava quase dez horas. A reunião no centro com os líderes das rotas de distribuição tinha se arrastado mais do que o previsto, deixando minha mente saturada de números, táticas de defesa e estratégias para conter qualquer avanço do cartel de Monterrey.

Tirei o sobretudo ainda no hall de entrada, entregando-o a Thomas. O silêncio da casa era acolhedor, mas, ao me aproximar da grande sala de estar, o som de risadas infantis e vozes baixas me fez diminuir os passos.

Parei no limite do arco de madeira nobre que dava acesso ao ambiente, mantendo-me na sombra para observar a cena que se desenrolava sob a luz quente dos candelabros. Era uma imagem que eu jamais imaginaria ver tão cedo sob aquele teto.

Sentada no tapete persa no centro da sala, Sarah Black — a mulher cuja postura aristocrática e rigor implacável eram temidos por metade de Chicago — estava ajoelhada no chão, montando atenciosamente um castelo de blocos de madeira com Mateo. A minha mãe sorria com uma doçura genuína, paciente, ajeitando uma das peças enquanto o menino soltava uma gargalhada gostosa ao derrubar uma torre.

— Não, não, rapazinho! — brincava Sarah, com um tom fingido de severidade que terminava em um afeto que eu raramente vira. — Esse castelo precisa de fundações fortes para proteger o rei. Vamos erguer a muralha de novo.

A poucos metros dali, acomodada em um das poltronas de veludo, estava Renesmee. Ela segurava uma xícara de chá nas mãos, observando o filho brincar com a minha mãe pelo canto do olho, com um misto de alívio e surpresa estampado no rosto pálido.

Ao lado dela, inclinada no sofá com um sorriso animado no rosto, estava Rebecca, minha outra irmã. Ela havia chegado de viagem mais cedo e, pelo visto, não perdera tempo em ir até a mansão para satisfazer a curiosidade sobre as novas "visitas" da família. Rebecca conversava com Renesmee de forma fluida e calorosa, gesticulando enquanto contava alguma história, fazendo com que Renesmee soltasse uma risada curta e genuína, o primeiro sorriso de verdade que vi naquele rosto desde que nos encontramos.

Fiquei imóvel por alguns segundos, o peito pesando com um sentimento estranho e denso. Aquele lugar, tantas vezes palco de reuniões tensas e decisões frias sobre o nosso império, parecia, por um breve momento, um lar de verdade.

A primeira a notar minha presença foi Rebecca. Ela ergueu os olhos e abriu um sorriso largo ao me ver parado na entrada.

— Ora, se não é o Don da casa dando o ar da graça — provocou Rebecca, levantando-se e vindo até mim para me dar um abraço rápido. — Chegou tarde, Jacob. O jantar já passou faz tempo, mas a mamãe deixou algo separado para você.

— A reunião no centro atrasou — respondi, retribuindo o abraço dela de forma rápida antes de mover o olhar pela sala.

Sarah levantou-se do tapete com a elegância de sempre, limpando a saia com um gesto suave antes de dar um tapinha carinhoso no ombro de Mateo, que continuou entretido com os blocos no chão.

— Você trabalha demais, meu filho — disse Sarah, caminhando na minha direção com o olhar perspicaz de costume. — Mas fico feliz que tenha chegado a tempo de ver o quanto o pequeno Mateo e a Renesmee estão se adaptando bem.

Renesmee colocou a xícara de chá sobre a mesa de apoio e colocou-se de pé devagar. Nossos olhares se cruzaram sobre a luz da sala. A postura dela ainda guardava aquela reserva cautelosa, mas os olhos claros não carregavam mais o pavor da manhã anterior.

— Boa noite, Jacob — disse ela baixinho, sustentando o meu olhar.

— Boa noite, Renesmee — respondi, dando dois passos para dentro da sala, sentindo o ambiente congelar levemente com a carga de tensão que sempre parecia nos envolver quando estávamos no mesmo espaço. — Vejo que você já conheceu a Rebecca.

— Sua irmã foi extremamente gentil comigo — respondeu ela, dedicando um aceno suave a Rebecca. — Na verdade, a sua família inteira tem sido incrivelmente acolhedora.

— Nós cuidamos dos nossos, querida — declarou Sarah com firmeza, entrelaçando as mãos à frente do corpo e olhando de mim para Renesmee. — E a partir do momento em que o Jacob trouxe vocês por aqueles portões, esta casa é o seu refúgio.

A declaração da minha mãe ecoou pela sala com o peso de uma promessa oficial. Olhei para o garoto no chão, depois para a mulher que salvara a minha vida e que agora transformava a dinâmica da minha família sem nem perceber.

Mateo abandonou o castelo de blocos no tapete e levantou-se com a energia típica de uma criança de três anos. Ele deu dois passos vacilantes na minha direção, olhando para cima com aqueles olhinhos curiosos e atentos.

Instintivamente, dei um meio passo para trás. Eu sabia lidar com homens armados, juízes corruptos, policiais e mafiosos, mas não tinha a menor aptidão com crianças. Eu simplesmente não sabia o que fazer com uma criatura tão pequena e frágil.

— Tio! — disse ele, a voz infantil tentando articular meu nome com clareza enquanto vinha direto até as minhas pernas.

— Cuidado, garoto... — murmurei, mantendo os braços caídos ao lado do corpo, tenso como se estivesse diante de uma bomba relógio.

Mateo se apoiou no meu joelho para se equilibrar e levantou a mãozinha, buscando alcance na minha cintura para se segurar. O movimento foi rápido. Em uma fração de segundo, os dedinhos dele tocaram a coronha fria da G26 que eu carregava no coldre velado, sob a dobra da minha jaqueta aberta.

O som do metal roçando no couro fez o ar da sala congelar.

— Mateo, não! — a voz de Renesmee cortou o ambiente num grito sufocado de puro pavor.

Ela deu dois passos rápidos à frente, a xícara na mesa balançando com o impacto do seu movimento brusco. O rosto dela perdeu a pouca cor que tinha, os olhos arregalados em pânico ao ver as mãos do filho tão perto do cabo de uma arma de fogo.

Sarah e Rebecca travaram no lugar, mas mantiveram a calma que a experiência na nossa família exigia.

Antes que Renesmee pudesse se descontrolar ou avançar de forma a assustar o garoto, agi com a rapidez de quem viveu a vida inteira com a mão no gatilho.

Suavemente, mas com firmeza, passei a mão grande pela frente do coldre, bloqueando o acesso de Mateo à arma sem fazer nenhum alarde. Com o mesmo movimento fluido, dobrei os joelhos e me abaixei na altura dele, tirando uma moeda de prata pesada do meu bolso de colete com a mão livre.

— Ei, rapazinho — chamei, a voz vindo num tom calmo, surpreendentemente suave, mantendo o foco dele totalmente longe da minha cintura. — Você já viu uma destas?

Fiz a moeda de prata deslizar entre os meus nós dos dedos, num truque rápido de mãos que aprendi quando garoto nas ruas de Chicago. A moeda parecia desaparecer e reaparecer entre as minhas articulações feridas.

Mateo arregalou os olhos na hora, a mãozinha que antes tocava a coronha se abrindo para tentar pegar o metal brilhante.

— Pega — disse eu, fechando a mão dele ao redor da moeda pesada. — É sua. Mas guarde bem, porque o rei do castelo precisa de moedas de prata.

O garoto soltou uma risada deliciada, esquecendo completamente a arma e mostrando o "tesouro" para a minha mãe no chão.

— Olha, vovó Sarah! — exclamou Mateo, correndo de volta para o tapete.

Soltei o ar devagar, colocando-me de pé. A fivela da jaqueta voltou a cobrir o coldre de forma discreta.

Olhei para Renesmee. Ela continuava parada no meio da sala, a mão pressionada contra o peito, arfando devagar enquanto tentava controlar o tremor nas pernas. O olhar dela encontrou o meu, carregado de um alívio imenso e de uma gratidão silenciosa pela forma rápida e fria como controlei a situação sem traumatizar o menino.

— Ele... ele não sabe o que é isso — disse ela baixinho, a voz ainda trêmula, aproximando-se de mim enquanto as outras duas fingiam atenção nos blocos de Mateo para nos dar espaço. — Me desculpe, Jacob. Eu devia ter segurado ele.

— Ele é uma criança, Renesmee — respondi, mantendo a voz baixa, perceptível apenas para ela. — Ele não fez por mal. E a arma estava na trava de segurança, não havia perigo real.

Renesmee encarou a minha cintura por um segundo antes de subir o olhar para os meus olhos. A proximidade fazia o perfume suave dela voltar a tomar conta dos meus sentidos, enfraquecendo a postura dura que tentei manter o dia todo.

— Você reagiu rápido — murmurou ela, um leve traço de admiração surgindo em seus olhos claros. — Levou jeito com ele.

— Eu não levei jeito nenhum — respondi com uma sombra de sorriso de canto, ranzinza. — Só usei um truque barato de moedas.

Renesmee soltou uma risada curta, o som suave e melodioso fazendo o peso das últimas vinte e quatro horas parecer evaporar do meu peito por alguns segundos.

— Para quem diz que não leva jeito, você salvou a noite — Rebecca disse

Sustentei o olhar dela sem responder, mas a promessa de mantê-los a salvo, contra as armas da rua ou contra o meu próprio mundo, tornou-se ainda mais irrevogável dentro de mim.

•••

O relógio de madeira no corredor do segundo andar badalou três horas da manhã. A mansão estava mergulhada em um silêncio absoluto, quebrado apenas pelo sussurro da chuva constante que voltara a bater contra as vidraças da fachada.

Eu não conseguia dormir. A conversa com Jasper na empresa, a imagem daquele soldado morto no galpão e a responsabilidade de manter aquela mulher e a criança em segurança giravam na minha mente como um moinho sem fim.

Cansado de encarar o teto do meu quarto, decidi descer para pegar um copo de água fria na cozinha. Eu vestia apenas uma calça de moletom cinza, descalço, com o peito largo e desnudado exposto ao ar gelado dos corredores. As cicatrizes e as marcas dos combates antigos pareciam ressaltadas pela penumbra da casa.

Caminhei em passos silenciosos até o topo da grande escadaria em caracol.

Ao mesmo tempo, uma figura pequena subia os primeiros degraus vindo do andar térreo.

Renesmee não esperava encontrar ninguém acordado. Ela vestia um baby doll de seda leve e folgado, composto por um shortinho curto e uma regatinha de alças finas que deixavam suas pernas claras e os ombros totalmente à mostra. Seus cabelos bronzeados estavam soltos e ligeiramente bagunçados pelo sono, caindo em ondas volumosas sobre o peito.

Nos cruzamos exatamente na curva da escada, onde a iluminação era praticamente nula.

— Ah! — o susto arrancou um arfar agudo da garganta dela.

Ao notar a minha figura enorme surgindo do nada na escuridão, Renesmee deu um passo em falso para trás, o pé descalço derrapando na beirada do degrau de madeira polida. O corpo dela pendeu perigosamente para a penumbra do degrau inferior.

— Cuidado! — a minha reação foi pura memória muscular

Avancei em um frações de segundo. Passei o braço direito pela cintura fina dela, puxando seu corpo contra o meu peito para evitar a queda, enquanto minha mão esquerda segurava a madeira do corrimão para nos ancorar.

O impacto do corpo macio e quente dela contra o meu peito nu fez o ar escapar dos meus pulmões. Renesmee soltou um suspiro entrecortado e envolveu meus ombros com os braços por reflexo, buscando equilíbrio, os dedos dela cravando-se na pele da minha nuca.

Ficamos imóveis no meio da escada, a respiração de ambos acelerada pelo susto e pela descarga repentina de adrenalina.

— Você está bem? — perguntei numa voz grave, um sussurro áspero que ressoou diretamente contra o topo da cabeça dela.

— Sim... sim — murmurou ela, o tom entrecortado. — Você me assustou.

Renesmee ergueu o rosto devagar para me encarar. A proximidade era avassaladora. Sem a iluminação direta, nossos olhos demoraram um segundo para se ajustar, mas a distância entre nossas bocas não passava de alguns centímetros. Senti a pele quente da coxa dela, descoberta pelo shortinho folgado do baby doll, roçar na minha calça de moletom. O cheiro de baunilha que emanava da sua pele me atingiu com a força de um golpe físico.

A mão que mantive na cintura dela não se moveu. Em vez disso, meus dedos espalmaram-se contra a seda fina do tecido, sentindo o calor da pele por baixo.

— O que você estava fazendo lá embaixo a esta hora? — murmurei, o olhar baixando involuntariamente para os lábios carnudos e ligeiramente entreabertos dela.

— Fui buscar um copo de leite na cozinha... não conseguia dormir — respondeu ela, a voz saindo num fio fraco. Os olhos claros dela varreram o meu peito descoberto, descendo pelas cicatrizes e subindo de volta para a minha boca. — E você?

— Pensando em você — a verdade escapou da minha garganta antes que a minha razão pudesse travá-la.

O silêncio que se seguiu foi carregado de uma eletricidade quase palpável. Renesmee engoliu em seco, mas não recuou um único milímetro. Pelo contrário, senti os dedos dela apertarem com mais força os meus ombros, o peito pequeno subindo e descendo acelerado contra o meu.

A atração que tentamos sufocar durante dias ardeu de vez, consumindo qualquer barreira, qualquer regra ou qualquer aviso que Jasper me dera naquela tarde.

Não houve hesitação. Inclinei a cabeça e tomei os lábios dela nos meus.

O beijo começou com uma urgência contida, mas explodiu em volúpia no segundo em que Renesmee soltou um gemido abafado contra a minha boca e correspondeu ao toque. Aprofundei o contato, a minha língua pedindo passagem e encontrando a dela num ritmo faminto, desesperado e quente.

Apertei a cintura dela contra o meu quadril, puxando-a ainda mais para cima, eliminando qualquer espaço que restasse entre nós. A sensação da pele macia e desprotegida dela sob as minhas mãos grossas e calejadas era um contraste perigoso. Sentia o calor do corpo dela atravessar o tecido leve do baby doll, incendiando o meu sangue.

Renesmee enfiou as mãos nos meus cabelos, puxando-me para si com uma entrega que fez o meu autocontrole ruir por completo. O beijo tornou-se mais profundo, denso e dominador, a respiração de ambos virando um sussurro arfado na penumbra da escadaria.

Aprofundei o beijo, deslizando a mão direita da sua cintura para o meio das suas costas, pressionando-a firmemente contra o meu peito nu. Sentia a elevação acelerada do seu peito contra o meu, o bater desordenado do coração dela ecoando no mesmo ritmo insano do meu.

Devagar, rompi o contato dos nossos lábios apenas o suficiente para buscar o ar que faltava nos meus pulmões. O rosto dela estava corado, os lábios entreabertos e úmidos sob a penumbra da escada, os olhos claros semicerrados e brilhando com uma entrega que me enlouqueceu de vez.

Ela não recuou. Em vez disso, inclinou a cabeça ligeiramente para o lado, um suspiro arfado escapando da sua garganta quando encostei meus lábios na linha macia do seu maxilar.

Tracei um caminho de beijos quentes e famintos pela curva do seu queixo, descendo pelo seu pescoço delicado. Senti a pele dela arrepiar-se por inteiro sob o toque da minha boca. Renesmee soltou um murmúrio baixo, manhoso, e enfiou os dedos com mais força nos meus cabelos, puxando-me ainda mais para si, guiando o meu acesso.

— Jacob... — sussurrou ela, a voz vindo embargada, um misto de sobressalto e desejo que ressoou diretamente na minha pele.

Minha mão livre desceu pelo quadril dela, contornando a curva da sua coxa coberta pela seda leve do shortinho do baby doll. A pele desnudada das suas pernas era quente, incrivelmente macia ao contato das minhas articulações calejadas e machucadas. Ergui ligeiramente o corpo dela contra o corrimão da escada, fazendo com que a coxa dela se encaixasse no meu quadril.

Ela respondeu ao movimento de imediato. Cruzou uma das pernas ao redor da minha cintura, firmando o apoio, e buscou a minha boca novamente por iniciativa própria.

O segundo beijo veio ainda mais denso, carregado de uma volúpia crua e sem filtros. Renesmee participava de cada toque, acompanhando a intensidade dos meus movimentos, roçando o corpo pequeno no meu com uma fome que espelhava perfeitamente a minha. A médica contida e a mãe temerosa deram lugar a uma mulher viva, pulsante e desejosa.

Levei meus beijos até a saboneteira do seu ombro, puxando a alça fina da regatinha alguns centímetros para baixo com os dentes. Senti a respiração dela falhar miseravelmente, a cabeça tombando para trás no meu braço enquanto eu distribuía mordiscadas suaves e sucções quentes pela sua pele bronzeada.

A sensação daquela mulher entregue a mim, no meio da madrugada, na escadaria da minha própria casa, era uma droga perigosa. Eu queria mais. Queria levá-la para o meu quarto, trancar a porta e reivindicar cada centímetro daquele corpo até o amanhecer.

Mas, quando minha mão subiu pela sua cintura para segurar com mais firmeza a sua costela, o tecido da regata subiu um pouco, e a ponta dos meus dedos roçou uma pequena e antiga cicatriz na lateral do seu tronco.

A marca do passado dela.

O contraste entre a brutalidade do que ela viveu no México e a delicadeza com que ela se entregava a mim agora atingiu o meu cérebro como um choque elétrico.

Interrompi o beijo no topo do seu peito, mantendo a testa apoiada contra a pele quente do seu pescoço, arfando pesadamente enquanto tentava reconquistar o domínio sobre o meu próprio corpo. Renesmee manteve as mãos nos meus ombros, o peito subindo e descendo descontrolado, a respiração quente dela batendo contra o meu rosto.

Ficamos ali, enlaçados no meio dos degraus. A minha consciência — aquela voz fria e implacável que me manteve vivo e no topo por todos esses anos — falou mais alto.

Eu era o homem encarregado de protegê-la. E usar da vulnerabilidade dela naquele momento, na penumbra de uma escada, tornaria o meu papel idêntico ao dos homens dos quais ela fugira.

Com um esforço brutal de autocontrole, desencaixei devagar a perna dela da minha cintura e a pousei de volta no degrau. Mantive as mãos firmes em seus ombros por um segundo extra, até ter certeza de que as pernas dela não iriam ceder.

Renesmee piscou devagar, o olhar enevoado pelo desejo, os lábios vermelhos e entreabertos arfando em busca de ar.

— É melhor você voltar para o seu quarto, Renesmee — disse eu, a voz saindo num tom grave, rasgado e irreconhecível pela intensidade do momento.

Ela piscou algumas vezes, parecendo quebrar o transe. O rosto dela passou da entrega à completa perplexidade. A mudança repentina de atitude — do toque faminto para o afasto frio e ordenado — atingiu-a como um balde de água gelada. Ela abriu a boca para dizer algo, mas as palavras pareceram travar na sua garganta.

— Jacob... — murmurei ela, o tom carregado de dúvida, tentando ler o meu rosto na escuridão.

— Vá — repeti, dando um passo discreto para trás na escada, colocando uma distância física crucial entre nós. — O Mateo pode acordar e não te encontrar.

A menção ao filho funcionou como um choque de realidade. A fresta de vulnerabilidade que ela abrira fechou-se em uma fração de segundo. Ela não pediu explicações, nem exigiu respostas. Apenas sustentou o meu olhar por um segundo mais longo — um olhar onde misturavam-se a vergonha, a confusão e uma faísca de mágoa contida — e girou sobre os calcanhares.

Renesmee subiu os últimos degraus em passos rápidos e silenciosos. O som suave dos pés descalços dela no piso de madeira ecoou pelo corredor do segundo andar até que o estalido seco da porta do seu quarto se fechando selou o silêncio da casa.

Passei as duas mãos pelo rosto e pela nuca, soltando um palavrão baixo que se perdeu na penumbra da escadaria. Encostei as costas contra o corrimão de madeira e encarando o teto do hall, sentindo o peito ainda arfar e o sangue pulsar forte nas minhas têmporas.