[Hyuna P.O.V]

Aquela noite estava calma. A luz prateada da lua atravessava as cortinas translúcidas da janela, desenhando sombras nas paredes. Sentei-me no chão da sala, encostando as costas no sofá. Com as pernas cruzadas, deixei o meu olhar perder-se na tranquilidade daquele sítio, mais especificamente, a casa do Seishou, que se havia tornado igualmente o meu lar. Nunca pensei alguma vez me sentir assim em relação a uma casa, depois de haver abandonado a minha. Porém, encontrei ali o refúgio que tanto precisava. A minha vida anterior, com o Yusuke e a Honoka, era completamente diferente. O espaço onde vivia naquele momento era maioritariamente preenchido pelo silêncio e pela ausência de tudo o que antes parecia constante. Mesmo sem me sentir particularmente triste por ter ido embora, uma parte de mim sentia uma espécie de vazio. Talvez fosse devido ao hábito da minha rotina passada.

Já estávamos juntos há algum tempo, eu e o Seishou, embora nunca tivesse havido nenhum momento que marcasse especificamente o início da nossa relação. Tudo aconteceu de forma natural, sem quaisquer declarações, nem "um pedido oficial", coisas que eu também não sentia particularmente necessidade.

Estava tão perdida em pensamentos que quase me esquecia do motivo pelo qual um tal silêncio se havia instalado entre nós. Respirei fundo, decidida a continuar a conversa anterior, ainda que evitássemos falar muito do assunto, há várias semanas.

- Seishou… O que vai acontecer quando a Akaluri fizer o seu último desejo?

Sentado no sofá, ele pousou o seu livro de lado e permaneceu quieto. Apesar de não poder ver o seu rosto, eu sentia a tensão instalar-se novamente no ar. Por fim, ele suspirou.

- Depois de concretizar o seu último desejo, eu perco a minha magia. A minha razão de ser... deixa de existir, de certa forma.

Eu sabia que o Seishou era um génio; um ser ligado a cumprir desejos e a servir, mas a ideia de ele perder a própria essência era difícil de aceitar. As suas palavras perturbaram-me mais do que aquilo que eu esperava, quando tentava imaginar-me na sua situação. Olhei de novo para as paredes da casa que ele tinha criado com a sua magia; para os objetos que preenchiam e decoravam cada canto.

- E tudo aquilo que construíste? A casa? Vai tudo desaparecer, simplesmente?

- Felizmente, tudo o que criei antes mantém-se, mas depois… não poderei criar nada novo. — respondeu ele, tão sereno que me fizera questionar se ele próprio compreendia o impacto do que acabara de dizer.

- E não estás triste com isso? — eu virei-me para trás, encarando-o.

- Não... Quer dizer, sim, estou, mas foi algo que sempre soube que iria acontecer; é o meu destino.

- Hm... Tenho a certeza que a Akaluri evitaria pedir o seu último desejo, se soubesse o que isso causaria.

- Por isso é que eu não lhe disse. — afirmou o Seishou, com um leve sorriso ameaçador, tentando impedir-me de fazer com que tal informação lhe chegasse aos ouvidos.

Eu apenas cerrei ligeiramente os olhos, como resposta. Queria respeitar a sua vontade, mas não queria que a sua falta de poderes nos afetasse futuramente. No entanto, eu também sabia que ele sentia o dever de cumprir o seu propósito, talvez para se poder sentir realizado. O Seishou voltou então a pegar no seu livro, continuando a ler calmamente. Enquanto isso, eu tentava imaginar como seria o nosso novo futuro, sem a sua magia. Era graças a ele que tínhamos tudo aquilo que precisávamos, como comida, por exemplo... mas como nos iriamos desenrascar no futuro para sobreviver? O Seishou continuava a ser invisível para os humanos, o que tornava impossível que arranjasse um trabalho, assim como eu. O problema era que eu não estaria em condições de arrecadar com todos os nossos custos sozinha... Estava habituada a ser independente ou, por vezes, até a depender dos outros, mas nunca antes ninguém havia dependido de mim. Tinha passado anos a viver com pessoas que nunca devem ter realmente necessitado da minha presença, mas, naquele momento, entendia que o Seishou parecia confiar plenamente em mim, para que o ajudasse. Essa responsabilidade pesava-me, acabando também por me assustar um pouco.

Estranhamente, ao mesmo tempo, surgia também uma nova sensação em mim. Sentia uma determinação diferente, como se estivesse realmente disposta a esforçar-me para seguir um novo caminho. Teria o Seishou conseguido prever tudo aquilo, de certa forma? Afinal, era muito peculiar um ser com poderes tão bondosos como os dele se ter apaixonado por um demónio.

- Porque te interessaste em mim? Desde o início... — questionei, enquanto me sentava ao seu lado.

Novamente, o Seishou desviou o olhar do seu livro, fechando-o de seguida.

- Para um génio, há sempre algo que vai além da magia. Eu sinto as pessoas... sinto a sua verdadeira essência, por mais profunda que ela esteja. É como um instinto! Quando te vi pela primeira vez, notei o quanto a tua aparência exterior contrastava com o teu interior. Eu senti quem eras mesmo, para além daquilo que decides mostrar ao mundo. Achei logo que eras especial!

As suas palavras impressionavam-me. Eu própria não acreditava ter alguma essência "especial". Ao notar que ergui uma sobrancelha pelo meu desconfiar, ele prosseguiu com a sua explicação.

- Imagino que, inicialmente, muitos vejam apenas o teu poder sombrio ou as muralhas que construíste à tua volta, mas eu sempre vi além disso. Notei logo a tua força interior e a tua determinação crua. Em ti, vejo alguém forte, que enfrenta os próprios demónios de cabeça erguida e que, mesmo assim, se preocupa em tentar proteger quem gosta a todo o custo. Onde outros poderiam só notar dureza, eu distingui simplesmente uma coragem autêntica.

Não sabia bem o que responder ao que ele me dissera. De facto, não estava mesmo à espera de ouvir algo assim. Estava tão habituada à perceção habitual que outros tinham de mim, que era extremamente incomum encontrar-me a ouvir tal discurso, apesar de ser também um pouco agradável.

- E esse instinto foi o suficiente para te convencer? Não achas que a minha verdadeira natureza é mesmo algo maligno e que, algum dia, essa parte de mim irá relevar-se contra as tuas expectativas?

Ele inclinou-se ligeiramente na minha direção. Naquele momento, sentia uma certa intensidade no seu olhar, enquanto o Seishou se aproximava do meu rosto.

- Foi mais do que suficiente. Eu nunca me engano nestas coisas! Não escolhi falar contigo porque esperava algo em troca ou porque tinha algum receio de ti. Interessaste-me pela tua própria essência, pela forma como és, sem filtros. Até hoje, isso nunca mudou!

O silêncio que se seguiu não era desconfortável. Era um entendimento mútuo. Cruzei os braços e encostei-me mais ao sofá, deixando escapar um discreto sorriso.

- Boa resposta. — murmurei, como se aquilo fora um teste.

Ele apenas sorriu de volta, retomando a sua leitura, sem mais interrupções. Enquanto isso, decidi deixar a vulnerabilidade tomar conta de mim por um mero instante, pousando a cabeça no seu ombro caloroso.

- Não sei bem o que o futuro nos reserva, Seishou... mas prometo que vou fazer o que for preciso, por nós.

- Eu sei que vais; eu confio em ti. — respondeu ele, encostando a cabeça na minha — Obrigado, Hyuna.

Eu compreendia que, lá no fundo, o Seishou também devia sentir-se incerto e receoso com o que nos esperava, mas era reconfortante saber que, pelo menos, ele contava comigo. Por ele, eu estaria disposta a enfrentar o mundo, a suportar qualquer responsabilidade por ambos; a viver uma vida nova... porque, pela primeira vez, não me sentia mais sozinha. Fechei então os olhos com o reconfortante silêncio da noite, acabando por adormecer ali mesmo.

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[Akaluri P.O.V]

Setembro trouxera consigo uma nova brisa, carregada por uma atmosfera de renovação e de retorno à rotina. As ruas da cidade estavam um pouco mais vazias com o final das férias de verão. No meio de todo aquele ambiente, eu também me sentia um pouco ansiosa com as mudanças que estavam por vir.

O tilintar do sino fez-se ouvir no café com a minha entrada. Como sempre, a Manaka estava ao balcão, concentrada em organizar todos os doces e salgados na vitrina, para o dia. Cumprimentámo-nos alegremente e coloquei logo mãos à obra assim que vesti o uniforme, ajudando-a a terminar os últimos detalhes. Com o regresso às aulas, as horas de mais afluência no café também mudavam e as manhãs tornavam-se mais atarefadas, assim como os finais de dia.

Depois da chegada de mais alguns funcionários, diversos estudantes e trabalhadores já ocupavam as mesas, fazendo o tempo passar como uma flecha, com pedidos que saíam uns atrás dos outros. O movimento começou a acalmar por volta do final da manhã, quando uma cliente habitual entrou, acenando para nós. Era uma senhora idosa e extremamente simpática, que vinha sempre com um bloco de notas na mão.

- Bom dia, senhora! Vai querer o costume?

- Bom dia, Akaluri. — ela sorriu gentilmente — Sim, sim, vou querer o de sempre, por favor!

Pouco depois, voltei para a sua mesa, servindo-lhe o café com leite que ela tanto gostava. A expressão no seu rosto iluminou-se ao ver a mesma arte que sempre lhe fazia na espuma de leite: uma pequena caravela. Aquele momento já se havia tornado como uma espécie de ritual entre nós.

- Sabes, Akaluri... — falou ela, num tom sereno — A vida é como um mar imenso; às vezes manso, outras vezes turbulento... e talvez não alcancemos tudo num só momento. Porém, o mais importante é ter coragem de partir e seguir em frente, ao nosso ritmo. Para mim, a caravela é como um símbolo; uma lembrança que nunca é tarde demais para ter força e sonhar.

Até na sua forma de falar se notava que ela gostava de escrever. Concordando com a sua afirmação, eu lancei um pequeno sorriso àquela senhora, sentindo-me tocada pelas suas palavras. Perdida em pensamentos, ela abriu o seu caderno de notas, começando então a escrever. Eu sabia que escrever era a sua forma de guardar memórias e ideias; de captar o que pensava ou sentia. Decidi então voltar ao trabalho e deixá-la ter o seu momento de inspiração. Entretanto, a Manaka aproximou-se de mim.

- É mesmo incrível, não achas? — comentou ela — A forma como aquela senhora encara a vida e os sonhos... sobretudo com a sua idade. É assim mesmo que eu quero ser no futuro!

- Sim, é impressionante… faz-me pensar que nenhum sonho tem um prazo.

Por um breve instante, a Manaka ficou pensativa, olhando depois para mim com uma expressão curiosa. Eu percebera logo o que passava pela sua mente, antes mesmo dela falar a primeira palavra.

- E tu, Akaluri? Sempre decidiste o que vais fazer? — perguntou, retomando um tema que já havíamos discutido há uns tempos.

- Acho que sim. — respondi, um pouco hesitante — Precisei de algum tempo, mas sinto que encontrei um caminho que faz sentido para mim.

- O que é? Diz-me! Estou a morrer de curiosidade desde a última vez que falámos sobre isto!

- Gostavas de ir a minha casa depois do trabalho? Assim podemos falar com mais calma e conto-te tudo.

Rindo-se, a Manaka abanou a cabeça, aceitando alegremente o convite. Entretanto, à medida que o nosso turno avançava, ela parecia cada vez mais impaciente.

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Terminámos o trabalho no café e logo começámos a caminhar pela cidade, envolta numa luz suave do final da tarde. Fomos falando de coisas maioritariamente triviais, entre peripécias com clientes e algumas novidades, mas eu sabia que, eventualmente, o verdadeiro assunto estava ainda por vir. Assim que chegámos a minha casa, fomos buscar um pequeno lanche à cozinha e subimos para o meu quarto. Juntas, sentámo-nos na cama, prontas para conversar. A Manaka não perdeu nem mais um segundo:

- Pronto, já estamos a sós. Vais finalmente dizer-me o que andas a esconder, ou vou ter de adivinhar?

Desviei brevemente o olhar para o batido de chocolate à minha frente, tentando ganhar algum tempo.

- Bem… — comecei, depois de respirar fundo — Eu já falei com o chefe. Pedi-lhe para fazer full-time assim que o meu ano de ajudante terminar, daqui a nada... E ele aceitou.

Claramente surpresa, a Manaka olhou para mim com os olhos arregalados.

- Full-time?! O que te levou a tomar essa decisão? E a universidade? Vais conseguir conciliar tudo?!

- Calma, calma! Deixa-me explicar! — interrompi — Estes últimos tempos, tenho pensado muito sobre o que quero fazer no futuro... E cheguei à conclusão que preciso de parar, só um pouco. Quero ter uma pausa dos estudos, ponderar melhor as minhas escolhas e poupar algum dinheiro também. Quero aproveitar este ano para refrescar a mente e ganhar alguma certeza sobre o que realmente quero fazer na faculdade... e no futuro. Não quero deixar-me levar pela pressão de escolher algo agora, especialmente depois de todas as coisas que têm acontecido... Por enquanto, acho que o melhor caminho é este.

Estranhamente, a Manaka parecia entender perfeitamente o meu ponto de vista. Ela assentiu, logo de seguida esboçando um leve sorriso, parecendo estar cheia de orgulho.

- Sei que essa opção nem sempre é facil, mas penso que estás a tomar uma decisão muito sensata. Às vezes, parar um pouco e ir com calma é a melhor forma de percebermos o que realmente queremos... Mas e depois? Já tens mais alguma coisa em mente ou é apenas isso?

- Sim, tenho... — respondi, suspirando — Assim que começar a faculdade, eu e o Yusuke… gostavamos de começar a morar juntos.

- A sério?! Vão mesmo?! Wow! Isso é ótimo, Akaluri! Vocês são tão perfeitos juntos! Estou tão feliz! Tenho a certeza que tudo vai correr bem!

A Manaka soltou um pequeno riso de entusiasmo, segurando-me a mão para demonstrar o seu apoio. Naquele momento, senti uma enorme onda de alívio pela sua reação. Pensei que ela fosse achar que as minhas decisões estavam a ser um pouco precipitadas, mas, felizmente, ela parecia entender.

- Obrigada, Manaka... Quase pareces mais contente do que eu!

- Ora, eu nem fiz nada! — ela riu-se, envolvendo-me num abraço apertado — Não tens de me agradecer; eu realmente acredito no que disse, não foi apenas para te encorajar! E sim, estou super contente por ti!

Quando nos soltámos, ela pareceu ligeiramente pensativa por uns instantes, inclinando ligeiramente a cabeça. Novamente, não fora difícil prever a pergunta que viria a seguir.

- Mas, espera lá... — falou ela novamente, mais séria — E os teus pais? Como é que eles reagiram a isso?

- Eles estavam mais preocupados com o trabalho do que com os meus estudos... Assim que sugeri a hipótese de esperar um ano, preocuparam-se logo com a possibilidade de eu ficar sem fazer nada até lá.

- A sério? Como se alguma vez te sentisses bem em não fazer absolutamente nada durante um ano inteiro... Nem sei porque eles se preocuparam logo com isso!

- Pois, mas pronto... Trabalhar no café também não bastava. Eles convenceram-me que, se realmente quiser começar a ter a minha independência no próximo ano, vou ter também de começar a ter aulas de código.

- Oh! — os olhos da Manaka brilhavam — Isso não é mau de todo! Porque não te inscreves com o Yusuke também? Assim ficarias mais motivada e acho que seria giro!

- O Yu já tirou a carta de condução, logo depois de ter saído do secundário.

- Ai é? Não sabia!

- Sim, felizmente. Ele quis tratar logo disso para depois não estar a gastar mais dinheiro durante a faculdade ou depois... Só que... conseguir arranjar um carro é outro assunto.

- Pois... — expressou a Manaka, suspirando — Mas como eles reagiram ao facto de quereres ir morar com ele para o próximo ano?

- É assim... Se calhar eu ainda não lhes referi nada disso...

- Como assim?! — a expressão da Manaka misturava espanto com algum riso contido — Não lhes contaste?!

- Eu já tinha medo de como fossem reagir ao resto, então imagina isso! Eu nunca antes tive namorado, então é tudo novo para mim e para eles também... Não faço ideia do que poderiam pensar!

- Eu percebo... mas quanto mais cedo contares os teus planos, melhor! Eles podem até não reagir da melhor forma no início, mas o tempo vai ajudá-los a entender que não há pessoa melhor do que o Yusuke para estar contigo! E se, mesmo assim, não perceberem.... — ela fez uma breve pausa, colocando a mão sobre o meu ombro — Lembra-te de que não precisas da aprovação de ninguém para seres feliz.

- Pensei que ias dizer que me ias dar uma ajudinha com os teus poderes. — respondi, rindo.

- Isso também, claro! Sempre que precisares!

O otimismo da Manaka era contagiante e, por uns instantes, as minhas preocupações pareceram diminuir. Eu sorri, agradecida pelas suas palavras reconfortantes, mas sabia que enfrentar a minha mãe e o meu padrasto seria tudo menos simples. Eles sempre tiveram uma visão muito rígida do que deveria ser o meu futuro: um diploma, um bom emprego e, sobretudo, dinheiro e estabilidade. A ideia de pausar os estudos e mais tarde viver com o Yusuke antes de sequer "assentar", como eles diziam, era, no mínimo, um choque para ambos. Precisava mesmo de os convencer a mudar de perspetiva durante o ano.

- Ouviste isto? — perguntei, inclinando-me ligeiramente em direção à janela do meu quarto.

- O quê? Eu não ouvi nada... — respondeu a Manaka, levantando os olhos do seu telemóvel.

A janela do meu quarto estava ligeiramente entreaberta, deixando entrar uma brisa suave que agitava levemente as cortinas. Por entre o vento, ouvia-se um som, um miado frágil, mas insistente.

- Um gato? — perguntei, surpresa.

Curiosa, a Manaka levantara-se num ápice, dirigindo-se à janela. Seguindo-a, espreitei juntamente com ela para o exterior. Apenas se notavam duas pequenas patas brancas, que tremiam desesperadamente agarradas ao chão, sendo que o resto do corpo se encontrava do lado de fora da varanda. Aqueles miados agudos eram definitivamente um pedido de ajuda.

Sem hesitar, transformei-me e peguei numa manta que estava nas costas da minha cadeira. Desci rapidamente as escadas, circulando o exterior da minha casa até chegar às traseiras, onde estava a minha varanda. O pequeno gato, ao ouvir-me chegar, olhou diretamente para mim, ainda preso na varanda.

- Manaka! — exclamei — Liberta-lhes as patas. Eu apanho-o!

- Tens a certeza? — perguntou ela, aproximando-se do limite da varanda — Não preferes tentar alcançá-lo daqui?

- Tenho medo de o magoar ao tentar passá-lo por entre a grade. É mais seguro apanhá-lo daqui; eu consigo. — respondi, abrindo os braços com a manta estendida — Rápido, estou pronta!

A Manaka levantou as patas daquele pequeno gato. Felizmente, ele caiu no lugar que eu pretendia. Suspirando de alívio, enrosquei com cuidado o tal gato nos meus braços. Ele tentava libertar-se.

- Pronto. Já está... — murmurei, tentando acalmá-lo — Está tudo bem... Não te vou magoar.

Estranhamente, o pequeno gato preto e branco amansou e os seus olhos dourados fixaram em mim. Enquanto me dirigia novamente para o quarto, o gatinho aninhava-se confortavelmente na manta rosa. Ainda com ligeiros tremores, ele soltou mais um pequeno miado, daquela vez mais calmo e doce. Era quase como se me estivesse a agradecer.

- Como é que ele está? — perguntou a Manaka, assim que entrei no quarto.

- Assustado, mas parece estar ok.

Sentei-me vagarosamente no chão, encostada à cama, com a gato ainda nos braços. Com um certo cuidado, pousei o gato ao meu lado, ainda enroscado na manta. Quase de imediato, a Manaka ajoelhou-se ao meu lado, observando o gato com atenção.

- É tão fofinho! E parece tão frágil... Deve ter sofrido muito... sozinho na rua.

Sob a luz suave do quarto, os detalhes do pelo da gata tornaram-se mais claros. O preto cobria-lhe o dorso como um casaco de noite, enquanto o branco brilhava nas patas, no peito e numa pequena mancha no rosto. Era impossível não reparar no contraste perfeito entre as cores, que pareciam desenhadas com propósito.

- Vou buscar algo para lhe dar de comer. — anunciei, levantando-me devagar — Ficas de olho nele?

- Claro! Vai lá.

Desci novamente as escadas, tentando lembrar-me do que havia na cozinha. Encontrei uma lata de atum sem óleo na despensa e preparei uma tigela improvisada com metade da lata, juntamente com um pouco de água. Quando voltei ao quarto, o pequeno gato estava sentado no chão, com os olhos fixos na porta.

- Ficou o tempo todo à tua espera. — comentou a Manaka, rindo — Acho que já se afeiçoou a ti.

Coloquei a tigela no chão e observei enquanto aquele pequeno e curioso gato, embora hesitante, se aproximava. Primeiro cheirou, desconfiado, mas logo começou a comer desesperadamente.

- Tão pequenino e parece já ter passado por tanto... — falei, sentando-me ao lado dele.

- Visto que obviamente vais ficar com ele, agora só falta arranjar-lhe um nome.

- Hmm...

Fiquei em silêncio por um momento, observando-o. Assim que acabara de comer, o gatinho lambia as suas patas brancas e esfregava o seu focinho, parecendo muito mais calmo e satisfeito. Após verificar o seu género, um nome rapidamente surgiu nos meus pensamentos:

- É uma menina. Vou chamá-la Tsuki.

- Tsuki? — repetiu a Manaka, curiosa.

- Significa "lua". O branco do seu pelo faz-me lembrar a luz da lua, e o preto, a noite que a envolve. Os seus olhos são dourados e parecem duas pequenas estrelinhas. Acho que combina com ela!

A pequena Tsuki levantou os olhos assim que ouvira o seu novo nome, soltando um miado baixo, quase parecendo como se estivesse a reconhecer que era dela que falávamos.

- Algo me diz que ela também gostou do nome! — exclamou a Manaka, rindo — o Yusuke que se prepare, pois já tem competição para te conquistar!

Eu e a Manaka divertimo-nos durante mais algum tempo com a nova companhia inesperada. Algum tempo depois, ela teve que se despedir e o quarto ficou mais silencioso. Eu continuava sentada no chão, deixando a Tsuki explorar aquele novo espaço com passos medrosos e calculados. À medida que ela se ia sentindo gradualmente mais confortável com aquele lugar, eu começava igualmente a notar aspetos que a gatinha revelava da sua personalidade. Voltando a aproximar-se de mim, ainda com a minha forma transformada, a Tsuki divertia-se a tentar caçar a minha cauda, o que era extremamente adorável. Estar transformada ao seu lado fazia-me sentir mais conectada a ela, de certa forma. Não queria de todo voltar à minha forma humana naquele momento.

Sem que eu o esperasse, ouvi o meu telemóvel vibrar na cama. Era uma mensagem do Yu: “Então, como está isso? Já tiveste a conversa com a Manaka?” Sorrindo com a sua mensagem, respondi: “Sim, já falei com ela. A Manaka ficou contente com os planos!" Logo de seguida, enviei-lhe uma foto da gatinha, escrevendo: "Já agora... Conhece a Tsuki. Resgatei-a da minha varanda. Não me perguntes como ela chegou até lá!”

Enquanto esperava pela resposta do Yu, os meus pensamentos vagueavam. A Tsuki tinha acabado de entrar na minha vida sem qualquer aviso, mas algo me fazia sentir que a sua presença era mais do que um mero acaso. Talvez ela me viesse trazer uma pequena luzinha ao meu dia a dia. Pensei que, às vezes, a tal luz que tanto precisava nem sempre vinha de respostas imediatas, mas sim de pequenos passos, de situações inesperadas, de manter sempre força e esperança, apesar de tudo. Talvez, ao cuidar dela, fosse eventualmente aprendendo a cuidar melhor de mim também; a ganhar outro tipo de maturidade e tornar-me ainda mais responsável.

Entretanto, o telemóvel vibrou novamente: “Gatinha tuxedo? Aprovada! Mal posso esperar por conhecê-la!” Naquele momento, a gatinha subiu pacificamente para o meu colo, adormecendo num instante.

— Sinto que foste feita para estar aqui... — murmurei para a Tsuki.