Akaluri - Parte 2
15 Evanescência
Já estávamos tecnicamente no último mês de férias... embora, na verdade, não devesse chamar 'férias' ao que tinha vivido nos últimos tempos. Sentia-me ainda mais exausta do que quando as aulas e os exames haviam terminado. A propósito, estava naquele momento a caminho da escola para consultar as notas, depois de ter terminado o turno do almoço no café. Com tanto que me acontecera nos últimos tempos, não tive oportunidade de passar por lá antes, mas o mês de agosto tinha acabado de começar e, com ele, começava também o período de inscrições para o ensino superior. Era urgente saber as minhas notas o quanto antes.
- Akaluri? — ouvi uma voz familiar.
Assim que olhei para trás, fiquei sem saber o que sentir ou como reagir: era o Ryuu. As coisas tinham ficado muito estranhas desde a última vez que o tinha visto em maio, quando desapareci a meio da sua festa de aniversário. Era algo que me arrependia de ter feito, mas ainda não lhe tinha pedido desculpa.
- Desculpa... — dissemos em coro.
- Huh? — questionei — Porque me estás a pedir desculpa?
- Isso pergunto eu.
- Sinto-me mal por ter ido embora a meio do teu aniversário, não devia tê-lo feito... devo ter arruinado completamente o ambiente depois disso. E... por mais que estivesse preocupada com teres estado com a tua ex-namorada, eu não me devia ter metido.
- Oh. Ahm... Não fizeste nada de mal, eu percebo. Eu também não me estaria a sentir bem na tua situação. Eu é que tenho de pedir desculpa, pela forma que te falei e pelas coisas parvas que disse... Tu tinhas razão sobre o que disseste no meu aniversário. Eu ainda estava magoado com a rejeição e estava a tentar distrair-me para não pensar nisso...
Eu apenas olhava para o Ryuu, sem saber o que lhe responder. Talvez até pudesse ter tido razão, mas os seus anos não eram o momento mais indicado para lhe falar desse assunto, sobretudo quando as coisas já tinham sido feitas e não havia nada a mudar sobre a sua ex estar ali. Pelo menos, eu devia ter esperado mais um pouco, mas tinha-me simplesmente saído no momento...
- Já agora, o que é isso? — ele perguntou, apontando para o saco que eu segurava.
- Ah, isto? — questionei, levantando ligeiramente o saco — É um cheesecake.
- Um chesecake? — ele arqueou uma sobrancelha — É para alguém?
- Porque estás a assumir que é para alguém? — perguntei, cruzando os braços com um sorriso.
O Ryuu apenas riu e encolheu os ombros, como se a resposta fosse óbvia.
- Não é como se fosse costume andares por aí a carregar bolos só para ti... Ou andas?
- Sim, tens razão — admiti — É para um aniversário, fui eu que fiz lá no café.
- Não sabia que podíamos fazer bolos para nós no café.
- Não é algo que faço normalmente, mas o chefe deixou-me entrar mais cedo e usar a cozinha para preparar este. Achei que seria um bom presente... Não é nada de especial, mas fiz com carinho.
- De certeza que a pessoa vai adorar. E, olha, se fizeres um bolo para o meu próximo aniversário, prometo que não me importo de esperar o tempo que for preciso, desde que não saias a correr! — afirmou ele, rindo.
Eu sorri com o que ele acabara de dizer. Estava a começar a sentir-me um pouco mais à vontade em relação à situação complicada do seu aniversário, mas ele logo mudou de assunto.
- Oh! Tiraste 18 no exame de desenho? Wow!
- A sério? — perguntei, verificando a folha colada à parede — Pensei que me tinha corrido mal...
- Como é que um exame de desenho te poderia correr mal?
- Temos apenas três horas para fazer três desenhos... É muito stressante, ainda por cima tendo em conta que têm de ser dos melhores desenhos que consigamos fazer, visto que é um exame final.
- Ah, entendi. Visto assim, não me parece lá muito engraçado, não.
- E estás a falar de mim, mas tiraste 20 a mandarim!
- Mas mandarim é fácil.
- Sim, claro, muito fácil! — respondi, ironicamente — Porque escolheste aprender essa língua? Queres fazer alguma coisa que tenha a ver com isso no futuro?
- Não sei, sempre gostei de aprender línguas novas. Gostava de viajar pelo mundo um dia e, quantas mais línguas souber, mais útil será para mim!
- Oh, que giro! A Manaka iria adorar ouvir-te dizer isso.
- A Manaka?
- Sim, ela adoraria viajar, só não tem dinheiro para isso agora.
- Pois... universidade, não é? Por falar nisso, já decidiste para qual vais, Akaluri?
Mais uma vez, fiquei estupidamente a olhar para ele confusa, sem noção do que lhe dizer como resposta. Já estava um pouco atrasada para ir ver as notas, como poderia sequer ter tido tempo de pensar exatamente para onde queria ir e o que queria fazer? Mesmo assim, eu sabia que já deveria ter uma resposta na ponta da língua... não havia muito mais tempo que sobrasse para fazer candidaturas.
- Ainda não tenho a certeza...
- Por esta altura já devias ter uma lista de escolhas!
- Eu sei, mas pronto... e tu?
- Eu quero seguir biologia marinha.
- Wow.
- Porque estás impressionada?
- Esquece. Também não sei porque estou impressionada de um tubarão querer seguir estudos de biologia marinha.
Parecia que o Ryuu não esperava aquela resposta, o que o fez rir de imediato.
- Anyways... — falou ele, de seguida — Eu estava a pensar em mandar-te mensagem, por isso ainda bem que me cruzei contigo hoje. Eu não te vi no baile de finalistas... Porque não foste?
- Que baile de finalistas?
- Em junho... Não sabias?
- Para ser honesta, tenho estado meio a dormir nas aulas há um tempo... Não me lembro sequer de terem referido que ia haver uma festa.
- A menina Akaluri a sonhar acordada nas aulas? Quem é o sortudo?
Eu olhei para o lado, sentindo as bochechas aquecer repentinamente. Eu queria responder, mas, por alguma razão, sentia vergonha. Era tudo novo para mim, então não sabia bem como falar do meu primeiro namoro, sobretudo ao Ryuu.
- Ah, adivinhei! É mesmo um rapaz.
- Sim... — respondi, sorrindo ligeiramente, de desconforto.
- Então? Conta!
Eu não sabia bem o que lhe devia dizer a respeito do meu namoro. Seria possível que o Ryuu ainda gostasse de mim e que a conversa o estivesse a magoar por detrás daquele ar brincalhão? Talvez ele já estivesse bem com aquilo ou talvez os seus sentimentos já se tivessem dissipado, mas como poderia ter a certeza? Era óbvio que não lhe iria perguntar tal coisa... Não o queria deixar mal.
- Hey, olha... — sugeriu ele, enquanto esperava a minha resposta — Gostavas de ir ao café ao pé da escola falar um pedaço? Trocar novidades e tal...
- Hm... Obrigada pelo convite, mas eu já ia ter com o Yusuke daqui a nada. É o aniversário dele...
- Ah, então é o Yusuke. Bingo! — eu não lhe respondi, limitando-me somente a acenar com a cabeça, de modo a confirmar — Mas então como estão as coisas entre vocês?
- Nós começamos a namorar há um tempo...
- Oh, parabéns! Como foi? Quando? Quem se declarou?
- Hm... Bem... Foi a meio do mês de maio... e... Ninguém se declarou, acho? Quer dizer... foi ele? Mas... Não sei... Nós simplesmente beijamo-nos e...
- Ah, estou a ver.
Eu não sabia como continuar aquela história. Não me estava a sentir bem ao partilhar mais detalhes com o Ryuu, sobretudo com a situação que havíamos experenciado no ano novo... Entretanto, com um olhar ligeiramente distante, ele pousou a sua mão na minha cabeça, deslizando-a pelo meu cabelo enquanto se despedia. Eu somente lhe lancei um pequeno sorriso de lado como resposta, imaginando que havia chances que ele pudesse estar a sentir-se um pouco magoado ou triste com a conversa. Com isso, acabei por ir, embora sentisse um certo peso no coração de deixar o Ryuu assim, mas, infelizmente, não havia nada que pudesse fazer sobre o que ele sentia, por mais que quisesse ajudar.
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- Yu? — disse, abrindo a porta do seu apartamento.
- Luri! — respondeu ele, vindo do quarto para me envolver nos seus braços — Então, como foram as notas?
- Foram boas...
- Não me pareces muito contente.
- Eu cruzei-me com o Ryuu.
- O Ryuu? Já não o vias há quanto tempo?
- Desde o aniversário dele, no dia em que me encontraste no túnel.
- Isso já foi há três meses... Mas aconteceu algo?
- Não, apenas falamos um pouco. É só que... eu sinto-me mal por ele. Nós éramos tão amigos e depois...
- Tu não tens culpa, Luri. — interrompeu-me o Yu, passando a mão pela minha bochecha.
- Eu sei, mas...
- Xiu. — resmungou o Yu, beijando-me de seguida — Eu sei como te deves estar a sentir, mas qualquer pessoa passa por isso, nem que seja uma vez. Tens de lhe dar tempo e espaço; ele vai ficar bem.
Não pude deixar de soltar um pequeno sorriso depois do seu beijo. Por pior que me sentisse, nenhum sentimento era capaz de me abalar tanto com a presença do Yusuke. Ele sabia sempre como me fazer sentir melhor...
Já passavam algumas semanas desde que ele recebera alta do hospital. Embora fisicamente recuperado, eu sabia que o Yusuke estava longe de se sentir completamente bem. Ele ainda estava de baixa no trabalho, devido ao acidente e ao luto. Eu tentava visitá-lo todos os dias, mesmo que muitas vezes fosse apenas para lhe fazer companhia ou verificar como ele se sentia. Eu tinha noção que o Yusuke e a Honoka tinham partilhado toda uma vida; sabia que aquela morte tinha deixado um certo vazio no seu coração. Mesmo estando ao pé dele, sabia também que nunca iria preencher o lugar que ela tinha ocupado, e a minha presença, por mais reconfortante que fosse, não substituía a sua perda. Eu notava que havia momentos onde ele parecia distante e perdido em memórias, mas outros onde o Yusuke de antes ainda emergia. Sabia que ele pensava nela, e, ao mesmo tempo tentava, talvez por mim, não deixar que aquilo o consumisse por completo.
- Feliz aniversário! — exclamei, entregando-lhe um presente que havia retirado da minha mochila rosa.
- Uma prenda? Obrigada, Luri, mas não era preciso...
Com um certo receio para não rasgar nem um milímetro do papel de embrulho, o Yusuke abria cuidadosamente a prenda que lhe oferecera. Com um ar incrédulo, ele virava o livro de trás para a frente na maior cautela, folheando curiosamente por entre algumas páginas.
- Era esse o livro que querias, não era?
- Sim... Estou mesmo contente. Já o quero há tanto tempo! É do meu fotógrafo favorito... Obrigado, Luri, nem sei o que dizer.
- Não precisas de dizer nada! Sei que estes tempos têm sido difíceis, mas não iria sentir-me bem se não tentasse motivar-te para continuares a fazer aquilo que gostas! Espero que consigas aprender muito com ele e melhorar as tuas capacidades.
- Obrigado, vou usá-lo muito... E eu também tenho uma prenda para ti.
- Para mim?! No teu aniversário?!
- Sim. Fecha os olhos.
- Ok... — respondi, fazendo o que ele me pedira.
Num instante, senti a sua mão a segurar na minha com a maior gentileza, conduzindo-me devagar até à varanda do seu apartamento. Logo de seguida, os seus braços pegaram em mim, carregando-me como princesa.
- Estás pronta? — perguntou ele.
- Pronta para quê?! — questionei, assustada — Já posso abrir os olhos?
- Ainda não, só quando eu contar até três.
- Estou com medo...
- Não confias em mim?
- Claro que confio! Mas estar de olhos fechados...
- Não te vai acontecer nada de mal, prometo. — assegurou-me o Yu — Vá... 1... 2... 3!
Mal abri os olhos, ele saltara comigo da varanda. Antes que qualquer som de pânico pudesse sair da minha boca, encontrávamo-nos já distantes no céu. Entretanto, começava gradualmente a sentir o vento fresco da beira-mar passar no meu rosto, enquanto me agarrava com mais força à volta do pescoço do Yu e os seus braços correspondiam com mais firmeza. O céu, tingido pelos tons alaranjados do pôr do sol, parecia ainda mais belo visto de tão alto. As cores do crepúsculo, combinadas com as sombras alongadas da cidade, criavam um cenário perfeito para conjugar com as lindas asas negras do Yusuke, que batiam e planavam suavemente, como o ritmo de uma música.
- Estás bem? — perguntou-me ele, ao ouvido.
- Sim, estou bem... mais do que bem, aliás. Obrigada pela surpresa, parece que sou eu que faço anos.
- Na verdade, quem me deu um presente foste tu, Luri... Não sei se sabes, mas a Hyuna foi oficialmente embora de casa, depois daquele incidente. Ela agora está a morar com o Seishou. E, bem... ela passou hoje no apartamento para me desejar os parabéns, enquanto tinhas ido ver as notas.
- Espera... Ela falou-te do Seishou?
- Ela já me tinha falado dele antes, quando foi morar para lá, mas nunca referiu nada sobre quem ele era realmente. Na altura, também não achei que fosse necessário saber, porque, apesar de tudo, a vida é dela... mas como desta vez me envolvia a mim também, a Hyuna contou-me tudo.
- Oh... — eu desviei o olhar, preocupada com qual seria a sua opinião sobre ter usado dois desejos nele.
- Obrigado, Akaluri.
Com um doce sorriso e a sua habitual expressão carinhosa e protetora, ele pousara-me cuidadosamente no chão, destransformando-se de seguida. Assim que olhei em frente, percebi que ele me tinha levado para um penhasco íngreme e isolado, erguido muito acima da cidade. Uma toalha estendia-se sobre a relva, rodeada de pequenas luzes. Nela, sentámo-nos então lado a lado, contemplando aquele cenário de sonho.
- Yu... Foste tu que preparaste tudo isto? — perguntei, impressionada — Que lugar é este?
- É um dos meus locais favoritos... Eu venho cá quando preciso de pensar, ou apenas... escapar de tudo. — ele olhou para o horizonte, uma pequena brisa passando por entre os seus cabelos — Achei que seria o melhor sítio para celebrar o meu aniversário... contigo. Sei que não há bolo, nem festa, mas gostava de ficar cá, junto a ti, até o sol nascer.
- Acho que isso seria perfeito. — respondi, aconchegando-me no seu ombro.
Eu olhava ao redor, envolvida pela paz que aquela paisagem me transmitia. Por entre o mar de nuvens que nos rodeava, notei igualmente uma vista deslumbrante para o oceano, onde se ouvia o som das ondas que quebravam suavemente contra as rochas lá em baixo. Sentia-me grata por ele partilhar aquele lugar comigo. Era o tipo de gesto que só o Yusuke faria. Ele nunca precisava de nada extravagante, apenas de algo que fosse importante para ele, e quis partilhá-lo comigo. No entanto, algo me fez entender que o seu leve sorriso não era completamente genuíno.
- Yu... Estás bem? — perguntei, virando-me um pouco mais para ele.
Ele ficara em silêncio por alguns instantes, parecendo estar longe dali.
- Eu não queria preocupar-te, principalmente hoje, mas... não consigo fingir que está tudo bem. — Ele suspirou profundamente, baixando a cabeça — A verdade é que eu ainda estou a tentar processar o que aconteceu com a Honoka.
- Oh...
Embora eu já o esperasse ouvir eventualmente, aquele nome caiu como um peso entre nós. Sabia que era um assunto que ele não gostava de mencionar, mas era inevitável que o peso da sua ausência ainda o assombrasse, ainda por cima no seu próprio aniversário. Afinal, era o primeiro que ele festejava sem a Honoka.
- Eu estou a tentar seguir em frente... mas há uma parte de mim que ainda se sente confusa e magoada com tudo o que aconteceu... Eu adorava muito a Honoka e estou extremamente triste e desconsolado de ela ter partido... Ela sempre foi como família para mim... Ela salvou-me, ajudou-me, esteve sempre a meu lado e viu-me crescer, mas... — a sua voz tremia ligeiramente, fazendo-o cerrar os punhos antes de continuar — descobrir que ela não era a mesma Honoka que eu conhecia... deixou-me tão confuso. Como posso lamentar a perda de alguém que, afinal, estava a esconder tanta coisa de mim? Como posso sentir tanta falta de uma pessoa que, no fim, nunca foi inteiramente verdadeira, quase como se nunca tivesse realmente existido? Eu sinto muito a falta dela, mas... ao mesmo tempo, questiono-me se tudo o que vivi com ela foi verdadeiro. E isso faz-me sentir... perdido. Parte de mim quer seguir em frente, estar contigo, viver no presente... Mas outra parte está presa nesse passado e em todas essas dúvidas. Há tanto que eu não consigo entender...
- Yu... — comecei, hesitante, tentando encontrar as palavras certas. — Eu não vou fingir que entendo exatamente o que estás a sentir, mas... ainda não passou muito tempo, é normal ainda te sentires assim, sobretudo com a forma que tudo aconteceu no final... E eu não acho que o que sentiste por ela e o que vocês partilharam tenha sido menos real só porque descobriste tudo aquilo sobre ela no fim. O que viveram foi importante para ambos, e foi real na altura... E mesmo que ela não tenha sido completamente honesta com as suas intenções ou sentimentos, isso não muda o facto de que ela foi uma parte fundamental da tua vida e que, por um lado, pelo menos tentava fazer-te bem a ti, embora à sua maneira... Eu percebo o quão confuso deve ser processar tudo isto. Não tens de te sentir mal ou culpado por seguir em frente, Yu. O facto de continuares a viver a tua vida, de te sentires confuso ou frustrado, não apaga o vosso passado nem o que ela chegou a fazer de bom por ti... Agora estás apenas a dar um novo passo, a viver o teu presente, sem ela. Eu sei que não deve estar a ser nada fácil para ti...
Ele ficou em silêncio por um momento, refletindo sobre o que eu tinha dito.
- Obrigado por me teres ouvido... E pelas tuas palavras. Desculpa ter estragado um pouco o ambiente...
- Não tens de pedir desculpa, Yu. Sentires-te assim é normal e faz-me sentir aliviada conseguires expressar isso comigo. Faz-te bem falar sobre as coisas... e eu estou aqui para ouvir tudo o que tenhas a dizer.
Ele afastou-se ligeiramente de mim, de forma a deitar-se, pousando a cabeça nas minhas coxas. Com um gesto suave, eu passava a mão por entre os seus cabelos, tentando aliviar um pouco a sua dor. Sentia que ele precisava daquele carinho, durante um momento. Aos poucos, o peso que ele carregava parecia ter-se tornado ligeiramente menos pesado. A sua tristeza ainda estava lá, mas, pelo menos, eu queria fazê-lo entender que não precisava de a carregar sozinho.
- Olha... — falei, pousando o saco à nossa frente — Na verdade, eu fiz-te um bolo. Espero que ele ainda esteja em bom estado... É o teu favorito.
O Yusuke voltou a sentar-se. De seguida, retirou a caixa de papel que estava dentro do saco, colocando-a no seu colo. Ao abri-la, o seu rosto iluminou-se um pouco, quase instantaneamente.
- Um cheesecake! Está lindo... Não precisavas de te ter dado ao trabalho de o fazer.
O Yusuke segurou a minha mão, apertando-a levemente. Ele olhava para mim com certo um brilho nos olhos, como se o simples facto de eu me ter lembrado do seu bolo favorito significasse muito para ele.
- Não foi trabalho nenhum. Eu adorei fazer o bolo para ti, não me custou nada.
Peguei nas velas que estavam dentro da caixa, acendendo-as com um pequeno isqueiro que trouxera. 19 anos... Perguntava-me como seria ter aquela idade, embora não estivesse longe dela. O Yusuke olhava para as velas com um ar melancólico.
- Não quero cantar os parabéns... — murmurou ele, com uma tristeza que eu já reconhecia a origem.
Sentia o coração apertar ao vê-lo assim, mas conseguia entender perfeitamente que talvez aquele não fosse o melhor momento para cantar os parabéns depois de tudo, então respeitei.
- Não faz mal, não precisamos de cantar os parabéns. Sopra as velas apenas... e pede um desejo, ok?
Ele assentiu em silêncio, soprando as velas de olhos fechados. Depois, retirou uma faca do saco, cortando uma primeira fatia do cheesecake, que me entregou num pequeno prato de papel. Esperei que ele cortasse a sua fatia, antes de começar a comer.
- Está delicioso... — comentou ele — Obrigado, Luri... por tudo.
- Não fiz grande coisa para me estares a agradecer tanto, mas fico contente... Parabéns, Yu.
Pousei levemente as mãos no chão e aproximei-me dele, beijando-o de seguida. Ficámos depois em silêncio por alguns momentos, apenas comendo a fatia de bolo enquanto ouvíamos o som das ondas e sentíamos a brisa fresca que passava por nós. Aos poucos, algumas estrelas começavam a aparecer no céu, que escurecia cada vez mais com o anoitecer. Entretanto, o Yu puxou uma manta vermelha de uma pequena mochila que tinha trazido consigo, algo que eu nem tinha reparado antes. Ele mantinha-me aconchegada nos seus braços, e eu sentia-me segura, como se nada pudesse perturbar aquele momento.
- Sabes... — falou ele suavemente — Quando estou contigo, sinto que tudo está no lugar certo. Não importa o que aconteça amanhã ou daqui a um ano. Só quero que saibas que este momento, aqui e agora, é tudo para mim. Acho que é isso que significa estar com a pessoa certa.
- Eu sinto o mesmo, Yu. Não sei o que o futuro nos reserva, mas sei que, enquanto estivermos juntos, estou preparada para qualquer coisa.
Ele sorriu levemente. Depois, inclinou-se devagar, os seus lábios encontrando os meus com uma delicadeza que me fazia sempre esquecer todo o resto... Talvez fosse a minha imaginação, mas tinha quase a certeza que as estrelas brilhavam com mais intensidade naquela noite. Sentia o calor do seu corpo aproximar-se cada vez mais, pressionando-me levemente contra a toalha estendida na relva florida. Quando finalmente nos afastámos, encostei a cabeça no seu peito, ouvindo o bater do seu coração. Fechei os olhos por um instante, deixando-me perder no conforto dos seus braços. Sentia o calor da sua pele, assim como o seu habitual cheiro a maçã e menta, e o ligeiro aroma da natureza à nossa volta. Com um gesto carinhoso, o Yu deslizava a mão lentamente pelos meus cabelos. Na minha mente, apenas uma certeza pairava: não precisava de mais nada. Tudo estava no seu lugar, e pela primeira vez em muito tempo, aquele momento era a única coisa que me importava.
- Luri... já sabes o que vais fazer depois do secundário?
Apanhando-me de surpresa, aquela pergunta trouxera-me de volta à realidade. Era um assunto que eu evitava pensar, talvez por não saber realmente a resposta. Soltei um suspiro, olhando para o céu.
- Eu... ainda não sei, Yu. Parece que toda a gente já tem tudo planeado, mas eu ainda não sei o que quero fazer exatamente, nem para onde ir. Está tudo a acontecer tão rápido!
- Não tens de ter tudo decidido agora... mas já tens pelo menos algumas ideias?
- Ter ideias, tenho, mas... não sei. Há tanta coisa que gosto, mas ao mesmo tempo... Nenhuma delas parece suficientemente certa. Por um lado, eu sei que devo escolher algo que me dê estabilidade e segurança, mas por outro... eu gostava de seguir as minhas paixões. O problema é que não quero arriscar totalmente para nenhum desses lados e acabar por me arrepender... Sinto-me completamente perdida.
O Yu ficou em silêncio por um momento, provavelmente enquanto pensava no que dizer.
- Já pensaste em tirar algum tempo? Sabes, para descobrir o que realmente queres fazer.
- Tirar um tempo...? — questionei, hesitante — Não, nunca pensei nessa opção...
- Muita gente tira um ano no final do secundário, não é nada de anormal e pode ser que te ajude. O meu plano é inscrever-me na universidade, para o próximo ano. E talvez... se tu esperares um ano também, poderíamos entrar ao mesmo tempo. Talvez isso te dê tempo para explorares as tuas opções, descobrir o que realmente te interessa e poupares algum dinheiro a trabalhar, sem pressão de teres que te decidir já.
A sua ideia ressoava na minha mente. Nunca havia considerado essa possibilidade antes. Tirar um ano para pensar, para me decidir, para poupar, para me encontrar, e depois entrar na universidade ao mesmo tempo que o Yusuke... fazia bastante sentido. No entanto, não sabia se era mesmo aquilo que devia fazer.
- Mas e se for um erro? — perguntei — E se acabar por perder tempo, enquanto os outros avançam?
Yusuke sorriu, como se já esperasse aquela pergunta.
- Não há certo nem errado quando se trata da tua vida, Luri. O importante é que te esforçes e que faças o que é melhor para ti. E se sentires que precisas de algum tempo para descobrir isso e ganhar certezas, não há problema. Além disso, não estarás mesmo a perder nada. Estarás a dar a ti mesma a oportunidade de respirar um pouco dos estudos, de crescer e de entender aquilo que realmente queres fazer.
As suas palavras criaram um impacto mais forte do que eu esperava. Ele estava certo... Por que motivo teria eu de me precipitar? Talvez algum tempo extra fosse exatamente o que eu precisava para encontrar o meu caminho. Além disso, depois daquele último ano tão turbulento e cheio de acontecimentos, estava mesmo a precisar de uma pausa... e a ideia de não estar sozinha naquele novo mundo académico parecia-me extremamente reconfortante. Seria bom começar uma nova fase ao lado do Yu e partilhar essa experiência com ele, ambos mais preparados e seguros de nós.
- Se calhar, tens razão... — admiti, olhando para ele com um leve sorriso — Talvez tirar um ano não seja assim tão mau...
O Yusuke apertou a minha mão com uma certa firmeza, como se quisesse transmitir-me confiança.
- Seja o que for que decidas fazer, Luri, eu vou estar ao teu lado.
O meu coração aquecia com aquelas palavras. A incerteza do futuro parecia vastamente menos assustadora sabendo que o Yusuke estaria lá comigo. Olhei para o céu novamente, sentindo uma paz interior que não sentia há algum tempo.
- Acho que vou pensar seriamente nisso. — concluí, finalmente — Obrigada, Yu.
Ele sorriu, enquanto me puxava para mais perto.
- Tens tempo... E eu vou estar aqui para te apoiar, sempre.
Graças às suas palavras e ao calor aconchegante do seu corpo, senti-me a relaxar, como se um grande peso tivesse sido retirado dos meus ombros. Talvez o futuro ainda fosse incerto, mas encontrava-me mais em paz com essa incerteza. Com o Yu a meu lado, sabia que, eventualmente, tudo iria ficar bem, mesmo com altos e baixos... Assim, deitei novamente a cabeça no seu peito, ouvindo o seu coração bater num ritmo calmo e constante. O sono começava tomar conta de mim, e enquanto fechava os olhos, um último pensamento cruzou a minha mente: sentia-me mais do que pronta a enfrentar qualquer coisa que o futuro nos trouxesse.
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