- Segunda-feira, às 17, em minha casa. E trás comida também, visto que vai ser partilhado. Não te esqueças!

- Claro! — respondi — Lá estarei.

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Ser convidada para o aniversário do Ryuu era um grande passo para o retorno da nossa amizade. Estava ansiosa por finalmente poder voltar a conviver com ele. Como é que ele se sentiria? O que teria ele andado a fazer? Qual seria o momento ideal para explorar essas perguntas sem parecer intrusiva? Receava que qualquer palavra a mais pudesse criar um desconforto desnecessário entre nós...

Enquanto a noite de domingo se aproximava, a minha preocupação crescia: ainda não conseguira encontrar um presente, apesar de ter percorrido inúmeras lojas durante a semana. Quando se tratava de prendas, a palavra "desistir" não fazia parte do meu vocabulário, mas o que poderia oferecer ao Ryuu? "Um desenho, talvez...? Mas de quê?", pensava. Peguei uma folha de papel e, após um breve momento de indecisão fixando a folha branca, decidi desenhar o Wolfo, que terminei horas depois. Exausta, deitei-me na cama e adormeci num mero instante.

O 5 de maio trouxe, como prometido pela meteorologia, horas intermináveis de chuva. Eu pensava já estar preparada para o caso; afinal, uma roupa arranjada podia ser protegida da água exterior com um bom casaco comprido e um guarda-chuva adequado. Porém, o vento era muito mais impiedoso do que aquilo que eu esperava. Com isso, o meu guarda-chuva acabou por quebrar, enquanto ia a caminho da casa do Ryuu. Mal conseguia acreditar no estado caótico em que se encontrava o meu cabelo, mas, ainda pior do que isso, a prenda que trazia em mão estava completamente encharcada. Desesperada, deitei o desenho que fizera ao lixo, ficando encurralada à porta de entrada do seu prédio, sem saber o que fazer. O que pensaria ele de mim ao ver-me naquele estado...? A resposta chegou rapidamente quando o Ryuu espreitou pela sua janela e notou a minha presença, correndo de seguida, para ir ao meu encontro. Com um sorriso acolhedor e uma grande toalha cinza nas mãos, convidou-me a entrar, assim que desbloqueou a porta do prédio.

- Grande molha que apanhaste! — riu ele.

O Ryuu passou a toalha sobre o meu cabelo húmido, pousando-a de seguida à volta dos meus ombros.

- Obrigada... — respondi.

Eu sabia que nada de grave se tinha passado naquele instante, mas, mesmo assim, eu tentava conter os meus olhos para que deles não caíssem nenhumas lágrimas.

- Então? — perguntou ele — Não há razão para ficar assim... Foi só uma chuva, Akaluri.

- Eu sei, mas... Eu trazia um desenho que fiz para ti e agora ele ficou arruinado...

O rapaz de cabelo encarnado observava-me com uma expressão compreensiva. Podia ver que ele também se sentia triste pelo sucedido, mas não deixou que eu me sentisse mal pelo que acontecera. Para provar o seu argumento, o Ryuu envolveu-me nos seus braços, tentando assim consolar-me, calmamente.

- Não faz mal... — sussurrou ele — A intenção de me teres feito uma prenda para hoje, já me deixa contente...

Eu sentia-me agradecida pela sua atitude. Era verdade que fazer aquele desenho me tinha custado um certo tempo e esforço. Eu até estava um pouco orgulhosa do resultado... Mas, tal como dissera o Ryuu, a intenção era de longe o que mais contava, numa situação daquele tipo. Subimos então no elevador, onde depois chegámos ao seu apartamento. Já lá estavam a Manaka e o Ichiro, ambos presentes.

- Olá, Akaluri! — exclamou ela, dirigindo-se a mim — O teu cabelo está um caos... Tal como o meu!

- Pois... — respondi — Esta chuva não ajuda nada... Mas, wow! Chegaste primeiro que eu?

- Eu vim com o Ichiro, então não me atrasei... O que trouxeste de comida para a festa?

- Eu trouxe umas bolachinhas que fiz!

- Oh, ótimo! Eu fiz estrogone. Queres ir dar um toque ao cabelo, rápido?

- Espera... Estrogone?

- Ups! — ela riu — Engasguei-me no final da palavra... Queria dizer estrogonofe. É das comidas que mais adoro!

Enquanto eu e a Manaka tentávamos arranjar o máximo que conseguíamos daquele desastre de cabelo, os rapazes esperavam na sala.

- Então, o Ryuu voltou a falar contigo, como antes? — perguntou a Manaka — Ele também me contou o que se passou, na versão dele.

- O que é que ele disse ao certo?

- Bem... Tal como eu fingi que tu não tinhas dito nada para ele me contar as coisas, também não acho justo contar-te a ti o que ele me disse.

- Se era para não me contares, preferia que nem me tivesses dito que ele falou contigo sobre isso...

- Eu sei... Só te queria informar que ele tem andado mal.

- Já conseguia imaginar... Mas a que ponto?

- Ele tem-se isolado bastante e isso não é bom.

- Mas também tens de perceber que eu fiz apenas aquilo que devia ter feito... Não acho que manter-me constantemente ao pé dele após rejeitar a sua declaração lhe fosse fazer bem algum. Aliás, afastar-se até foi mais uma decisão dele do que minha, a qual eu apenas respeitei. Se ele agora decide voltar a conviver comigo, de certeza que é porque já se deve sentir menos mal com o que aconteceu, não...?

A Manaka suspirou, não continuando a conversa. Eu assumi que o seu silêncio fosse um voto para a minha razão. De seguida voltamos para a sala, onde vimos que um pequeno chapéu de aniversário tinha sido colocado na cabeça do Wolfo, o que nos deu imediatamente uma grande vontade de rir.

- Agora estamos prontos para a festa! — exclamou o Ryuu — Alguém quer beber alguma coisa?

- Por enquanto estou bem, obrigada! — respondi.

- Não é demasiado cedo para começarmos já a beber? — questionou o Ichiro.

- Estou a falar de bebidas sem álcool... Quero evitar confusões desnecessárias... — o Ryuu lançou-me um pequeno olhar discreto, que eu entendi — Por isso, hoje, o álcool está proibidíssimo! As minhas sinceras desculpas.

- Oh. — respondeu o Ichiro — Logo agora que já chegaste à idade legal para beber, não bebes.

- Hehe! Pois, é irónico, eu sei. Mas fico contente por saber que teria alguém para beber comigo, visto que a Akaluri e a Manaka nem sequer se aproximam disso. De qualquer das formas, felizmente o álcool não é necessário para haver diversão e convívio entre todos nós.

Eu estava prestes a responder ao Ryuu, até que ouvi uma acentuada voz feminina, vinda do corredor.

- Peço desculpa, demorei algum tempo a preparar-me...

Do quarto do Ryuu, saiu uma rapariga de estatura robusta, que ajustava a sua elegante saia lilás com um toque cuidadoso. Os seus longos cabelos castanhos eram soltos e esculpidos em ondas suaves. No seu peito, podia observar uma pequena tatuagem, em forma de semicolcheia. O seu rosto arredondado com lábios pintados de carmesim, revelava nele um talento notável para a arte da maquilhagem. Enquanto a observávamos, eu, o Ichiro e a Manaka trocávamos olhares confusos, sem conseguir identificar quem era aquela pessoa.

- Oh! Já estava a ver que nunca mais saías do quarto! — brincou o Ryuu — Apresenta-te ao grupinho!

- Olá! O meu nome é Demiru e tenho 18 anos; vou fazer 19 em novembro. Estou cá desde ontem, porque vim da capital.

- Para vos dar contexto, a Demiru foi a primeira e última pessoa com a qual namorei, antes de vir para cá. Como sentia saudades, decidi convidá-la para os meus anos! Conhecemo-nos em aulas de apoio a português.

- Ryuu! Assim até deixas isto com uma atmosfera toda estranha... — comentou a rapariga.

Com uma expressão alarmada, dirigi um olhar para a Manaka, como se tentasse transmitir uma mensagem por telepatia. Tive a sensação de que ela captou imediatamente o que eu estava a pensar: não era nada uma boa ideia o Ryuu ter convidado a ex-namorada para o seu aniversário. O simples facto de ela ter passado a noite ali, tornava a situação ainda mais complicada e desconfortável. Perguntava-me se o Ryuu, afundado nas suas emoções, teria decidido procurar refúgio numa paixão do passado, achando que isso poderia aliviar a sua angústia. Estava com um mau pressentimento sobre aquela situação.

- Aqui não há que ter vergonhas! — falou o Ryuu — Por isso, apresento-te a albina Akaluri, o pirata Ichiro e a algodão doce Manaka.

- Bem... o resto até entendi, mas porquê algodão doce para a Manaka? — questionou a Demiru.

- É por causa do seu cabelo rosa, ondulado. E porque ela é toda fofinha!

- Oh. Eu acho que é muito bonito! Até já pensei em pintar o meu cabelo de rosa, só que mais vibrante.

- Obrigada! — comentou a Manaka — Mas o meu rosa salmão não é pintado...

Eu apenas acenei educadamente, sem saber muito bem o que dizer ou como reagir. A presença daquela rapariga, de quem o Ryuu só me tinha falado esporadicamente, apanhou-me completamente desprevenida. Não compreendia a decisão dele em convidá-la para o aniversário, e ainda menos o fato de ela ter passado lá a noite. Contudo, eu sabia que, de alguma forma, uma parte da culpa poderia ter sido minha, então não podia julgá-lo por completo.

Dirigi-me para a mesa da sala e pousei lá as bolachas que tinha preparado para a ocasião. De seguida, sentei-me numa das várias cadeiras, observando o resto da comida, exposta à minha frente. Não estava com vontade de comer nenhuma daquelas coisas, então peguei simplesmente num dos copos e servi-me com sumo de maçã. Enquanto isso, via que a Manaka conversava avidamente com a Demiru no sofá, enquanto o Ryuu e o Ichiro mantinham conversa ao lado. Ao observá-los, sentia-me um pouco afastada de tudo, mas, antes de entrar no beco sem saída da minha cabeça, o Wolfo rapidamente apareceu diante de mim, pedindo carinhos. Não consegui evitar um sorriso ao ver o seu chapéu de aniversário às bolinhas, e rapidamente me ajoelhei no chão, acariciando a sua barriga de pelo claro e suave. Ele parecia contente.

- Deveríamos cantar os parabéns agora? — perguntou a Manaka.

- Bem me parecia que estavas ansiosa para provar o bolo de chocolate que encomendei para hoje! — respondeu o Ryuu — Quase me esquecia de o pôr na mesa... Já o vou buscar!

O Ryuu pegou no bolo que havia colocado no frigorífico, protegido por uma caixa de cartão. Assim que ele o retirou, toda a gente se dirigiu para a mesa, enquanto eu ia lavar as minhas mãos.

- Onde vais, Akaluri? — perguntou a Manaka.

- Preciso de lavar as mãos, porque estive a mexer no cão. Eu já venho ter convosco novamente.

- Oh, também preciso de as lavar então! — exclamou o Ryuu — Quase me tinha esquecido que tinha andado a brincar com o Wolfo ainda há pouco... Eu vou contigo.

No momento em que chegamos à casa de banho, não consegui evitar meter conversa com o Ryuu, enquanto a água vinda da torneira me escorria pelas mãos.

- Em que termos estás com a tua ex-namorada?

- Porque é que isso seria algo interessante para ti?

- Bem... Eu não sei porque é que a convidaste... Ela parece-me simpática, mas, apenas não acho que tenha sido uma boa ideia. Se vocês já são algo do passado, não deviam manter contacto tão próximo, muito menos andar a dormir na casa um do outro. Já para não falar que eu nem sei se foi apenas "dormir", porque, se é esse o caso, então é ainda pior...

- Akaluri. Peço desculpa por dizer isto, mas... Eu é que decido o que faço, tendo em conta as minhas vontades. Infelizmente, tu achares que é uma boa ideia ou não, não é algo que entra nos meus critérios de escolha, quando decido fazer algo. Confirmo-te que, de facto, não foi só "dormir", mas que diferença é que isso te faz a ti diretamente? Nenhuma.

- Eu só estou preocupada contigo...

- Mesmo que não seja uma boa decisão, foi algo que eu fiz sozinho, então, se houver consequências, eu receberei todas de braços abertos. Se não estás contente com isso, então apenas aceita. Não preciso que andes a preocupar-te comigo, porque isso não irá mudar nada que já tenha acontecido. Imagino que já tenhas coisas suficientes para te preocupares contigo mesma.

Não podia negar que os argumentos do Ryuu eram verdadeiros. No entanto, a forma fria e direta com a qual se expressou, fez-me sentir que apenas estava a intrometer-me na sua vida, sem motivo. Pensava que ele ia entender que eu estava apenas preocupada e que a minha intenção era somente aconselhar sobre o que achava ser melhor para ele. No entanto, percebi que não era o meu lugar comentar essas questões, especialmente considerando que devia ser eu o maior motivo do seu sofrimento, naqueles últimos meses. Sentia um nó no estômago, uma mistura dolorosa de arrependimento, tristeza e alguma frustração, ao pensar que podia ter piorado ainda mais as coisas entre nós. Apesar das minhas boas intenções, eu sabia que nada seria suficiente para reparar a fissura que havia criado entre nós, com a rejeição.

- Desculpa... — disse, saindo da casa de banho.

- Akaluri... — chamou o Ryuu, que eu já quase não ouvia.

Eu peguei nas minhas coisas e saí do seu apartamento, o mais rápido possível, sem ter que dar explicações a ninguém. Sentia que não me queriam realmente ali, especialmente o próprio aniversariante... E não queria que tivessem de aturar o meu desconforto. Não tinha ânimo para festejar, nem vontade de fingir que estava tudo bem. Nada podia negar que tudo havia ficado estranho entre mim e o Ryuu, desde o ano novo; era impossível ignorar isso. Desliguei então o meu telemóvel e corri para um canto protegido da chuva, na esperança de não ser vista por ninguém, ao tentar acalmar-me. Refugiei-me então num túnel próximo, onde o leve som do meu choro ecoava pelas paredes ao meu redor, húmidas e escuras. Eu tentava chorar o mais baixo possível, para que o eco não me denunciasse, mas cada som parecia tornar a minha presença mais real, sendo que tudo o que eu queria naquele momento era desaparecer. Era verdade que já me havia sentido de forma parecida antes, mas nunca naquela intensidade. Desde o começo do ano, parecia que tudo se estava a desmoronar de uma vez só... Todos os acontecimentos me voltavam à mente, tão claros que pareciam ser ainda do dia anterior.

- Luri?

Sentada nas escadas, eu levantei o olhar, que antes direcionava o chão. Lá, estava o Yusuke, de pé à minha frente, segurando um guarda-chuva. Apressei-me a passar os pulsos pelo rosto num só gesto, limpando as lágrimas o melhor que conseguia.

- O que fazes aqui? — perguntei, fingindo uma voz normal.

- Essa era a pergunta que eu te queria fazer. Apenas passei por aqui para voltar para casa, abrigado da chuva, mas... o que tens?

As palavras estavam presas na minha garganta, como um nó que não conseguia desatar. Sentia como se, à mínima sílaba que falasse, iria desmoronar-me em lágrimas. Ele entendeu o meu silêncio e, sem hesitar, sentou-se a meu lado nas escadas, sem dizer nada. Ficámos assim por uns poucos minutos; tempo suficiente para eu conseguir respirar fundo e, eventualmente, encontrar forças para falar.

- A verdade é que… Na passagem de ano, quando o Ryuu estava bêbado e o levei para o bungalow, ele beijou-me antes de adormecer. Eu não gostei, mas não fiquei chateada. No dia seguinte, ele confessou que gostava de mim... Pedi-lhe tempo para pensar numa resposta, mas no final do mês rejeitei-o, porque me dei conta que não sentia o mesmo. Desde então, a nossa relação ficou estranha, quase já não nos falamos mais. E hoje, no aniversário dele…

- Como correram as coisas lá?

- Passei horas a fazer um desenho para lhe oferecer como prenda, mas a chuva destruiu tudo. Ele disse que não fazia mal, mas para mim foi triste. Mesmo assim, mantive-me serena com isso, porque não era nada de grave... No entanto, assim que lá entrei, comecei a sentir-me um pouco sozinha e posta de parte. A Manaka parecia estar desapontada comigo, por alguma razão. E o Ryuu lançava-me olhares quando falava de não haverem bebidas alcoólicas, como se estivesse a mandar-me indiretas. Quando vi que a ex-namorada dele estava lá, já desde a noite anterior… Isso deixou-me preocupada com ele, então tentei falar-lhe em privado, mas o Ryuu respondeu-me de forma crua e fria, dizendo para deixar de me preocupar com ele e que a minha opinião não interessava... Eu sabia que ele tinha motivos para dizer aquilo, mas... senti-me tão mal que não quis continuar lá na festa... Parece que ele não me consegue ver como uma amiga. Eu gosto muito do Ryuu, mas se ele não consegue aceitar a minha preocupação genuína, eu não sei o que mais devo fazer. Já lhe dei meses para se recompor, mas temo que não foi suficiente… E sinto que a culpa é toda minha.

- Luri, ouve... — falou ele, pousando a mão sobre a minha — Isto não é culpa tua. Apenas fizeste o que achavas ser correto e foste sincera com ele, e isso era tudo o que podias fazer. Eu sei que é difícil, mas às vezes é preciso deixar as coisas seguirem o seu rumo. Se ele ainda te quiser na vida dele como amiga, ele vai encontrar uma maneira de o mostrar, mais tarde ou mais cedo. É normal sentires-te mal com tudo, mas não me parece que o Ryuu tenha agido assim de propósito. Às vezes, é complicado saber como lidar com alguém que nos magoou, mesmo que tenha sido sem qualquer intenção. E, por mais que te sintas responsável pelo seu estado, tens de lembrar que não podes carregar o peso de situações que não controlas.

- Eu não consigo evitar... Gostava de poder fazer algo...

- Eu sei.

De repente, senti o meu sangue aquecer aos poucos, enquanto o Yusuke passava a mão vagarosamente pelas minhas costas, tentando reconfortar-me. Eu sabia que ele tinha razão, no entanto, não era isso que ia fazer a minha inquietação desaparecer. E algo me dizia que ele conseguia entender isso também.

- Obrigada... — murmurei.

- Não tens que agradecer, mas olha, aqui fora está muito frio e estás toda encharcada... Não trouxeste um guarda-chuva?

- Trouxe, mas ele partiu antes que pudesse chegar à casa do Ryuu...

- Se continuares assim, ainda vais ficar doente... Anda, levanta-te dessas escadas e vem comigo.

O Yu levantou-se, estendendo a mão para mim. Agarrando-a, consegui também colocar-me de pé à sua frente. Ambos saímos daquele sítio e andamos a passo rápido, abrigados pelo seu guarda-chuva azul escuro, que um dia já me tinha sido emprestado. Por alguma razão, sentia que respirava mais facilmente, como se o ar, que antes parecia estar preso nos meus pulmões, pudesse finalmente fluir. Era um sensação que me acontecia inúmeras vezes na presença do Yusuke, que me deixava sempre mais calma.

Quando chegámos ao seu pequeno apartamento, o Yu convidou-me a tomar um duche, deixando de lado um dos seus pijamas para mim. Enquanto isso, a minha roupa secava no aquecedor de toalhas. Assim que entrei na cozinha, notei que ele havia servido algum chá em duas pequenas chávenas, acompanhado por bolachas de canela, com um aspeto delicioso.

- Sei que está quase na hora de jantar, mas pensei que isto te faria sentir melhor. — explicou ele, com um gentil sorriso.

- Já tinha planeado jantar tarde na casa do Ryuu, por isso não te preocupes. — respondi, sentando-me na cadeira à sua frente — Não tenho pressa de ir para casa hoje, como é costume.

- Nesse caso, porque não ficas cá para jantar? Estava a pensar fazer uma salada russa, se gostares.

- Posso? Eu não quero incomodar ninguém. Sei que não vives sozinho…

- Para ser honesto, já nem sei mais se vivo sozinho ou não... As coisas têm andado estranhas com as raparigas. No novo trabalho, a Hyuna faz horários rotativos, incluindo turnos noturnos, como hoje. Ela evita falar ao máximo e poupa dinheiro em tudo. Pelo que percebo, parece que está a planear sair daqui e mudar-se para um estúdio ou algo assim. E quanto à Honoka...

- O que tem a Honoka?

O Yusuke pousou a chávena de chá, suspirando.

- A Hyuna contou-me o que a Honoka fez, juntamente com o Hideki. Ela disse-me que já sabias, porque tinha acabado de voltar da tua casa na altura. O problema é que eu não sei como reagir... A Hyuna pediu-me para não dizer nada à Honoka, mas agora sinto que ando a evitar um pouco, sem querer. Tenho receio que ela desconfie que eu sei de algo...

- E a Honoka notou que tens andado distante?

- Acho que sim. Sempre que saio de casa, ela começa a mandar-me mensagens constantemente... Antes mandava apenas uma ou outra, porque sabia que, se eu saía sozinho, era com algum objetivo em mente, nem que fosse só para apanhar ar. Mas agora...

- Não achas que devias falar com ela?

- Sim, acho; mas o que é que lhe vou dizer? "Olá Honoka, eu sei que tentaste matar a Hyuna"? Não me parece a melhor abordagem... Gostava de evitar confusões, mas esta situação é muito delicada. Talvez o melhor seja ajudar a Hyuna a sair de casa, e depois lido com a Honoka sozinho...

- Mas isso é exatamente o que ela quer!

- O que queres dizer com isso? — perguntou o Yu, confuso.

- É que...

Fiquei em silêncio por uns segundos, tentando reorganizar os meus pensamentos, antes de responder. Eu tinha quase a certeza que a Honoka gostava do Yusuke, mas o que ela tinha feito para o ter só para ela, não era de forma alguma a maneira correta de amar alguém. Não que eu tivesse muito conhecimento na matéria, mas parecia-me óbvio que mentiras, manipulações, esconderijos e traições não podiam levar a um amor verdadeiro. Se o Yu seguisse por aquele caminho, acabaria por se afastar das pessoas que tanto lhe importavam, isolando-se apenas com a Honoka. Só de pensar nessa alternativa, sentia uma crescente ansiedade. Apertei a chávena de chá com alguma força, tentando acalmar-me, mas o Yu notou a minha agitação.

- Ainda não te sentes melhor?

- Eu sinto-me melhor, sim... Graças a ti. Obrigada...

- Então, o que tens? Acabaste por não responder.

- Yu... Eu sei que a Honoka gosta de ti. Ela pode não ter dito abertamente, mas é óbvio. E... eu sei que não é bom dizer isto, mas, da maneira que ela age, a Honoka parece estar a tentar afastar-te das pessoas que te são queridas, para te guardar só para ela. E eu não quero isso, porque... Quer dizer... Porque, se isto continuar assim, vais acabar por ficar isolado.

- Hm... — o Yusuke olhou para mim com uma expressão pensativa e um ligeiro sorriso contido — Eu já tinha notado que ela gosta de mim. Às vezes, até parece que nem o tenta esconder, mas... não é esse comportamento que fará com que goste dela de volta. Fazer mal às pessoas que gosto não é o caminho certo, pelo contrário. E, se tu percebes isso tão bem, é porque, de alguma forma, ela também te afetou...

- Ela não me fez nada...

- Pode ter feito nada diretamente, mas incomodar-te na mesma, de outras maneiras, mas... de qualquer das formas, para mim, a idade dela é logo um problema. Embora se pudesse pensar que, por ser mais velha, ela seria mais madura e equilibrada quando está interessada em alguém, parece que afinal não é esse o caso. Já para não falar do facto que eu a vejo como uma irmã ou até mesmo uma mãe, e, definitivamente, não alguém para estar numa relação. Eu valorizo a sua companhia como amiga e até mesmo como alguém que considero de família. A Honoka consegue ser divertida quando quer, mas, quando há outras pessoas por perto, ela torna-se fria. É estranho.

- Mas onde está ela agora?

- Foi a um sítio de arcade games... Disse que sentia saudades e queria estar um pouco sozinha, por uma vez. Não fica muito longe daqui, mas acho que ela referiu que ia jantar lá.

- Então tens estado só tu aqui?

- Estou eu e estás tu agora! — brincou o Yu — Mas é mesmo melhor ficares para jantar, já que ainda tens de esperar que a tua roupa seque.

- Ah, tens razão... Obrigada.

Discutimos sobre diversos assuntos enquanto saboreávamos o chá. A conversa fluía naturalmente, abordando temas que iam desde preferências, a pequenos acontecimentos do dia a dia e até mesmo às nossas memórias de infância. Felizmente, aquele ambiente mais descontraído ajudava-me a esquecer, ainda que por breves momentos, as preocupações que trazia comigo ao chegar. De seguida, decidimos preparar o jantar sem pressa, aproveitando o tempo que tínhamos. Entre algumas brincadeiras e comentários sobre a receita, o tempo passou sem que nos déssemos conta. A salada russa ficou surpreendentemente deliciosa; embora simples, era possivelmente a melhor que já tinha provado. Mais tarde, depois de arrumarmos a cozinha, fomos para o quarto. Sentámo-nos na parte inferior do beliche, onde se instalou um silêncio, por alguns instantes. Enquanto o meu olhar percorria o quarto, reparei num pequeno peluche encostado ao canto da cama, quase escondido na parede. O seu aspeto familiar chamou a minha atenção, e, sem pensar duas vezes, peguei nele.

- Tive que meter o peluche ali porque, se o deixo em qualquer outro lugar, a Kiara acaba por brincar com ele.

- Este é o peluche que te ofereci no Natal, não é?

- Sim. — confirmou o Yusuke, sorrindo — Eu costumo dormir com ele.

- É um cãozinho mesmo fofo...

- Adoro os seus olhos azuis brilhantes! Pena que a Kiara também gosta.

De repente, ouvimos o miar de uma pequena gata que se aproximou delicadamente dos nossos pés.

- Parece que alguém entendeu que estávamos a falar dela... — brinquei — Olá, fofinha!

A gatinha siamesa da Hyuna parecia contente com os carinhos que recebia, até que, eventualmente, se afastou. Logo a seguir, o Yusuke deitou as costas na cama de braços abertos, suspirando.

- Estava mesmo a precisar disto! Deita as costas como eu, vai-te fazer bem.

Eu voltei a pegar no pequeno peluche preto, deitando-me a seguir ao pé do Yu. Senti um certo alívio. Com isso, acabei por fechar os olhos durante uns segundos. De repente, senti uma almofada bater-me levemente na cabeça.

- Hey! O que foi isso? — perguntei, rindo.

- Nada... — ele esboçava um sorriso suspeito, enquanto me atirava outra almofada.

Sem pensar duas vezes, peguei na almofada mais próxima e atirei-a de volta. O Yusuke riu-se e, em meros segundos, a simples brincadeira transformara-se numa autêntica guerra de almofadas.

- En garde! — exclamei.

- Baguete! — brincou ele de volta.

Começamos então a guerrear amigavelmente, enquanto nos ríamos às gargalhadas. Não sabia se o Yusuke o tinha feito de propósito, mas, de repente, parecia que tudo aquilo que eu sentia de mal tinha somente desvanecido, de um momento para o outro. Finalmente conseguia disfrutar de um puro momento de alegria na sua plenitude, como se, para além daquele pequeno quarto, não existisse mais nada. Pelo menos, era assim que me sentia, até ouvir alguém abrir a porta.

- Yusuke?!

O meu coração deu um pequeno salto. Estávamos os dois numa posição bastante particular, ofegantes e imóveis como pedra, enquanto o Yusuke me segurava ambos os pulsos. As almofadas, já ambas no meio do chão. Definitivamente, aquilo não ajudava a situação de todo.

- Oh, Honoka... Já voltaste? — disse ele, saindo de cima de mim — Não te ouvi chegar.

- Claramente.

- Ahm... O-olá, Honoka... — cumprimentei, enquanto me levantava.

Rapidamente, sentei-me na cama com os pés assentes no chão e comecei a arranjar o cabelo com os dedos. Eu não sabia como agir à sua frente, pois nenhum centímetro do meu corpo se sentia minimamente à vontade naquele momento. A situação era embaraçosa e eu não conseguia deixar de pensar no que ela poderia estar a imaginar.

- Espero não ter interrompido nada.

- Estávamos só a brincar... — respondeu o Yu.

- A brincar? — repetiu ela, desconfiada — Então porque é que ela está com o teu pijama?

- Ah, isso foi porque estava a chover torrencialmente lá fora, como também deves ter visto. A Luri ficou completamente encharcada... Encontrei-a por acaso, quando saí mais cedo. Claro que não a ia deixar na rua ao frio, então convidei-a para vir comigo, para que pudesse tomar um duche quente e beber um chá.

- E ela ainda não teve tempo de voltar para casa? A chuva já parou.

- Estávamos à espera que a sua roupa secasse.

- Hm... Bem, vou tomar um duche agora, por isso tirem a roupa que estiver na casa de banho, porque depois já não vão poder lá ir.

A Honoka dirigiu-se à cômoda dentro do quarto, enquanto o Yusuke foi buscar as minhas roupas. Deixava-me um pouco triste ver um momento tão bom terminar daquela forma, mas não culpava ninguém. Após a Honoka ter entrado na casa de banho e eu já me ter vestido com a minha roupa, deixei o pijama emprestado, dobrado cuidadosamente em cima da cama do Yu, e chamei-o para entrar no quarto novamente. Assim que ele entrou, o Yu pediu desculpas pelo que acabara de acontecer. Eu apenas lhe respondi com um abraço apertado, pois sabia que ele não tinha absolutamente culpa de nada, afinal, o que seria de mim naquele dia, se não fosse a sua gentileza? Provavelmente teria ficado naquelas escadas húmidas durante horas, até achar que era tempo de voltar para casa, completamente abatida e de olhos secos de tanto chorar. O Yu retribuiu o abraço com igual intensidade, e assim ficámos durante algum tempo. Antes de nos separarmos, ele inclinou-se suavemente e deu-me um pequeno beijo na na bochecha. Embora ele tenha insistido para me levar a casa, acabei por recusar. Não queria agravar a confusão. Por isso, segui o meu caminho, aproveitando a tranquilidade da noite.