Akaluri - Parte 2
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[Ryuu P.O.V]
Desde janeiro, o tempo parecia arrastar-se. Entretanto, já tinham chegado as tão aguardadas férias de abril, mas a última conversa que tive com a Akaluri continuava a ecoar na minha cabeça. "O que podia ter feito de forma diferente?", perguntava-me vezes sem conta. Parte de mim sentia que talvez nunca devesse ter falado sobre o que sentia, ou pelo menos não tão cedo. Mas outra parte achava que foi necessário, para eu conseguir seguir em frente; afinal, a rejeição era algo que eu já meio que esperava... ou talvez não? De qualquer forma, estava com dificuldade em me habituar à falta da sua presença. Ia preenchendo as horas com uma guitarra aqui, umas bebidas ali... e, claro, com as obrigações de um bom estudante de ciências. Decidi também começar a aprender uma nova língua, só para ter mais uma ocupação. Distrair-me e ocupar-me ao máximo até que os sentimentos fossem embora, era o melhor que podia fazer naquele momento.
Resolvi então dar uma volta rápida no centro comercial da cidade, na esperança de comprar aquela treat especial que o meu Wolfo adorava, para lhe ensinar uns novos truques. A minha mente estava em modo zombie durante todo o percurso, já que era hábito eu ir lá sempre que precisava de alguma coisa para o meu cão. Só senti o meu cérebro ligar-se de novo quando, ao sair da loja, vi alguém que reconheci. Era aquela rapariga ruiva. cujo nome nunca conseguia lembrar... "Hola? Hoka?", não fazia ideia... Pensei em dizer-lhe um pequeno "olá", já que não nos víamos desde o ano novo. Talvez ela tivesse algumas novidades, não que eu estivesse particularmente interessado.
- Olá!
- Ahm... Olá, Ryuu.
- Então, que fazes por aqui hoje?
- Estou só à espera do Yusuke. — respondeu ela — Ele foi à loja de animais, ver se encontrava um peixinho betta.
- Oh! Esse peixe é muito bonito, sem dúvida. Mas porque não entraste na loja com o Yusuke?
- Bem... Eu tenho muito medo de cães e aranhas! E sei que na loja tem alguns...
- Mas nenhum deles está à solta...
- Eu sei... Mas, por mais velha que seja, continuo a sentir-me pequena por dentro, de certa forma. E não é só por ser pequenina em tamanho! Tenho medo de várias coisas... E também ainda sou um pouco inocente...
Só de ouvir a ruiva dizer aquilo, senti um enjoo na barriga. Que treta... Franzi o nariz com certo desprezo.
- Hm... Isso cheira muito mal. Se sentes a necessidade de dizer isso tão especificamente, é porque não és nada disso, na realidade.
- Huh?! Como assim?!
- Alguém realmente "pequena e inocente" não sentiria necessidade de expressar isso por palavras; apenas o demonstraria de forma inconsciente. Ao dizeres isso, parece que estás a tentar convencer os outros de que és assim, só por repetires isso vezes suficientes. Tipo: "sou tão pequenina!", como se isso fosse um traço da tua personalidade. Que horror.
Ela lançou-me um olhar furioso, sem responder, criando um ambiente ligeiramente tenso ali no meio. Eu não estava com vontade de me cruzar com o Yusuke, muito menos com ela por perto, por isso decidi que era melhor voltar para casa o quanto antes. No entanto, mesmo antes de sair do centro comercial, reparei que a Akaluri estava lá. "Hoje é o dia de toda a gente ir ao centro comercial, ao que parece. Devo ir falar com ela?", pensei. Fiquei uns segundos a observar o que ela estava a fazer, tentando decidir se devia aproximar-me ou não. Ela estava particularmente bem arranjada, perto daquela loja que costumava frequentar, mas não parecia muito contente. Olhei na direção para onde ela estava a fixar o olhar e vi que ela observava duas pessoas: um rapaz de cabelo preto e uma ruiva de cabelo curto ao lado dele. Não precisei de muito tempo para perceber o que se estava a passar. Fui ter com ela.
- Então, Akaluri, que fazes? — perguntei, pousando a mão no seu ombro.
Ela deu um pequeno salto, não esperava que alguém surgisse de repente por trás dela. Depois, virando-se para mim, respondeu:
- Ryuu! Olá! Eu vim só comprar uma coisa ali na loja e falar um pouco com a gerente. Estava agora a caminho do café, para ir trabalhar... E tu, que fazes por aqui? Vejo que tens um saco da loja de animais...
- Yup. Vim comprar uma coisa para o Wolfo.
- Oh! Ele está bem?
- Claro. Apenas pensei que lhe podia ensinar uns truques novos... E, para isso, é preciso uns doces a acompanhar o processo.
- Que giro...
- Olha, Akaluri... Porque é que estás a fixar aqueles dois? Passa-se algo?
- Eu? Fixar quem?
- Aquela ruiva e o gajo...
- Huh?
- Tu sabes! O Yusuke e a Hola... Hoka...
- Honoka. — corrigiu ela.
- Sim, isso. Então, o que tens?
- Eu? Nada.
- Hm... Ok. Bem, de qualquer das formas, só gostava de te avisar uma coisa. Essa tal Honoka não me parece nada ser uma pessoa de jeito.
- Porque dizes isso?
- Tive uma pequena conversa com ela há pouco e parece-me ser aquele tipo de rapariga que se faz de fofinha e inocente, mas na verdade não é nada disso. Também reparei que é muito possessiva em relação ao Yusuke, então só queria que soubesses, para evitares futuras confusões.
- Oh... Mas o que te fez pensar isso?
- Pelo que ela me disse, sobre ser pequenina, muito inocente e ter medo de muitas coisas... E por, logo a seguir, me ter feito cara feia sem negar as minhas suspeitas. E, claro, também consigo perceber pelos meus instintos.
- Está bem, vou tomar atenção a isso... Obrigada.
Despedi-me da Akaluri antes que ela tivesse oportunidade de me dizer mais alguma coisa. Tive sorte que ela não me perguntou por que motivo não me tem visto no café. Eu tentava sempre ir nos dias em que pensava que ela não estivesse lá a trabalhar, por isso, não nos tínhamos cruzado muito. Embora ainda me preocupasse com ela, não queria que mantivéssemos muito contacto ou proximidade, até que sentisse que era seguro para mim, considerando os meus sentimentos por ela.
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[Akaluri P.O.V]
As semanas seguintes passaram com uma rapidez que não sentia há algum tempo. Com tanto nervosismo durante o mês de março (designado por mim como "o mês dos testes"), estava grata que as férias de abril haviam finalmente começado. Mesmo assim, eu ainda tinha que ir trabalhar para o café, de vez em quando.
- Akaluri, não te importas de levar este tabuleiro para a mesa 4? — falou a Manaka — É que fui agora chamada para a cozinha!
Eu percebia que a Manaka estava bastante atarefada, especialmente tendo em conta que ela era das pessoas mais importantes naquele pequeno café, embora só trabalhasse em part-time por causa das aulas. Era um prazer para mim poder dar uma ajudinha a todos, então peguei no pequeno tabuleiro e fui servir. Quando cheguei à mesa, pousei lá um smoothie de banana e um grande caramel macchiato. Aquele tipo de pedido parecia-me bastante familiar aos gostos de duas pessoas que eu bem conhecia.
- Luri! — exclamou o Yu — Olá!
- Oh! Olá, Yu! Olá, Honoka!
A Honoka acenou-me com a cabeça, enquanto bebia o smoothie pela sua palhinha reutilizável. De seguida, continuou a olhar em direção ao Yusuke. Vê-la ali fizera-me pensar no que o Ryuu me havia dito, antes de eu vir trabalhar. De repente, senti algo estranho quando olhei para os dois, que me fez franzir levemente as sobrancelhas. Não sentia muita vontade de estar ali, ao pé deles.
- O que tens? — perguntou o Yu — Ficaste a olhar para o vazio com uma cara estranha. Passa-se algo?
- Não, está tudo bem. — respondi, tentando desviar a atenção da sensação desagradável — Preciso de continuar a trabalhar. Bom apetite!
- Quando sais hoje? — insistiu o Yu, tentando manter a conversa.
- Eu acabei de chegar, então devo ficar até ao fecho.
- Ah, ok. Boa sorte!
- Obrigada...
Fui continuando com precaução tudo o que tinha a fazer, mas quase não conseguia tirar os olhos daquela mesa. Quanto mais tempo passava, mais desconfortável me sentia. Pensei que essa sensação iria desaparecer assim que eles acabassem o lanche, porém, isso não aconteceu. O Yu pagou a conta e foram-se embora. Logo depois dele me acenar um pequeno adeus, esse tal sentimento só piorou. Eu conseguia ver que ele estava bastante cansado, com vontade de descontrair. Tentar encontrar a Hyuna não era de facto um trabalho fácil, mas ele já estava a procurá-la há imenso tempo, sempre que tinha disponibilidade. A procura só se dificultou quando descobrimos que ela tinha mudado de trabalho desde o ano passado, sem dizer a ninguém; talvez com algum propósito em mente. Era verdade que a Hyuna era muito desconfiada e reservada, mas tinha pena que o Yusuke mal dormia por causa disso. No entanto, decidi que era melhor concentrar-me naquilo que estava a fazer e tirar três segundos nos balneários para respirar. Quando lá cheguei, ouvi um suspiro.
- Oh! Também estás aqui, Akaluri… — a Manaka fixou-me uns segundos — Passa-se algo?
- Huh? Não… Nada em particular. E contigo?
- Eu vim cá prender o cabelo. Um dos meus elásticos rebentou enquanto corria de um lado para o outro.
- Queres que te ajude?
- Se não te importares…
- Claro que não me importo!
A Manaka sorriu para mim, estendendo-me a sua escova. Peguei então delicadamente no seu cabelo, que comecei a pentear com cuidado. Era importante mantermos uma aparência impecável e arranjada dentro do café, visto que a sua maior diferença com os outros cafés era o tipo de atendimento e vestuário dos funcionários, e claro, isso incluía também todo o resto do visual. No momento em que acabara de lhe prender o cabelo de cada lado, ela agradecera-me. Eu estava com pressa para voltar ao serviço, mas a Manaka segurou-me o pulso antes que pudesse virar as costas.
- Olha… — disse ela — Eu sei que não tenho estado muito presente para ti, e também sei o quanto isso pode fragilizar a nossa relação, mas a verdade é que tem acontecido muitas coisas comigo estes últimos meses... Achas que podemos passar o próximo fim de semana juntas? Há um feriado nessa sexta, então, isso faz três dias…
Eu não sabia bem o que lhe responder, mas não parecia justo recusar. Aqueles meses tinham sido bastante difíceis para ela e, mesmo sem nos falarmos tanto, eu conseguia notar isso. Sabia que ela tinha passado por momentos complicados, especialmente com o acidente do Ichiro no início do ano, e compreendia o quanto isso a havia afetado. Ela parecia cansada e merecedora de uns dias sem pensar em nervosismos. Apesar da nossa distância recente, era sempre importante para mim apoiar a Manaka. De facto, a sua ideia não era má de todo, especialmente tendo em conta que era costume a minha mãe sair com o meu padrasto para algum lado, durante esses fins de semana prolongados.
- Pode ser… Mas falamos disso mais tarde; temos que ir trabalhar.
- Ok, obrigada.
Seguimos as duas juntas para o balcão, onde continuamos o nosso trabalho. Na hora de sair, fiquei encarregue de fechar o café no lugar do chefe, que precisou de sair mais cedo. Assim, deixei os meus colegas irem embora antes de mim, quando a limpeza acabou. Fiquei algum tempo a verificar se tudo estava corretamente arrumado dentro da cozinha, até que ouvi o tocar do pequeno guizo da porta de entrada.
- Desculpe, mas estamos fechados neste momento! — falei, saindo rapidamente da cozinha.
- Eu sei. — respondeu uma voz assertiva.
Quando olhei para a entrada, vi que quem estava ao pé da porta de vidro era a Ichigo, que eu já não via há meses. Revivendo as memórias dos inícios de janeiro, o meu sentimento de fervor contra ela voltou a aparecer.
- O que queres? — perguntei, com um tom ligeiramente frustrado.
- Não é habitual ouvir-te falar assim. — observou ela.
- Não desvies o assunto. Sabes o que fizeste e como me sinto sobre isso. Se não tens nada a dizer, é melhor ires embora.
- Ouve-me apenas.
A Hyuna começou a aproximar-se lentamente de mim. Estava confusa sobre como reagir, mas algo me fez perceber que precisava de ouvir o que ela tinha a dizer.
- O Yusuke disse que nunca mais te viu, Ichigo. Podes explicar-me o que tens andado a fazer?!
- Akaluri…
- Não só foste egoísta e me provaste que uma pessoa como tu não pode mudar, como também fugiste e preocupaste as pessoas que te querem ver bem! Achas que isso é justo, Hyuna?! Achas que alguém…
Ela interrompeu-me, colocando a mão sobre a minha boca. A Hyuna podia ter usado os seus poderes para isso, mas, para minha surpresa, não o fez. A sua aparência estava visivelmente abatida, com olheiras profundas e uma pele ainda mais pálida que o costume.
- Eu vim aqui para te avisar, Akaluri. Sei como te sentes e que podes até não acreditar no que vou dizer, mas és uma das pessoas com quem mais me preocupo; talvez até a pessoa com quem mais me preocupo. E não aceito que não me deixes tentar explicar tudo.
- Fala. — disse, desviando a sua mão.
- Quando estava presa no armazém, ouvi o Hideki a falar ao telemóvel várias vezes, devido ao eco. Numa dessas conversas, ouvi o nome "Fumi". Eu acho que é uma alcunha, mas não tenho a certeza a quem pertence. No entanto, tenho uma hipótese…
- Fumi… — sussurrava para mim, pensando — Não era esse o nome que estava escrito no papel do Hideki?
Peguei no meu telemóvel e comecei a escrever uma mensagem para o Yu. Precisávamos de esclarecer aquela pista.
- Que papel? Hey! Akaluri… Com quem estás a falar?
- Com o Yusuke. Naquele dia, ele encontrou um papel no bolso do Hideki e começamos a investigar o conteúdo.
- Porque não me disseram nada? Não acham que tenho o direito de saber?
- Tens, mas estavas desaparecida… O Yusuke não te queria incomodar e também não me contou nada no próprio dia.
- De qualquer das formas, deixa o telemóvel. Eu ainda não acabei de falar. — eu pousei o telemóvel, enquanto ela me olhava nos olhos — Bem... Eu não sabia se devia contar esta informação até conseguir recolher mais pistas sozinha, então decidi voltar para casa com o Yusuke no início, mas nunca tencionei continuar lá. Pensei que, se alguém estava a planear algo contra mim juntamente com o Hideki, era obrigação minha descobrir de quem se tratava. E foi isso que fiz.
- Tu sabes?! — questionei, intrigada.
- Não tenho toda a certeza, mas as pistas apontam para que a minha maior suspeita seja a Honoka. O nome dela é Honoka Fumetsu, o que faz todo o sentido dela poder ser chamada de "Fumi"
De repente, tudo na minha cabeça havia feito um clique, como se aquela frase fosse encaixar a última peça de um puzzle antes incompleto. Seria não só o Hideki, mas também a Honoka, responsáveis por aquele último acontecimento? Parecia muita coincidência estar a ser duas vezes avisada sobre ela, no mesmo dia. Pensando bem, tudo me parecia ter uma certa lógica: a Honoka não tinha ido comigo e com o Yusuke procurar a Hyuna e mal pareceu abalada com toda a história; nem sequer tinha andado a tentar procurá-la nos últimos meses. Ela fingia ser alguém preocupada com os outros, mas na verdade era apenas com ela própria e talvez com o Yusuke que isso acontecia; mais ninguém. Cada vez que acontecia algo, ela fazia questão de se meter sempre no mundo dela e naquilo que lhe interessava, tal como quando o Ichiro perdeu o seu olho: tudo o que ela queria saber era porque é que o Yu tinha saído de repente do bungalow. Ela fazia questão de nunca falar muito sobre a vida dela, aliás, de não falar com praticamente ninguém sobre quase nada. Já para não falar que, desde o início, ela sempre me havia lançado olhares frios repentinos, sem razão aparente... Seria eu a próxima?
- Acho que tens razão. — respondi.
- Achas? O que te levou a essa conclusão?
- Ela nunca se mostrou preocupada em procurar-te, nem quando o Ichiro foi atacado pelo Hideki e perdeu o olho.
- Mas o que teria ela contra o Ichiro?
- Talvez o Ichiro fosse só uma raiva da parte do Hideki, mas... se calhar, isso fez com que a Honoka se apercebesse dos dotes que ele tinha e pensou que, com a ajuda dela, ele iria finalmente conseguir ter uma parte daquilo que ele mais queria... Que era afetar-te a ti.
- Oh... Então achas que foi nesse dia que eles planearam as coisas? De facto, faz sentido. É que eu ouvia a Honoka a fazer chamadas sozinha na casa de banho, a exigir explicações de alguém que nunca lhe respondia ao telemóvel. Obviamente, porque o Hideki já tinha morrido e ela não sabia. Eu também não lhe queria dizer nada, por isso é que fui rapidamente embora de casa.
- Exatamente. Ao pensarmos bem, tudo se encaixa. Mas o que teria ela contra ti? O que iria ela ganhar com o teu desaparecimento?
- Não faço ideia. Eu nunca lhe fiz nada de mal, pelo contrário... mas, honestamente, já nada me surpreende vindo dela. Está sempre ocupada com as suas coisas e mal tem tempo para nos ajudar a pagar as coisas em casa. Nem acredito que ela tem a coragem de me fazer uma coisa destas, sabendo muito bem que ela depende de mim para lá viver.
- Pois. E eu sei bem que, por causa disso, o Yusuke quase não dorme; ele costuma andar à tua procura.
- Eu entendo... É verdade que parte de mim se sente mal por todo o esforço que vocês fizeram e ainda fazem, mas eu já não sei em quem confiar, Akaluri... Foi um grande risco para mim vir aqui, especialmente sabendo que a Honoka está envolvida. O Yusuke, duvido que esteja…
- Podes ficar algum tempo comigo. Assim já poderás recuperar forças, para depois poderes resolver esse problema.
- Como é que íamos conseguir fazer isso?
- Com a presença da minha família lá em casa, seria impossível. Por isso, se quiseres ficar mais do que um dia, é melhor esperar que eles vão embora. No entanto, acho que apenas uma noite ia funcionar, por agora...
- Estás a dizer para eu entrar à socapa em tua casa?
- Sim, só esta noite. Estou a ver que precisas de um banho quente e de uma cama confortável. No entanto, não consideres que isto é como se tivesse perdoado o que fizeste. Só estou preocupada com o teu estado.
A Hyuna ficou alguns segundos a olhar para mim, quase incrédula. Parecia-me que ela não sabia o que responder, mas eu conseguia entender como ela se devia estar a sentir no seu lugar. Ela acabou por me ajudar a pôr o resto das coisas no lugar dentro do café e ambas saímos, em direção a minha casa. Não falamos muito durante o caminho, mas, assim que chegamos, a Hyuna transformou-se para poder entrar na parte de trás de casa, pela minha varanda do quarto. Ao vê-la entrar daquela forma tão serena, comecei a pensar na grande diferença que via tendo em conta a minha relação extremamente turbulenta com ela, no passado. Não consegui conter uma pequena risada.
- O que foi? — perguntou ela, com cara ofendida.
- Nada... Apenas acho impressionante que já não me sinto tão irritada com a tua presença, como antes.
- Oh... — ela deu um ligeiro sorriso — Peço desculpa por essas coisas todas.
- Isso já passou, não importa agora.
Ver a Hyuna sorrir, por mais pequeno que esse sorriso fosse, era algo muito raro de ver.
- Olha, Akaluri... Achas que posso ir ao banho?
- Claro. Felizmente tenho uma casa de banho aqui no meu quarto, é só abrires aquela porta ao pé da cómoda, mas... — eu hesitei — Se não for problema, eu teria que estar lá ao mesmo tempo que tu, porque tenho que fingir que sou eu que estou a tomar banho, caso entrem aqui no meu quarto de repente.
- Eu entendo. Não há problema...
Enquanto a Hyuna se preparava na casa de banho, eu fui rapidamente buscar um novo volume de um mangá à minha estante, para poder ler enquanto esperava. Assim que abri a porta, deparei-me com a Hyuna de torso nu à minha frente, virada de costas. O meu olhar não se desviava daquelas inúmeras pisaduras azuladas, queimaduras de sal e outras cicatrizes que uma simples camisola conseguia esconder. Assim que ela notou a minha presença, a Hyuna tentou tapar as suas costas colocando o cabelo para trás, mas já era tarde.
- Essas marcas todas que tens nas costas... Foram feitas pelo Hideki?
- Algumas, sim. Especialmente as queimaduras.
Eu aproximei-me lentamente das suas costas, desviando o seu cabelo violeta para cima dos seus ombros. Tinha um certo receio de lhe tocar nas feridas, limitando-me apenas a observá-las cautelosamente. Ver aquilo fazia com que o rancor que me restava em relação a ela começasse a desaparecer aos poucos, por mais que eu não o quisesse. Era como se cada cicatriz contasse uma história que eu, até então, não estava disposta a ouvir ou aceitar. Por mais que me tentasse agarrar à minha raiva, não conseguia ignorar a vulnerabilidade que transparecia por entre aquelas marcas. Sabia que Hyuna tinha cometido atos terríveis, sabia que o seu comportamento era, por vezes, impossível de perdoar. Contudo, também sabia que, lá no fundo, ela tinha capacidade de ser tão melhor... Foi naquele instante que me apercebi: de alguma forma, mesmo sem me dar conta, eu já tinha começado a perdoar a Hyuna.
- Não pediste ao Yusuke para te curar isso?
- Eu não queria que ele soubesse. — respondeu ela.
- Mas ele podia tirar-te essas negras e diminuir a gravidade das cicatrizes... Tu sabes que os seus poderes se relacionam com a cura.
- Eu sei, mas não queria que ele fosse falar com a Honoka sobre isso. Deixa estar as minhas feridas.
Ela voltou a tapar as costas com o seu cabelo longo e foi tomar o tal duche, enquanto eu me distraía a ler. De seguida, fui eu também tomar um duche rápido e escolhi dois pijamas para vestirmos, visto que eu ainda queria colocar a sua roupa para lavar.
Passado algum tempo, eu fui jantar com a minha mãe e o meu padrasto, deixando a Hyuna sozinha no meu quarto. Com sorte, consegui trazer uma parte da comida às escondidas, assim que voltei para lá. Eu entreguei-lhe um tupperware cheio, juntamente com um pequeno garfo e uma nova garrafa de água. Ela não demorou muito até começar a comer, parecendo estar de estômago vazio. Entretanto, eu peguei na roupa dela, colocando a máquina de lavar a fazer um ciclo durante a noite.
- Já meti a tua roupa para lavar. — falei discretamente, ao entrar no quarto — Estava boa a comida?
- Sim. Obrigada.
A Hyuna devolveu-me o tupperware e o garfo, que eu pousei na minha secretária para levar para a cozinha, mais tarde. Sugeri então vermos um filme no meu computador, para nos podermos distrair um pouco de tudo e passarmos uma noite mais calma. Eu sabia o quanto ela devia precisar de algo assim; muito mais do que eu.
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[Manaka P.O.V.]
Finalmente, tinha chegado a manhã de sexta-feira, então eu preparava as últimas coisas que faltavam para a minha pequena viagem com a Akaluri. No entanto, havia sempre uma sensação persistente de que me estava a esquecer de algo. Era um verdadeiro quebra-cabeças tentar descobrir o que poderia ter falhado, cada vez que saía de casa!
- Levas o teu champô? — perguntou o Ichiro, de longe.
- Ah, pois! — exclamei — Obrigada por me lembrares.
Fui rapidamente à casa de banho e apanhei o champô que estava pousado à beira do chuveiro. Estava tudo pronto para o fim de semana.
- Acho incrível como te esqueces mais facilmente de um champô, do que um livro para ler.
- Ora, tenho que ter alguma coisa para fazer no comboio!
- A Akaluri não vai no comboio contigo?
- Sim, mas... talvez ela queira ficar a desenhar.
- Já agora, não devias estar a caminho da estação?
Assim que me despedi do Ichiro, saí quase correndo para a central de comboios, onde a Akaluri já me esperava há algum tempo. Era praticamente de madrugada, por isso, a viagem no comboio até àquela pequena vila foi bastante tranquila, na qual cada uma se concentrou na sua atividade, em silêncio. Quando chegamos ao pequeno estúdio que alugámos para o fim de semana, trocámos aquele olhar clássico que costumávamos partilhar desde a infância, sempre que algo nos entusiasmava. Foi um momento divertido.
- Como vão as coisas com o Ichiro? — perguntou ela.
Era verdade que parte de mim já esperava uma pergunta daquelas, por isso não era difícil para mim responder sem pensar muito.
- Vão bem, no geral. Tenho andado a trabalhar bastante, tanto em casa como fora, para ter a certeza que ele se sente o melhor possível... Ainda me sinto tão mal pelo Ichiro, por mais que ele me diga para eu não me importar tanto... É mais forte que eu.
- Eu entendo... Mas ele está a aguentar bem, certo?
- Sim, claro. A magia do Yusuke ajudou bastante nesse aspeto! Mas, se tivesse acontecido o mesmo comigo, não acho que ia ter a força do Ichiro para suportar.
- Também penso o mesmo sobre mim... — comentou ela.
- É, não é? Imagina só como seria... perder um olho...
Ficámos ambas a pensar durante alguns segundos e terminámos a conversa com um simples arrepio. Não havia mais nada a acrescentar. Tentámos distrair-nos ao ver alguns episódios de anime enquanto almoçávamos as sandes que a Akaluri preparara antes da viagem. Mais tarde, decidimos dar uma volta para conhecer melhor a vila e talvez experimentar uma especialidade local. O dia estava a correr maravilhosamente, até entrarmos num restaurante para jantar.
- Não acredito que vais escolher uma pizza havaiana...
- Mas, Akaluri, tu tens que entender que o ananás torna a pizza muito melhor!
- Estás enganada. Isso são os cogumelos.
- Não acredito que estamos a ter esta conversa de novo.
- Esta conversa nunca irá acabar até admitires que o sabor e a consistência do ananás estraga a pizza! Recuso-me a encomendar uma pizza com esse ingrediente diabólico.
Eu ri-me bastante com o comentário da Akaluri, parecia uma fala de um desenho animado. Era óbvio que eu nunca iria dizer uma calamidade daquelas, por isso, encontramos uma pizza que continha não só ananás, mas também cogumelos, e decidimos pedir para dividirem o ananás numa metade da pizza e os cogumelos na outra metade. No final, ficamos contentes com o jantar e assim voltamos para o estúdio. Depois de tomar um duche e vestir o pijama, partimos para uma daquelas conversas habituais de uma noite entre amigas.
- Tu perguntaste-me como é que iam as coisas entre mim e o Ichiro, mas, então e tu com o Hikari? E com o Ryuu? Sei que não é exatamente a mesma pergunta, mas, como vão as coisas entre vocês?
- O Hikari? Uh... — ela hesitou — Bem... Já faz meses que não nos vemos mais, nem nos falamos sequer. Acho que, infelizmente, a nossa amizade acabou por aqui, por mais que eu continue a gostar bastante dele...
- Oh... A sério...? — sentia-me um pouco mal de ter posto a Akaluri a falar de algo que a deixava triste, mas talvez ela precisasse de desabafar um pouco, e também queria saber mais sobre o assunto, por isso continuei — Como é que isso aconteceu? A vossa relação era tão especial...
- Foi aos poucos... As conversas foram-se tornando curtas e sem grande interesse. Mais recentemente, comecei a ficar sempre com a sensação que ele me está a despachar, de alguma forma. Nunca me pergunta nada, por exemplo, embora eu lhe pergunte várias coisas. Para falar sobre ele próprio, o Hikari não perde nem um segundo, mas quando é sobre mim ou outros assuntos, mal sabe responder...
- Porque é que ele está a ser assim?
- Penso que é porque ele mudou de hábitos e de amizades, desde que se mudou para a casa do Ren. Eles agora namoram, então imagino que toda a dedicação do Hikari esteja maioritariamente voltada para ele próprio e para a sua relação amorosa.
- Mas isso não é desculpa...
- Hm?
A Akaluri olhou para mim durante uns segundos, erguendo ligeiramente a sobrancelha. Ela tentava fazer-me perceber que eu lhe tinha feito algo muito parecido, embora nunca tivesse chegado tão longe quanto o Hikari.
- Pois... Desculpa. Mas tu entendes, certo? E eu nunca te vou tratar assim...
- É percebo, mas... Mesmo que alguém esteja bastante ocupado, uma amizade continua a ser algo que se faz a dois, de forma equilibrada. Eu sei que há sempre fases em que uma pessoa poderá ter que se investir mais do que outra na amizade, mas isso é temporário. E nunca se deve pousar todo o peso da amizade apenas nas mãos de uma pessoa sozinha, esperando que ela dure assim...
- Tens razão... Ainda por cima, eu sei o quanto a amizade do Hikari era importante para ti. Custa-me saber que ele a tenha deixado assim de lado, como se, para ele, não tivesse metade do valor que tem para ti.
- É isso que penso também. Talvez estivesse enganada sobre o valor que a nossa amizade tinha para ele, mas, agora que olho para trás, eu apercebo-me de vários sinais que demonstravam isso, aos quais não prestei muita atenção, na altura... Mas, ao mesmo tempo, também havia sinais bastante claros que demonstravam o oposto! Por isso é que eu fiquei tão confusa...
- Não penses muito nisso agora. — sugeri — Deixa apenas as coisas correrem o seu curso. Tens-me a mim, à Naomi, à Sara, ao Ryuu, ao Yusuke... e também a mais uns quantos, se não me engano!
- Hm... A Naomi e a Sara meio que se isolaram juntas e desapareceram do mapa, então não faço ideia do que se anda a passar entre elas... mas espero que esteja tudo bem. Depois existe também a Honoka, mas... ela não é nada próxima a mim, nem faz o meu gênero de amiga. É uma pessoa muito complicada e não gostava muito de me meter com ela.
- Porquê? — perguntei, curiosa.
- É difícil explicar, mas não interessa. — disse ela, dando um pequeno suspiro — E, falando sobre o Ryuu, isso também é outro assunto bem complicado.
- Ele já te falou alguma coisa?
- Sobre o quê?
- Bem... Da última vez que falei com ele... O Ryuu confessou-me que sentia algo por ti. Sabias disso?
- Ele declarou-se a mim no ano novo.
- A sério?! Porque é que não me contaram nada?!
- Bem... Eu não disse nada porque não queria andar a espalhar por aí a sua declaração... Eu não sabia a quem ele tinha falado sobre os seus sentimentos.
- Pois... Mas então como é que aconteceu?
A Akaluri contou-me sobre os acontecimentos entre ela e o Ryuu, no início do ano. Foi uma história ligeiramente confusa, mas também doce e, ao mesmo tempo, um pouco triste... Era difícil para mim pensar na situação em que o Ryuu devia estar naquele momento a lidar com o que sentia, tendo em conta a rejeição que tinha recebido da Akaluri. Mesmo ela confessou que se sentia mal com isso, mas que não o queria incomodar muito mais, por isso decidiu manter a distância e esperar que ele voltasse mais tarde, se ele quisesse continuar a ser seu amigo. Eu respeitava a decisão dela, por isso não tinha nada a comentar sobre isso. No entanto, eu ainda queria saber também a versão do Ryuu. Talvez ele tivesse algo importante a acrescentar.
Mais tarde, acabamos por adormecer de cansaço, passando a seguir o resto do fim de semana de uma forma bastante agradável. No final, o Ichiro acabou por se juntar a nós no domingo, visto que se sentia demasiado sozinho em casa. Com sorte, ele trouxe um jogo de cartas e outro de tabuleiro, que ajudou bastante para o nosso dia ficar mais animado. Mais tarde, eu e a Akaluri quisemos acabar a nossa estadia apenas as duas, com uma ida a uma grande gelataria que tanto falavam que era famosa naquela zona. Sentindo-se ligeiramente culpado pela intrusão, o Ichiro ofereceu-se para nos pagar os gelados, por isso deu-nos uma nota e ficou no estúdio, à espera que voltássemos. Porém, nunca mais encontrávamos a tal gelataria!
- Só vejo bares... — comentou a Akaluri — Não gosto muito desta zona. Será que a gelataria fica mesmo por aqui?
- Da última vez que me lembro de vir cá com os meus pais, a gelataria ficava mesmo pelo caminho desta rua. Só não me lembro de ser tão longe quanto estamos a ir.
Decidimos deixar a conversa de lado durante algum tempo, concentrando-nos apenas em encontrar a tal gelataria que procurávamos.
- Será que é esta? — perguntou ela, duvidosa.
- Hm... Não me parece, mas também é a única gelataria que vimos até agora, então não vejo outra solução. Se calhar, é mesmo esta e, como eu era pequena na última vez que vim cá, fiquei com a sensação que ela fosse maior.
Ambas encolhemos os ombros e decidimos experimentar pedir algo ali. Cada uma pediu um cone com dois sabores diferentes e começamos a fazer o caminho de volta enquanto comíamos.
- Não gosto muito de um dos sabores que escolhi...
- Nem eu. — concordei, rindo.
- Bem... Meio gelado acabou por ir à vida. Que desperdício... Não consigo comer mais.
Depois de fazermos um esforço e comermos tudo aquilo que conseguimos aproveitar do nosso gelado, decidimos deitar fora o pouco que restava. Era verdade que estávamos ligeiramente desiludidas, mas, mesmo assim, nada nos conseguia tirar o sorriso da cara naquele fim de semana, aliás, até mesmo as coisas desagradáveis criavam motivos para um novo riso.
- Não consigo abrir a porta! — exclamei.
- Tenta fazer força de outra forma, com a chave.
- Estou a tentar!
A Akaluri contava cautelosamente troco do gelado nas suas mãos, enquanto esperava que eu abrisse a porta do estúdio. Não tive sucesso.
- Olha... Manaka. Quanto é que pagamos pelos gelados?
- Acho que foi uns 7, pelos dois juntos, porquê?
- É que... Eu acabei de contar o troco e, na minha mão, só vejo 3. Nós entregamos uma nota de 20, certo?
- Sim, foi a nota que o Ichiro nos deu...
Ouvindo a confusão ao pé da porta, o Ichiro decidiu abri-la por dentro, só para reparar que eramos nós a tentar abri-la.
- O que é que se passa com vocês? — perguntou ele.
- Nada... — comentei, tentando esquivar-me lentamente — Só não conseguíamos abrir a porta.
- Hmm... Sinto que estão a tramar alguma. Acho que vocês não me estão a dizer alguma coisa...
- Bem...
Eu e a Akaluri tentamos explicar toda a situação desde o início, a qual o Ichiro achou uma parvoíce completa, mas entendeu perfeitamente. Assim, ele tomou a decisão de voltar lá connosco. No caminho, acabámos por passar pela tal gelataria enorme, que simplesmente não tínhamos visto... E, por fim, chegamos àquela onde tínhamos ido e o Ichiro explicou a situação, sendo-lhe assim dado o resto do troco devido, juntamente com um pedido de desculpas.
- Depois, sou eu que tenho de vir resolver as vossas macaquisses. — comentou o Ichiro, na brincadeira — Para a próxima pagam vocês!
- Hey! — respondi, rindo — Nós só nos esquecemos de confirmar o troco...
- E depois nem conseguiam abrir a porta do estúdio! Nem sei o que seria de vocês agora, se eu não tivesse vindo. Como é que não notaram que faltava tanto troco?
- Ora, se não tivesses vindo, não teríamos ido comer gelados, por isso, tecnicamente, a culpa é tua.
O Ichiro levantou a sobrancelha e parou uns segundos ao olhar para mim, enquanto eu tentava conter o meu riso. De repente, começou a despentear a parte de cima do meu cabelo, até eu implorar que ele parasse. Ao nosso lado, a Akaluri apenas sorria em silêncio, observando aquela situação engraçada. Concluindo, o fim de semana acabou maravilhosamente, tal como acontecia cada vez que o passávamos juntas. Definitivamente, era mandatório voltarmos lá um dia, para repetir a experiência!
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