Além da Vida
2 O que os Olhos Não Conseguem Ver
Notas iniciais
Meus olhos procuravam constantemente ao redor do garoto que estava parado na minha frente. Em algum lugar, qualquer lugar, a linha dele deveria estar. Eu tinha certeza disso, mas... onde?
Com um sorriso travesso, ele se virou e começou a ir embora.
Eu comecei a segui-lo, afastando as pessoas que se aglomeravam para ver o homem que acabara de morrer. Como eu estava na outra extremidade do círculo, lutei para conseguir atravessar para o outro lado da rua, mas não cheguei a tempo. Quando finalmente cumpri a missão, ele já havia se misturado com o resto das pessoas e desaparecido da minha visão.
Quem era ele? Ou a melhor pergunta talvez seja o que era ele?
Eu não consigo enxergar minha própria linha, por ironia do destino ou algo assim, mas nunca tive problema de enxergar a dos outros. Não acredito em vida após a morte porque não vejo espíritos de pessoas mortas nem nada do tipo. Será que ele é um fantasma afinal?
Balancei minha cabeça. Não tenho porque ficar perdendo tempo com suposições desse tipo.
Meu dia continuou normalmente. Fui ao salão arrumar o cabelo e fazer uma hidratação. Também aproveitei e fiz minhas unhas. No meio da conversa com minha manicure, achei inconveniente dizer que ela teria apenas alguns meses de vida e que morreria de um ataque cardíaco. Então conversamos sobre outros assuntos.
Sim, essa é a minha versão de normalidade. Constantemente enxergo a linha e, muitas vezes toco sem querer nela, vendo as cenas das mortes de cada pessoa. Como eu disse, não é um dos maiores dons que alguém poderia desejar nessa vida... ou morte.
Estou acostumada com tudo isso, então não fiquem chocados por eu passar por esse tipo de situação tão calma e fria. Todos morremos e não há o que possamos fazer quanto a isso.
Quando saí do salão, eu estava linda. Uma das poucas coisas que gosto de fazer é me sentir bonita. Não para agradar as pessoas de fora e sei que a beleza é algo que passa com o tempo, por isso mesmo, gosto de olhar no espelho e enxergar um 'eu' bonita. Essa é uma das provas que ainda estou viva.
Olhando ao redor, para um aquário que ficava de frente para o salão, levei um susto. Mais uma vez, do nada, estava o rapaz.
Usava as mesmas roupas e parecia estar procurando alguém dentro da loja. Devagar, me aproximei sem chamar muita atenção, ou o que possa ser considerado pouca atenção com a minha aparência. Tão entretido que estava em sua busca, ele não me notou sequer um segundo.
Era um dia de verão em São Paulo, então, como pode imaginar, o calor estava beirando ao insuportável, mas quanto mais perto eu chegava, comecei a sentir frio, como se uma brisa de inverno estivesse passando por mim.
–Olá. — eu disse.
Apesar do meu cumprimento, ele continuava olhando fixamente para dentro do aquário. Que grosseria, deveria ao menos olhar quando alguém está lhe dirigindo a palavra.
Toquei levemente no ombro dele e repeti um Olá o mais doce que consegui.
De súbito, o garoto se virou e me encarou com espanto. Seu rosto congelou em uma mescla de susto e pavor, até parecia que estava vendo um fantasma. Isso, em particular, me deixou um pouco ofendida.
Antes que ele ou eu pudéssemos dizer qualquer coisa, um grito veio de dentro do aquário.
–Por favor! Alguém ligue pra ambulância! Minha mãe está passando mal!
Olhei para dentro da loja e vi uma senhora com cerca de 62 anos, pálida e vomitando no corredor. Uma cena não muito agradável. A linha dela era consumida rapidamente e, apesar de eu não saber a causa da morte, ela não aguentaria mais do que alguns minutos.
–Você quem fez isso? — perguntei, incisiva, ao rapaz que se recuperara do choque.
–Vo-você consegue me enxergar? — ele murmurou. Não sei dizer se era uma pergunta ou uma afirmação.
–É claro que eu consigo. — gritei mais alto do que deveria — Você quem fez isso com ela?
O vendedor da loja me olhou e depois fez uma expressão de Que garota louca enquanto desligava o telefone, provavelmente tinha acabado de falar com a ambulância.
Por que ele fez aquela cara para mim? Fiquei irritada. Era como se eu estivesse falando sozinha... Como se eu estivesse... sozinha...
Olhei para o vidro espelhado do aquário e meu coração parou. Refletida com uma cara de boba, estava eu, parada, sem ninguém ao meu lado, no meio da rua.
Voltei meus olhos para o garoto que entrava no aquário e ia em direção da mulher que ofegava, em busca de um pouco de ar para seus pulmões que paravam de funcionar.
Quando a linha se apagou por completo, ele voltou a fazer o mesmo movimento que eu vira antes e, logo em seguida, o corpo dela ficou mole. Mais uma morte.
Ele saiu da loja enquanto a garota chorava ao lado do corpo da mãe.
Seu olhar demonstrava curiosidade quando cruzou com o meu e, dessa vez, era eu quem estava assustada.
–Q-Quem é você? Ou melhor, o que é você?
Por mais um instante ele continuou me encarando, como se me analisasse, na parte mais profunda do meu ser.
–Bem, você não parece uma ameaça. — disse ele — Eu sou Thanatos. E sou um deus.
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