Akaluri - Parte 2
13 Distúrbio (Parte 2)
[Hyuna P.O.V.]
- Finalmente... — comentei, soltando um suspiro de alívio. — Agora já posso relaxar e talvez comer alguma coisa.
Estava bastante cansada de tanto limpar, mas até dava um certo prazer ver o apartamento todo limpo, sobretudo depois de tomar um duche refrescante. Dirigi-me à cozinha com a intenção de preparar uma refeição rápida, quando senti o telemóvel vibrar no bolso. "Mas quem poderá ser a esta hora?", pensei. Assim que peguei nele para verificar, notei que recebia uma chamada da Akaluri, que atendi de imediato.
- HYUNA! — ouvi a sua voz esganiçada do outro lado — Por favor, ajuda!
- Quê? O que se passa?
Ao fundo, conseguia distinguir uns sons estranhos, difíceis de identificar, que aumentavam a minha preocupação. Algo não estava bem. Além disso, receber uma chamada da Akaluri já era, por si só, algo raro e preocupante.
- Sei que podes achar estranho que te peça ajuda, depois de tudo... Mas foste a primeira pessoa que pensei em ligar. Por favor, não faças perguntas. Eu e o Yusuke estamos em apuros. A Honoka está completamente insana!
- Ok, eu já vou aí ter. Onde estão?
- Eu envio-te a minha localização GPS. — ela desligou.
- Parece que hoje não vou ter um minuto de descanso. — murmurei para mim, ao guardar o telemóvel. — Enfim...
Embora contrariada, não hesitei nem por um segundo. Se a Akaluri, de todas as pessoas, me estava a ligar para pedir ajuda, era porque algo realmente grave se passava. As minhas pernas moveram-se quase por instinto, guiando-me para fora do apartamento. Verifiquei a localização que ela me enviara e, sem perder tempo, transformei-me, apressando-me em direção ao destino. Não ficava muito longe, mas também não era no centro da cidade. A localização era numa área isolada, um local que eu sabia ser um dos favoritos da Honoka, para refletir. No final, acabei por não demorar muito a chegar. E, tal como eu imaginava, a situação estava caótica.
___________________________________
[Yusuke P.O.V.]
Ao olhar para o lado, vi a Hyuna a aproximar-se rapidamente. Tinha sido chamada pela Akaluri, que, em desespero, pediu ajuda, pois estava a ser difícil para nós dois controlarmos a Honoka sozinhos. Defender-nos até era relativamente fácil, mas atacar era outra história... Eu não queria ferir a Honoka com as minhas flechas, e a Akaluri, por não ter asas, estava presa ao chão, incapaz de realizar ataques à distância, o que a colocava em desvantagem face aos poderes da Honoka.
- O que se passa aqui? — perguntou a Hyuna.
- Ela está descontrolada! — exclamou a Akaluri — A Honoka está a incendiar tudo à sua volta.
- Que patético. — comentou ela — Yusuke, não te importas de me fazer uma esfera de proteção?
- Posso fazer isso, mas não vai resistir muito tempo às chamas intensas da Honoka, por isso precisas de ser rápida se quiseres chegar até ela. Convém não te aproximares demasiado. E, por favor, Hyuna, confio em ti para que não ultrapasses os limites, pelo menos com ela...
A Hyuna acenou com a cabeça, mostrando que entendeu a minha advertência. De seguida, criei uma cúpula protetora à sua volta, permitindo-lhe atravessar a barreira de chamas ardentes.
- A fazer-te de parva, é? — falou a Hyuna, enquanto estendia a sua cauda de demónio.
- Não me metes medo. — respondeu a Honoka — Afasta-te de mim, antes que sofras as consequências.
- Quais consequências, minha querida amiga? Caso não te lembres, eu sou um demónio. Tenho grande resistência aos ataques de fogo.
- E tu não podes fazer-me nada. Eu renascerei sempre que tentares matar-me.
- Mas a tua energia não é infinita. Com tanto fogo poderoso e resistente à tua volta, não deve faltar muito para que voltes à tua forma humana. Por que não continuas a desgastar-te um pouco mais?
- Calou! — gritou a Honoka, lançando-lhe uma chama ardente, da qual a Hyuna se desviou — Não tens nada a ver com isto! Sai!
- Oh, mas eu penso que estou bastante envolvida nesta situação. — a sua cauda começava a enrolar-se à volta do pescoço da Honoka — Se bem me lembro, não foste tu que planeaste tudo com o Hideki? Gostaria de saber porquê.
A Honoka tentava incinerar a cauda negra que a prendia, mas sem sucesso. Gradualmente, começou a entrar em pânico.
- Larga-me... — implorou ela.
- Sabes, tentei afastar-me e ignorar-te, depois de tudo o que aconteceu, mas, lá no fundo, esperava que este momento chegasse para me vingar. Vá, conta-me. Aposto que tens uma história interessante para justificar tudo.
- Já chega...
- Desculpa? Não ouvi... Respondeste ao que perguntei? Estás a falar muito baixo!
- Deixa-me... Não consigo... respirar...
- Tens falta de ar? Oh... que tonta sou eu; deve ser da tua idade! Já ajudo com isso, velhota.
A Hyuna largou o pescoço da Honoka, mas não a deixou afastar-se, mantendo-a presa pelos pulsos com a sua cauda. Ela olhou profundamente nos olhos da Honoka, que parecia extremamente irritada com as provocações. Ao fazê-lo, projetou-lhe uma poderosa ilusão de escuridão na visão dela, tornando a perceção de luz da Honoka quase nula, impedindo-a de ver claramente.
- Podes tirar-me a visão, a audição e a voz, mas não penses que isso me vai afetar.
A Honoka começou a criar chamas como nunca antes tínhamos visto. Em vez das habituais labaredas alaranjadas, eram de um vermelho tão intenso que parecia surreal. Além disso, eram muito mais poderosas, ao ponto de forçar a Hyuna a afastar-se rapidamente, algo incomum.
- F*da-se! — exclamou ela — Como raios consegues fazer esse tipo de fogo? Isso é normal?!
Aquelas chamas conseguiam queimar até a Hyuna. Se o fogo normal me afetava, mesmo com os meus atributos curativos, nem imagino o que me aconteceria, se me aproximasse daquelas chamas.
- Aquelas chamas... — comentou, inesperadamente, a Akaluri — A Sara uma vez contou-me que, se uma fénix conseguisse atingir o poder das chamas vermelhas, estaria destinada a destruir tudo aquilo que bem entendesse, até eventualmente morrer para sempre, sem renascer.
- O quê?! — perguntei — Estás a dizer que se a Honoka usar aquele poder...
- Ela morrerá, sem oportunidade de renascer.
- Diz-me que isso não é verdade, por favor.
- Não sei o que te dizer, Yu... Foi apenas o que a Sara me contou. Era algo que os seres mágicos temiam bastante. Ninguém tinha coragem de enfurecer uma fénix naquele mundo, já para não falar que elas eram extremamente raras e estavam sempre em lugares altos na sociedade. No entanto, não sei se isso se aplica à Honoka de igual forma... Especialmente visto que ela é apenas um híbrido.
- Mesmo que não haja certezas, há sempre uma forte chance de algo grave acontecer. Temos de pará-la antes que cause um desastre. — afirmei.
Era verdade que não sabia ao certo como me sentir em relação a todos aqueles acontecimentos repentinos, mas sabia que era necessário agir rapidamente.
- Não vou mais esconder quem sou! — exclamou a Honoka — Não suporto mais isto, Yu! Não vou negar o que sinto por ti, desde que te vi pela primeira vez...
Eu observava a Honoka com atenção, ouvindo o que ela tinha para dizer. Ao mesmo tempo, tentava decifrar como me poderia aproximar dela, para impedir que tomasse alguma má decisão com aquelas chamas tão poderosas.
- Honoka, tem calma. — pedi.
- Apenas ouve! — exclamou ela — Não quero fazer nada antes que entendas tudo. Não consigo suportar a ideia de que sintas nojo de mim. Eu só... Naquela altura, nunca tinha conhecido alguém como eu. Viver todos aqueles anos a sentir-me vazia, sozinha e isolada do resto da sociedade não me permitia criar laços fortes com ninguém. Nunca tinha experimentado o que era sentir afeição por outra pessoa. Não queria aproximar-me de ninguém e correr o risco de ser descoberta, por não envelhecer. E podes achar estúpido, mas no instante em que vi as tuas asas negras abrir naquele orfanato, soube que finalmente tinha encontrado alguém como eu.
- Foi por isso que me salvaste daquele incêndio? Porque já tinhas descoberto antes, que eu era como tu? — perguntou o Yusuke.
A Honoka respirou fundo e deu um grande suspiro, acalmando as suas chamas enraivecidas, até dissiparem. Foi um alívio para mim... E, ao ver a sua atitude mais calma, reparei que a Hyuna anulou o efeito de obscuridade que havia causado na sua visão.
- Sim, foi por essa razão que eu o causei.
- Espera... Tu causaste o incêndio no orfanato? — questionei, incrédulo — Todas aquelas pessoas que morreram... Como és capaz de fazer algo assim? Tens noção do quão culpado me tenho sentido todos estes anos por ser um dos únicos sobreviventes daquele incêndio horrível?!
- Não precisas de te sentir culpado. Foste tão maltratado por todos naquele orfanato! O que importam para ti aquelas pessoas? Nunca te iriam entender e cuidar de ti tão bem como eu.
- Eu posso não ter sido bem tratado lá, mas nem todas as pessoas eram más, muito menos mereciam morrer.
- Eu apenas fiz isso pelo teu bem.
- Não, Honoka. Tu causaste o incêndio para garantires o teu bem, sem pensar no que seria melhor para mim. Podias simplesmente ter-me escolhido para adoção e cuidado de mim, tal como uma mãe o faria, mas decidiste ir pelo caminho mais perturbador e ceder aos teus instintos doentios de paixão por alguém menor. Sempre me senti agradecido por me teres salvo, mas agora que sei a verdade, sei que o que fizeste não é normal e não tem justificação, para além do egoísmo.
- Mas eu nunca te fiz mal! — exclamou — Sempre fiz questão em esconder o que sentia e cuidar de ti como se fôssemos família...
- Esconder sentimentos não quer dizer que não os tenhas. E, se tens sentimentos românticos, tens também certas intenções, vontades, pensamentos e instintos. Reprimi-los não faz com que tudo isso desapareça. Como podes ver, desde que eu atingi a minha maior idade, tens andado bem diferente comigo, o que prova que os sentimentos não mudaram, apenas cresceram e sentiste que talvez já fosse mais apropriado mostrá-los. Eu pensei que só tinham surgido recentemente, o que, se fosse mesmo o caso, não era assim tão grave, apesar de ser estranho. No entanto, saber que era algo que sentias por mim mesmo antes de eu ter crescido é algo que eu simplesmente não posso aceitar.
- Yu... Eu causei aquele incêndio porque sabia que precisava de fazer algo para manter a minha única chance de passar os dias com alguém que me compreendesse. Ajudei-te a desaparecer sem rasto e a criar uma nova identidade, na qual ninguém pudesse descobrir quem eras. Deixei-te escolher o teu nome e fiz tudo o que podia para te manter nas melhores condições, para que um dia pudesses olhar para mim da mesma forma que eu sempre olhei para ti.
Não sabia o que responder. Estava paralisado pelo choque e, honestamente, pela repulsa. Não conseguia ouvir mais nenhuma palavra da Honoka. Não havia qualquer argumento que justificasse as suas ações. Tudo o que ela dizia, apenas revelava cada vez mais o seu comportamento extremamente doentio.
- Porque estás a fazer isto?! — questionou a Akaluri, alertando a atenção da Honoka — Não é comigo que tens um problema? O teu plano não estava a correr bem até eu aparecer? Deixa-os em paz.
A Honoka sorriu ironicamente, olhando na sua direção.
- Achas que és importante o suficiente para te considerar um empecilho? És apenas uma menina muito chata e ingénua. Iludes-te ao pensar que o Yusuke se importa realmente contigo, ele apenas é simpático com toda a gente e não sabe dizer que não, nem expressar realmente as piores coisas que ele pensa.
Não entendia por que ela insistia em dizer aquele tipo de coisa, muito menos em insinuar que eu não sentia nada pela Luri. Talvez fosse uma forma de se auto-convencer que aquilo não era verdade. Devia ser extremamente difícil para ela aceitar que eu amava outra pessoa...
- Não é isso que está em questão. — respondeu a Akaluri — Sei que sou importante para o Yu e sei também que, pelo menos comigo, ele pode expressar-se à vontade, e estarei sempre lá para ouvir tudo o que ele pensa ou sente, mas... mesmo que ele não sentisse nada por mim, continuas a ser egoísta, mentirosa, tóxica e manipuladora. Aceita a realidade.
Por mais que o contexto naquela altura fosse desagradável, fiquei um pouco impressionado com o quão direta a Akaluri conseguiu ser. Não devia ser fácil para ela, mas fazia-me feliz saber que a Luri tinha plena noção do quão importante ela era para mim. No entanto, já era de imaginar que isso não faria a Honoka sentir nenhum tipo de felicidade, nem sequer mudar de ideias.
- Não quero saber! — exclamou, furiosa — Desaparece logo, de uma vez por todas, pirralha!
___________________________________
[Akaluri P.O.V.]
Sem qualquer hesitação, comecei a correr velozmente em direção à Honoka. Naquele momento, ela subia cada vez mais alto, sustentada pelas suas asas de tom laranja brilhante. No entanto, isso não me impedia de tentar alcançá-la, por mais difícil que se tornasse.
Acabei por saltar para cima de um muro, que me deu acesso a uma das varandas do edifício abandonado, situado atrás da Honoka. Subi-o sem grande esforço, e comecei a calcular o meu balanço e a trajetória, na perfeição. Ninguém teve tempo de reagir ao que fazia, e aproveitei essa vantagem para me lançar na direção das suas asas reluzentes.
No primeiro instante que as minhas mãos pousaram nos seus ombros esguios, notei a tensão nervosa que se espalhara por todo o seu corpo. O olhar da Honoka, antes cheio de determinação, tremia com uma mistura de pânico e raiva. O seu corpo estremeceu, mas a sua resistência não demorou a manifestar-se, mais uma vez. Num movimento brusco, ela tentou sacudir-me, batendo as asas com força, criando uma rajada de fogo que quase me desiquilibrou. Agarrando-me com todas as minhas forças, consegui manter o meu peso nas suas costas, mas rapidamente entendi que ela queria livrar-se de mim a qualquer custo.
- O que estás a fazer?! Larga-me! — gritou ela.
As suas asas, que antes reluziam como o sol, começaram a emitir um calor cada vez mais intenso, forçando-me a baixar ligeiramente a cabeça. Eu sabia que não podia manter-me agarrada por muito mais tempo, mas sabia também que, se a deixasse ir, as consequências seriam catastróficas. Enquanto a ruiva se distraía comigo, o fogo à nossa volta ia perdendo efeito. Isso abriu uma oportunidade para a Hyuna atacar, a qual não foi desperdiçada. Utilizando os seus poderes demoníacos, ela ofuscou a visão da Honoka novamente. Em seguida, lançou um pequeno raio elétrico que rapidamente se conduziu desde a ponta dos dedos até às suas asas ardentes, desequilibrando-a num instante. Em meros segundos, a sua cauda estendera-se até nós, agarrando o tornozelo da Honoka e puxando-a de volta para o chão com toda a força. Um escudo mágico azulado formou-se à nossa volta, minimizando imenso o impacto da queda. Não havia dúvida de que era obra do Yusuke.
- Solta-me! — resmungou a Honoka, esperneando-se, assim que lhe agarrei os pulsos contra o chão — Sai de cima de mim!
- Honoka, pensa bem no que estás a fazer. Sabes que o Yusuke se importa contigo. Queres realmente destruir toda a confiança e o afeto que existe entre vocês? Ainda tens tempo para remediar tudo. Sei que ele te dará essa oportunidade.
- Eu já perdi tudo, não me importa mais isso. Só quero destruir as vossas caras, suas insuportáveis!
- A quem chamas de insuportável? — retorquiu a Hyuna, enquanto se aproximava — Se eu fosse a ti ruivinha, calava-me. Senão, já sabes o que te espera. E desta vez não vou hesitar, como fiz com o Hideki.
- Nunca quis saber de nenhuma de vocês. Se for para morrer, vocês as duas vão comigo.
Os olhos da Honoka encheram-se de uma raiva profunda, um ódio que eu nunca tinha visto antes. Apesar da minha reação inicial de pânico, uma parte de mim começou a sentir pena. Como é que alguém conseguia carregar sozinho tanto ódio? Só podia ser fruto de todas as situações horríveis e tormentos que viveu, que ninguém, além dela, conseguiria entender. Durante uns segundos, passou pela minha mente o pensamento que talvez fosse mesmo o momento para ela de finalmente poder descansar em paz.
Num instante, todo o seu corpo se envolveu novamente em chamas avermelhadas, obrigando-me a largá-la e a afastar-me rapidamente, como um reflexo involuntário. Eu e Hyuna trocámos um olhar, e depois voltámos a nossa atenção para Honoka, que se levantava lentamente. Não sabíamos como agir naquela situação.
- Honoka, não faças isso! — exclamou o Yu, correndo para ela — Por favor, para... Isso não vai resolver nada para ninguém.
- Eu só quero que tudo acabe... — respondeu, com lágrimas que lhe escorriam pesadamente pela cara.
- Eu não vou deixar. — afirmou o Yusuke, agarrando novamente os pulsos da Honoka, enquanto a olhava fixamente nos olhos.
- Larga-a! — exclamei, apavorada — Não quero que te magoes! Por favor, Yu!
- Eu... — falava o Yusuke, visivelmente angustiado — Só quero tentar salvar-te, Honoka.
- Que diferença faz agora? Tu odeias-me... Toda a gente me odeia, agora que sabem a verdade!
- Eu não te odeio... Não tens culpa do que sentes... apesar de teres agido mal. Por favor, peço-te, volta atrás e não faças algo de que te possas arrepender, Honoka. Quero ver-te bem e feliz outra vez...
Sentia o meu coração pesado ao ouvir a dor que saía da sua voz e ao assistir a pele da ponta dos dedos do Yusuke queimar. Ele concentrava todo o poder protetor que tinha nos seus braços, mas queimaduras continuavam a alastrar-se lentamente, até às suas mãos, que seguravam firmemente os pulsos de Honoka, envoltos naquelas chamas poderosas.
- Já é tarde... — respondeu ela — Não sou feliz há muito tempo. Não há volta a dar para mim agora. Larga-me e salva-te a ti... Desculpa pelo que vou fazer agora, Yu...
Inesperadamente, a Honoka deu-lhe um forte pontapé entre as suas pernas, que o fez proteger a zona com ambas as mãos, deixando-se cair de joelhos no chão.
- UGH! F*da-se... — murmurou ele, rangendo os dentes pela dor.
- Acabou tudo. Estou farta.
Deixando o Yu contorcido no solo, a Honoka limpou as lágrimas e dirigia-se a mim, com convicção. As chamas que envolviam todo o seu corpo aumentavam de intensidade, cada vez mais; chamas como nunca antes havia visto. Era quase impossível acreditar...
A Hyuna tentou atingi-la com um dos seus raios, mas o próprio raio trouxe uma chama de volta a quem o lançou, ferindo-a. O que poderia fazer para que ela parasse?! Apesar das minhas capacidades, eu era a única sem qualquer poder mágico especial, mas... eu sabia que tinha de fazer algo, nem que fosse somente para tentar. Por isso, corri e agarrei a Honoka com todas as minhas forças.
- Akaluri?! — exclamou a Hyuna — O que estás a fazer?!
- Ela está presa agora! — exclamei — Faz alguma coisa!
A Honoka tentava livrar-se do meu aperto, mas não conseguia. A Hyuna, observando a cena com um olhar feroz, enrolou a sua cauda em torno das asas da Honoka. Com um movimento forte e poderoso, ela começava a puxar as asas. Um insuportável cheiro a sangue enchia o ar, e o meu estômago não parava de andar às voltas, mas precisava de manter-me firme. Não podia soltar a Honoka. O Yusuke concentrava toda a sua energia em mim, para me tentar proteger das chamas da Honoka, com a sua magia. Notando a expressão de agonia em que se encontrava a Honoka, a Hyuna usou os seus poderes para que ela acreditasse estar a sufocar, impedindo-a de prestar tanta atenção à dor. Aos poucos, as asas começavam a rasgar-se do corpo dela, até caírem no chão. Assim que a larguei, a Honoka caiu de joelhos no chão.
- Vocês são d-doidas... — falou a Honoka, limpando as lágrimas de dor, enquanto recuperava a respiração.
De repente, a Honoka sorriu sarcásticamente, colocando-se novamente de pé; algo que eu não esperava de todo ver naquele momento. As suas chamas, novamente num tom perigosamente avermelhado, expandiram-se num círculo à nossa volta, aproximando-se rapidamente. Todo aquele fogo começava a fechar-se sobre nós. No fundo, eu sabia que algo muito mais terrível estava a caminho.
- LURI!!!
Ouvir a voz do Yusuke chamar por mim fazia o meu coração apertar-se, fazia-me desejar ainda mais poder ajudá-lo de alguma forma; protegê-lo, como ele sempre havia feito por mim. A última coisa que eu queria era vê-lo aproximar-se e ser apanhado no mesmo destino que aguardava a Honoka... e provavelmente a mim. Ele não o merecia... No entanto, não conseguia deixar de suplicar incessantemente nos meus pensamentos “salva-me, por favor”. Não suportava a ideia de não o poder ver mais, de não poder mais estar com quem mais amava. "Como posso ser tão egoísta?", pensei de seguida, enquanto as lágrimas ameaçavam transbordar dos meus olhos. Acreditava que aquele seria o meu fim. Nesse momento, tudo mudou. Senti um forte empurrão que me arrancou do lugar onde estava e senti os meus braços raspar no pavimento, até bater violentamente com a cabeça em algo sólido. A dor era intensa, e a minha visão começava a ficar cada vez mais turva, mas, antes de tudo se desvanecer, consegui vislumbrar uma luz azulada, suave e acolhedora, a aproximar-se de mim. Estendi a mão na sua direção, mas as forças faltavam-me e a escuridão envolvia-me por completo.
- Yu...suke? — hesitei, antes de perder consciência.
Fale com o autor