Akantha

1 A amargamente doce lembrança


Adora S. Crawliz

Akantha está assim desde que cheguei aqui. Alguns funcionários disseram-me que tentou tirar sua vida há dois anos e que, desde então, está internada em Consuelo Doords, a clínica psiquiátrica onde trabalho, em choque, sendo apenas um casulo, algo sem vida, vazio.

Ela jamais demonstrou estar realmente presente, exceto em suas crises absurdamente amedrontadoras, quando todos os seus sentimentos vem a tona, extremamente fortes e impactantes, causando comoção em todos os que estão presentes na clínica. No entanto, logo após tais crises, Akantha volta ao seu estado de torpor.

Não temos permissão de falar pelos corredores sobre os casos de pacientes aqui presentes, nem entre si, nem para outros internados... Exceto Akantha. Seu caso é do conhecimento de todos ali, funcionários ou não, e é impossível que não se ouça pelos corredores daquela sombria clínica assuntos a envolvendo.

Ela é especial, pois, mesmo em seu estado entorpecido, algumas vezes ela nos faz ter esperanças de que voltará algum dia. É como se o seu subconsciente lutasse para retornar ao corpo, como se lutasse para dizer “Parem, eu estou aqui ainda, não desistam de mim.” E eu não irei desistir, pois ela merece mais que tudo, ser feliz. Sei disso, todos nós sabemos.

Akantha.

– Oh meu Deus, Kreiow, isso é incrível. Como fez isso? – pergunto, fascinada com a facilidade que Kreiow tem de fazer com que diversas folhas dancem acima de nossas cabeças, brincando com meus cabelos vermelhos vivo e com seu brilhante cabelo esmeralda.

– Isso, minha querida Akantha – ele pronuncia meu nome como se fosse algo glorioso, e, ao mesmo tempo, alguma palavra extremamente sexy. – não poderei contar nem à sua fascinante pessoa.

Sorrio de um jeito inocente, e então me jogo por cima dele, derrubando- o na grama, meu corpo pressionado contra o seu, sentindo cada pequeno detalhe escondido por baixo de sua camisa de linho branca e sua calça azul escura, de uma malha extremamente fina. Sua respiração faz cócegas em minha orelha, e sinto-o sussurrar apenas uma palavra, a palavra favorita dele, aquela palavra que, do modo como ele sussurra, causa arrepios deliciosos por todo o meu corpo.

– Akantha – pausa. Ele beija de leve meu pescoço e mordisca minha orelha. – minha doce e irresistível Akantha.

Bom, sou Akantha, não sei como e nem quando vim parar aqui, e não recordo-me de nada desde então. A única coisa que sei é que, quando eu estava me afogando em um lago qualquer de Angleibloom, foi Kreiow que me salvou, e desde então jamais saiu do meu lado.

– Ah, doce Akantha, sempre perdida em pensamentos. – ele então inverte o papel e fica por cima de mim, apoiando o peso de si mesmo em seus braços, para que não me machuque. – Você é tão fascinante, minha querida.

Ele beija minha clavícula, passa os lábios por minha pele pálida, quase translúcida e, vez ou outra, beija-me de leve, mal tocando, apenas para me provocar, pois sabe que odeio isso.

– Eu te quero, Kreiow – sussurro, ele está com os lábios pousados em meu ombro nu, eu gemo, e ele escuta, sei que escuta.

– O que disse? – ele continua com aqueles seu jogo sujo, e eu, por mais que odeie admitir, adoro isso.

– Eu te quero. – digo, agora com mais certeza.

Ele sorri.

– É uma pena, Akantha, mas agora tenho que ir. – ele beija-me de leve no ombro, e então desse para pouco acima do meu seio esquerdo.

– Mas Krei... – começo, mas ele já não está mais aqui.

Deito-me na grama verde e observo as nuvens e o céu azul claro, ouço os sons da floresta ali perto e sinto o vento brincando com meus cabelos. É incrível como este lugar parece algo tão cheio de vida.

Após alguns minutos, vejo uma nuvem transformar-se em algum pássaro semelhante a um corvo, e então eu lembro...

Estava com a luz acesa, no banheiro do meu quarto em Dobster. Mamãe estava em algum encontro com sabe-se lá quem, e papai estava morto. Eu sentia-me tão sozinha, vazia. Lembro-me de sentir o sangue pulsando e meu coração acelerado com a decisão que havia tomado.

Desde que papai morreu eu me tornei uma farsa. Eu fingia, e fingia, e fingia, mas jamais pude fingir durante a noite, pois era ela quem trazia os fantasmas, e então tudo desmoronava.

Era 3:54 da madrugada agora. Mamãe deveria estar dormindo com algum cara qualquer, tentando, ao seu modo, ignorar a dor que sentia pela morte de meu pai e “seguir em frente”. Eu não consegui. Eu não era forte o bastante para esquecer. Eu jamais conseguiria seguir em frente. Eu era um monstro, eu sabia disso.

Na semana anterior havia comprado quatro caixas de aspirinas, o que somava 40 comprimidos. Por precaução comprei também algumas caixas de remédios aleatórios. Ao todo somavam-se 100 comprimidos. Eu não queria planejar muito, mas escolhi os remédios como a forma com que deixaria este horrível e deplorável mundo.

Agora passava das 4:00 da manhã.

– Sozinha, 50 remédios já foram. Ai meu Deus, apenas mais 50. Vamos Akantha, vamos. Tome todos. – e assim o fiz.

Esperei uma hora, cartas já feitas, roupa vestida. Queria uma morte trágica, era verdade. Queria punir minha mãe e todos que me machucaram. Queria que, onde quer que meu pai estivesse, visse que ele me tornou assim. Ele e todas as pessoas que convivem comigo. Eles não notaram minha dor, eles não procuraram me ajudar, a culpa era deles, e eu os odeio por isso.

Cansada de esperar, corri para a cozinha, peguei uma faca, a maior. Era de cortar carnes, eu acho. Deveria servir.

Subi os degraus devagar, sem pressa. Deitei-me sobre minha cama e, então, pensei.

Sempre escondi tanta dor, tanto caos. Eu acho que sempre fui assim, pois não lembro quando exatamente tudo começou. Não aguento mais crises que tenho, quando em certo momento estou em um estado horrível de dor e sentimentos, onde tudo vem para me dar um tapa na cara, onde eu lamento tudo e me despedaço e me arrasto mais para a dor e, subitamente, não sinto nada, apenas um grande vazio. E é desde estado pós crise que tenho medo, pois não tenho medo de nada por não sentir nada. Eu seria capaz de matar qualquer um e, provavelmente, a mim mesma. E é assim que me sinto agora: vazia.

Fiz cortes profundos em meus pulsos, pernas, braços, barriga e em qualquer pedaço de pele exposta que visse, estava acostumada com isso, pois todas as noites eles apareciam para ajudar-me a superar o caos e a confusão em minha mente.

Olhei para as paredes e vi meus pensamentos lá, em forma de palavras. Todas as noites, quando ficava difícil, eu escrevia lá. Ninguém jamais entrou naquele quarto, nem minha mãe. Eu o trancava quando saia e o trancava após entrar.

“Vocês me tornaram o monstro que sou.” “Fria como gelo.” “Eu a acolho, morte, docemente amarga, livremente enjaulada.” “Isso foi para você, mamãe.” “Tão sozinha, pobre garotinha.” “Ela era feita de caos, e vocês sabiam disso.”

Tantas frases, tantas palavras. Sangue vermelho, da cor de meus cabelos, misturado a palavras raivosas. Era o fim, eu sabia. Queria acabar logo com tudo, não aguentava mais as sombras deformadas nos cantos mais escuros do quarto, aquelas palavras envolvendo-me e sufocando-me, não aguentava mais a dor, e então o fiz. Levei a faca ao alto, onde poderia vê-la, mas então, a porta se abriu, e vi minha mãe, em choque. Como eu fora tola. Naquela noite tão importante esqueci-me de chavear a porta, e, como que pressentindo que algo aconteceria, ela entrou. Seus lindos cabelos castanhos estavam embaraçados, como se ela tivesse corrido até em casa, seus olhos azuis como os meus olhando-me com total pavor. Eu sorri para ela e sussurrei apenas uma palavra: Desculpe.

E então a faca desceu.

Isso, com toda a certeza, foi perturbador.

Não recordo-me de estar no local de tal pensamento, e nem sequer parece que sou eu mesma. Mas, de algum modo, sei que sou eu. E a partir desta memória que tudo mudou.