Akaluri - Parte 2
6 Transferência
A meio da aula de português, o meu telemóvel vibrou dentro do bolso do meu casaco. Deixá-lo em vibração, em vez de o desligar, foi um erro meu. Isso fez com que estivesse mais atenta à procura de uma oportunidade em que a professora virasse as costas (para poder tirar o telemóvel do bolso), do que atenta ao conteúdo da aula em si. Em comparação com a professora do ano letivo anterior, aquela tinha uns incríveis olhos de águia, sendo muito difícil alguém se distrair, sem que ela notasse rapidamente. Era então um desafio conseguir sequer pensar em tocar num lápis para desenhar, quanto mais num telemóvel; mas a minha curiosidade acabou por ser mais forte do que eu. "Bom dia, Akaluri. Tudo bem? Eu preciso mesmo de te perguntar umas coisas. Achas que podes almoçar comigo hoje?", dizia a mensagem que recebera, da parte do Yu. Já não nos víamos há umas semanas, então sentia-me contente por ele querer combinar algo comigo, mesmo sendo apenas porque precisava de falar algo.
- E sabem o que fiz com os nove euros que ganhei? — continuou a professora — Fui logo comprar dois donuts e dois cafés com uma amiga!
- Que desperdício! — comentou um aluno.
- Pior, foi quando nós saímos do café e vimos um polícia que estava quase a multar o carro, por estar mal estacionado!
Perguntava-me qual era o interesse da professora estar a contar aquela história, e porque é que essa tinha sido a única coisa que tinha ouvido na última meia hora de aula que havia passado. Depois de responder à mensagem, eu e o Yu planeamos encontrar-nos no portão de entrada da minha escola. O objetivo era irmos almoçar num sítio específico, que ele me queria fazer conhecer. A aula não demorou muito mais para acabar, especialmente com as peripécias engraçadas que a professora estava a contar sobre ela, mesmo que algumas fossem já repetidas. Logo a seguir, chegou o grande intervalo de almoço.
- Sabes o que é a comida na cantina hoje, Akaluri? — perguntou a Naomi, à qual eu respondi negando com um gesto — É salmão!
- A sério?! — exclamei — Eu adoro salmão!
- Espero que o daqui da escola seja bom. — comentou a Sara — Mas não tenho muita esperança…
- Depois digam-me como estava o almoço!
Elas olharam para mim com uma expressão confusa.
- Não vais almoçar? — perguntou a Sara.
- Vou, mas é fora da escola… Combinei agora, porque recebi uma mensagem durante a aula. Pelos vistos, é importante!
- Ooh! Que interessante! — comentou a Naomi — E com quem vais almoçar neste dia?
- Ahm… Com um amigo...? — respondi, sentindo-me um pouco confusa.
Eu não entendia porque é que ela estava a fazer aquele tom tão estranho ao falar comigo, como se estivesse à espera de alguma informação dramática, vinda da minha parte. Decidi apenas ignorar a brincadeira e despedi-me das duas, dirigindo-me até à entrada da escola. Lá, eu não via o Yusuke em lado nenhum, por isso fiquei um pouco à sua espera. Sentia no ar uma fresca brisa, bastante suave. Já se sentia que o clima não estava assim tão gelado como no mês anterior, mas ainda continuava bastante frio e, por vezes, chuvoso.
Acabei por pegar no telemóvel, tentando ver o reflexo da minha cara no ecrã desligado. Olhando bem para mim, eu arranjava a minha franja e os poucos cabelos que via não estarem posicionados como queria. Por alguma razão, esse simples ato acabou por me deixar a sentir um pouco nervosa, talvez por estar preocupada com a minha aparência.
- Luri! — exclamou o Yu, assim que me viu.
Ele chegou ao pé de mim e cumprimentou-me com um forte abraço, ao qual eu correspondi alegremente.
- "Luri"? — questionei, rindo.
- Tu chamas-me Yu, então… Achei que também te devia chamar alguma coisa, não?
- Ah, não tem mal. Eu achei giro!- respondi — Apenas nunca tinha ouvido alguém chamar-me por essa alcunha antes.
- Há sempre uma primeira vez para tudo.
Assim que olhei de novo para o Yu, veio-me ao pensamento algo que me tinha esquecido durante várias semanas.
- Eu ainda não te devolvi o guarda-chuva! — exclamei.
- Eu nem sequer me lembrava disso! — respondeu ele, entre pequenas gargalhadas — Mas não faz mal, podes devolver-mo quando quiseres.
- Gostava de devolvê-lo agora, se não fosse incômodo… Tenho medo de me esquecer novamente e não te voltar a ver durante mais umas semanas. A época da chuva é agora e eu não quero que precises dele e depois não o tenhas…
- Tens aí o guarda-chuva contigo?
- Não, mas eu moro aqui perto. Podíamos passar por lá, antes de almoçar. Hoje, o meu intervalo de almoço é grande.
O Yusuke concordou e assim fomos os dois até minha casa, com a qual ele se impressionou, assim que a viu. Eu abri a porta de entrada e aproveitei então para lhe apresentar rapidamente o interior, ou pelo menos, o andar de baixo. Ele parecia estar bastante interessado em conhecer a minha casa, embora fosse um pouco à pressa. Entretanto, acabamos por subir as escadas.
- E este é o meu quarto. — disse, entrando lá com ele.
- Que fofo… — comentou o Yusuke, contendo um ligeiro sorriso — Mas, sinceramente, eu não esperava outra coisa.
Eu acabei por rir um pouco com o comentário do Yu. Era verdade que eu sentia que o meu quarto estava mesmo à imagem daquilo que eu gostava, então talvez isso refletisse também uma parte da minha personalidade.
- Fui eu que o decorei, então é normal…
- Dá para perceber, sim. — disse ele, rindo.
- Estás a gozar comigo? — perguntei.
- Não, de todo! Acho bem giro o teu quarto. Adoro os peluches e a estante cheia de mangás e livros de desenho!
- Ah, obrigada! Entretanto podes-te sentar na cama, se quiseres.
- Pensei que só vínhamos cá de passagem… Lembra-te que ainda temos de ir almoçar, Luri.
- Claro, mas temos tempo. Fica à vontade! Eu vou aproveitar que estou cá em casa e vou só à casa de banho daqui do meu quarto… Já agora, o guarda-chuva está na primeira gaveta daquela cômoda! Podes ir lá buscá-lo, se quiseres.
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[Yusuke P.O.V.]
Estar no quarto da Akaluri fazia com que eu pensasse no quão bom seria eu também ter um quarto só para mim. Por mais que partilhar um apartamento com amigas pudesse ter a sua parte divertida, era também algo que me incomodava, ao mesmo tempo. Muitas vezes, sentia que me faltava algum tempo só para mim; sentia que me faltava uma certa privacidade, algo que eu nunca tive por completo.
Cheguei ao pé da sua cômoda e abri com cuidado a primeira gaveta do móvel, onde vi que, para além do meu guarda-chuva, estavam lá as suas camisolas, todas desarrumadas. Comparando-a comigo, eu era mais o tipo de pessoa que tentava ter tudo mais organizado, apesar de ter fases que também acabava por deixar as minhas gavetas chegarem àquele estado de confusão. Assim que peguei no meu guarda-chuva e voltei a fechar a gaveta, não pude evitar deambular um pouco pelo seu quarto, olhando para aquilo que estava pousado à vista na secretária e nas mesinhas ao pé da cama. Nada em particular despertava o meu interesse, para além do pequeno número de pósteres que ela tinha na parede, em frente à secretária. Reparei que alguns eram das suas personagens favoritas, sendo que outros continham as personagens principais em conjunto. Ela era o tipo de pessoa que costumava gostar mais de coisas relacionadas com amor e fantasia, o que se podia confirmar com o gênero de mangás colocados na estante, ao pé da janela. Entre todos eles, eu notei que estava lá um dos meus favoritos também. Não consegui resistir em pegar nele para o folhear, porque eu tinha apenas lido a sua versão digital. Por alguma razão, era uma sensação bem diferente do habitual, poder segurá-lo diretamente nas minhas mãos, o que me fazia ficar contente.
- Yusuke?
Estava tão concentrado nas páginas que acabei por me assustar um bocado quando ela me chamou. Fechei repentinamente o livro e virei-me de frente para ela.
- Ups! Desculpa estar a cuscar um pouco, foi sem nenhuma intenção em particular... Fiquei curioso com os mangás.
- Não te preocupes com isso, não acho que haja nada aqui que eu tenha para te esconder. Eu também iria ficar a cuscar os mangás de alguém, se visse que eles estavam assim expostos numa estante. — respondeu ela, rindo — Oh! Vejo que tiveste pontaria ao escolher esse mangá.
- Não sabia que também gostavas desta história! — comentei, mostrando-lhe o livro que tinha nas mãos — Este mangá é definitivamente o meu favorito. É a primeira vez que pego na sua versão física! É bem diferente de o ver num ecrã…
- A sério? Também é um dos meus favoritos! Por acaso, foi muito complicado para mim encontrá-lo, mas um dia fui a uma loja de revenda e…
Com a conversa que surgia, eu e a Luri acabamos por nos sentar na sua cama, falando sobre o tal mangá. Passamos por falar da personalidade e desenvolvimento das personagens, do estilo de desenho, da história em si, das nossas opiniões… Tudo nos fez perder um pouco a noção do tempo, ao apreciar aquela obra. Porém, logo que alguém se lembrou de ver as horas, saímos quase a correr da sua casa, para irmos finalmente almoçar, tal como estava planeado.
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[Akaluri P.O.V.]
- Precisavas de falar sobre o quê? — perguntei, assim que pousei o cardápio da hamburgueria.
- É sobre um assunto um pouco sério… Tem a ver com a Ichigo e o Hideki; com o que se passou no mês passado.
- Logo agora que estava tudo a acalmar nesses lados…
- Eu quase nunca tenho visto a Ichigo em casa, sendo que eu moro com ela. Acho que isso não é um bom sinal… Pelo menos para mim, nada estava a acalmar muito.
- A sério? O que anda ela a fazer?
- Não faço ideia, mas está a isolar-se muito…
- Achas que… é por minha culpa? Achas que ela se está a isolar de todos porque sabe que estou chateada com o que ela fez?
- Não te culpes, eu compreendo o porquê de estares assim… Eu também não acho que ela devia ter assassinado o Hideki.
De repente, um dos serventes chegou ao terraço para atender os nossos pedidos. Ele olhou para nós com uma expressão um pouco surpresa, depois do que acabara de ouvir sair da boca do Yusuke.
- P-preferem que eu volte daqui a algum tempo?
- Estávamos só a falar sobre uma série! — menti — Gostaríamos de fazer o pedido agora.
Acabando de anotar os nossos pedidos, o servente foi embora novamente. Quando olhei para o Yu, reparei que ele já estava a olhar para mim, contendo um pequeno riso.
- Porque te ris? — perguntei — Tenho alguma coisa na cara?
- Não… Só achei engraçado o que disseste ao servente. Tu não precisavas de justificar nada!
Desviando o olhar, eu fiquei ligeiramente embaraçada com a situação. Era verdade que as minhas habilidades sociais não eram sempre as melhores, o que acabava por causar algumas situações um pouco estranhas. Quando voltei a olhar na direção do Yu, ele colocou a mão no bolso do seu casaco comprido e retirou de lá um pequeno papel dobrado, que pousou na mesa, mesmo ao pé da minha mão.
- O que é isto?
- Eu encontrei este papel no bolso do Hideki, quando fui buscar as chaves para desprender as correntes da Ichigo. No início, eu não sabia o que era, então preferi não contar a ninguém, especialmente depois de ter visto a Ichigo naquele estado… Mas, assim que o li, soube que tinha que vir falar contigo.
- Porquê comigo?
- Não acho que haja mais ninguém em quem possa realmente confiar… A Honoka sabe muitas coisas, mas detesta falar sobre estes assuntos. A Ichigo está diretamente envolvida com isto e odeia pensar no Hideki, então não quero estar a trazê-lo de volta com conversas… Mas lê.
Eu abri o papel. Nele, estava contido todo o plano do Hideki, junto com listas, rascunhos e esquemas. Eu não entendia muita coisa que estava lá escrita, porque era tudo abreviado, talvez propositadamente. Depois de olhar algum tempo para a folha, entendi que o símbolo de espadas que se repetia inúmeras vezes, talvez fizesse referência à Hyuna: um símbolo que associei rapidamente a ela, devido à ponta da sua cauda, como um coração invertido. No entanto, deixava-me em dúvida a grande presença do nome "Fumi" em várias frases.
- Entendes o que está aí escrito, Luri?
- Tudo não…
- Eu também não percebi grande coisa, para além de que fala sobre a Ichigo e sobre o que ele planeava fazer com ela. Mas acho que descobri algo importante aí...
- O quê?
- Se reparares bem, há uma parte que fala sobre o que ele conhecia dos poderes da Hyuna. Da forma que ele estava a tratá-la, parecia que o objetivo dele era fragilizá-la ao ponto de fazer com que ela implorasse para ele parar com aquela tortura, cedendo assim ao seu pedido. Não apenas para confessar o que ele esperava, mas também para outra coisa...
- Oh! Dá para entender isso… Mas o que iria ele querer dela? Quase parecia que ele só a queria torturar por prazer próprio, o que me parece lógico, tendo em conta a forma dele ser.
- Não sei bem… Por isso que decidi vir falar contigo.
Fiquei algum tempo a pensar, enquanto olhava para a folha de papel nas minhas mãos. Lia e relia todas as frases que indicavam fosse o que fosse sobre os poderes da Hyuna, mas não estava a conseguir chegar a nenhuma conclusão. O que podia o Hideki querer dela, para além de vingança? Em que sentido iria aquilo beneficiá-lo? Eu não sabia onde encontrar as respostas para as minhas perguntas, sendo que a origem de tudo aquilo vinha de alguém que nunca mais poderia comunicar com ninguém. Entretanto, o servente acabou por voltar com os nossos pedidos, que começamos avidamente a comer.
- Isto está ótimo! — comentei.
- Sabia que ias gostar de vir aqui. — o Yusuke sorriu — Mas… Já tens alguma ideia? Algo que eu não tenha já pensado por mim sozinho?
- Hmm… — eu olhava à minha volta com uma mão no queixo, tentando refletir na resolução do recém-chegado problema — Eu não sei bem… É muito difícil saber tudo o que ele estava a pensar através de uma única folha de papel cheia de frases e rabiscos…
- Realmente, a mente humana é muito complicada. Mas não te preocupes, havemos de pensar em algo, com tempo...
Eu queria mesmo descobrir o que se passava nas nossas costas, antes que tudo se complicasse ainda mais do que já estava. Seria alguém capaz de nos ajudar de alguma forma? Alguém que soubesse bastante sobre seres mágicos; alguém que conhecesse minimamente o Hideki; alguém que fosse de confiança…
- Mas é claro! — exclamei.
- Huh? — o Yusuke pousou de volta os talheres no prato — Em que é que pensaste?
- O Ichiro! Ele deve saber alguma coisa sobre isto.
- O Ichiro? — ele parou alguns segundos para refletir, provavelmente sobre toda a história que lhe havia contado no comboio — Ah, pois! Bem pensado! Fiz bem em vir falar contigo... Sabes, a Ichigo não se abre muito comigo, aliás, ela não se deve abrir muito com ninguém. Acho impressionante que ela te tenha contado essas coisas, sendo que eu já a conheço há mais tempo do que tu.
- Tu sempre conheceste o lado mais dócil e afastado dela, aquele que ela mostra mais durante o dia, para mascarar o seu outro lado. Eu conheci-a ao anoitecer, num momento de pleno conflito entre ela e o Hideki. Talvez seja por isso que ela tenha facilidade em ser mais real e direta comigo, como se eu já a tivesse visto no seu pior.
- Ah, eu não sabia disso...
- É normal… — concluí, cortando mais um pequeno pedaço do meu hambúrguer.
Eu e o Yu continuávamos a comer o nosso almoço mais calados, por estarmos envolvidos nos nossos pensamentos. Eu estava a pensar bastante na Hyuna e no Ichiro, tentando descobrir como deveria introduzir o tema quando fossemos ter com ele. Eu não sabia se o Ichiro se sentiria confortável ao falar sobre o Hideki ou sobre a Hyuna, mas não achava que ele negaria falar de um assunto tão importante. Com a minha corrente de pensamentos cada vez mais escassa, eu notava que as minhas mãos se sentiam cada vez mais pesadas, o que me fazia comer de forma mais lenta. Acabei por ficar com a cabeça praticamente vazia de pensamentos muito precisos, não conseguindo concentrar-me mais em nada que tivesse a ver com o tal problema.
Perturbava-me um pouco o facto de eu estar tão rápida e involuntariamente a conseguir deixar de pensar num assunto tão importante. Mas, quase parecia que eu estava a entrar numa outra dimensão, como se o tempo estivesse simultaneamente parado e em andamento. Por alguma razão, fiquei com uma leve sensação que o Yusuke sentia algo parecido. Já não era a primeira vez que sentia como se ele estivesse, de alguma forma, a ver através de mim. A primeira vez que isso tinha acontecido, foi quando ele prendeu a sua franja, no bowling. Apesar de eu ter sentido algo demasiado complicado de explicar por palavras, sentia simultaneamente que, na verdade, era algo bem simples.
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O meu telemóvel começou a vibrar.
- Sim, Sara? – perguntei, assim que atendi a chamada.
- Onde estás Akaluri? A aula está quase a começar!
- Oh, eu não vou.
De repente, ouvi um barulho estranho vindo da chamada, que deduzi ser da Naomi a tirar repentinamente o telemóvel das mãos da Sara.
- Como assim “não vou”? – ouvia agora a voz dela — Vais baldar-te?
- Sim… Tenho algo mais importante para fazer.
- Oh! – ela riu – Entendi. Então está bem! Depois conta-nos o que andaste a fazer, se quiseres… hehe!
A Naomi desligou a chamada. Novamente, eu continuava a achar um pouco estranha a sua forma de falar comigo, mas, como já estava habituada ao seu comportamento peculiar, decidi não pensar demasiado no assunto. Afinal, era comum ela ser um pouco esquisita de vez em quando; uma razão pela qual também gostava dela como amiga. Pousei então o telemóvel e continuei a participar na conversa com o Yusuke e o Ichiro. Já fazia algum tempo que tínhamos chegado ao seu apartamento. Infelizmente, a Manaka não estava lá presente, embora sentisse vontade de a ver.
- Achas que nos consegues ajudar a entender isso? – perguntou o Yu – Por alguma razão, a Akaluri achava que terias informações úteis…
- Bem… — respondeu o Ichiro – Não me parece muito esclarecedor este papel. Foi mesmo o Hideki que o escreveu? Ainda me custa acreditar que a Hyuna o…
- Pois. – interrompeu o Yu – Mas é melhor não falarmos disso…
O Ichiro olhou para mim de lado e acenou com a cabeça, decidindo não tocar no assunto.
- Honestamente não acho que tenha muitas informações para vos dar, mas, pelo que me parece, a intenção do Hideki devia ser que ela lhe fizesse uma transferência de poderes... Quer dizer, uma partilha.
- Mas como é que ele ia fazer isso? — perguntei.
- Tecnicamente, ele não a pode obrigar, mas talvez seja uma das razões da tortura. Pelo que está aqui escrito, parece que ele queria algo mais dela, para além de vingança direta ou uma confissão.
- Então achas que o Hideki tinha noção que os poderes da Hyuna podiam ser partilhados?
- Talvez. Tendo em conta que o Shinji era o tipo de pessoa que contava tudo ao seu melhor amigo, não duvido que ele também lhe tenha falado sobre os poderes da Hyuna e a forma de obter uma parte deles, com a partilha. Afinal, é normal que ele saiba desse aspeto, tendo em conta o nosso pai. Eu já te contei que ele fez muitas experiências e tem um grande conhecimento sobre a forma como funcionam as diferentes características de vários tipos de seres como nós.
- Mas tu sabes como se faz a partilha não sabes, Ichiro? Não foi o que fizeste com a Manaka?
- A forma de partilhar as características depende do tipo de criatura que és, Akaluri. Sendo um vampiro, eu tive obviamente que lhe fazer uma mordida no pescoço, mas isso fui apenas eu a adivinhar. Sobre os outros tipos de criaturas, eu já não sei… Não é tão óbvio.
O Yusuke olhou para mim com uma expressão muito específica na sua face. Assumi que ele me estivesse a tentar comunicar que o Ichiro não teria sido uma grande ajuda afinal. Pensei que talvez devêssemos ir embora, à procura de informações mais precisas.
Depois de nos despedirmos do Ichiro, eu o Yu saímos do prédio, voltando assim à estaca zero. As novas informações que tínhamos ganho não tinham explicação suficiente para tudo aquilo. Eu pensei em desistir durante uns segundos, afinal, o Hideki já havia falecido. Seria assim tão importante saber com exatidão o que é que ele queria fazer com a Hyuna? Nós já sabíamos que ele queria os poderes dela, mas… seria necessário saber como ele planeava fazê-lo?
- Pareces-me muito pensativa… — falou o Yu – Algo te está a perturbar?
- Bem… Eu só não sei se devíamos continuar a tentar descobrir estas coisas. Não somos nós que queremos obter os poderes dela… e não é como se o Hideki ainda pudesse fazer alguma coisa em relação a isso…
- É verdade… Mas, mesmo assim, eu ainda tenho curiosidade em saber. Talvez também consiga descobrir algo sobre mim e como funcionam os meus poderes, quem sabe… Eu tive que aprender o que sei até agora sozinho, por isso que estou um pouco incentivado para descobrir sobre este caso também. Já para não falar que o Hideki pode não estar a agir sozinho, entendes?
- Oh… Não tinha pensado nisso.
- De qualquer das formas, eu também queria fazer isto porque é como se fosse uma pequena aventura de investigação. E, como o Hideki já não pode fazer nada, pelo menos isso tira-nos o elemento de “perigo” direto. Seria algo interessante de fazermos juntos, não achas?
Eu acenei com a cabeça de forma a concordar. Fiquei então algum tempo a pensar nas palavras do Yu, enquanto caminhávamos. Era verdade que ele estava a ver a situação de um ponto de vista que eu ainda não tinha explorado, até ele ter dito especificamente. Aquelas pequenas coisas que ele demonstrava de vez em quando, fazia-me sentir um certo gosto pela sua forma de pensar e ver as situações. Com isso, acabei por me sentir um pouco mais incentivada também, arranjando logo uma nova ideia.
- Olha! — exclamei — O que achas de irmos falar com a Sara?
- A Sara? Aquela tua amiga de longos cabelos azuis, que me falaste umas vezes?
- Sim! Ela vive numa casa enorme, com uma sala que tem tantos livros que mais parece uma biblioteca. A casa sempre serviu como um abrigo a seres como nós, que se tentavam esconder, então ela deve saber imensas coisas sobre todo o tipo de assunto relacionado com isso!
- Oh, não sabia disso. A sério que existe um sítio desses? Se eu soubesse, não me tinha tentado esconder em apartamentos abandonados com a Honoka, no início… Foi muito difícil para nós, conseguirmos ter uma vida um pouco mais estável.
- É normal que não saibas… A casa dela está escondida. Os seres que entravam lá eram só aqueles que ela reconhecia na rua, porque eles não iam adivinhar que existia algo assim e não era uma informação que devesse ser partilhada, pois contém os seus riscos…
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- Então, transferência e partilha de características, certo? – perguntou a Sara.
- Sim… — respondi.
- Agora já entendo porque é que era importante faltares à aula. – comentou ela, enquanto procurava um livro na sua enorme estante – Ah, encontrei!
A Sara retirou um fino livro esverdeado da estante, que abriu cautelosamente. Todas as coisas lá escritas eram anotações a caneta, feitas por ela, pelos seus pais e também pela variedade de seres como nós, que já tinham passado por lá e decidiram deixar algumas informações úteis. Afinal, a sua família era mesmo de confiança.
Assim que ela abriu o livro, a Sara começou a folhear por entre as páginas de diferentes seres mágicos até chegar ao tipo “demónio”. Confessando não haver muita informação sobre o assunto, ela apenas nos disse o pouco que estava lá escrito. Afinal, essa espécie era um pouco rara (tal como o “anjo”), por isso não era possível saber muita coisa sem ir diretamente perguntar a esse ser mágico específico. Com isso, a Sara disse que, para o modo de partilha de poderes ser efetuado, o par teria que se encontrar numa situação de contacto físico íntimo, para o demónio poder temporariamente tomar posse do corpo e da alma do humano e assim partilhar os seus poderes. Eu e o Yusuke olhamos um para o outro, como se a parte mais importante que procurávamos já tivesse sido desvendada. Finalmente passamos a entender porque é que a Hyuna estava a tentar seduzir o Hideki daquela forma, tão sexual. Ela apenas queria dar-lhe a ideia que ia fazer a partilha, quando, na verdade, era tudo um simples plano para que ela fosse libertada. Aquilo fazia-me igualmente suspeitar que, talvez, o mito inventado do súcubo tenha originado desse método de partilha de poder entre demónios e humanos.
Passado algum tempo da conversa ter terminado, reparamos que já se fazia um pouco tarde. Decidimos então ir embora e despedimo-nos amigavelmente da Sara. Ela tinha sido uma enorme ajuda. No entanto, eu precisava de ir para casa e o Yusuke ia começar o seu turno da noite poucas horas depois, então tinha que se ir preparando. Mesmo assim, antes de nos separamos, decidimos ir comer um pequeno lanche, para concluir a nossa saída de forma mais leve.
- Que dia! – comentei.
- Foi cheio de investigações… Não estou nada habituado a fazer este tipo de coisa, mas até foi divertido, por um lado. Infelizmente, ainda me falta descobrir a razão pela qual a Ichigo se anda a ausentar muito de casa… Mas, pelo menos, já entendemos o que se passou no armazém.
- Tens razão. Espero que consigas descobrir o que se passa com ela… Achas que ela se arrependeu do que fez e agora está a levar com todo o peso sozinha e decidiu isolar-se?
- Não sei. O Hideki não foi a primeira pessoa que ela matou, então não acho que seja isso.
- Pois… — respondi, levando à boca o meu copo de café com leite.
O Yu tinha pedido um café com uns sabores de caramelo acrescentados, algo que me deixava um pouco curiosa, pois, de vez em quando, tinha medo de experimentar coisas novas, por medo de me arrepender de não ter pedido o habitual, que já tinha a certeza que gostava. Sem querer, acabava por fixar o seu copo algumas vezes, durante uns meros segundos, tentando imaginar qual seria aquele sabor.
- Queres provar? – perguntou ele.
- Posso?
- É que… — o Yusuke riu – Já faz um tempo que reparei que ficas a olhar para o meu copo. Assumi que talvez nunca tivesses provado.
- É verdade que nunca provei. – respondi, correspondendo também o seu leve riso – Mas talvez peça para a próxima vez que vier cá.
- Não te preocupes com isso.
O Yusuke estendeu-me o seu copo, que eu peguei com um certo cuidado. Não estava à espera que ele me passasse a sua bebida para provar, mas foi o que acabou por acontecer, sem que pensássemos muito. Aquela mistura de sabores era deliciosa. O amargo do café conjugava muito bem com o sabor doce do caramelo e a camada de leite com espuma. Após beber um gole, eu devolvi-lhe o copo.
- Tem um ótimo sabor! – comentei – Vejo que tens bom gosto.
- É bom saber… — respondeu ele, rindo.
Depois daquele pequeno lanche, o Yusuke insistiu em acompanhar-me até casa. O caminho de volta foi tranquilo, com o sol a começar a descer no horizonte, pintando o céu com tons suaves e reconfortantes de laranja e rosa. À medida que nos aproximávamos da minha casa, a conversa entre nós ia esmorecendo, substituída por uma confortável quietude, até nos despedirmos um do outro. Quando entrei em casa, percebi que as luzes estavam apagadas, um sinal claro de que nem a minha mãe, nem o meu padrasto, tinham regressado do trabalho. A casa estava mergulhada num silêncio acolhedor. Aproveitei então aquela tranquilidade para ir rapidamente tomar um duche. De seguida, vesti o meu habitual pijama cor-de-rosa, fofinho e confortável. Enquanto passava uma toalha pelo cabelo húmido, o meu olhar recaiu coincidentemente sobre o calendário pendurado na parede. Foi nesse instante que me apercebera do motivo pelo qual a Naomi tinha agido de maneira tão estranha durante aquele dia todo: era dia 14 de fevereiro.
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