Além da Vida
3 Lembranças que Queria Esquecer
Notas iniciais
Um deus?
Minhas pernas tremeram por um momento e eu caí sentada no chão. Thanatos, ou qualquer que fosse o nome real dele, se agachou ao lado dela e continuou explicando:
–Sou o mesmo deus que é chamado de Thanatos na mitologia grega. Tirando o fato, porém, de eu não ser um deus deus. As pessoas que exageraram e aumentaram um pouco a verdade...
Ele continuou falando, mas meu cérebro já não estava mais computando as palavras que estavam sendo ditas. Deus? Isso não é real. A mitologia só foi criada para que as pessoas daquelas épocas conseguissem compreender fatores naturais que estavam além da capacidade delas.
Não era como se existisse, de verdade, um homem barbudo soltando raios pelas mãos nas pessoas ou em gigantes colossais. Isso tudo é loucura.
Meu cérebro, em meio ao furor que a situação havia causado, começou a raciocinar com maior velocidade e empenho. Como alguém que acende um fósforo em meio a escuridão, a resposta veio na minha cabeça, iluminando meus pensamentos.
–Como eu fui idiota... — murmurei, cortando qualquer coisa que o garoto ainda estava dizendo — Isso é uma pegadinha pelo primeiro dia de aula, não é mesmo?
Senti uma onda de raiva quando entendi o que estava acontecendo. Thanatos, ou qualquer que fosse o nome do imbecil, me olhava com uma cara de tonto. Típico de quando você desmascara um mentiroso.
–Você ouviu alguma coisa do que eu disse?
Levantei irritada e mal olhei para o rosto dele.
–Sou uma pessoa muito ocupada para ficar sendo feita de trouxa para a sua diversão. Muito obrigada, mas não pretendo mais continuar com esse jogo.
Comecei a andar e, com um Espere!, ele puxou meu braço.
As lembranças vieram rápido e em flashes, como bolhas quando abrimos um refrigerante. Diante dos meus olhos, imagens e imagens de pessoas morrendo de diversas formas diferentes. Não era apenas isso, também havia o cheiro de infinitos corpos sendo queimados, o gosto de sangue, férreo, preenchendo minha boca. E o pior de tudo: a dor. Mesmo por um instante, senti minha pele ser arrancada, queimada, cortada, tudo ao mesmo tempo.
Me soltei das mãos dele com um movimento brusco, praticamente um reflexo involuntário diante de tanta dor e agonia que senti.
–O-O que você fez!? — perguntei, indignada. Nem mesmo eu conseguiria explicar o que havia acontecido.
–Eu não fiz nada. — disse ele, assustado — Você viu alguma coisa?
Ainda meio zonza por toda aquela sensação repentina, assenti com a cabeça. Será que o que ele estava dizendo era verdade? Um deus?
Olhei novamente para ele. Chutando sua idade, diria que ele tinha cerca de 19 anos, se não, menos. Seus cabelos, olhos, pele... tudo era normal.
–O que foi? — ele me perguntou, com um olhar desconfiado — Por que está me encarando?
–Ah, desculpe. — respondi, enquanto me recompunha — É que você não parece em nada com um deus.
–Eu acabei de explicar que não sou exatamente o deus que todos falam da mitologia. Sou mortal, mas do lugar que eu venho, é normal as pessoas viverem milênios.
–Mas por que ninguém enxerga você? Se você é mortal, as pessoas deveriam poder te enxergar.
–Isso é por conta da magia.
–Magia?
Claro. É óbvio que se deuses existem, magia também deve existir. Minha cabeça doeu um pouco pelo excesso de informações.
–Sim, magia. — continuou ele como se fosse normal — Assim como Thanatos é o deus da morte na mitologia grega, eu sou o responsável por coletar as almas das pessoas que morrem. — antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele prosseguiu — Graças a isso, eu me tornei um ser invisível e intocável. As pessoas comuns não conseguem me tocar ou me ver se eu não desejar.
–Então você queria que eu o enxergasse?
–Não. E aí que está o problema. Como você consegue me ver?
Por um segundo eu fiquei sem palavras. Não sei como explicar, mas tudo aquilo fazia sentido em uma parte de mim.
Por um lado, o lado racional sendo mais específica, eu gritava para mim mesma que isso tudo não tinha como ser verdade, que eu estava ficando louca.
Mas, por outro, eu sentia que tudo aquilo era... familiar. Como quando encontramos uma pessoa pela primeira vez, mas sentimos que já a vimos em algum lugar do passado.
–Desde que eu me lembre eu tenho esses olhos. Consigo enxergar a linha da vida das pessoas. Sei quando e como elas irão morrer.
–Seus pais já morreram?
–Sim. Quando eu tinha 5 anos, meu pai foi assassinado. Minha mãe se foi um tempo depois. — dei de ombros — Suicídio.
–Deve ter sido bem difícil para você ver a morte deles e depois ter vivido, sendo tão jovem.
–Eu...
Eu havia visto? Não conseguia me lembrar de ter visto a morte dos meus pais. Eu... conseguia enxergar essas linhas naquela época?
–Você está bem? Está ficando pálida.
–Eu... estou. — respondi com a voz trêmula.
E então, minha cabeça começou a doer.
Uma pancada forte como se eu tivesse sido acertada por um bastão de baseball na nuca. Era como se... alguma coisa estivesse querendo ser lembrada, violentamente.
–Aaaaah!!! — eu gritei com toda a força.
Algumas pessoas ao redor vieram me ajudar, perguntando o que estava acontecendo. Eu não conseguia responder diante daquela dor. Minha visão embaçou e Thanatos, ao meu lado, me olhava com preocupação.
Diante dos meus olhos, faróis de carro brilharam na escuridão. Consegui ouvir alguém distante gritando meu nome e uma mão no meu peito me segurando. Olhei assustada para o lado, mas a escuridão encobria tudo ao meu redor.
Na distância, um barulho de duas coisas colidindo e se quebrando. Foi a última coisa que ouvi antes de apagar.
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