Akantha

2 Uma luta por respostas


Akantha

O que se passou foi estranho, devo admitir. Mais estranho até do que das outras vezes. Eu talvez estivesse apenas imaginando, afinal tenho a criatividade de um artista, mas pareceu-me tão real tal pensamento que agora, após algumas horas, começo a me perguntar se aquela, além de todas as outras, de fato não foi uma lembrança distante de algo que não me recordo.

Eu queria tanto descobrir o que foi aquilo, pois, desta vez, foi algo realmente estranho, mas ao mesmo tempo mais natural, como se algo dentro de mim quisesse mostrar-me algo. Algo que tenho certeza não ser tão belo quanto este lugar.

Faz algum tempo que venho tendo estas breves visões, ou o que quer que sejam. Agora eu, mais do que nunca, estava certa do que queria, e eu começaria da primeira lembrança que tenho: o lago.

Algo me dizia que eu precisava montar este quebra-cabeça, começando pelas peças que me foram dadas. E aquele lago era a chave para o início de tudo, eu sentia isso.

Adora S. Crawliz

Faz mais ou menos um ano que trabalho aqui na CPCD, e aproximadamente sete meses que sou a enfermeira principal responsável por Akantha.

Minha história é um tanto quanto complicada. Eu vivi a minha vida toda em orfanatos e casas provisórias, mudando-me de meses em meses, sem realmente ter um lar de verdade. Minha mãe abandonou-me quando eu tinha um ano de idade em Casidimi, um orfanato local, e quando completei três anos foi que me mudei pela primeira vez. Agora tenho dezenove anos de idade e sou responsável pela paciente com o caso mais indecifrável de toda a clínica. Mas por quê? Bom, primeiro, pois vejo certa semelhança entre mim e Akantha, e porque eu acredito que ela possa ser salva, que ela quer, mais do que qualquer coisa, se libertar.

A primeira crise de Akantha ocorreu uma semana depois que comecei a trabalhar aqui. Eu estava cuidando da entrega das medicações dos pacientes junto com Carin, uma enfermeira de 34 anos que trabalha aqui desde os seus 21 anos e que viveu sempre com sua mãe, uma viúva frágil e debilitada. Foi após entregar a medicação para certa paciente que percebemos o tumulto.

Havia enfermeiras correndo sem parar tentando acalmar a todos e notamos que o médico principal da Clínica, juntamente com a enfermeira chefe e mais alguns enfermeiros corriam para uma sala no fundo do corredor as pressas. E então Carin sussurrou algo ininteligível ao meu lado, e, quando pedi para que repetisse o que falou, ela me olhou como se eu fosse uma anomalia ali.

– Ninguém te contou? Sobre ela. Akantha. Ninguém te falou? – e foi graças a estas perguntas que eu soube que queria saber quem era esta garota, mesmo não conhecendo nada sobre seu caso ou tendo a menor ideia do que ela estaria fazendo ali. Apenas a menção de seu nome mexeu com algo adormecido dentro de mim. – Começaram. As crises de Akantha. Os médicos avisaram que coisas poderiam acontecer por causa do estado dela, e as crises estavam na lista das mais prováveis. Deve ser isto que está acontecendo lá dentro. Ela deve ter despertado.

Aquela foi uma longa noite para todos lá, pois as crises daquela garota afetaram tudo e todos. Seus gritos causavam sentimentos horríveis dentro de mim e acredito que dentro de todos que estavam ali. Quando finalmente conseguiram acalmá-la, ela adormeceu e, no dia seguinte, era como se nada tivesse acontecido.

Vi ela sentada em uma cadeira, olhando através da janela com grades de seu quarto, imóvel, como se estivesse presa dentro de sua própria cabeça, alheia a tudo o que se passava. Ela estava vazia novamente.

Mas atualmente sei exatamente como são suas crises, quando começaram e como acalmá-la. A única coisa que não sei é a razão de tais. Mas eu vou descobrir, pois Akantha é um mistério, e a ligação que temos é forte e única. Nunca nos vimos antes, mas eu sinto que preciso protegê-la e ajuda-la, como se ela dependesse de mim. Pode parecer tolo e insano, mas sinto como se ela fizesse parte da minha vida, e o instinto de proteção me fez fazer loucuras para aproximar-me dela. Eu não vou desistir agora, eu vou fazê-la sair deste estado vazio e vou conseguir decifrar o enigma para enfim libertá-la do que quer que a prenda e a deixe assim há dois anos.

Akantha

Preciso correr antes que Kreiow surja do nada e me faça desistir novamente. Preciso achar aquele lago e tentar descobrir por que estou aqui, o que é aqui e quem eu sou.

Parece tão estranho, é como se uma parte de mim tivesse sido levada, arrancada e escondida em um cofre. Não me lembro de nada antes da água em meus pulmões. Kreiow diz que não tem importância, pois memórias se perdem com o tempo, e, segundo ele, ninguém dali se recorda com facilidade das coisas que aconteceram antes da minha chegada, e é isso que me assusta.

Por mais que Angleibloom seja um lugar incrível e mágico, ele tem seu lado sombrio. Ele esconde segredos, e isso, mais do que qualquer coisa, me causa total pavor.

Quando chego ao lago, automaticamente me lembro daquele dia.

Estava frio, e eu não sentia nada além da sensação de flutuar. Meu corpo doía e era estranho respirar, no início era algo suportável, mas então meus pulmões começaram a doer mais e mais, e a dor era tanta que eu sentia algo dentro de mim querendo desistir. E então a luz do dia me envolveu. Engasguei e cai no chão, mas alguém me segurou antes que batesse a cabeça. Senti a brisa fresca, o cheiro da natureza, um aroma puro, o sol envolvendo-me e aquecendo meu corpo gélido e então vi seus olhos. Negros como a mais escura sombra, e seus cabelos de um tom profundo de esmeralda. Sua pele era pálida, como a minha, e possuía leves olheiras arroxeadas. E então, como uma criança perdida que acha algum conhecido, eu me senti segura.

Olho para trás e vejo o lago, agora ondulante. Era de uma cor incrível, e os raios solares deixavam-no com um reflexo lindo. Tudo ali parecia certo, bonito e vivo. Como um sonho.

Aquele era o meu lugar, eu sabia.

Aquele lago era tão familiar, tão belo. Ele me trazia paz. Mas não era paz que eu precisava desesperadamente agora. Não, não era. Eu precisava de respostas, e eu as teria, custe o que custar.