[Honoka P.O.V.]

A cozinha iluminava-se no mesmo tom habitual: um amarelo que acolhia perfeitamente o luminoso gás do fogão, que aquecia a chaleira. Como de costume, as minhas mãos seguravam a calorosa caneca de chá que o Yu me entregara. Ele concentrava-se a lavar a loiça do jantar... algo também habitual. Estava de costas para mim, o que o impedia de ver as minhas expressões, enquanto eu tentava reorganizar os meus pensamentos. Era o final de mais um dia comum, uma tranquilidade pacífica, algo ao qual já estava bastante acostumada. Porém... não importa o quão habituada estivesse à rotina, o vazio que existia em mim nunca acalmava. Era cada vez mais difícil esconder o que se passava dentro de mim. Depois de tantos anos a morar juntos, o Yu conhecia-me demasiado bem.

- Estás estranhamente calada hoje.

A sua voz, num tom firme, trouxera-me de volta ao presente. Ele virou-se, enchendo novamente a sua caneca. Eu olhei para ele de volta, tentando resistir ao impulso de falar. Sabia que ele não me deixaria escapar com uma resposta vaga, mas, mesmo assim, tentei.

- Estou só a pensar. Nada demais.

Encostando as costas ao balcão, o Yu arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços.

- Nada demais? Não me parece. Há quanto tempo nos conhecemos, Honoka? Não me convences com isso.

Era impossível fugir do assunto com ele. Sabia que o Yu tinha razão, e a verdade era que, como sempre, eu estava a ser devorada pelas minhas próprias memórias. As memórias de uma vida que ele conhecia apenas em pedaços, espalhados por conversas que tínhamos tido ao longo dos anos... mas havia sempre mais. E, às vezes, esse "mais" era precisamente o que eu não queria trazer à tona.

- Há coisas do passado que, por mais que tente, não consigo deixar para trás... — afirmei, olhando para o vapor que saía do meu chá — Eu vivi muito. Demasiado... Viver eternamente tem um preço que, por vezes, não estou disposta a pagar.

- O que te trouxe isso à mente hoje? — questionou ele, ao sentar-se na cadeira ao lado da minha.

Naquele momento, o olhar atento e curioso do Yu trouxera-me de volta a memória que eu mais tentava afastar. Havia algo nele que me puxava para lembranças que eu preferia deixar enterradas. Não eram os seus gestos, mas talvez a sua aparência, que partilhava semelhanças com alguém que eu tentava esquecer.

- Yu... — falei, quase sem pensar — Às vezes fazes-me lembrar de uma pessoa.

- Alguém do teu passado?

- Sim. Alguém que conheci há muito tempo...

- Já me chegaste a falar dessa pessoa?

- Não, nunca falei... Na verdade, é algo que tento esquecer. — respondi, tentando restringir-me de falar mais do que aquilo que devia — Nessa época eu ainda evitava qualquer tipo de relações, como sempre fiz, mas... aquele homem... havia algo diferente nele. Eu deixei-me aproximar demasiado e, quando me dei conta, já era tarde demais, eu estava perdidamente apaixonada; pela primeira vez...

O Yu lançou um ligeiro sorriso compreensivo. Parecia que, apesar de aquilo lhe aquecer o coração, também o preocupava, provavelmente já esperando que eu lhe contasse um final trágico.

- Ele era brilhante; visionário até. — continuei, enquanto as memórias me invadiam — Era muito bonito, inteligente e perspicaz. Ele estava obcecado com a ideia de longevidade humana. Falava muito sobre a possibilidade de os humanos viverem mais, ou até para sempre. No início, pensei que era só mais um sonho de cientista, algo inofensivo... mas depois percebi que ele estava a chegar demasiado perto da verdade. Ele falava de todo o tipo de criaturas e lendas… começou a desconfiar que talvez houvesse mais do que mitos por detrás dessas histórias. E, bem... quando ele referiu as fénix... comecei a sentir medo. Sabia que, eventualmente, ele seria capaz de descobrir o que eu tanto me esforçava para esconder.

- E o que aconteceu depois?

- Eu sabotei o laboratório dele, com todos os seus arquivos... Não podia deixar que ele me descobrisse, nem a todos nós. Eu não queria que as suas suspeitas fossem comprovadas, nem conhecidas; espalhadas pelo mundo fora... mas fui descuidada. O laboratório inteiro acabou por pegar fogo, e ele... Ele estava tão desesperado ao ver todo o seu trabalho e estudos de uma vida serem destrúidos nas chamas, que correu para tentar salvar aquilo que conseguia... mas já era tarde. Ele acabou por morrer lá dentro.

Durante uns meros segundos, um silêncio pesado e desconfortável instalou-se na cozinha. O Yu pousou a caneca sobre a mesa enquanto me fixava, mas, estranhamente, não havia qualquer tipo julgamento no olhar que ele me lançava, apenas compreensão.

- Carregas esse fardo há muito tempo, não é?

- Sim. — respondi, o peso das palavras mais fácil de suportar quando já ditas — Não era suposto as coisas acabassem assim, mas... foi o que aconteceu. Desde então, mantenho-me à distância de todos.

- E achas que essa distância vai evitar que a história se repita?

- Talvez. Tenho medo de que, se me aproximar demasiado de alguém, volte a causar um desastre.

- Honoka, já te disse isto antes, mas vou repetir: não tens que ter medo do teu passado. As coisas mudam e tu já não és a mesma pessoa que eras naquela altura. Sabes disso, não sabes?

Tecnicamente, eu sabia... ou, pelo menos, queria acreditar nisso. No entanto, havia sempre uma parte de mim que se recusava a aceitar que alguma vez eu pudesse realmente mudar ou evoluir. O peso dos meus poderes e da minha vida eterna eram sempre uma presença constante, por mais que tentasse ignorar.

- Eu sei... — disse, embora incerta, levantando a caneca para beber outro gole — Mas às vezes é difícil não sentir que há chances de uma história se repetir no futuro. Tenho medo que aconteça algo, que não consiga controlar-me, sobretudo se acabar por te magoar, Yu...

- Bom, por agora, só espero que não acabes por incendiar a cozinha! — brincou o Yu, rindo baixinho.

Não pude evitar sorrir também. Ele sabia exatamente quando e como aliviar o peso das minhas palavras, sem as diminuir. Talvez ele tivesse razão. Talvez, com o tempo, tivesse aprendido mais sobre mim do que aquilo que pensava; sobre os meus poderes, sobre como me relacionar com os outros e sobre as minhas próprias emoções. E, pelo menos naquele instante, o passado parecia estar um pouco mais longe.

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[Akaluri P.O.V.]

Era uma manhã amena de primavera, quando o autocarro nos deixou na universidade. Estava rodeada pelos meus colegas do último ano do secundário, todos a caminho dos "dias abertos". A Naomi estava ao meu lado, com a expressão mais aborrecida que alguma vez fizera. Afinal, ela já sabia que aquela universidade não oferecia o curso que ela tanto queria. Ao seu lado, notava-se que a Sara sentia o perfeito oposto. Ainda extremamente indecisa, talvez ela visse aquele dia como uma oportunidade para conhecer novos cursos e decidir um futuro, assim como eu.

- Não te parece interessante a visita, Naomi? — perguntei, tentando envolvê-la no nosso entusiasmo.

- Não. — respondeu ela, suspirando — Não têm nada que se relacione com o que eu quero. Eu só vim porque tinha de vir.

Não esperava outra resposta vindo dela. A Naomi sempre quis seguir design e marketing de moda; era o seu sonho há muito tempo. O facto daquela universidade não oferecer nenhuma variante relacionada com esse curso, tornava a visita menos interessante para ela. Já eu, estava dividida. Por um lado, o desenho sempre fora a minha maior paixão, mas a minha mãe não parava de insistir que eu escolhesse algo mais “seguro”, como arquitetura... Aquela universidade oferecia exatamente essas duas opções.

- E tu, Sara? — perguntei.

- Isto é tudo tão confuso! Eu ainda não faço ideia do curso que quero fazer... Acho que vou andar por aí e ver se algo me chama a atenção...

Assim que chegámos às diversas bancas, fomos recebidas por um ambiente vibrante e acolhedor. O campus universitário estava repleto de atividades, demonstrações ao ar livre e estudantes a guiar os outros pelos diferentes edifícios. Ouvia-se música animada e muita conversa ao nosso redor.

Enquanto a Sara e a Naomi se dirigiram logo para a àrea das artes, eu fui para a de ciências, pois talvez encontrasse a Manaka por perto. Afinal, estávamos na universidade onde ela estudava biologia.

- Manaka! — chamei, assim que a vi.

Ela olhou para mim, e o seu rosto iluminou-se ao reconhecer-me. Ela estava de bata branca, por cima de uma t-shirt com o logótipo da universidade, enquanto acabava de explicar algo a um grupo de alunos.

- Akaluri! Também vieste hoje? Estou tão contente! Tinha saudades tuas.

- Vim com a escola... — expliquei, aproximando-me.

- Oh! Onde estão os teus colegas?

- Na área das artes, obviamente. — respondi, rindo.

- Pois, claro... — riu ela de volta — Mas e tu que vieste cá fazer? Ganhaste um interesse repentino pelas ciências, foi?

- Podes continuar a tentar, mas ainda não foi hoje! Eu vim cá ver se te encontrava.

- Que pena... Seria tão giro estudarmos áreas semelhantes! Falando no assunto, já decidiste o que queres seguir?

- Bem... Na verdade, eu também gostava de falar contigo sobre isso.

- Comigo? Porquê?

Logicamente, a Manaka já era uma estudante universitária e poderia talvez ajudar-me a ver as coisas com mais clareza. Ela já tinha passado por aquela fase de incerteza que eu estava a viver. Além disso, ela conhecia-me bem, e saber a sua opinião poderia fazer-me ver perspetivas diferentes e provavelmente repensar algumas das minhas indecisões.

- Estava a pensar sobre o meu futuro… e estou com tantas dúvidas! Gosto de desenhar; sempre gostei, mas… a minha mãe acha que seria mais seguro aproveitar as minhas notas altas e seguir algo como arquitetura ou design de interiores, algo que ela diz ter “mais garantias”. Não sei mesmo o que fazer...

- Eu entendo... é normal sentires-te assim. Mas já consideraste se arquitetura ou design de interiores são realmente cursos que te interessam, ou só estás a considerar essas opções apenas por serem “seguras”?

- Eu acho arquitetura interessante, mas não chega a despertar uma paixão em mim. E parece algo tão… sério... enquanto que desenhar faz-me sentir livre, como se estivesse a ser eu simplesmente. Só que, ao mesmo tempo, sinto medo de seguir algo tão incerto... E se eu não conseguir viver disso?

- Essa pressão da estabilidade e da segurança é algo que todos sentimos ao fazer este tipo de decisão. Eu também a senti... O turismo parecia um caminho mais seguro e interessava-me. Eu gostava da ideia de ser hospedeira, e mesmo se não conseguisse, sempre podia ser guia, afinal o turismo é uma área que só tem crescido nos últimos anos. Por outro lado, havia uma forte paixão em mim, que sempre me puxava para a biologia. Eu sentia uma curiosidade enorme sobre como o mundo funciona, sobre a vida… Mas eu sabia que não era a opção mais segura. O meu pai era arquiteto por paixão, e sempre me disse que só vale a pena seguir aquilo que realmente nos fascina, porque só assim conseguimos dedicar-nos por inteiro. Foi ele que acabou por me inspirar a escolher biologia...

- E depois não tiveste mais dúvidas em nenhum momento?

- Claro que tive. — ela riu-se um pouco, como se estivesse a revisitar memórias — Nem tudo foi um momento de clareza absoluta. A decisão foi um processo gradual, que aos poucos, se tornou inevitável. Se o meu pai ainda estivesse cá, tenho a certeza que ele ficaria orgulhoso, não por eu seguir biologia ou turismo, mas pelo facto de eu estar a seguir algo que me apaixona. Por mais que a tua mãe se preocupe com a estabilidade, acho que ela também não gostava que fosses infeliz.

- Mas e se eu escolher algo como desenho ou ilustração e… não der certo? Eu sei bem que é difícil viver só de arte, que há inúmeras pessoas que tentam e falham, muitas mais do que aquelas que conseguem...

- Não te vou mentir, tal como tu sabes, seguir artes visuais tem sempre os seus desafios... Há imensos riscos, há períodos incertos... mas o que é que te faz sentir mais realizada? O que te faz levantar de manhã com vontade de criar? Porque, acredita, seguir um caminho pelo simples motivo de ser seguro também tem os seus riscos. O risco de viveres uma vida sem paixão, sem propósito, só para cumprires expectativas.

- Mas… eu não quero mesmo fazer a escolha errada.

- Tu não precisas de decidir tudo agora, Akaluri. Tens tempo para experimentar, talvez até para descobrir outros cursos. O que te posso dizer é que seguir aquilo que te faz feliz pode ser a decisão mais corajosa e recompensadora que tomes, por mais que seja assustador. É verdade que arquitetura pode parecer mais estável dentro da área das artes, mas se o teu coração está no desenho… porque não? Tens de pensar no que te fará acordar todas as manhãs com motivação e vontade de continuar.

- Eu só tenho medo de me arrepender e acabar por perder tempo...

- Arrependeres-te de seguir os teus sonhos ou de não os seguires?

Aquilo fez-me parar para refletir. Nunca tinha pensado assim. E se o maior arrependimento fosse nem ter sequer tentado, não ter dado uma oportunidade ao que realmente me fazia mais feliz?

- Sabes, eu aprendi uma coisa desde que comecei a estudar aqui. — continuou a Manaka — Não é tanto sobre evitar o fracasso, mas sobre aprender com ele. Se falhares, não significa que fizeste uma escolha errada. Significa que aprendeste algo. E podes sempre mudar, adaptar-te, ou até encontrar uma maneira de fazer o que amas funcionar de formas que nem imaginavas! Às vezes, a maior decepção é nem sequer dares uma chance e ignorares aquilo que te faz realmente feliz...

- Talvez tenhas razão... Acho que, no fundo, só tenho medo da instabilidade; de cometer erros... — confessei.

- Seguir o que amas nunca é um erro. Pode ser muito difícil, mas também pode ser o que te traga mais felicidade. Tenta ouvir o teu coração, e a decisão virá com o tempo.

- Obrigada, Manaka... Vou pensar muito no que disseste.

- Não tens de agradecer. — respondeu ela, sorrindo — Sempre que precisares de falar, estou aqui, já sabes. Agora vai lá explorar a área das artes, aposto que vais adorar!

Quando nos despedimos, eu senti algo que parecia uma nova energia dentro de mim. Ainda não sabia exatamente o que iria escolher, mas sabia que a escolha devia ser mais fiel a mim própria. Embora não tivesse ainda uma resposta definitiva, a conversa com Manaka tinha-me ajudado ver que o meu caminho não precisava de ser tão rígido, como eu imaginava.

Fui então vagueando pelo pavilhão de artes, onde uma exposição de alunos estava a acontecer. O espaço estava preenchido por esculturas, pinturas, e instalações modernas. Senti-me imediatamente conectada àquele ambiente tão criativo e inspirador. A expressividade em cada peça fez-me pensar no quanto amava desenhar... mas o eco das palavras da minha mãe continuava a pairar na minha mente.

De repente, os meus olhos foram atraídos por uma pintura numa parede isolada, quase como se estivesse à minha espera. Aproximando-me, li o título em baixo: O Viajante Sobre o Mar de Névoa: Reimaginação. Reconheci de imediato a referência à famosa obra, mas aquela versão parecia ressoar comigo, de certa forma. Na tela, uma figura solitária estava posicionada diante de uma paisagem difusa, mas o viajante não parecia alguém firme. Era apenas uma silhueta, cujos contornos pareciam diluir-se na névoa ao seu redor. As cores eram suaves, quase celestiais: lilás, rosa, azul, branco e cinza misturavam-se em texturas harmoniosas, sem linhas nítidas que separassem o céu da terra ou do mar. Em vez de um horizonte bem claro, havia apenas uma extensão de névoa que parecia expandir-se até ao infinito. Aquela pintura deixara-me imóvel por uns momentos. Sentia como se aquela silhueta misteriosa fosse como um espelho, que refletia o meu interior. “E se o meu caminho for assim?”, pensei, sentindo um estranho misto de paz e receio. Imersa em pensamentos, dei por mim a refletir sobre a ideia de que a minha incerteza podia ser um lugar de descoberta e crescimento; não apenas um obstáculo. A silhueta na pintura parecia estar em paz, como se soubesse que o destino era irrelevante comparado com o ato de simplesmente estar ali, naquele momento de pausa, perante o que era desconhecido. Era como se estivesse a lembrar-me que nem sempre é necessário saber o que está à nossa frente para continuar. Talvez pudesse aceitar a ideia de vaguear um pouco mais, de explorar, de me permitir experimentar sem um plano rígido, de me sentir em paz com o presente...

Respirei fundo, absorvendo aquele pensamento e desviando o olhar. Para minha surpresa, encontrei a Sara, encantada com a exposição de artes plásticas.

- Isto é incrível! — exclamou ela.

- Parece que finalmente encontraste algo!

O entusiasmo da Sara era contagiante. Parecia uma criança a descobrir um mundo novo.

- Sabes... — disse ela, sem desviar o olhar de uma escultura feita de rolhas de plástico — acho que me veria a fazer algo assim. A arte é tão versátil, não achas? Apesar de eu gostar de geometria, há uma liberdade incrível em não precisar de seguir nenhuma regra...

Assenti, sentindo-me inspirada pelas suas palavras. Era verdade: a arte tinha o dom de poder libertar-se das normas. Naquele momento, a tensão que eu sentia ao pensar no futuro diminuiu um pouco. Aquela visita estava a mostrar-me o quanto as possibilidades eram amplas e que talvez a minha escolha fosse só um ponto de partida e não o destino final.

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O dia foi chegando ao fim e, no autocarro de regresso, apenas se notava silêncio. Aquela visita realmente colocou toda a gente imerso nos seus próprios pensamentos sobre o futuro. A Sara parecia-me finalmente empolgada e a Naomi continuava firme na sua escolha, talvez ainda mais do que antes. Quanto a mim, não parava de lembrar as palavras da Manaka. Eu ainda não sabia ao certo o que escolher, mas sentia-me um pouco mais aberta à ideia de seguir o meu coração.

Com a luz suave do entardecer a espalhar-se pelas ruas, nós as três caminhávamos devagar para a saída da nossa escola. O dia, embora cansativo, parecia ter deixado uma marca diferente em cada uma de nós.

- Nunca pensei que algo como artes plásticas pudesse fazer tanto sentido para mim.

- Estás mesmo entusiasmada, não estás? — perguntei.

- Estou mesmo, e nem sei bem como nem porquê! Aquela exposição deixou-me tão inspirada... E quando fui falar com os alunos, todos eles tinham coisas sempre tão interessantes a dizer sobre as disciplinas e sobre os seus projetos! Eu ainda não sei se vou escolher esta área, mas é definitivamente uma opção!

Os seus olhos dourados cintilavam, e eu não pude deixar de sorrir. Naquele dia, a Sara tinha encontrado algo novo que a motivava e isso era raro de se ver. Entretanto, decidimos ir até ao café do outro lado da rua, mesmo em frente à nossa escola. Felizmente, o ambiente estava calmo e assim fizemos os nossos pedidos. Sentámo-nos junto à janela e, pouco tempo depois, fomos servidas.

- Então, Akaluri? – começou a Naomi – Já tomaste alguma decisão?

- Acho que… ainda não decidi nada ao certo. – respondi, honestamente – A Manaka disse que é normal ter dúvidas, que eu podia sempre experimentar antes de me comprometer com uma escolha definitiva.

- Mas e a tua mãe? – perguntou a Sara – Ela não vai continuar a pressionar-te para escolheres arquitetura ou algo do género?

- Provavelmente, sim… – disse, mexendo o café.

A Naomi suspirou.

- Tu és das pessoas mais criativas que conheço, Akaluri. Não me surpreende que queiras seguir desenho. Só acho que te preocupas demasiado em agradar os outros. Talvez fosse bom começares a fazer algo só por ti.

As palavras dela atingiram-me. Nunca pensei que a Naomi percebesse assim tanto sobre as minhas inseguranças. Nesse mesmo instante, o nosso professor de oficina das artes entrou no café e, ao ver-nos, acenou, sorridente e simpático, como sempre.

- Gostaram da visita de hoje? – falou ele, puxando uma cadeira para se juntar a nós – Imagino que a pressão para escolherem um curso esteja a crescer, não?

As três assentimos e, de seguida, ele olhou para mim, provavelmente notando o meu nervosismo.

- Akaluri, parece que estás com a cabeça cheia de perguntas! – brincou ele, gentilmente – Queres partilhar o que te preocupa?

- Sempre adorei desenhar, professor. Desde pequena que me perco nisso, mas a minha mãe acha que devo escolher algo mais "seguro"… como arquitetura ou design de interiores; algo desse género. Eu percebo o que ela diz, mas… tenho medo de me arrepender se abdicar do que realmente gosto.

- No nosso ramo, essa é uma dúvida bastante comum. Muitas vezes, pensamos que só temos duas opções: seguir a nossa paixão, com os riscos que ela traz, ou escolher algo mais estável e seguro. Mas a verdade é que o mundo não é tão a preto e branco como parece. Às vezes, o segredo está em encontrar um meio-termo, um caminho onde possas manter aquilo que amas, mesmo que não seja o foco principal do teu percurso profissional.

- Como assim? — questionei.

- Vou contar-te algo... Mesmo quando optei por estudar algo mais seguro, nunca deixei o desenho de lado. Todos os dias continuava a desenhar, por puro gosto. A possibilidade de teres uma carreira no desenho não tem de te abandonar só porque decides investir num curso que te ofereça mais estabilidade, se é isso que te faz sentir mais segura. O que quero dizer é que desenhar pode ser algo que leves sempre contigo, independentemente da tua escolha. É uma questão de equilíbrio... E lembra-te de que o percurso de cada pessoa é único. Mantém o que gostas perto de ti e, quando surgir oportunidade, podes dar-lhe mais atenção. Por vezes, há portas que se abrem, mesmo quando pensávamos ter deixado algo para trás.

- Então… não escolher desenho não significa que esteja a abandonar oportunidades? – perguntei, hesitante.

- Exatamente. Não te sintas pressionada pelas escolhas. Explora, mantém o desenho presente e, quando sentires que é o momento, saberás se queres dar-lhe mais espaço. Podes, aos poucos, construir um caminho que combine estabilidade com a tua paixão.

A possibilidade de conciliar o que eu amava com o que me podia dar mais segurança deixou-me a pensar. Haveria algum curso que eu ainda não tivesse ponderado, que talvez me oferecesse essa hipótese?

Depois da conversa, o professor despediu-se e deixou-nos novamente sozinhas. Ficámos em silêncio por uns instantes, mas pouco depois a conversa voltou. Quando o sol se pôs por completo, levantámo-nos para sair do café. Andávamos juntas pelas ruas, até seguirmos caminhos separados. Estranhamente, eu sentia-me um pouco mais em paz. Pela primeira vez, parecia que a escolha estava ao meu alcance e que eu não precisava de responder a todas as expectativas – apenas àquelas que me faziam sentir eu.