Além da fronteira
11 10. Negociação
Jacob
As luzes estroboscópicas e o grave retumbante dos alto-falantes da Obsidian — a boate mais exclusiva que eu mantinha no centro de Chicago — eram o cenário ideal para afogar pensamentos indesejados. O ar cheirava a uísque caro, perfume importado e fumaça de charuto.
Três dias haviam se passado desde a noite na escadaria. Três dias em que evitei cruzar com Renesmee pelos corredores da mansão, mantendo a distância fria e profissional do Don. Mas a porra do gosto dela não saía da minha boca. A lembrança do corpo macio entregue às minhas mãos parecia gravada a ferro e fogo na minha mente, e aquela humilhação silenciosa — admitir que uma mulher conseguira desestabilizar o meu controle — me irritava profundamente.
Eu precisava expurgar aquela ruiva da minha cabeça.
Acomodado em um dos camarotes VIPs no segundo andar, com vista privilegiada para a pista lotada, eu segurava um copo de bourbon com gelo. Ao meu lado, Quil e Embry mantinham a vigilância discreta, enquanto a mesa de centro de mogno estava cercada por homens que cruzaram o país para negociar conosco.
Diretamente de Nova Iorque, a família Cullen enviara uma comitiva para alinhar o fornecimento das rotas do Atlântico. À frente deles estava Emmett Cullen.
Emmett era um gigante de braços largos e sorriso debochado, o irmão caçula da dinastia nova-iorquina. Ele trajava um terno escuro sem gravata e ostentava a confiança exagerada de quem sabia o peso do sobrenome que carregava.
— O lugar é impressionante, Black — disse Emmett, inclinando-se para trás no sofá de couro e virando um shot de tequila de uma vez. — Chicago continua sabendo como gastar dinheiro.
Destei o copo na mesa, encarando-o com o olhar impassível.
— Dinheiro nunca foi o nosso problema, Cullen. O nosso problema é tempo — respondi, a voz grave cortando a música abafada do camarote. — O Carlisle me garantiu uma reunião com a cúpula. No entanto, o Don mandou o filho caçula e um punhado de soldados.
Fiz uma pausa calculada, girando o gelo no copo.
— Onde está o Edward? — perguntei, a frieza no meu tom fazendo Quil e Embry se ajeitarem ligeiramente. — O herdeiro direto dos Cullen deveria estar nesta mesa se os negócios de Nova Iorque com Chicago fossem prioridade.
Emmett soltou uma risada grave, balançando a cabeça, embora o brilho divertido em seus olhos desse lugar a uma rigidez calculada.
— O Edward não sai de Nova Iorque por qualquer motivo, Jacob. O meu irmão é a mão direita do meu pai, e a situação no East Coast exige a presença dele lá — explicou Emmett, apoiando os cotovelos nos joelhos. — Se eu estou aqui, é por um motivo muito simples: minha esposa, a Rosalie, é irmã gêmea do seu querido advogado, o Jasper Hale. Essa ligação de sangue entre a Rosalie e o Jasper é a única razão pela qual a minha família aceitou abrir este canal direto com os Black.
Ele fez um gesto vago com a mão, indicando a boate e os homens de guarda ao redor.
— Sendo bem honesto com você, Black... nem o Edward, nem o meu pai confiam o suficiente no cenário atual de Chicago para virem pessoalmente até aqui. Monterrey está farejando os seus passos, e os Cullen não colocam a cabeça no cepo sem ter certeza absoluto de que o terreno é firme.
Apertei o vidro do copo com força suficiente para estalar as articulações dos meus dedos. O desdém velado da máfia nova-iorquina era uma pílula amarga, mas a presença de Emmett provava que a ponte com os Cullen ainda era viável.
— O terreno é o meu território — afirmei, inclinando o corpo para a frente e cravando o olhar no caçula dos Cullen. — E quem dita as regras aqui sou eu. Diga ao Edward que se ele quiser a sua fatia do porto de Chicago, vai ter que engolir a desconfiança e sentar na minha mesa.
Emmett sustentou o meu olhar por um segundo, o sorriso debochado voltando aos poucos ao seu rosto.
— Eu repasso o recado, Don Black. Agora... sirva mais uma dose. Vamos ver se a bebida de Chicago é tão forte quanto a sua banca.
Emmett estalou a língua no céu da boca após virar a segunda dose de tequila. Ele encostou-se no sofá de couro, abrindo os braços e esticando-os ao longo do encosto, enquanto observava a movimentação na pista abaixo através do vidro fumê do camarote.
Fiz um gesto sutil com dois dedos no ar.
Em questão de segundos, as portas de veludo do setor reservado se abriram. Duas dançarinas da área executiva — mulheres esculpidas para o padrão de discrição e luxo da Obsidian — adentraram o ambiente trazendo uma garrafa banhada a ouro de mezcal artesanal e dois baldes de gelo. Uma delas, uma morena alta de vestidos ajustados que acentuavam cada curva, caminhou com elegância até o lado de Emmett, servindo o copo dele enquanto deslizava o olhar provocante sobre o caçula dos Cullen.
A outra tentou se aproximar do meu lado da mesa, mas um único olhar meu na direção dela fez com que mantivesse uma distância respeitosa, limitando-se a preencher o meu copo de bourbon antes de recuar dois passos.
— Ah, agora sim nós estamos falando a mesma língua, Black — disse Emmett, soltando uma gargalhada grave enquanto a mulher ao seu lado se acomodava no braço da sua poltrona, acendendo um charuto cubano e entregando-o a ele. — Você pode até ser turro com a burocracia do porto, mas sabe como tratar uma comitiva.
— Mulheres e bebida boa são a cortesia da casa, Cullen — respondi, baforando a fumaça densa do meu próprio charuto. — Mas elas só continuam servindo se os números na mesa baterem até o final da noite.
Emmett tragou o charuto, deixando a fumaça cinzenta subir em espiral antes de encarar o mapa das rotas que Embry desdobrara sobre o mogno da mesa, bem ao lado dos copos de cristal.
— A minha esposa, a Rosalie, manda em metade das operações de fachada dos Cullen na costa leste — comentou Emmett, a voz abaixando para aquele tom grave de negócios enquanto a garota acariciava seus ombros com mãos leves. — E quando a Rose e o Jasper conversam, os papéis não falham. Nova Iorque quer quarenta por cento da carga que entra pelos seus contêineres no Lago Michigan a partir do próximo mês. Sem intermediários do cartel.
— Quarenta por cento é preço de parceiro fundador, e você veio aqui como convidado — cortei, a voz seca. — Trinta e dois por cento. E vocês cobrem a segurança armada do trajeto terrestre até o estado de Ohio. Se Monterrey tentar interceptar a carga na estrada, o sangue que vai correr na pista é dos homens do Carlisle, não dos meus.
Emmett ergueu as sobrancelhas, impressionado com a audácia da proposta, enquanto a mulher ao seu lado servia mais uma dose no seu copo. Ele deu um tapinha na coxa dela, sinalizando para que a garota se afastasse alguns metros e nos desse espaço total para fechar a transação.
— Trinta e cinco por cento — barganhou Emmett, encarando-me com a postura ereta de quem representa um império. — E eu garanto três esquadrões de elite do Edward escoltando cada caminhão desde a saída da sua doca até a fronteira estadual. Se os homens de Monterrey pisarem no asfalto, viram poeira antes de chegarem ao primeiro pedágio.
Cruzei as pernas, mantendo o charuto entre os dedos feridos e calejados, sentindo o álcool queimar na garganta, mas a mente fria como gelo.
— Trinta e cinco — fechei o acordo, estendendo a mão grande e pesada sobre a mesa. — Com a condição de que o Jasper revise o contrato de transferência das empresas de fachada até amanhã à tarde.
Emmett segurou a minha mão num aperto firme e esmagador, selando a aliança entre a Black Enterprises e a família Cullen de Nova Iorque.
— Negócio fechado, Don Black — declarou Emmett, abrindo um sorriso largo e pegando a garrafa de mezcal. — Agora, se você me dá licença... vou aproveitar o resto da noite da sua boate antes de voltar para a fúria da Rosalie em Nova Iorque.
Ele levantou-se com a garrafa na mão e a dançarina ao seu lado, caminhando para a área mais reservada do camarote VIP.
Fiquei sozinho à mesa, cercado pelo cheiro de tabaco caro e perfume feminino. Embry e Quil aproximaram-se em silêncio.
— A ponte com Nova Iorque está garantida, chefe — murmurou Embry.
Olhei para o fundo do meu copo de uísque. O negócio estava feito e a proteção ao redor de Chicago ficara duas vezes mais forte. Mas, quando inclinei a cabeça e fechei os olhos por um segundo, a imagem que veio à minha mente não foi a da boate, das dançarinas ou do dinheiro dos Cullen.
Foi a visão de uma ruiva de olhos castanhos claros na penumbra de uma escada, vestida de seda, cujo toque eu falhara miseravelmente em apagar do meu sangue.
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